O PRIMO BASLIO

Lusa percebeu - Ea de Queirs


CAPTULO I
Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Lus
Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltair de marroquim 
escuro, espreguiou-se, bocejou e disse:
- Tu no te vais vestir, Lusa?
- Logo.
Ficara sentada  mesa a ler o Dirio de Notcias, no seu roupo de manh de 
fazenda preta, bordado a sutache, com largos botes de madreprola; o cabelo 
louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, 
enrolava-se, torcido no alto da cabea pequenina, de perfil bonito; a sua pele 
tinha a brancura tenra e lctea das louras; com o cotovelo encostado  mesa 
acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anis de 
rubis miudinhos davam cintilaes escarlates.
Tinham acabado de almoar.
A sala esteirada, alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o seu 
papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo, fazia um grande calor; 
as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraas, 
escaldar a pedra da varanda; havia o silncio recolhido e sonolento de manh de 
missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas ou de sombras 
fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao p da gua; nas duas gaiolas, entre as 
bambinelas de cretone azulado, os canrias dormiam; um zumbido montono de 
moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chvenas sobre o 
acar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.
Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de 
chita, sem colete, o jaqueto de flanela azul aberto, os olhos no teto, ps-se a 
pensar na sua jornada ao Alentejo. Era engenheiro de minas, no dia seguinte 
devia partir para Beja, para vora, mais para o sul at So Domingos; e aquela 
jornada, em julho contrariava-o como uma interrupo, afligia-o como uma 
injustia. Que maada por um vero daqueles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto 
de um cavalo de aluguel, por esses descampados do Alentejo que no acabam nunca, 
cobertos de um rastolho escuro, abafados num sol bao, onde os moscardos zumbem! 
Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido, ouvindo em redor, 
na escurido da noite trrida, grunhir as varas dos porcos! A todo o momento 
sentir entrar pelas janelas, passar no ar o bafo quente das queimadas! E s!
Tinha estado at ento no ministrio, em comisso. Era a primeira vez que se 
separava de Lusa; e perdia-se j em saudades daquela salinha, que ele mesmo 
ajudara a forrar de papel novo nas vsperas do seu casamento, e onde, depois das 
felicidades da noite, os seus almoos se prolongavam em to suaves preguias!
E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando, 
com uma ternura, naqueles mveis ntimos, que eram do tempo da mam: o velho 
guarda-loua envidraado, com as pratas muito tratadas a gesso-cr, 
resplandecendo decorativamente; o velho painel a leo, to querido, que vira 
desde pequeno, onde apenas se percebiam, num fundo lascado, os tons avermelhados 
de cobre de um bojo de caarola e os rosados desbotados de um molho de 
rabanetes! Defronte, na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido  
moda de 1830, tinha a fisionomia redonda, o olho luzidio, o beio sensual; e 
sobre a sua casaca abotoada reluzia a comenda de Nossa Senhora da Conceio. 
Fora um antigo empregado do Ministrio da Fazenda, muito divertido, grande 
tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mam afirmava-lhe que o retrato s 
lhe faltava falar. Vivera sempre naquela casa com sua me. Chamava-se Isaura: 
era uma senhora alta, de nariz afilado, muito apreensiva; bebia ao jantar gua 
quente; e ao voltar um dia do lausperene da Graa, morrera de repente, sem um 
ai!
Fisicamente Jorge nunca se parecera com ela. Fora sempre robusto, de hbitos 
viris. Tinha os dentes admirveis de seu pai, os seus ombros fortes.
De sua me herdara a placidez, o gnio manso. Quando era estudante na 
Politcnica, s oito horas recolhia-se, acendia o seu candeeiro de lato, abria 
os seus compndios. No freqentava botequins, nem fazia noitadas. S duas vezes 
por semana, regularmente, ia ver uma rapariguita costureira, a Eufrsia, que 
vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brasileiro, o seu homem, ia jogar o 
bston ao clube, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; 
era enjeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado de 
uma pontinha de febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lho. Ele nunca fora 
sentimental; os seus condiscpulos, que liam Alfred de Musset suspirando e 
desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseiro6, burgus; Jorge 
ria; no lhe faltava um boto nas camisas; era muito escarolado; admirava Lus 
Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dvidas, e sentia-se feliz.
Quando sua me morreu, porm, comeou a achar-se s: era no inverno, e o seu 
quarto nas traseiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, recebia as rajadas 
do vento na sua prolongao uivada e triste; sobretudo  noite, quando estava 
debruado sobre o compndio, os ps no capacho, vinham-lhe melancolias 
lnguidas; estirava os braos, com o peito cheio de um desejo; quereria enlaar 
uma cinta fina e doce, ouvir na casa o frufru de um vestido! Decidiu casar. 
Conheceu Lusa, no vero,  noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabelos 
louros, pela sua maneira de andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No 
inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastio, o seu ntimo, o bom 
Sebastio, o Sebastiarro, tinha dito, com uma oscilao grave da cabea, 
esfregando vagarosamente as mos:
- Casou no ar! Casou um bocado no ar!
Mas Lusa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa; tinha cuidados muito 
simpticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um 
passarinha amiga do ninho e das carcias do macho; e aquele serzinho louro e 
meigo veio dar  sua casa um encanto srio.
-  um anjinho cheio de dignidade! - dizia ento Sebastio, o bom Sebastio, com 
a sua voz profunda de basso.
Estavam casados havia trs anos. Que bom que tinha sido! Ele prprio melhorara; 
achava-se mais inteligente, mais alegre... E recordando aquela existncia fcil 
e doce, soprava o fumo do charuto, a perna traada, a alma dilatada, sentindo-se 
to bem na vida como no seu jaqueto de flanela!
- Ah! - fez Lusa de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
- Que ?
-  o primo Baslio que chega! - E leu alto, logo:
- "Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordus, o Sr. Baslio de 
Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua Excelncia que, como  sabido, 
tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstitura a sua fortuna com um 
honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o comeo do ano passado. A sua 
volta  capital  um verdadeiro jbilo para os amigos de Sua Excelncia que so 
numerosos."
- E so! - disse Lusa, muito convencida.
- Estimo, coitado! - fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma da mo. - 
E vem com fortuna, hem?
- Parece.
Olhou os anncios, bebeu um gole de ch, levantou-se, foi abrir uma das portadas 
da janela.
- Oh! Jorge, que calor que l vai fora, Santo Deus! - Batia as plpebras sob a 
radiao da luz crua e branca.
A sala, nas traseiras da casa, dava para um terreno vago, cercado de um tabuado 
baixo, cheio de ervas altas e de uma vegetao de acaso; aqui, ali, naquela 
verdura crestada do vero, largas pedras faiscavam, batidas do sol 
perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada no meio do terreno, estendia 
a sua grossa folhagem imvel, que, na brancura da luz, tinha os tons escuros do 
bronze. Para alm eram as traseiras de outras casas, com varandas, roupas 
secando em canas, muros brancos de quintais, rvores esguias. Uma vaga poeira 
embaciava, tornava espesso o ar luminoso.
Caem os pssaros! - disse ela cerrando a janela. - Olha tu pelo Alentejo, agora!
Veio encostar-se  voltaire de Jorge, passou-lhe lentamente a mo sobre o cabelo 
preto e anelado. Jorge olhou-a, triste j da separao; os dois primeiros botes 
do seu roupo estavam desapertados; via-se o comeo do peito de uma brancura 
muito tenra, a rendinha da camisa; muito castamente Jorge abotoou-lhos.
- E os meus coletes brancos? - disse.
- Devem estar prontos.
Para se certificar chamou Juliana.
Houve um rudo domingueiro de saias engomadas. Juliana entrou, arranjando 
nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitssimo magra. 
As feies, midas, espremidas, tinham a amarelido de tons baos das doenas de 
corao. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietao, numa 
curiosidade, raiados de sangue, entre plpebras sempre debruadas de vermelho. 
Usava uma cuia de retrs imitando tranas, que lhe fazia a cabea enorme. Tinha 
um tique nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, 
tufado pela goma das saias - mostrava um p pequeno, bonito, muito apertado em 
botinas de duraque com ponteiras de verniz.
Os coletes no estavam prontos, disse com uma voz muito lisboeta; no tivera 
tempo de os meter em goma.
- Tanto lhe recomendei, Juliana! - disse Lusa. - Bem, v. Veja como se arranja! 
Os coletes ho de ficar  noite na mala!
E apenas ela saiu:
- Estou a tomar dio a esta criatura, Jorge!
H dois meses que a tinha em casa e no se pudera acostumar  sua fealdade, aos 
seus trejeitos,  maneira aflautada de dizer chapiu, tisoiras, de arrastar um 
pouco os rr, ao rudo dos seus taces que tinham laminazinhas de metal; ao 
domingo, a cuia, o pretensioso do p, as luvas de pelica preta arrepiavam-lhe os 
nervos.
- Que antiptica!
Jorge ria:
- Coitada,  uma pobre de Cristo! - E depois que engomadeira admirvel! No 
ministrio examinavam com espanto os seus peitilhos! - O Julio diz bem: eu no 
ando engomado, ando esmaltado! No  simptica, no, mas  asseada,  
apropositada...
E levantando-se, com as mos nos bolsos das suas largas calas de flanela:
- E, enfim, minha filha, a maneira como ela se portou na doena da tia 
Virgnia... Foi um anjo para ela! - Repetiu com solenidade: - De dia, de noite, 
foi um anjo para ela! Estamos4he em dvida, minha filha! - E comeou a enrolar 
um cigarro, com a fisionomia muito sria.
Lusa, calada, fazia saltar com a pontinha da chinela a orla do roupo; e 
examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, ps-se a dizer:
Mas enfim, se eu embirro com ela, no me importa, posso bem mand-la embora.
Jorge parou, e raspando um fsforo na sola do sapato:
- Se eu consentir, minha rica...  que  uma questo de gratido, para mim!
Ficaram calados. O cuco cantou meio-dia.
- Bem, vou  vida - disse Jorge. Chegou-se ao p dela, tomou-lhe a cabea entre 
as mos.
- Viborazinha! - murmurou, fitando-a muito meigamente.
Ela riu. Ergueu para ele os seus magnficos olhos castanhos, luminosos e meigos. 
Jorge enterneceu-se, ps-lhe sobre as plpebras dois beijos chilreados. E 
torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:
- Queres alguma coisa de fora, amor?
- Que no viesse muito tarde.
Ia deixar uns bilhetes, ia numa tipia, era um pulo...
E saiu, feliz, cantando com a sua boa voz de bartono:
- Dia dei oro,
Dei mondo signor
La la ra, la ra
Lusa espreguiou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria estar numa 
banheira de mrmore cor-de-rosa, em gua tpida, perfumada, e adormecer! O numa 
rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se, ouvindo msica! Sacudiu a 
chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu p pequeno, branco como 
leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de coisinhas: - em meias de 
seda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em trs 
guardanapos que a lavadeira perdera...
Tornou a espreguiar-se. E saltando na ponta do p descalo, foi buscar ao 
aparador por detrs de uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio 
estender-se na voltaire, quase deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos 
dedos sobre a orelha, comeou a ler, toda interessada.
Era a Dama das camlias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura, na Baixa, ao 
ms. Em solteira, aos dezoito anos entusiasmara-se por Walter Scott e pela 
Esccia; desejara ento viver num daqueles castelos escoceses, que tm sobre as 
ogivas os brases do cl, mobilados com arcas gticas e trofus de armas, 
forrados de largas tapearias, onde esto bordadas legendas hericas, que o 
vento do lago agita e faz viver; e amara Ervandalo, Morton e lvanho, ternos e 
graves, tendo sobre o gorro a pena de guia, presa ao lado pelo cardo de Esccia 
de esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno que a cativava: Paris, as 
suas moblias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por 
Mr. de Camors; e os homens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas ombreiras 
das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixo, tendo 
palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o 
seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia enevoada; via-a alta e magra, com o seu 
longo xale de caxemira, os olhos negros cheios de avidez da paixo e dos ardores 
da tsica; nos nomes mesmo do livro - Jlia Duprat, Armando, Prudncia, achava o 
sabor potico de uma vida intensamente amorosa; e todo aquele destino se 
agitava, como numa msica triste, com ceias, noites delirantes, aflies de 
dinheiro, e dias de melancolia no fundo de um cup quando nas avenidas do Bois, 
sob um cu pardo e elegante, silenciosamente caem as primeiras neves.
- At logo, Zizi - gritou Jorge do corredor, ao sair.
- Olha!
Ele veio com a bengala debaixo do brao, apertando as luvas.
No apareas muito tarde, hem? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a 
D. Felicidade. Ouve. V se passas pela M.me Franois que me mande o chapu. 
Escuta.
- Que mais, bom Deus?
- Ah! No! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... Mas est 
fechado!
Foi com duas lgrimas a tremer-lhe nas plpebras que acabou as pginas da Dama 
das camlias. E estendida na voltaire, com o livro cado no regao, fazendo 
recuar a pelcula das unhas, ps-se a cantar baixinho, com ternura, a ria final 
da Traviata:
- Addio, dei passato...
Lembrou-lhe de repente a notcia do jornal, a chegada do primo Baslio...
Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. - Fora o seu 
primeiro namoro, o primo Baslio! Tinha ela ento dezoito anos! Ningum o sabia, 
nem Jorge, nem Sebastio...
De resto fora uma criancice; ela mesma, s vezes, ria, recordando as pieguices 
ternas de ento, certas lgrimas exageradas! Devia estar mudado o primo Baslio. 
Lembrava-se bem dele - alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode preto 
levantado, o olhar atrevido, e um jeito de meter as mos nos bolsos das calas 
fazendo tilintar o dinheiro e as chaves! Aquilo comeara em Sintra, por grandes 
partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio Joo de Brito, em Colares. 
Baslio tinha chegado ento da Inglaterra: vinha muito bife, usava gravatas 
escarlates passadas num anel de ouro, fatos de flanela branca, espantava Sintra! 
Era na sala de baixo pintada a oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande 
porta envidraada abria para o jardim, sobre trs degraus de pedra. Em roda do 
repuxo havia romzeiras, onde ele apanhava flores escarlates. A folhagem verde 
escura e polida dos arbustos de camlias fazia ruazinhas sombrias; pedaos de 
sol faiscavam, tremiam na gua do tanque; duas rolas, numa gaiola de vime, 
arrulhavam docemente; - e, no silncio aldeo da quinta, o rudo seco das bolas 
de bilhar tinha um tom aristocrtico.
Depois, vieram todos os episdios clssicos dos amores lisboetas passados em 
Sintra: os passeios em Sitiais ao luar, devagar, sobre a relva plida, com 
grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o vale, as areias ao 
longe, cheias de uma luz saudosa, idealizadora e branca; as sestas quentes, nas 
sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante das guas que vo de 
pedra em pedra; as tardes na vrzea de Colares, remando num velho bote, sobre a 
gua escura da sombra dos freixos - e que risadas quando iam encalhar nas 
ervagens altas, e o seu chapu de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!
Sempre gostara muito de Sintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos 
do Ramalho lhe davam uma melancolia feliz!
Tinham muita liberdade, ela e o primo Baslio. A mam, coitadinha, toda 
cismtica, com reumatismo, egosta, deixava-os, sorria, dormitava; Baslio era 
rico, ento; chamava-lhe tia Joj, trazia-lhe cartuchos de doce...
Veio o inverno, e aquele amor foi-se abrigar na velha sala forrada de papel 
sangue-de-boi da Rua da Madalena. Que bons seres ali! A mam ressonava baixo 
com os ps embrulhados numa manta, o volume da Biblioteca das Damas cado sobre 
o regao. E eles, muito chegados, muito felizes no sof! O sof! Quantas 
recordaes! Era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao 
centro, bordada por ela, amores-perfeitos amarelos e roxos sobre um fundo negro. 
Um dia veio o final. Joo de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, 
faliu. A casa de Almada, a quinta de Colares foram vendidas.
Baslio estava pobre: partiu para o Brasil. Que saudades! Passou os primeiros 
dias sentada no sof querido, soluando baixo, com a fotografia dele entre as 
mos. Vieram ento os sobressaltos das cartas esperadas, os recados impacientes 
ao escritrio da Companhia, quando os paquetes tardavam...
Passou um ano. Uma manh, depois de um grande silncio de Baslio, recebeu da 
Bahia uma longa carta, que comeava: "Tenho pensado muito e entendo que devemos 
considerar a nossa inclinao como uma criancice..."
Desmaiou logo. Baslio afetava muita dor em duas laudas cheias de explicaes: 
que estava ainda pobre; que teria de lutar muito antes de ter para dois; o clima 
era horrvel; no a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe "minha pomba" e 
assinava o seu nome todo, com uma firma complicada.
Viveu triste durante meses. Era no inverno; e sentada  janela, por dentro dos 
vidros, com o seu bordado de l, julgava-se desiludida, pensava no convento, 
seguindo com um olhar melanclico os guarda-chuvas gotejantes que passavam sob 
as cordas de gua; ou sentando-se ao piano, ao anoitecer, cantava Soares de 
Passos:
- Ai! adeus, acabaram-se os dias 
Que ditoso vivi a teu lado...
ou o final da Traviata, ou o Fado do Vimioso, muito triste, que ele lhe 
ensinara.
Mas ento o catarro da mam agravou-se; vieram os sustos, as noites veladas. Na 
convalescena foram para Belas; ligou-se ali muito com as Cardosos, duas irms 
magras, estouvadas e esguias, sempre coladas uma  outra, com um passinho 
trotado e seco, como um casal de galgos. O que riam, Jesus! O que falavam dos 
homens! Um tenente de artilharia tinha-se apaixonado por ela. Era vesgo, 
mandou-lhe uns versos, "Ao lrio de Belas":
Sobre a encosta da colina
Cresce o lrio virginal...
Foi um tempo muito alegre, cheio de consolaes.
Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cores. E um dia, tendo 
achado numa gaveta uma fotografia que logo ao princpio Baslio lhe mandara da 
Bahia, de cala branca e chapu panam, fitou-a, encolhendo os ombros:
- E o que eu me ralei por esta figura! Que tola!
Tinham passado trs anos quando conheceu Jorge. Ao princpio no lhe agradou. 
No gostava dos homens barbados; depois percebeu que era a primeira barba, fina, 
rente, muito macia decerto; comeou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E 
sem o amar sentia ao p dele como uma fraqueza, uma dependncia e uma quebreira, 
uma vontade de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, 
confortvel, sem receio de nada. Que sensao quando ele lhe disse: "Vamos 
casar, hem!" Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre 
o mesmo travesseiro, ao p do seu! Fez-se escarlate, Jorge tinha-lhe tomado a 
mo; ela sentia o calor daquela palma larga penetr-la, tomar posse dela; disse 
que sim; ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se 
docemente os seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria, que descanso para a 
mam!
Casaram s oito horas, numa manh de nevoeiro. Foi necessrio acender luz para 
lhe pr a coroa e o vu de tule. Todo aquele dia lhe aparecia como enevoado, sem 
contornos,  maneira de um sonho antigo - onde destacava a cara balofa e 
amarelada do padre, e a figura medonha de uma velha, que estendia a mo adunca, 
com uma sofreguido colrica, empurrando, rogando pragas, quando,  porta da 
igreja, Jorge comovido distribua patacos. Os sapatos de cetim apertavam-na. 
Sentia-se enjoada da madrugada, fora necessrio fazer-lhe ch verde muito forte. 
E to cansada  noite naquela casa nova, depois de desfazer os seus bas! Quando 
Jorge apagou a vela, com um sopro trmulo, os luminosos faiscavam, corriam-lhe 
diante dos olhos.
Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre; ps-se a ador-lo. Tinha 
uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas coisas, mexia-lhe no cabelo, 
na roupa, nas pistolas, nos papis. Olhava muito para os maridos das outras, 
comparava, tinha orgulho nele. Jorge envolvia-a em delicadezas de amante, 
ajoelhava-se aos seus ps, era muito dengueiro. E sempre de bom humor, com muita 
graa, mas nas coisas da sua profisso ou do seu brio tinha severidades 
exageradas, e punha ento nas palavras, nos modos uma solenidade carrancuda. Uma 
amiga dela, romanesca, que via em tudo dramas, tinha-lhe dito: " homem para te 
dar uma punhalada". Ela que no conhecia ainda ento o temperamento plcido de 
Jorge, acreditou, e isso mesmo criou uma exaltao no seu amor por ele. Era o 
seu tudo - a sua fora, o seu fim, o seu destino, a sua religio, o seu homem! 
Ps-se a pensar, o que teria sucedido se tivesse casado com o primo Baslio. Que 
desgraa, hem! Onde estaria? Perdia-se em suposies de outros destinos, que se 
desenrolavam, como panos de teatro: via-se no Brasil, entre coqueiros, embalada 
numa rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!
- Est ali a senhora D. Leopoldina - veio dizer Juliana.
Lusa ergueu-se surpreendida:
- Hem? A senhora D. Leopoldina? Para que mandou entrar?
Ps-se a abotoar  pressa o roupo. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Ele que lhe 
tinha dito tantas vezes que a no queria em casa! Mas se j estava na sala, 
agora, coitada!
- Est bom, diga-lhe que j vou.
Era a sua ntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da Madalena, 
e estudado no mesmo colgio,  Patriarcal, na Rita Pessoa, a coxa. Leopoldina 
era a filha nica do Visconde de Quebrais, o devasso, o caqutico, que fora 
pajem de D. Miguel23. Tinha feito um casamento infeliz com um Joo Noronha, 
empregado da alfndega. Chamavam-lhe a "Quebrais"; chamavam-lhe tambm a "Po e 
Queijo".
Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vcios. Jorge odiava-a. E dissera 
muitas vezes a Lusa: "Tudo, menos a Leopoldina!"
Leopoldina tinha ento vinte e sete anos. No era alta, mas passava por ser a 
mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma 
justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, 
apanhados atrs. Dizia-se dela com os olhos em alvo: " uma esttua,  uma 
Vnus!" Tinha ombros de modelo, de uma redondeza descada e cheia; sentia-se nos 
seus seios, mesmo atravs do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas 
metades de limo; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes 
de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era um pouco 
grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatao carnuda; na pele, muito fina, 
de um trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos de antigas 
bexigas. A sua beleza eram os olhos, de uma negrura intensa, afogados num 
fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.
Lusa veio para ela com os braos abertos, beijaram-se muito. E Leopoldina, 
sentada no sof, enrolando devagarinho a seda clara do guarda-sol, comeou a 
queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada, com tonturas. O calor 
matava-a. E que tinha ela feito? Achava-a mais gorda.
Como era um pouco curta de vista, para se afirmar piscava ligeiramente os olhos, 
descerrando os beios gordinhos, de um vermelho clido.
- A felicidade d tudo, at boas cores! - disse, sorrindo.
O que a trazia era perguntar-lhe a morada da francesa que lhe fazia os chapus. 
E h tanto tempo que a no via, j tinha saudades tambm!
- Mas no imaginas! Que calor! Venho morta.
E deixou-se cair sobre a almofada do sof, encalmada, com um sorriso aberto, 
mostrando os dentes brancos e grandes.
Lusa disse-lhe a morada da francesa, gabou-lha: era barateira e tinha bom 
gosto. Como a sala estava escura foi entreabrir um pouco as portadas da janela. 
Os estofos das cadeiras e as bambinelas eram de repes verde-escuro; o papel e o 
tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e naquela decorao sombria 
destacavam muito - as molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a Media de 
Delacroix e a Mrtir de Delaroche), as encadernaes escarlates de dois vastos 
volumes do Dante de G. Dor e entre as janelas o oval de um espelho onde se 
refletia um napolitano de biscuit que, na consola, danava a tarantela.
Por cima do sof pendia o retrato da me de Jorge, a leo. Estava sentada, 
vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado e seco: uma das 
mos, de um lvido morto, pousava nos joelhos sobrecarregada de anis; a outra 
perdia-se entre as rendas muito trabalhadas de um mantelete de cetim; e aquela 
figura longa, macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre 
uma cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando ver 
para alm cus azulados e redondezas de arvoredos.
- E teu marido? - perguntou Lusa, vindo sentar-se muito junto de Leopoldina.
- Como sempre. Pouco divertido - respondeu, rindo. E, com um ar srio, a testa 
um pouco franzida: - Sabes que acabei com o Mendona?
Lusa fez-se ligeiramente vermelha.
- Sim?
Leopoldina deu logo detalhes.
Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensaes, da sua alcova, das 
suas contas. Nunca tivera segredos para Lusa; e na sua necessidade de fazer 
confidncias, de gozar a admirao dela, descrevia-lhe os seus amantes, as 
opinies deles, as maneiras de amar, os tiques, a roupa, com grandes 
exageraes! Aquilo era sempre muito picante, cochichado ao canto de um sof, 
entre risinhos; Lusa costumava escutar, toda interessada, as mas do rosto um 
pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava to 
curioso!
- Desta vez  que bem posso dizer que me enganei, minha rica filha! - exclamou 
Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.
Lusa riu.
- Tu enganas-te quase sempre!
Era verdade! Era infeliz!
- Que queres tu? De cada vez imagino que  uma paixo, e de cada vez me sai uma 
maada!
E picando o tapete com a ponta da sombrinha:
- Mas se um dia acerto!
- V se acertas - disse Lusa. - J  tempo!
s vezes na sua conscincia achava Leopoldina "indecente"; mas tinha um fraco 
por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que quase lhe inspirava 
uma atrao fsica. Depois desculpava-a: era to infeliz com o marido! Ia atrs 
da paixo, coitada! E aquela grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a 
felicidade escorre como a gua de uma taa muito cheia, satisfazia Lusa como 
uma justificao suficiente: quase lhe parecia uma herona; e olhava-a com 
espanto como se consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa e difcil, 
de episdios excitantes. S no gostava de certo cheiro de tabaco misturado de 
feno, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.
- E que fez ele, o Mendona?
Leopoldina encolheu os ombros, com um grande tdio:
- Escreveu-me uma carta muito tola, que afinal bem considerado era melhor que 
acabasse tudo, porque no estava para se meter em camisa de onze varas! Que 
imbecil! At devo ter aqui a carta.
Procurou na algibeira do vestido: tirou o leno, uma carteirinha, chaves, uma 
caixinha de p-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price.
Falou ento do circo. - Uma sensaboria. O melhor era um rapaz que trabalhava no 
trapzio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeio!
E de repente:
- Ento teu primo Baslio chega?
- Assim li hoje no Dirio de Noticias. Fiquei pasmada!
- Ah! Outra coisa que te queria perguntar antes que me esquea. Com que 
guarneceste tu aquele teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer um assim.
Tinha-o guarnecido de azul tambm, um azul mais escuro.
- Vem ver. Vem c dentro.
Entraram no quarto. Lusa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos. Era 
um quarto pequeno, muito fresco, com cretones de um azul plido. Tinha um tapete 
barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre 
as duas janelas, sob um dossel de renda grossa, muito ornado de frascos 
facetados. Entre as bambinelas, em mesas redondas de p de galo, plantas 
espessas, begnias, macomas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e 
forte, em vasos de barro vermelho vidrado.
Aqueles arranjos confortveis lembraram decerto a Leopoldina felicidades 
tranqilas. Ps-se a dizer devagar, olhando em roda:
- E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hem? Fazes bem, filha, tu  que 
fazes bem!
Foi defronte do toucador aplicar p-de-arroz no pescoo, nas faces:
- Tu  que fazes bem! - repetia. - Mas v l uma mulher prender-se a um homem 
como o meu!
Sentou-se na causeuse com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituais 
sobre seu marido: era to grosseiro! Era to egosta!
- Acreditars que h tempos para c, se no estou em casa s quatro horas, no 
espera, pe-se  mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, 
enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto dele - ns temos dois 
quartos, como tu sabes -  um chiqueiro!
Lusa disse com severidade:
- Que horror! A culpa tambm  tua.
- Minha! - e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais negros.
- No me faltava mais nada seno ocupar-me do quarto do homem!
Ah! Era muito desgraada, era a mulher mais desgraada que havia no mundo!
- Nem cimes tem, o bruto!
Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o colar e o broche:
- A senhora sempre quer que engome os coletes todos?
- Todos, j lhe disse. Ho de ficar  noite na mala antes de se ir deitar.
- Que mala? Quem parte? - perguntou Leopoldina.
- O Jorge. Vai s minas, ao Alentejo.
- Ento ests s, posso vir ver-te! Ainda bem!
E sentou-se logo ao p dela, com um olhar que se fizera doce.
-  que tenho tanto que contar! Se tu soubesses, filha!
- O qu? Outra paixo? - fez Lusa rindo.
A face de Leopoldina tornou-se grave.
No era para rir. Estava de todo! Era por isso at que tinha vindo. Sentira-se 
to s em casa, to nervosa! - Vou at Lusa, vou palrar um bocado!
E com a Voz mais baixa, quase solene:
- Desta vez  srio, Lusa! - Deu os detalhes. Era um rapaz alto, louro, lindo! 
E que talento! E poeta! - Dizia a palavra com devoo, prolongando o som das 
slabas. - E poeta!
Desapertou devagar dois botes do corpete, tirou do seio um papel dobrado. Eram 
versos.
E muito chegada para Lusa, com as narinas dilatadas pela delcia da sensao, 
leu baixo, com orgulho, com pompa:
- "A ti
Farol da Guia, 5 de junho
Quando cismo  hora do poente
Sobre os rochedos onde brame o mar..."
Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplaes em que a 
via a ela, Leopoldina, "viso radiosa que deslizas leve", nas guas dormentes, 
nas vermelhides do ocaso, na brancura das espumas. Era uma composio 
delambida, de um sentimentalismo reles, com um ar tsico, muito lisboeta, cheia 
de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que no era "nos esplendores das 
salas" ou nos "bailes febricitantes" que gostava de a ver; era ali, naqueles 
rochedos,
Onde todos os dias ao sol posto 
Eu vejo adormecer o mar gigante.
- Que bonito, hem!
Ficaram caladas, com uma comoozinha.
Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:
- Farol da Guia, 5 de junho!
Mas o relgio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, 
meteu o poema no seio.
Tinha de se ir j! Fazia-se tarde, seno o outro, punha-se a mesa. Tinha um 
ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais estpida!
Adeus. At breve, no? - E agora que Jorge ia para fora, havia de vir muito.- 
Adeus. Ento a francesa, Rua do Ouro, por cima do estanque?
Lusa foi com ela at ao patamar. Leopoldina j no fundo da escada ainda parou 
gritou:
- Sempre te parece que guarnea o vestido de azul, hem? 
Lusa debruou-se sobre o corrimo:
- Eu assim fiz,  o melhor...
- Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque?
- Sim. Rua do Ouro. Adeus. - E com um gritinho: - Porta  direita. M.me 
Franois.
Jorge voltou s cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala a um 
canto:
- J sei que tiveste c uma visita.
Lusa voltou-se, um pouco corada. Estava diante do toucador j penteada, com um 
vestido de linho branco, guarnecido de rendas
Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandara-a entrar... Ficara mais 
contrariada! Era por causa da adresse da francesa dos chapus. Tinha-se demorado 
dez minutos. - Quem te disse?
- Foi a Juliana; que a senhora D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.
- Toda a tarde! Que tolice! Esteve dez minutos, se tanto!
Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se  janela, ps-se a sacudir as duras 
folhas de uma begnia malhada de um vermelho doente, com uma baba prateada. 
Assobiava baixo; e parecia todo ocupado em conchegar um boto de amarilis 
aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino corao assustado.
Lusa ia passando o seu medalho de ouro numa longa fita de veludo preto, tinha 
uma tremura nas mos, estava vermelha.
- O calor tem-lhes feito mal... - disse.
Jorge no respondeu. Assobiou mais alto, foi  outra janela, bateu com os dedos 
nas folhas elsticas de uma macoma de tons verdes e sangneos, e, alargando 
impacientemente o colarinho como um homem sufocado:
- Ouve l,  necessrio que deixes por uma vez de receber essa criatura.  
necessrio acabar por uma vez!
Lusa fez-se escarlate.
-  por causa de ti!  por causa dos vizinhos!  por causa da decncia!
- Mas foi a Juliana... - balbuciou Lusa.
- Mandasse-a sair outra vez. Que estavas fora! Que estavas na China! Que estavas 
doente!
Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braos:
- Minha rica filha,  que todo o mundo a conhece.  a Quebrais!  a Po e 
Queijo!  uma vergonha!
Citava-lhe os seus amantes, exasperado: o Carlos Viegas, o magro, de bigode 
cado, que escrevia comdias para o Ginsio! O Santos Madeira, o picado das 
bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um gingo desossado, com um olhar 
de carneiro morto, sempre a fumar numa enorme boquilha! O Pedro Cmara, o 
bonito! O Mendona dos calos! Tutti quanti!
E encolhendo os ombros, exasperado:
- Como se eu no percebesse que ela esteve aqui! S pelo cheiro! Este horrvel 
cheiro de feno! Vocs foram criadas juntas, etc.; tudo isso  muito bom. Hs de 
desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! Corro-a!
Parou um momento, e comovido:
- Ora, vamos, Lusa, confessa. Tenho ou no razo?
Lusa punha os brincos, ao espelho, atarantada:
- Tens - disse.
- Ah! Bem!
E saiu, furioso.
Lusa ficou imvel. Uma lagrimazinha redonda, clara, rolava-lhe pela asa do 
nariz Assoou-se muito doloridamente. Aquela Juliana! Aquela bisbilhoteira! De 
m! Para fazer ciznia!
Veio-lhe ento uma clera. Foi ao quarto dos engomados, atirou com a porta:
- Para que foi voc dizer quem esteve ou quem deixou de estar?
Juliana, muito surpreendida, pousou o ferro:
- Pensei que no era segredo, minha senhora.
- Est claro que no! Tola! Quem lhe diz que era segredo? E para que mandou 
entrar? No lhe tenho dito muitas vezes que no recebo a senhora D. Leopoldina?
- A senhora nunca me disse nada - replicou, toda ofendida, cheia de verdade.
- Mente! Cale-se!
Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi encostar-se  
vidraa.
O sol desaparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento; 
pelas casas, de uma edificao velha, escuras estavam abertas as varandas onde 
em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miservel, manjerico ou 
cravo; ouvia-se, no teclado melanclico de um piano, a Orao de uma virgem, 
tocada por alguma menina, no sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janela, 
defronte, as quatro filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito 
riados, as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a 
rua, para o ar, para as janelas vizinhas, cochichando se viam passar um homem - 
ou debruadas, com uma ateno idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da 
calada.
Jorge tinha razo, coitado! pensava Lusa. Mas, tambm, que podia ela fazer? J 
no ia  casa de Leopoldina, tirara o seu retrato do lbum da sala, vira-se 
obrigada a confessar-lhe a repugnncia de Jorge, tinham chorado ambas, at! 
Coitada! S a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E enfim, 
depois de ela estar na sala, no a havia de ir empurrar pela escada abaixo!
Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, apareceu ento ao 
alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, ps-se a 
voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um sorriso triste de 
dentes brancos e a "Casta Diva", com uma sonoridade metlica e seca, muito 
tremida espalhou-se pela rua.
Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de Matemtica, veio encostar logo 
aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de quarentona farta 
e estabelecida; adiante, na sacada aberta de um segundo andar, debruou-se a 
figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um bon de borla, o aspecto 
desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as mos transparentes o 
robe de chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as 
bambinelas de cassa.
Na rua, a estanqueira chegou-se  porta, vestida de luto, estendendo o seu caro 
vivo, os braos cruzados sobre o xale tingido de preto, esguia nas longas saias 
escoadas. Da loja, por baixo da Casa Azevedo, veio a carvoeira, enorme de 
gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas secas, a cara oleosa e 
enfarruscada, com trs pequenos meio nus, quase negros, chores e hirsutos, que 
se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, 
adiantou-se at ao meio da rua; a pala de verniz do seu bon de pano preto nunca 
se erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mos, como para ser mais 
reservado, por trs das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; 
o calcanhar sujo da meia saa-lhe para fora da chinela bordada a mianga; e 
fazia roncar o seu pigarro crnico de um modo despeitado. Detestava os reis e os 
padres. O estado das coisas pblicas enfurecia-o. Assobiava freqentemente a 
Maria da Fonte, e mostrava-se nas suas palavras, nas suas atitudes, um patriota 
exasperado.
O homem do realejo tirou o seu largo chapu desabado e, tocando sempre, ia-o 
estendendo em redor para as janelas, com um olhar necessitado. As Azevedos 
tinham logo fechado violentamente a vidraa. A carvoeira deu-lhe uma moeda de 
cobre; mas interrogou-o: quis decerto saber de que pas era, por que estradas 
tinha vindo, e quantas peas tinha o instrumento.
Gente endomingada comeava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as 
botas empoeiradas; mulheres de xale, vindas das hortas, traziam ao colo as 
crianas adormecidas da caminhada e do calor; velhos plcidos, de cala branca, 
o chapu na mo, gozavam a frescura, dando um giro no bairro: pelas janelas, 
bocejava-se; o cu tomava uma cor azulada e polida, como uma porcelana; um sino 
repicava a distncia o fim de alguma festa de igreja; e o domingo terminava, com 
uma serenidade cansada e triste.
- Lusa - disse a voz de Jorge.
Ela voltou-se com um vago - "bem"?
- Vamos jantar, filha, so sete horas.
No meio do quarto tomou-a pela cinta e falando-lhe baixo junto  face:
- Tu zangaste-te h bocado?
- No! Tu tens razo. Conheo que tens razo.
- Ah! - fez ele com um tom vitorioso, muito satisfeito. - Est claro,
Quem melhor conselheiro e bom amigo
Que o marido que a alma m'escolheu?
E com uma ternura grave:
- Minha querida filha, esta nossa casinha  to honesta que  uma dor de alma 
ver entrar essa mulher aqui, com o cheiro de feno, do cigarro e do resto!... Ma, 
di questo non parlaremo pi, o donna mia!  sopa!
CAPTULO II
Aos domingos  noite havia em casa de Jorge uma pequena reunio, uma cavaqueira, 
na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os 
ntimos. O "Engenheiro", como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem 
visitas. Tomava-se ch, palrava-se. Era um pouco  estudante. Lusa fazia 
croch, Jorge cachimbava.
O primeiro a chegar era Julio Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge e seu 
antigo condiscpulo nos primeiros anos da Politcnica. Era um homem seco e 
nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos cados sobre a gola. Tinha o 
curso de cirurgio da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas, 
como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos, pobre, com dvidas, sem 
clientela, comeava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus 
jantares de doze vintns, do seu palet coado de alamares; e entalado na sua 
vida mesquinha, via os outros, os medocres, os superficiais, furar, subir, 
instalar-se  larga na prosperidade! "Falta de chance", dizia. Podia ter 
aceitado um partido da Cmara numa vila da provncia, com pulso livre, ter uma 
casa sua, a sua criao no quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita f 
nas suas faculdades, na sua cincia, e no se queria ir enterrar numa terriola 
adormecida e lgubre, com trs ruas onde os porcos fossam. Toda a provncia o 
aterrava: via-se l obscuro, jogando a manilha na Assemblia, morrendo de 
caquexia. Por isso no "arredava p"; e esperava, com a tenacidade do plebeu 
sfrego, uma clientela rica, uma cadeira na Escola, um cup para as visitas, uma 
mulher loura com dote. Tinha certeza do seu direito a estas felicidades, e como 
elas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a 
vida; cada dia se prolongavam mais os seus silncios hostis, roendo as unhas; e, 
nos dias melhores, no cessava de ter ditos secos, tiradas azedadas - em que a 
sua voz desagradvel caa como um gume gelado.
Lusa no gostava dele: achava-lhe um ar nordeste detestava o seu tom de 
pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calas curtas que mostravam o 
elstico roto das botas. Mas disfarava, sorria-lhe, porque Jorge admirava-o, 
dizia sempre dele: "Tem muito esprito! Tem muito talento! Grande homem!"
Como vinha mais cedo ia  sala de jantar, tomava a sua chvena de caf; e tinha 
sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as toaletes frescas de 
Lusa. Aquele parente, um medocre, que vivia confortavelmente, bem casado, com 
a carne contente, estimado no ministrio, com alguns contos de ris em 
inscries - parecia-lhe uma injustia e pesava-lhe como uma humilhao. Mas 
afetava estim-lo; ia sempre s noites, aos domingos; escondia ento as suas 
preocupaes, cavaqueava, tinha pilhrias - metendo a cada momento os dedos 
pelos seus cabelos compridos, secos e cheios de caspa.
s nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da 
porta com os braos estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cinqenta 
anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, quela hora no 
se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. J se viam alguns fios 
brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, 
cheia, de uma alvura baa e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele j 
engelhada em redor, luzia uma pupila negra e mida, muito mbil; e aos cantos da 
boca uns plos de buo pareciam traos leves e circunflexos de uma pena muito 
fina. Fora a ntima amiga da me de Lusa, e tomara aquele hbito de vir ver a 
pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante 
aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnao.
Mal entrava, ao pr um beijo muito cantado na face de Lusa, perguntava-lhe 
baixo, com inquietao:
- Vem?
- O Conselheiro? Vem.
Lusa sabia-o. Porque o Conselheiro, o Conselheiro Accio, nunca vinha aos "chs 
de D. Lusa", como ele dizia, sem ter ido na vspera ao Ministrio das Obras 
Pblicas procurar Jorge, declarar-lhe com gravidade, curvando um pouco a sua 
alta estatura:
- Jorge, meu amigo, amanh l irei pedir  sua boa esposa a minha chvena de 
ch.
Ordinariamente acrescentava:
- E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, os meus 
respeitos a Sua Excelncia. Os meus respeitos a esse formoso talento!
E saa pisando com solenidade os corredores enxovalhados.
Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco 
com aquela chama. Lusa dizia: "Ora! E uma caturrice dela!" Viam-na corada e 
nutrida, e no suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado 
semanalmente, queimando em silncio, a ia devastando como uma doena e 
desmoralizando como um vcio. Todos os seus ardores at a tinham sido 
inutilizados. Amara um oficial de lanceiros que morrera, e apenas conservava o 
seu daguerretipo. Depois apaixonara-se muito ocultamente por um rapaz padeiro, 
da vizinhana, e vira-o casar. Dera-se ento toda a um co, o Bilro; uma criada 
despedida deu-lhe por vingana rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora 
empalhado na sala de jantar. A pessoa do Conselheiro viera de repente, um dia, 
pegar fogo queles desejos, sobrepostos como combustveis antigos. Accio 
tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava 
grandes olhos para a sua eloqncia, achava-o numa "linda posio". O 
Conselheiro era a sua ambio e o seu vcio! Havia sobretudo nele uma beleza, 
cuja contemplao demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre 
tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele 
apetite insatisfeito inflamara-se com a idade. Quando se punha a olhar para a 
calva do Conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante s luzes, uma 
transpirao ansiosa umedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma 
vontade absurda, vida de lhe deitar as mos, palp-la, sentir-lhe as formas, 
amass-la, penetrar-se nela! Mas disfarava, punha-se a falar alto com um 
sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejava-lhe nas roscas 
anafadas do pescoo. Ia para casa rezar estaes, impunha-se penitncias de 
muitas coroas  Virgem; mas apenas as oraes findavam, comeava o temperamento 
a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadelos lascivos e as 
melancolias do histerismo velho. A indiferena do Conselheiro irritava-a mais: 
nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelao amorosa e comovida! Era para com 
ela glacial e polido. Tinham-se s vezes encontrado a ss,  parte, no vo 
favorvel de uma janela, no isolamento mal-alumiado de um canto do sof - mas 
apenas ela fazia uma demonstrao sentimental, ele erguia-se bruscamente, 
afastava-se, severo e pudico. Um dia ela julgara perceber que, por trs das suas 
lunetas escuras, o Conselheiro lhe deitava de revs um olhar apreciador para a 
abundncia do seio; fora mais clara, mais urgente, falara em paixo, disse-lhe 
baixo:
"Accio! Mas ele com um gesto gelou-a - e de p, grave:
- Minha senhora,
As neves que na fronte se acumulam
Terminam por cair no corao...
-  intil, minha senhora!
O martrio de D. Felicidade era muito oculto, muito disfarado: ningum o sabia; 
conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do 
desejo. E um dia Lusa ficou atnita, sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso 
com a mo mida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no Conselheiro:
- Que regalo de homem!
Falava-se nessa noite do Alentejo, de vora e das suas riquezas, da capela dos 
ossos, quando o Conselheiro entrou com o palet no brao. Foi-o dobrar 
solicitamente numa cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e oficial veio 
apertar as mos ambas de Lusa, dizendo-lhe com uma voz sonora, de papo:
- Minha boa senhora D. Lusa, de perfeita sade, no? O nosso Jorge tinha-mo 
dito. Ainda bem! Ainda bem!
Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoo entalado num colarinho 
direito. O rosto aguado no queixo ia-se alargando at  calva, vasta e polida, 
um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha  outra lhe 
faziam colar por trs da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, 
mais brilho  calva; mas no tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cado aos 
da boca. Era muito plido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no 
queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crnio.
Fora, outrora, diretor-geral do Ministrio do Reino, e sempre que dizia 
"El-rei!" erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a 
tomar rap. Nunca usava palavras triviais; no dizia vomitar, fazia um gesto 
indicativo e empregava restituir. Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso 
Herculano". Citava muito. Era autor. E sem famlia, num terceiro andar da Rua do 
Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia poltica: tinha 
composto os Elementos genricos da cincia da riqueza e a sua distribuio, 
segundo os melhores autores, e como subttulo: Leituras do sero! Havia apenas 
meses publicara a Relao de todos os ministros de Estado desde o grande Marqus 
de Pombal at nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus 
nascimentos e bitos.
- J esteve no Alentejo, Conselheiro? - perguntou-lhe Lusa.
- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei l 
ir, porque me dizem que as suas curiosidades so de primeira ordem.
Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e 
acrescentou com pompa:
- De resto, pas de grande riqueza suma!
-  Jorge, averigua quanto  o partido da Cmara em vora - disse Julio do 
canto do sof.
O Conselheiro acudiu, cheio de informaes, com a pitada suspensa:
- Devem ser seiscentos mil ris, Sr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus 
apontamentos. Por que, Sr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?
- Talvez!...
Todos desaprovaram.
- Ah! Lisboa sempre  Lisboa! - suspirou D. Felicidade.
- "Cidade de mrmore e de granito", na frase sublime do nosso grande 
historiador! - disse solenemente o Conselheiro.
E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
D. Felicidade disse ento:
- Quem no era capaz de deixar Lisboa nem  mo de Deus Padre, era o 
Conselheiro!
O Conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:
- Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta de alma!
- O Conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na Rua de So Jos.
- Nmero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegado quela em que viveu, at 
casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
Geraldo, o seu pobre Geraldo era o pai de Jorge. Accio fora o seu ntimo. Eram 
vizinhos. Accio tocava ento rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam 
duos, pertenciam mesmo  Filarmnica da Rua de So Jos. Depois Accio, quando 
entrou nas reparties do Estado, por escrpulo e por dignidade, abandonou a 
rabeca, os sentimentos ternos, os seres joviais da Filarmnica. Entregou-se 
todo  Estatstica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a 
Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha v-lo 
todos os domingos, e, no dia dos seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma 
carta de felicitaes, uma lampreia de ovos.
- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo leno de seda da ndia - e aqui 
conto morrer.
E assou-se discretamente.
- Isso ainda vem longe, Conselheiro! 
Ele disse, com uma melancolia grave:
- No me arreceio dela, meu Jorge. At j fiz construir, sem vacilar, no Alto de 
So Joo, a minha ltima morada. Modesta, mas decente.  ao entrar, no 
arruamento  direita, num lugar abrigado, ao p da choa dos Verssimos amigos.
- E j comps o seu epitfio, Sr. Conselheiro? - perguntou Julio, do canto, 
irnico.
- No o quero, Sr. Zuzarte. Na minha sepultura no quero elogios. Se os meus 
amigos, os meus patrcios entenderem que eu fiz alguns servios, tm outros 
meios para os comemorar: l tm a imprensa, o comunicado, o necrolgio, a poesia 
mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lpide lisa, em letras negras, o 
meu nome - com a minha designao de Conselheiro - a data do meu nascimento e a 
data do meu bito.
E com um tom demorado, de reflexo:
- No me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
"Orai por ele!"
Houve um silncio comovido, e  porta uma voz fina, disse:
- Do licena?
- Oh, Ernestinho!... - exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rpido, Ernestinho veio abra-lo pela cintura:
- Eu soube que tu partias, primo Jorge... Como est, prima Lusa?
Era primo de Jorge. Pequenino, linftico, os seus membros franzinos, ainda quase 
tenros, davam-lhe um aspecto dbil de colegial; o buo, delgado, empastado em 
cera mostacha, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua 
cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. 
Trazia sapatos de verniz com grandes laos de fita; sobre o colete branco, a 
cadeia do relgio sustentava um medalho enorme, de ouro, com frutos e flores 
esmaltados em relevo. Vivia com uma atrizita do Ginsio, uma magra, cor de 
melo, com o cabelo muito riado, o ar tsico - e escrevia para o teatro. Tinha 
tradues, dos originais num ato, uma comdia, em calembures. Ultimamente trazia 
em ensaios nas Variedades uma obra considervel, um drama em cinco atos, a Honra 
e paixo. Era a sua estria sria. E desde ento, viam-no sempre muito 
atarefado, os bolsos inchados de manuscritos, com localistas, com atores, muito 
prdigo de cafs e de conhaques, o chapu ao lado, descorado e dizendo a todos: 
"Esta vida mata-me!" Escrevia todavia por paixo entranhada pela Arte - porque 
era empregado na alfndega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil ris de 
renda das suas inscries. A Arte mesma, dizia, obrigava-o a desembolsos; para o 
ato do baile da Honra e paixo mandara fazer,  sua custa, botas de verniz para 
o gal, botas de verniz para o pai nobre! O seu nome de famlia era Ledesma.
Deram-lhe um lugar, e Lusa notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! 
Queixou-se ento das suas fadigas: os ensaios arrasavam-no; tinha turras com o 
empresrio; na vspera vira-se forado a refazer todo o final de um ato! Todo!
- E tudo isto - acrescentou muito exaltado - porque  um pelintra, um parvo, e 
quer que se passe numa sala o ato que se passava num abismo!
- Num qu? - perguntou surpreendida D. Felicidade.
O Conselheiro, muito corts, explicou:
- Num abismo, D. Felicidade, num despenhadeiro. Tambm se diz, em bom vernculo, 
um vrtice. - Citou: "Num espumoso vrtice se arroja..."
- Num abismo!? - perguntaram. - Por qu?
O Conselheiro quis conhecer o lance.
Ernestinho, radioso, esboou largamente o enredo: - Era uma mulher casada. Em 
Sintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o Conde de Monte Redondo. O 
marido, arruinado, devia cem contos de ris ao jogo. Estava desonrado, ia ser 
preso. A mulher, louca, corre a umas runas acasteladas, onde habita o conde, 
deixa cair o vu, conta-lhe a catstrofe. O conde lana o seu manto aos ombros, 
parte, chega no momento em que os beleguins vo levar o homem. -  uma cena 
muito comovente - dizia -  de noite, ao luar! - O conde desembua-se, atira uma 
bolsa de ouro aos ps dos beleguins, gritando-lhes: "Saciai-vos, abutres!..."
- Belo final! - murmurou o Conselheiro.
- Enfim - acrescentou Ernesto, resumindo -, aqui h um enredo complicado: o 
Conde de Monte Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o 
seu ouro aos ps do conde, e mata a esposa.
- Como? - perguntaram.
- Atira-a ao abismo. E no quinto ato. O conde v, corre, atira-se tambm. O 
marido cruza os braos e d uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a 
coisa!
Calou-se, ofegante; e, abanando-se com o leno, rolava em redor os seus olhos 
langorosos, prateados como os de um peixe morto.
-  uma obra de cunho, embatem-se grandes paixes! - disse o Conselheiro, 
passando as mos sobre a calva. - Os meus parabns, Sr. Ledesma!
- Mas que quer o empresrio? - perguntou Julio, que escutara de p, atnito - 
que quer ele? Quer o abismo num primeiro andar, mobilado pelo Gard?
Ernestinho voltou-se, muito afetuosamente:
- No, Sr. Zuzarte - a sua voz era quase meiga -, quer o desfecho numa sala. De 
modo que eu - e fazia um gesto resignado - a gente tem de condescender, tive de 
escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei trs chvenas de caf!...
O Conselheiro acudiu, com a mo espalmada:
- Cuidado, Sr. Ledesma, cuidado! Prudncia com esses excitantes! Por quem , 
prudncia!
- A mim no me faz mal, Sr. Conselheiro - disse sorrindo. - Escrevo em trs 
horas! Venho de lho mostrar agora. At o tenho aqui...
- Leia, Sr. Ernesto, leia! - exclamou logo D. Felicidade.
Que lesse! Que lesse! Por que no lia?
Era uma maada!... Era um rascunho... Enfim, como queriam!... E radiante 
desdobrou, no silncio, uma grande folha de papel azul pautado.
- Eu peo desculpa. Isto  um borro. A coisa no est ainda com todos os ff e 
rr. - Fez ento voz teatral: - GATA!...  a mulher; isto aqui  a cena com o 
marido, o marido j sabe tudo...
"GATA (caindo de joelhos aos ps de Jlio)
"- Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que ver, com esses 
desprezos, o corao rasgado fibra a fibra!
"JLIO
"- E no me rasgaste tu tambm o corao? Tiveste tu piedade? No. 
Retalhaste-mo! Meu Deus, eu que a julgava pura, nessas horas em que 
arrebatados..."
O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chvenas. Era Juliana, de 
avental branco, com o ch.
- Que pena! - exclamou Lusa. - Depois do ch se l. Depois do ch.
Emesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:
- No vale a pena, prima Lusa!
- Ora essa!  lindo! - afirmou D. Felicidade.
Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os 
bolos do Coc.
- Aqui tem o seu ch fraco, Conselheiro - dizia Lusa. - Sirva-se, Julio. As 
torradas ao Sr. Julio! Mais acar! Quem quer? Uma torrada, Conselheiro?
- Estou amplamente servido, minha prezada senhora - replicou, curvando-se.
E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dilogo opulento.
Mas, perguntaram, o que quer o empresrio mais agora? J tem a sala...
Ernestinho, de p, excitado, com um bolo de ovos na ponta dos dedos, explicou:
- O que o empresrio quer  que o marido lhe perdoe...
Foi um espanto:
- Ora essa!  extraordinrio! Por qu?
- Ento! - exclamou Ernestinho encolhendo os ombros - diz que o pblico que no 
gosta! Que no so coisas c para o nosso pas...
- A falar a verdade - disse o Conselheiro -, a falar a verdade, Sr. Ledesma, o 
nosso pblico no  geralmente afeto a cenas de sangue.
- Mas no h sangue, Sr. Conselheiro! - protestava Ernestinho erguendo-se sobre 
os bicos dos sapatos -, mas no h sangue!  com um tiro! E com um tiro pelas 
costas, Sr. Conselheiro!
Lusa fez a D. Felicidade - "psiu!" e, num aparte, com um sorriso.
- Desses bolinhos de ovos. So muito frescos.
Ela respondeu, com uma voz lamentosa:
- Ai, filha, no!
E indicou o estmago, compungidamente.
No entanto o Conselheiro aconselhava a Ernestinho a demncia; tinha-lhe posto a 
mo no ombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:
- D mais alegria  pea, Sr. Ledesma. O espectador sai mais aliviado! Deixe 
sair o espectador aliviado!
- Mais um bolinho, Conselheiro?
- Estou repleto, minha prezada senhora.
E, ento, invocou a opinio de Jorge. No lhe parecia que o bom Ernesto devia 
perdoar?
- Eu, Conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente pela morte. 
E exijo que a mates, Ernestinho!
D. Felicidade acudiu, toda bondosa:
- Deixe falar, Sr. Ledesma. Est a brincar. E ele ento que  um corao de 
anjo!
- Est enganada, D. Felicidade - disse Jorge, de p diante dela. - Falo srio e 
sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, 
mas que a mate. Posso l consentir que, num caso desses, um primo meu, uma 
pessoa da minha famlia, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! No! 
Mata-a!  um princpio de famlia. Mata-a quanto antes!
- Aqui tem um lpis, Sr. Ledesma - gritou Julio, estendendo-lhe uma lapiseira.
O Conselheiro, ento, interveio grave:
- No - disse -, no creio que o nosso Jorge fale srio.  muito instrudo para 
ter idias to...
Hesitou, procurou o adjetivo. Juliana ps-se-lhe diante com uma bandeja, onde um 
macaco de prata se agachava comicamente sob um vasto guarda-sol eriado de 
palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:
- ...to anticivilizadoras.
- Pois est enganado, Conselheiro, tenho-as - afirmou Jorge. - So as minhas 
idias. E aqui tem, se em lugar de se tratar de um final de ato, fosse um caso 
da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: "Sabes, encontrei minha mulher..."
- Oh, Jorge! - disseram, repreensivamente.
Bem, suponhamos, se ele mo viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo. Dou a minha 
palavra de honra, que lhe respondia o mesmo: "Mata-a!"
Protestaram. Chamaram-lhe "tigre", "Otelo", "Barba-Azul". Ele ria, enchendo 
muito sossegadamente o seu cachimbo.
Lusa bordava, calada; a luz do candeeiro, abatida pelo abajur, dava aos seus 
cabelos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre 
um marfim muito polido.
- Que dizes tu a isto? - disse-lhe D. Felicidade.
Ela ergueu o rosto, risonha, encolheu os ombros...
E o Conselheiro logo:
- A senhora D. Lusa diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mes de famlia:
Impurezas do mundo no me roam 
Nem a fmbria da tnica sequer.
- Ora, muito boas noites - disse,  porta, uma voz grossa.
Voltaram-se.
 Sebastio! O Sr. Sebastio!  Sebastiarro!
Era ele, Sebastio, o grande Sebastio, o Sebastiarro, Sebastio tronco de 
rvore - o ntimo, o camarada, o inseparvel de Jorge desde o Letim, na aula de 
Frei Librio aos paulistas.
Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapu mole desabado 
na mo. Comeava a perder um pouco na frente os seus cabelos
castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta. Veio 
sentar-se ao p de Lusa.
- Ento de onde vem, de onde vem?
Vinha do Price. Rira muito com os palhaos. Houvera a brincadeira da pipa.
O seu rosto, em plena luz, tinha uma expresso honesta, simples, aberta: os 
olhos pequenos, azuis de um azul-claro, de uma suavidade sria, adoavam-se 
muito quando sorria; e os beios escarlates, sem pelculas secas, os dentes 
luzidios revelavam uma vida saudvel e hbitos castos. Falava devagar, baixo, 
como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua 
e remexendo o acar com a colher direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:
- A pipa tem muita graa! Muita graa!
Sorveu um gole de ch e depois de um momento:
- E tu, maroto, sempre partes amanh? No h umas tentaezinhas de ir por a 
fora com ele, minha cara amiga?
Lusa sorriu. Tomara ela! Quem dera! Mas era uma jornada to incmoda! Depois a 
casa no podia ficar s, no havia que fiar em criados...
- Est claro, est claro... - disse ele.
Jorge ento, que abrira a porta do escritrio, chamou-o:
-  Sebastio! Fazes favor?
Ele foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado; as abas do seu 
casaco malfeito tinham comprimento eclesistico.
Entraram para o escritrio.
Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraada, tendo em cima a 
estatueta de gesso, empoeirada e velha, de uma bacante em delrio. A mesa, com 
um antigo tinteiro de prata que fora de seu av, estava ao p da janela; uma 
coleo empilhada de Dirios do Governo branquejava a um canto; por cima da 
cadeira de marroquim-escuro pendia, num caixilho preto, uma larga fotografia de 
Jorge; e sobre o quadro duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, 
coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.
- Sabes quem esteve a de tarde? - disse logo Jorge acendendo o cachimbo. - 
Aquela desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hem?
- E entrou? - perguntou Sebastio, baixo, correndo por dentro o pesado 
reposteiro de fazenda listrada.
- Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quis! A Leopoldina, a Po e 
Queijo!
E arremessando o fsforo violentamente:
- Quando penso que aquela desavergonhada vem a minha casa! Uma criatura que tem 
mais amantes que camisas, que anda pelo Dafundo em troas, que passeava nos 
bailes, este ano, de domin, com um tenor! A mulher do Zagalo, um devasso que 
falsificou uma letra!
E quase ao ouvido de Sebastio:
- Uma mulher que dormiu com o Mendona dos calos! Aquele sebento do Mendona dos 
calos!
Teve um gesto furioso; exclamou:
- E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraa minha mulher, respira o meu 
ar!... Palavra de honra, Sebastio, se a pilho - procurou mentalmente, com o 
olhar aceso, um castigo suficiente - dou-lhe aoites!
Sebastio disse devagar:
- E o pior  a vizinhana...
- Est claro que ! - exclamou Jorge. - Toda essa gente a pela rua abaixo sabe 
quem ela ! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os stios.  a Po e Queijo! Todo o 
mundo conhece a Po e Queijo!
- M vizinhana... - disse Sebastio.
- De tremer!
Mas ento! Estava acostumado  casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma 
economia...
- Se no! No parava aqui um dia!
Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavalados uns nos outros! Uma 
vizinhana a postos, vida de mexericos! Qualquer bagatela, o trotar de uma 
tipia, e aparecia por trs de cada vidro um par de olhos repolhudos a cocar! E 
era logo um badalar de lnguas por a abaixo, e concilibulos, e opinies 
formadas, e fulano  indecente e fulana  bbada...
-  o diabo! - disse Sebastio.
- A Lusa  um anjo, coitada - dizia Jorge passeando pela saleta -, mas tem 
coisas em que  criana! No v o mal.  muito boa, deixa-se ir. Com este caso 
da Leopoldina, por exemplo: foram criadas de pequenas, eram amigas, no tem 
coragem agora para a pr fora!  acanhamento,  bondade. Ele compreende-se! Mas 
enfim as leis da vida tm as suas exigncias!...
E depois de uma pausa:
- Por isso, Sebastio, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina 
vem por c, avisa a Lusa! Porque ela  assim, esquece-se, no reflexiona.  
necessrio algum que a advirta, que lhe diga: "Alto l, isso no pode ser!" Que 
ento cai logo em si, e  a primeira!... Vens por a, fazes-lhe companhia, 
fazes-lhe msica, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: "Minha 
rica senhora, cuidado, olhe que isso no!" Que ela, sentindo-se apoiada, tem 
deciso. Se no, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas no tem coragem de 
lhe dizer: "No te quero ver, vai-te!" No tem coragem para nada; comeam as 
mos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca...  mulher,  muito mulher... No te 
esqueas, hem, Sebastio?
- Ento havia de me esquecer, homem?
Sentiram ento o piano na sala e a voz de Lusa ergueu-se, fresca e clara, 
cantando a Mandolinata:
Amici, la notte  bella, 
La luna va spuntare. 
- Fica to s, coitada!... - disse Jorge.
Deu alguns passos pelo escritrio, fumando, com a cabea baixa:
- Todo o casal bem organizado, Sebastio, deve ter dois filhos! Deve ter pelo 
menos um!...
Sebastio coou a barba em silncio - e a voz de Lusa, elevando-se com certo 
esforo spero, nos altos da melodia: 
Di c, di l per la citt 
Andiamo a transnottare...
Era uma tristeza secreta de Jorge - no ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em 
solteiro, nas vsperas do casamento, l sonhava aquela felicidade: o seu filho! 
Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias 
de roscas, e os cabelos anelados, finos como fios de seda; ou rapaz forte, 
entrando da escola com os livros, alegre e de olho vivo, vindo mostrar-lhe as 
boas notas dos mestres; ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um 
vestido branco, as duas tranas cadas, vindo pousar as mos nos seus cabelos j 
grisalhos...
Vinha-lhe, s vezes, um medo de morrer sem ter tido aquela felicidade 
completadora!
Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava; depois, no piano, Lusa 
recomeou a Mandolinata, com um brio jovial.
A porta do escritrio abriu-se, Julio entrou:
- Que esto vocs aqui a conspirar? Vou-me safar, que  tarde! At  volta, meu 
velho, hem? Tambm ia contigo tomar ar, respirar, ver campos, mas...
E sorriu com amargura. - ddio! ddio!
Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abra-lo outra vez. Se quisesse alguma coisa 
do Alentejo...
Julio carregou o chapu na cabea:
- D c outro charuto, por despedida! D c dois!
- Leva a caixa! Eu em viagem s fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!
Embrulhou-lha num Dirio de Notcias; Julio meteu-a debaixo do brao, e 
descendo os degraus:
- Cuidado com as sezes, e descobre uma mina de ouro!
Jorge e Sebastio entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as 
guias do bigodinho, e Lusa comeava uma valsa de Strauss - o Danbio azul.
Jorge disse, rindo, estendendo os braos:
- Uma valsa, D. Felicidade?
Ela voltou-se, com um sorriso. E por que no? Em nova era falada! Citou logo a 
valsa que danara com o senhor D. Fernando, no tempo da Regncia, nas 
Necessidades. Era uma valsa linda, dessa poca: A prola de Ofir.
Estava sentada ao p do Conselheiro, no sof. E como retomando um dilogo mais 
querido - continuou, baixo para ele, com uma voz meiga:
- Pois creia, acho-o com timas cores.
O Conselheiro enrolava vagarosamente o seu leno de seda da ndia.
- Na estao calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?
- Ai! Estou outra, Conselheiro! Muito boas digestes, muito livre de gases... 
Estou outra!
- Deus o queira, minha senhora, Deus o queira - disse o Conselheiro esfregando 
lentamente as mos.
Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade ps-se a dizer:
- Espero que esse interesse seja verdadeiro...
Corou. O corpete flcido do vestido de seda preta enchia-se-lhe com o arfar do 
peito.
O Conselheiro recaiu lentamente no sof - e com as mos nos joelhos:
- D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...
Ela levantou para ele os seus olhos pisados, de onde saam revelaes de paixo 
e splicas de felicidade:
- E eu, Conselheiro!...
Deu um grande suspiro, ps o leque sobre o rosto.
O Conselheiro ergueu-se secamente. E com a cabea alta, as mos atrs das 
costas; foi ao piano, perguntou a Lusa curvando-se:
-  alguma cano do Tirol, D. Lusa?
- Uma valsa de Strauss - murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de ps, ao ouvido.
- Ah! Muita fama! Grande autor!
Tirou ento o relgio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. 
Aproximou-se de Jorge, com solenidade:
- Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alentejo! O clima  nocivo, a 
estao traioeira!
E apertou-o nos braos com uma presso comovida.
D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.
- J, D. Felicidade? - disse Lusa.
Ela explicou-lhe, ao ouvido:
- J, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas vagens e tenho 
estado!... E aquele homem, aquele gelo! O Sr. Ernesto vem para os meus stios, 
hem?
- Como um fuso, minha senhora!
Tinha vestido o seu palet de alpaca clara, fumava chupando, com as faces por 
uma boquilha enorme, onde uma Vnus se torcia sobre o dorso de um leo domado.
- Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hem? Adeus! Quando for a Honra e 
Paixo c mando um camarote  prima Lusa. Adeus! Saudinha!
Iam a sair. Mas o Conselheiro,  porta, voltando-se subitamente, com as abas do 
palet deitadas para trs, a mo pomposamente apoiada no casto de que 
representava uma cabea de mouro, disse com gravidade:
- Esquecia-me, Jorge! Tanto em vora, como em Beja, visite os governadores 
civis! E eu lhe digo por qu: devo-lho como primeiros funcionrios do distrito, 
e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinaes cientficas!
E curvando-se profundamente:
- Al rivedere, como se diz em Itlia.
Sebastio tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco, Lusa foi abrir as 
janelas; a noite estava quente e imvel, de luar.
Sebastio pusera-se ao piano, e com a cabea curvada, corria devagar o teclado.
Tocava admiravelmente, com uma compreenso muito fina da msica. Outrora 
compusera mesmo uma meditao, duas valsas, uma balada: mas eram estudos muito 
trabalhados, cheios de reminiscncias, sem estilo. - Da cachimnia no me sai 
nada - costumava ele dizer com bonomia, batendo na testa, sorrindo - mas l com 
os dedos!...
Ps-se a tocar um Noturno, de Chopin. Jorge sentara-se no sof ao p de Lusa.
- J tens pronto o teu farnelzinho!... - disse-lhe ela.
- Bastam umas bolachas, filha. O que quero  o cantil com conhaque.
- E no te esqueas de mandar um telegrama logo que chegues!
- Pudera!
- Tu daqui a quinze dias, vens!
- Talvez...
Ela teve um gesto amuado.
- Ah, bem! Se no vieres vou ter contigo! A culpa  tua.
E olhando em redor:
- Que s que vou ficar!
Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:
- Psiu, Sebastio! A malaguenha, faz favor?
Sebastio comeou a tocar a malaguenha. Aquela melodia clida, muito arrastada, 
encantava-a. Parecia-lhe estar em Mlaga, ou em Granada, no sabia: era sob as 
laranjeiras, mil estrelinhas luzem; a noite  quente, o ar cheira bem; por baixo 
de um lampio suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripea mourisca faz 
gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de veludilho 
encarnado batem as mos em cadncia; e ao largo dorme uma andaluza de romance e 
de zarzuela, quente e sensual, onde tudo so braos brancos que se abrem para o 
amor, capas romnticas que roam as paredes sombrias vielas onde luz o nicho do 
santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santssima cantando as 
horas...
- Muito bem Sebastio! Gracias!
Ele sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapu 
desabado:
- Ento amanh s sete? C estou, e vou-te acompanhar at ao Barreiro.
Bom Sebastio!
Foram debruar-se na varanda para o ver sair. A noite fazia um silncio alto, de 
uma melancolia plcida; o gs dos candeeiros parecia mortio; a sombra que se 
recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e doce; a luz 
punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calada faiscaes 
vidradas; uma clarabia reluzia, a distncia, como uma velha lmina de prata; 
nada se movia; e instintivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam 
a lua branca, muito sria.
- Que linda noite!
A porta bateu, e Sebastio debaixo, na sombra:
- D vontade de passear, hem?
- Linda!
Ficaram  varanda preguiosamente, olhando, detidos pela tranqilidade, pela 
luz. Puseram-se a falar baixo da jornada. quela hora onde estaria ele? J em 
vora num quarto de estalagem, passeando monotonamente sobre um cho de tijolo 
Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negcio com o Paco, o espanhol das 
minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil ris, e teriam ento a 
doura do ms de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Buaco, 
trepar aos altos, beber a gua fresca das rochas, sob a espessura mida das 
folhagens; irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na areia, no bom ar cheio 
de azote vendo o mar unido, de um azul metlico e faiscante, o mar do vero, com 
algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaado. Faziam 
outros planos com os ombros muito chegados; uma felicidade abundante enchia-os 
deliciosamente. E Jorge disse:
- Se houvesse um pequerrucho, j no ficavas to s!
Ela suspirou. Tambm o desejava tanto! Chamar-se-ia Carlos Eduardo. E via-o no 
seu bero dormindo, ou no colo, nu, agarrando com a mozinha o dedo do p, 
mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento de um deleite infinito 
correu-lhe no corpo. Passou o brao pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um 
filho decerto! E no compreendia o seu filho homem nem Jorge velho; via-os ambos 
do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu 
peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e cor-de-rosa. E a vida 
aparecia-lhe infindvel, de uma doura igual, atravessada do enternecimento 
amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.
- A que horas quer a senhora que a venha acordar? - disse a voz seca de Juliana.
Lusa voltou-se:
- s sete j lhe disse h pouco, criatura.
Fecharam a janela. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaava. Era bom 
agouro!
Jorge prendeu-a nos braos:
- Vai ficar sem o seu maridinho, hem? - disse tristemente.
Ela deixou pesar o corpo sobre as mos dele cruzadas, olhou-o com um longo olhar 
que se enevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoo com o gesto lento, 
harmonioso e solene dos braos, pousou-lhe na boca um beijo grave e profundo. Um 
vago soluo levantou-lhe o peito.
- Jorge! Querido! - murmurou.
CAPTULO III
Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Lusa 
vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse no havia de gostar 
no. Mas estava to farta de estar s! Aborrecia-se tanto! De manh ainda tinha 
os arranjos a costura, a toalete, algum romance... Mas de tarde!
A hora em que Jorge costumava voltar do ministrio, a solido parecia alargar-se 
em torno dela. Fazia-lhe tanta falta o seu toque de campainha, os seus passos no 
corredor!...
Ao crepsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razo, caa numa vaga 
sentimentalidade; sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas 
apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos preguiosos, no 
movimento abandonado dos seus braos moles. O que pensava em tolices ento! E  
noite, s, na larga cama francesa, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de 
repente terrores, palpites de viuvez.
No estava acostumada, no podia estar s. At se lembrara de chamar a tia 
Patrocnio, uma velha parenta pobre que vivia em Belm; ao menos era algum; mas 
receou aborrecer-se mais ao p da sua longa figura de viva taciturna, sempre a 
fazer meia, com enormes culos de tartaruga sobre um nariz de guia.
Naquela manh pensara em Leopoldina, toda contente de ir tagarelar, rir, 
segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em colete e saia branca; a 
camisinha decotada descobria os ombros alvos de uma redondeza macia, o colo 
branco e tenro, azulado de veiazinhas finas; e os seus braos redondinhos, um 
pouco vermelhos no cotovelo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo 
as tranas, fiozinhos louros, frisando e fazendo ninho.
A sua pele conservava ainda o rosado mido da gua fria; havia no quarto um 
cheiro agudo de vinagre de toalete; os transparentes de linho branco descidos 
davam uma luz baa, com tons de leite.
Ah! Positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha 
graa era ir surpreend-lo a vora, cair-lhe no Tabaquinho, um dia, s trs 
horas! E quando ele entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azuis, 
atirar-se-lhe ao pescoo! E  tardinha, pelo brao dele, ainda quebrada da 
jornada, coto um vestido fresco, ir ver a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes 
admiravam-na muito. Os homens vinham s portas das lojas. Quem seria?  de 
Lisboa.  a do Engenheiro. - E diante do toucador, apertando o corpete do 
vestido, sorria quelas imaginaes, e ao seu rosto, no espelho.
A porta do quarto rangeu devagarinho.
- Que ?
A voz de Juliana, plangente, disse:
- A senhora d licena que eu v logo ao mdico?
- V, mas no se demore. Puxe-me essa saia atrs. Mais. O que  que voc tem?
- Enjos, minha senhora, peso no corao. Passei a noite em claro.
Estava mais amarela, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido 
de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabelos velhos.
- Pois sim, v - disse Lusa. - Mas arranje tudo antes. E no se demore, hem?
Juliana subiu logo  cozinha. Era no segundo andar, com duas janelas de sacada 
para as traseiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogo.
- Diz que sim, Sra. Joana - disse  cozinheira -, que podia ir. Vou-me vestir. 
Ela tambm est quase pronta. Fica vossemec com a casa por sua!
A cozinheira fez-se vermelha, ps-se a cantar, foi logo sacudir, estender na 
varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos no deixavam, defronte, uma 
casa baixa, pintada de amarelo, com um portal largo - a loja de marceneiro do 
tio Joo Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joana babava-se 
por ele. Era um rapazola plido e afadistado; Joana era minhota, de Avintes, de 
famlia de lavrador, e aquela figura delgada de lisboeta anmico seduzia-a com 
uma violncia abrasada. Como no podia sair  semana, metia-o em casa, pela 
porta de trs, quando estava s; estendia ento na varanda, para dar sinal, o 
velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.
Era uma rapariga muito forte, com peitos de ama, o cabelo como azeviche, todo 
lustroso do leo de amndoas doces. Tinha a testa curta de plebia teimosa. E as 
sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.
- Ai! - suspirou Juliana. - A Sra. Joana  que a leva!
A rapariga ficou escarlate.
Mas Juliana acudiu logo:
- Olha o mal! Fosse eu! Boa! Faz muito bem!
Juliana lisonjeava sempre a cozinheira; dependia dela; Joana dava-lhe caldinhos 
s horas de debilidade, ou, quando ela estava mais adoentada, fazia-lhe um bife 
s escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de "cair em fraqueza", e 
a cada momento precisava tomar a "sustncia". Decerto, como feia e solteirona 
detestava aquele "escndalo do carpinteiro"; mas protegia-o, porque ele valia 
muitos regalos aos seus fracos de gulosa.
- Fosse eu! - repetiu -, dava-lhe o melhor da panela! Se a gente ia a ter 
escrpulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vem uma pessoa a morrer, e  
como se fosse um co.
E com um risinho amargo:
- Diz que me no demorasse no mdico.  como quem diz: "cura-te Ou espicha 
depressa!"
Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
- Todas o mesmo, uma rcua!
Desceu, comeou a varrer o corredor. - Toda a noite estivera doente: o quarto no 
sto, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, 
dava-lhe enjos, faltas de ar, desde o comeo do vero; na vspera at vomitara! 
E j levantada s seis horas, no descansara, limpando, engomando, despejando, 
com a pontada no lado e todo o estmago embrulhado! - Tinha escancarado a 
cancela, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do 
corrimo.
- A senhora D. Lusa est em casa?
Voltou-se. Nos ltimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu 
estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo 
na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.
- A senhora vai sair - disse ela olhando-o muito. - Faz favor de dizer quem ?
O indivduo sorriu.
- Diga-lhe que  um sujeito para um negcio. Um negcio de minas.
Lusa, diante do toucador, j de chapu, metia numa casa do corpete dois botes 
de rosa-ch.
- Um negcio! - disse muito surpreendida. - Deve ser algum recado para o Sr. 
Jorge, decerto! Mande entrar. Que espcie de homem ?
- Um janota!
Lusa desceu o vu branco, calou devagar as luvas de peau de sude claras, deu 
duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. 
Mas quase recuou; fez "ah!" toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o 
primo Baslio.
Houve um shake-hands demorado, um pouco trmulo. Estavam ambos calados: - ela 
com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; ele fitando-a muito, com um olhar 
admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente: - 
Quando tinha ele chegado? Se sabia que ele estava em Lisboa? Como soubera a 
morada dela?
Chegara na vspera no paquete de Bordus. Perguntara no ministrio; disseram4he 
que Jorge estava no Alentejo, deram-lhe a adresse...
- Como tu ests mudada, Santo Deus!
- Velha.
- Bonita!
- Ora!
E ele, que tinha feito? Demorava-se?
Foi abrir uma janela, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Ele no sof 
muito languidamente; ela ao p, pousada de leve  beira de uma poltrona, toda 
nervosa.
Tinha deixado o "degredo" - disse ele. - Viera respirar um pouco  velha Europa. 
Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ltimo ano em Paris! - 
Vinha de l, daquela aldeola de Paris! - Falava devagar, recostado, com um ar 
ntimo, estendendo sobre o tapete, comodamente, os seus sapatos de verniz.
Lusa olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabelo preto anelado 
havia agora alguns fios brancos; mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moo, 
orgulhoso e intrpido; os olhos quando ria, a mesma doura amolecida, banhada 
num fluido. Reparou na ferradura de prola da sua gravata de cetim preto, nas 
pequeninas estrelas brancas bordadas nas suas meias de seda. A Bahia no o 
vulgarizara. Voltava mais interessante!
- Mas tu, conta-me de ti! - dizia ele com um sorriso, inclinado para ela. - s 
feliz, tens um pequerrucho...
- No - exclamou Lusa rindo. - No tenho! Quem te disse?
- Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
- Trs, quatro semanas, creio.
Quatro semanas! Era uma viuvez! Ofereceu-se logo para a vir ver mais vezes, 
palrar um momento, pela manh...
- Pudera no! s o nico parente que tenho agora...
Era verdade!... E a conversao tomou uma intimidade melanclica; falaram da me 
de Lusa, a "tia Joj", como lhe chamava Baslio. Lusa contou a sua morte muito 
doce, na poltrona, sem um ai...
Onde est sepultada? - perguntou Baslio com uma voz grave; e acrescentou 
puxando o punho da camisa de chita: - Est no nosso jazigo?
- Est.
- Hei de ir l. Pobre tia Joj!
Houve um silncio.
- Mas tu ias sair! - disse Baslio de repente, querendo erguer-se.
- No! - exclamou. - No! Estava aborrecida, no tinha nada que fazer. Ia tomar 
ar. No saio, j.
Ele ainda disse:
- No te prendas...
- Que tolice! Ia  casa de uma amiga passar um momento.
Tirou logo o chapu; naquele movimento, os braos erguidos repuxaram o colete 
justo, as formas do seio acusaram-se suavemente.
Baslio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalar as luvas:
- Era eu antigamente quem te calava e descalava as luvas... Lembras-te?... 
Ainda tenho esse privilgio exclusivo, creio eu...
Ela riu-se.
- Decerto que no...
Baslio disse ento, lentamente, fitando o cho:
- Ah! Outros tempos!
E ps-se a falar de Colares: a sua primeira idia, mal chegara, tinha sido tomar 
uma tipia e ir l; queria ir ver a quinta; ainda existiria o balouo debaixo do 
castanheiro? Ainda haveria o caramancho de rosinhas brancas, ao p do Cupido de 
gesso que tinha uma asa quebrada?...
Lusa ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brasileiro; sobre a estrada 
havia um mirante com um teto chins, ornado de bolas de vidro; e a velha casa 
morgada fora reconstruda e mobilada pelo Gard.
- A nossa pobre sala de bilhar, cor de oca, com grinaldas de rosas! - disse 
Baslio; e fitando-a: - Lembraste das nossas partidas de bilhar?
Lusa, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para ele; 
disse sorrindo:
- ramos duas crianas!
Baslio encolheu tristemente os ombros, fitou as ramagens do tapete; parecia 
abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
- Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
Ela via a sua cabea bem feita, descada naquela melancolia das felicidades 
passadas, com uma risca muito fina, e os cabelos brancos - que lhe dera a 
separao. Sentia tambm uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi 
abrir a outra janela, como para dissipar na luz viva e forte aquela perturbao. 
Perguntou-lhe ento pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
Fora sempre o seu desejo viajar - dizia -,ir ao Oriente. Quereria andar em 
caravanas, balouada no dorso dos camelos; e no teria medo, nem do deserto, nem 
das feras...
- Ests muito valente! - disse Baslio. - Tu eras uma maricas, tinhas medo de 
tudo... At da adega, na casa do pap, em Almada!
Ela corou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterrnea que dava 
arrepios! A candeia de azeite pendurada na parede alumiava com uma luz 
avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de teias de aranha, e a fileira 
tenebrosa das pipas bojudas. Havia ali s vezes, pelos cantos, beijos 
furtados...
Quis saber ento o que tinha feito em Jerusalm; se era bonito.
Era curioso. Ia pela manh um bocado ao Santo Sepulcro; depois do almoo montava 
a cavalo... No se estava mal no hotel; inglesas bonitas... Tinha algumas 
intimidades ilustres...
Falava delas, devagar, traando a perna; o seu amigo, o patriarca de Jerusalm, 
a sua velha amiga, a Princesa de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de 
tarde - dizia - no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do Templo de 
Salomo, ao p a aldeia escura de Betnia onde Marta fiava aos ps de Jesus, e 
mais longe, faiscando imvel sob o sol, o Mar Morto! E ali passava sentado num 
banco, fumando tranqilamente o seu cachimbo!
Se tinha corrido perigos?
Decerto. Uma tempestade de areia no deserto de Petra! Horrvel! Mas que linda 
viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toalete, uma manta de 
pele de camelo s listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco numa cinta de 
Bagd, e a lana comprida dos bedunos.
- Devia-te ficar bem!
- Muito bem. Tenho fotografias.
Prometeu dar-lhe uma, e acrescentou:
- Sabes que te trago presentes?
- Trazes? - E os seus olhos brilhavam.
O melhor era um rosrio...
- Um rosrio?
- Uma relquia! Foi benzido primeiro pelo patriarca de Jerusalm sobre o tmulo 
de Cristo, depois pelo papa...
Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito asseado, j todo 
branquinho, vestido de branco, muito amvel!
- Tu dantes no eras muito devota - disse.
- No, no sou muito caturra nessas coisas - respondeu rindo.
- Lembras-te da capela da nossa casa em Almada?
Tinham passado ali lindas tardes! Ao p da velha capela morgada havia um adro 
todo cheio de altas ervas floridas - e as papoulas, quando vinha a aragem, 
agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas...
- E a tlia, lembras-te, onde eu fazia ginstica?
- No falemos no que l vai!
Em que queria ela ento que ele falasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera 
na vida...
Ela sorriu, perguntou:
- E no Brasil?
Um horror! At fizera a corte a uma mulata.
- E por que te no casaste?... Estava a mangar! Uma mulata!
- E de resto - acrescentou com a voz de um arrependimento triste -, j que me 
no casei quando devia - encolheu os ombros melancolicamente -, acabou-se... 
Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Lusa fez-se escarlate. Houve um silncio.
- E qual  o outro presente, ento, alm do rosrio?
- Ah! Luvas. Luvas de vero, de peau de suede, de oito botes. Luvas decentes. 
Vocs aqui usam umas luvitas de dois botes, a ver-se o punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! 
Era atroz! No dizia por ela; at aquele vestido tinha chique, era simples, era 
honesto. Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as 
toaletes daquele vero! Oh! Mas em Paris!... Tudo  superior! Por exemplo, desde 
que chegara ainda no pudera comer. Positivamente no podia comer! - S em Paris 
se come - resumiu.
Lusa voltava entre os dedos o seu medalho de ouro, preso ao pescoo por uma 
fita de veludo preto.
- E estiveste ento um ano em Paris?
Um ano divino. Tinha um apartamento lindssimo, que pertencera a Lord Flamouth, 
Rue Saint Florentin; tinha trs cavalos...
E recostando-se muito, com as mos nos bolsos:
- Enfim, fazer este vale de lgrimas o mais confortvel possvel!... Dize c, 
tens algum retrato nesse medalho?
- O retrato de meu marido.
- Ah! Deixa ver!
Lusa abriu o medalho. Ele debruou-se; tinha o rosto quase sobre o peito dela. 
Lusa sentia o aroma fino que vinha de seus cabelos.
- Muito bem, muito bem! - fez Baslio.
Ficaram calados.
- Que calor que est! - disse Lusa. - Abafa-se, bem!
Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraa. O sol deixara a varanda. Uma aragem 
suave encheu as pregas grossas das bambinelas.
-  o calor do Brasil - disse ele. - Sabes que ests mais crescida?
Lusa estava de p. O olhar de Baslio corria-lhe as linhas do corpo; e com a 
voz muito ntima, os cotovelos sobre os joelhos, o rosto erguido para ela:
- Mas, francamente, dize c, pensaste que eu te viria ver?
- Ora essa! Realmente, se no viesses zangava-me. Es o meu nico parente... O 
que tenho pena  que meu marido no esteja...
- Eu - acudiu Baslio - foi justamente por ele no estar...
Lusa fez-se escarlate. Baslio emendou logo, um pouco corado tambm:
- Quero dizer... talvez ele saiba que houve entre ns...
Ela interrompeu:
- Tolices! ramos duas crianas. Onde isso vai!
- Eu tinha vinte e sete anos - observou ele, curvando-se.
Ficaram calados, um pouco embaraados. Baslio cofiava o bigode, olhando 
vagamente em redor.
- Ests muito bem instalada aqui - disse.
No estava mal... A casa era pequena, mas muito cmoda. Pertencia-lhes.
- Ah! Ests perfeitamente! Quem  esta senhora, com uma luneta de ouro?
E indicava o retrato por cima do sof.
- A me de meu marido.
- Ah! Vive ainda?
- Morreu.
-  o que uma sogra pode fazer de mais amvel...
Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguados, e com um 
movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapu.
- J? Onde ests?
- No Hotel Central. E at quando?
- At quando quiseres. No disseste que vinhas amanh com o rosrio?
Ele tomou-lhe a mo, curvou-se:
- J se no pode dar um beijo na mo de uma velha prima?
- Por que no?
Pousou-lhe um beijo na mo, muito longo, com uma presso doce.
- Adeus! - disse.
E  porta com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
- Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai 
isto passar?
- Isto qu? Vermo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
Ele hesitou, sorriu:
- Imaginei que no eras to boa rapariga. Adeus. Amanh, hem?
No fundo da escada acendeu o charuto, devagar.
- "Que bonita que ela est!" - pensou.
E arremessando o fsforo, com fora:
- "E eu, pedao de asno, que estava quase decidido a no a vir ver! Est de 
apetite! Est muito melhor! E sozinha em casa; aborrecidinha talvez!..."
Ao p da Patriarcal fez parar um cup vazio; e estendido, com o chapu nos 
joelhos, enquanto a parelha esfalfada trotava:
- "E tem-me o ar de ser muito asseada, coisa rara na terra! As mos muito bem 
tratadas! O p muito bonito!"
Revia a pequenez do p, ps-se a fazer por ele o desenho mental de outras 
belezas, despindo-a, querendo adivinh-la... A amante que deixara em Paris era 
alta e magra, de uma elegncia de tsica; quando se decotava viam-se as 
salincias das suas primeiras costelas. E as formas redondinhas de Lusa 
decidiram-no:
- A ela! - exclamou com apetite. - A ela, como So Tiago, aos mouros!
Lusa, quando o sentiu embaixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o 
chapu para a causeuse, e foi-se logo ver ao espelho. Que felicidade estar 
vestida! Se ele a tivesse apanhado em roupo, ou malpenteada!... Achou-se muito 
afogueada, cobriu-se de p-de-arroz. Foi  janela, olhou um momento a rua, o sol 
que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cansada. Aquelas horas 
Leopoldina estava a jantar j, decerto... Pensou em escrever a Jorge "para matar 
o tempo", mas veio-lhe uma preguia; estava tanto calor! Depois no tinha que 
lhe dizer! Comeou ento a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se 
muito, gostando de se ver branca, acariciando a finura da pele, com bocejos 
lnguidos de um cansao feliz. - Havia sete anos que no via o primo Baslio! 
Estava mais trigueiro, mais queimado; mas ia-lhe bem!
E depois de jantar ficou junto  janela, estendida na voltaire, com um livro 
esquecido no regao. O vento cara e o ar, de um azul forte nas alturas, estava 
imvel; a poeira grossa pousara; a tarde tinha uma transparncia calma de luz; 
pssaros chilreavam na figueira brava; da serralharia prxima saia o martelar 
continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o 
poente, laivos de cor de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas 
desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra difusa, calada e quente, com 
uma estrelinha muito viva que luzia e tremia. E Lusa deixara-se ficar na 
voltaire esquecida, absorvida, sem pedir luz.
- "Que vida interessante a do primo Baslio!" - pensava. - "O que ele tinha 
visto!" Se ela pudesse tambm fazer as suas malas, partir, admirar aspectos 
novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria 
visitar os pases que conhecia dos romances - a Esccia e os seus lagos 
taciturnos, Veneza e os seus palcios trgicos; aportar s baias, onde um mar 
luminoso e faiscante morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores de teto 
chato, onde vivem as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes 
sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria decerto; eram 
pobres; Jorge era caseiro, to lisboeta!
Como seria o patriarca de Jerusalm? Imaginava-o de longas barbas brancas, 
recamado de ouro, entre instrumentaes solenes e rolos de incenso! E a Princesa 
de La Tour d'Auvergne? Devia ser bela, de uma estatura real, vivia cercada de 
pajens, namorara-se de Baslio. - A noite escurecia, outras estrelas luziam. - 
Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos vages, e, numa 
diligncia muito sacudida, cabecear de sono pela serra nas madrugadas frias? No 
era melhor viver num bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, 
colches macios, uma noite de teatro s vezes, e um bom almoo nas manhs claras 
quando os canrios chalram? Era o que ela tinha. Era bem feliz. Ento veio-lhe 
uma saudade de Jorge; desejaria abra-lo, t-lo ali, ou descesse ir encontr-lo 
fumando o seu cachimbo no escritrio, com o seu de veludo. Tinha tudo, ele, para 
fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era belo, com uns olhos magnficos, terno, 
fiel. No gostaria de um marido com uma vida sedentria e caturra; mas a 
profisso de Jorge era interessante; descia aos tenebrosos das minas; um dia 
aperrara as pistolas contra uma malta revoltada; era valente; tinha talento! 
Involuntariamente, porm, o primo Baslio fazendo flutuar o seu bornous branco 
pelas plancies da Terra Santa, ou em Paris, direito na almofada, governando 
tranqilamente os seus cavalos inquietos - davam-lhe a idia de uma outra 
existncia mais potica, mais prpria para os episdios do sentimento.
Do cu estrelado caa uma luz difusa; janelas alumiadas sobressaam ao longe, 
abertas  noite abafada; vos de morcegos passavam diante da vidraa.
- A senhora no quer luz? - perguntou  porta a voz fatigada de Juliana.
- Ponha-a no quarto.
Desceu. Bocejava muito; sentia-se quebrada.
- " trovoada" - pensou.
Foi  sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da Lcia, da Sonmbula, o 
Fado; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado, ps-se a pensar que 
Baslio devia vir no dia seguinte; vestiria o roupo novo de fular cor de 
castanho! Recomeou o Fado, mas os olhos cerravam-se-lhe. 
Foi para o quarto.
Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinelas, com um 
casabeque pelos ombros, encolhida e lgubre. Aquela figura com um ar de 
enfermaria irritou Lusa:
- Credo, mulher! Voc parece a imagem da morte!
Juliana no respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a 
cmoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:
- A senhora no precisa mais nada, no?
- V-se, mulher, v!
Juliana foi buscar o candeeiro de petrleo, subiu ao quarto. Dormia em cima, no 
sto, ao p da cozinheira.
Pareo-te a imagem da morte! - resmungava, furiosa.
O quarto era baixo, muito estreito, com o teto de madeira inclinado; o sol, 
aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia 
sempre  noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia num leito de 
ferro, sobre um colcho de palha mole coberto de uma colcha de chita; da barra 
da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rede enxovalhada que punha na cabea; 
ao p tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma 
grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova de 
cabelos enegrecida e despelada, um pente de osso, as garrafas de remdio, uma 
velha pregadeira de cetim amarelo, e, embrulhada num jornal, a cuja de retrs 
dos domingos. E o nico adorno das paredes sujas, riscadas da cabea de fsforos 
- era uma litografia de Nossa Senhora das Dores por cima da cama, e um 
daguerretipo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lmina, os 
bigodes encerados e as divisas de um sargento.
- A senhora j se deitou, Sra. Juliana? - perguntou a cozinheira do quarto 
pegado, de onde saa uma barra de luz viva cortando a escurido do corredor.
- J se deitou, Sra. Joana, j. Est hoje com os azeites. Falta-lhe o homem!
Joana, s voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. No podia dormir! 
Abafava-se! Uf!
- Ai! E aqui! - exclamou Juliana.
Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calou as 
chinelas de tapete, e foi ao quarto de Joana. Mas no entrou, ficou  porta; era 
criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado a cuja, e com um leno 
preto e amarelo amarrado na cabea, o seu rosto parecia mais chupado, e as 
orelhas mais despegadas do crnio; a camisa decotada descobria as clavculas 
descarnadas; a saia curta mostrava as canelas muito brancas, muito secas. E com 
o casabeque pelos ombros, coando devagarinho os cotovelos agudos:
- Diga-me c, Sra. Joana - disse com a voz discreta -, aquele sujeito demorou-se 
muito? Reparou?
- Tinha sado naquele instantinho, quando vossemec entrou. Uf!
Encalmada, quase descoberta, com as pernas muito abertas, Joana coava-se 
furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos  minhota que lhe descobria 
os peitos. No podia parar com os percevejos! O raio do quarto tinha ninhos! At 
sentia o estmago embrulhado.
- Ai!  um inferno! - disse com lstima Juliana. - Eu s adormeo com dia. Mas 
ainda eu agora reparo... Vossemec tem So Pedro  cabeceira.  devoo?
- E o santo do meu rapaz - disse a outra. Sentou-se na cama. Uf! E ento tinha 
estado toda a noite com uma sede!...
Saltou para o cho, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi ao jarro, 
p-lo  boca, bebeu uma tarraada. A camisa justa, feita de pouca fazenda, 
mostrava as formas rijas e valentes.
- Pois eu fui ao mdico - disse Juliana. E com um grande suspiro: - Ai! Isto s 
Deus, Sra. Joana! Isto s Deus!
Mas por que se no resolvia a Sra. Juliana a ir  mulher de virtude? Era a sade 
certa. Morava ao Poo dos Negros; tinha oraes e ungentos para tudo. Levava 
meia moeda pelo "preparo".
- Que isso so humores, Sra. Juliana. O que vossemec tem, so humores.
Juliana tinha dado dois passos para dentro do quarto. Quando se tratava de 
doenas, de remdios, tornava-se mais familiar.
Eu j me tenho lembrado... eu j me tenho lembrado de ir  mulher. Mas, meia 
moeda!
E ficou a olhar, tristemente, refletindo.
-  o que eu tenho junto para umas botinas de gspea!
Eram o seu vcio, as botinas! Arruinava-se com elas; tinha-as de duraque com 
ponteiras de verniz; de cordovo com lao; de pelica com pespontos de cor, 
embrulhadas em papis de seda, na arca, fechadas - guardadas para os domingos.
Joana censurou-a.
- Ai! Eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os chiques!
Queixou-se tambm da sua misria. Tinha pedido  senhora um ms adiantamento! 
Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, 
a desfazerem-se!
- Mas, ento! - suspirou. - O meu rapaz precisou um dinheiro...
- Vossemec tambm, Sra. Joana, deixa-se cardar pelo homem!
Joana sorriu.
- Ainda que eu tivesse de roer ossos, Sra. Juliana, a ltima migalha havia de 
ser para ele!
Juliana teve um risinho seco, e com a voz arrastada:
- Vale l a pena!
Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse daquele amor, pelas suas 
delcias. Repetiu, contrafeita:
- Vale l a pena! Perfeito rapaz - continuou - o que veio hoje ver a senhora! 
Melhor que o homem!
E depois de uma pausa:
- Ento esteve mais de duas horas?
- Tinha sado quando vossemec entrou.
Mas o candeeiro de petrleo apagava-se, com um cheiro ftido e uma fumarada 
negra.
- Boa noite, Sra. Joana. Ainda vou rezar a minha coroa.
-  Sra. Juliana! - disse a outra de entre os lenis. - Se vossemec quer ~ 
trs salve-rainhas pela sade do meu rapaz que tem estado adoentado, eu c lhe 
rezava trs pelas melhoras do peito.
- Pois sim, Sra. Joana!
Mas refletindo:
- Olhe. Eu do peito vou melhor; d-mas antes para alvio das dores de cabea. A 
Santa Engrcia! 
- Como vossemec quiser, Sra. Juliana.
- Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe a um cheiro! Credo!
Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor mole e contnuo caa do forro; 
comeou a faltar-lhe o ar; tornou a abrir o postigo, mas o bafo quente que vinha 
dos telhados enjoava-a: e era assim todas as noites, desde o comeo do estio! 
Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que 
servira, tinha tido um quarto pior. Nunca!
A cozinheira comeou a ressonar ao lado. E acordada, s voltas, com aflies no 
corao, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma amargura maior!
Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua me fora 
engomadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem chamavam 
na vizinhana - o "Fidalgo", a quem sua me chamava - o senhor D. Augusto. Vinha 
todos os dias, de tarde no vero, no inverno de manh, para a saleta onde sua 
me engomava, e ali estava horas sentado no poial da janela que dava para um 
quintalejo, fumando cachimbo, cofiando em silncio um enorme bigode preto. Como 
o poial era de pedra, punha-lhe em cima, com muito mtodo, uma almofada de 
vento, que ele mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena de 
veludo castanho e chapu alto branco. s seis horas levantava-se, esvaziava a 
almofada, estava um bocado a esticar as calas para cima, e saa, com a sua 
grossa bengala de cana-da-ndia debaixo do brao, gingando da cinta. Ela e sua 
me iam ento jantar na mesinha de pinho da cozinha debaixo de um postigo, 
diante do qual se balouavam, de vero e de inverno, galhos magros de uma rvore 
triste.
 noite o senhor D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua me fazia-lhe 
ch e torradas, servia-o, toda enlevada nele. Muitas vezes Juliana a vira chorar 
de cimes.
Um dia uma vizinha m, a quem ela no quisera ajudar a lavar a roupa, 
enfureceu-se, e atirando-lhe injrias dos degraus da porta - gritou-lhe que sua 
me era uma desavergonhada, e que seu pai estava na frica por ter morto o Rei 
de Copos!
Pouco tempo depois foi servir. Sua me morreu da a meses, com uma doena de 
tero. Juliana s uma vez tornou a ver o senhor D. Augusto - uma tarde, com uma 
opa roxa, lgubre, na procisso de Passos!
Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas no mudava de 
sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os 
restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repeles das crianas e as ms 
palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a 
doena, a esfalfar-se quando voltava a sade!... Era demais! Tinha agora dias em 
que s de ver o balde das guas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o 
estmago. Nunca se acostumara a servir. Desde rapariga a sua ambio fora ter um 
negociozito, uma tabacaria, uma loja de capelista ou de quinquilharias, dispor, 
governar, ser patroa; mas, apesar de economias mesquinhas e de clculos 
sfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha 
ento adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma 
parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a ltima libra, 
chorou horas com a cabea debaixo da roupa.
Ficou sempre adoentada desde ento; perdeu toda a esperana de se estabelecer. 
Teria de servir at ser velha, sempre, de amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma 
desconsolao constante. Comeou a azedar-se.
E depois no tinha "jeito", no sabia tirar partido das casas; via companheiras 
divertir-se, vizinhar, janelar, bisbilhotar, sair aos domingos s hortas e aos
retiros; levar o dia cantando, e quando as patroas iam ao teatro, abrir a porta 
aos derrios - e patuscar pelos quartos! Ela no. Sempre fora embezerrada. Fazia 
a sua obrigao, comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando no 
passeava, encostava-se a uma janela, com o leno sobre o peitoril para no roar 
as mangas, e ali estava imvel, a olhar, com o seu broche de filigrana e a cuia 
dos dias santos! Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito 
humildes, sabujavam, traziam de fora as histrias da rua, e cartinhas levadas e 
recadinhos para dentro e para fora, muito confidentes - muito presenteadas 
tambm! Ela no podia. Era "minha senhora isto! minha senhora aquilo!" E cada 
uma no seu lugar! Era gnio!
Desde que servia, apenas entrava numa casa sentia logo, num relance, a 
hostilidade, a malquerena; a senhora falava-lhe com secura, de longe; as 
crianas tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, 
mal a sua figura esguia aparecia; punham-lhe alcunhas - a "Isca Seca", a "Fava 
Torrada", o "Saca-Rolhas"; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, 
cochichos pelos cantos; e s tinha encontrado alguma simpatia nos galegos 
taciturnos, cheios de uma saudade morrinhenta, que vm de manh quando ainda os 
quartos esto escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, engraxar 
o calado.
Lentamente, comeou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; tinha 
respostadas, questes com as companheiras; no se havia de deixar pr o p no 
pescoo!
As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um crculo de espingardas 
enraivece um lobo. Fez-se m; beliscava crianas at lhes enodoar a pele; e se 
lhe ralhavam, a sua clera rompia em rajadas. Comeou a ser despedida. Num s 
ano esteve em trs casas. Saa com escndalo, aos gritos, atirando as portas, 
deixando as amas todas plidas, todas nervosas...
A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Vitria, disse-lhe:
- Tu acabas por no ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do po!
O po! Aquela palavra que  o terror, o sonho, a dificuldade do pobre 
assustou-a. Era fina, e dominou-se. Comeou a fazer-se "uma pobre mulher", com 
afetaes de zelo, um ar de sofrer tudo, os olhos no cho. Mas roa-se por 
dentro; veio-lhe a inquietao nervosa dos msculos da face, o tique de franzir 
o nariz; a pele esverdeou-se-lhe de blis.
A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hbito de odiar; odiou sobretudo as 
patroas, com um dio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e 
pobres, mulheres de empregados, velhas e raparigas, colricas e pacientes; - 
odiava-a todas, sem diferena.  patroa e basta! Pela mais simples palavra, pelo 
ato mais trivial! Se as via sentadas: "Anda, refestela-te, que a moura 
trabalha!" Se as via sair: "Vai-te, a negra c fica no buraco!" Cada riso delas 
era uma ofensa  sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu 
velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas 
prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de 
contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete 
a "Carta Adorada"! Com que gosto trazia a conta retardada de um credor 
impaciente, quando pressentia embaraos na casa! "Este papel!" - gritava com uma 
voz estridente - "diz que no se vai embora sem uma resposta!" Todos os lutos a 
deleitavam - e sob o xale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitaes de 
regozijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem a aflio das mes a comovera; 
encolhia os ombros: "Vai dali, vai fazer outro. Cabras!"
As boas palavras mesmo, as condescendncias eram perdidas com ela, como gotas de 
gua lanadas no fogo. Resumia as patroas na mesma palavra - uma rcua! E 
detestava as boas pelos vexames que sofrera das ms. A ama era para ela o 
inimigo, o tirano. Tinha visto morrer duas - e de cada vez sentira, sem saber 
por qu, um vago alvio, como se uma poro do vasto peso, que a sufocava na 
vida, se tivesse desprendido e evaporado!
Sempre fora invejosa; com a idade aquele sentimento exagerou e de um modo 
spero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a roupa branca 
que vestiam. As noites de soire, de teatro, exasperavam-na. Quando havia 
passeios projetados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das 
senhoras vestidas e de chapu, olhando por dentro da vidraa com um tdio 
infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:
- Ai, minha senhora!  um temporal desfeito!  a cntaros; est para todo o dia! 
Olha o ferro!
E muito curiosa; era fcil encontr-la, de repente, cosida por detrs de uma 
porta com a vassoura a prumo, o olhar aguado. Qualquer carta que vinha era 
revirada, cheirada... Remexia sutilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava 
em todos os papis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor. 
Examinava as visitas. Andava  busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe 
caa um nas mos!
Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de 
sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia 
avidamente as pores cortadas  mesa; e qualquer bom apetite que repetia 
exasperava-a, como uma diminuio da sua parte. De comer sempre os restos 
ganhara o ar agudo - o seu cabelo tomara tons secos, cor de rato. Era 
lambareira: gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta 
ris, e bebia-a s, fechada, repimpada, com estalos da lngua, a orla do vestido 
um pouco erguida, revendo-se no p.
E nunca tivera um homem; era virgem. Fora sempre feia, ningum a tentara; e, por 
orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, no se oferecera, como vira 
muitas, claramente. O nico homem que a olhara com desejo tinha sido um criado 
de cavalaria, atarracado e imundo, de aspecto facnora; a sua magreza, a sua 
cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de 
bitdogue. Causara-lhe horror - mas vaidade. E o primeiro homem por quem ela 
sentira, um criado bonito e alourado, rira-se dela, pusera-lhe o nome de "Isca 
Seca. No contou mais com os homens, por despeito, por desconfiana de si mesma. 
As rebelies da natureza, sufocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas 
faziam-na mais seca; e a falta daquela grande consolao agravava a misria da 
sua vida.
Um dia teve, enfim, uma grande esperana. Entrara para o servio da senhora D. 
Virgnia Lemos, uma viva rica, tia de Jorge, muito doente, quase a morrer com 
um catarro de bexiga. A tia Vitria, a inculcadeira, preveniu-a:
- Tu trata a velha, apaparica-a, que ela o que quer  uma enfermeira que a 
sofra.  rica, no  nada apegada ao dinheiro;  capaz de te deixar uma 
independncia!
Durante um ano Juliana, roda de ambio, foi a enfermeira da velha. Que zelos! 
Que mimos!
Virgnia era muito rabugenta; a idia de morrer enfurecia-a; quanto mais ela 
ralhava com a sua voz gutural, mais Juliana se fazia servial. A velha, por fim, 
estava enternecida, gabava-a s pessoas que a vinham ver, chamava-lhe a sua 
providncia. Tinha-a recomendado muito a Jorge.
- No h outra! No h outra! - exclamava.
- Pois apanhaste - dizia-lhe a tia Vitria. - Pelo menos deixa-te o teu conto de 
ris.
Um conto de ris! Juliana, de noite, enquanto a velha gemia no seu antigo leito 
de pau-santo, via o conto de ris  claridade mrbida que dava a lamparina, 
reluzir em pilhas de ouro inesgotvel e prodigioso. Que faria com o dinheiro? E, 
 cabeceira da doente com um cobertor pelos ombros, os olhos dilatados e fixos, 
planeava: poria uma loja de capelista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras
felicidades: um conto de ris era um dote, poderia casar, teria um homem!
Estavam acabadas as canseiras. ia jantar, enfim, o seu jantar! Mandar, enfim, a 
sua criada! A sua criada! Via-se a cham-la, a dizer-lhe, de cima para baixo: 
Faa, v, despeje, saia!" - Tinha contraes no estmago, de alegria. Havia de 
ser boa ama. Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, ms respostas, no havia 
de sofrer a criadas! - E, impelida por aquelas imaginaes, arrastava sutilmente 
as chinelas pelo quarto, falando s. - No, desmazelos, no havia de Sofrer! 
Mant-las bem, decerto, porque quem trabalha precisa meter para dentro! Mas 
havia de lho tirar do corpo. Ah! L isso, haviam de lhe andar direitas... A 
velha tinha ento um gemido mais aflito.
- " agora!" - pensava. - "Morre!"
E o seu olhar ansioso ia logo para a gaveta da cmoda, onde estava decerto os 
papis. Mas no! A velha queria beber, ou voltar-se...
- Como se sente? - perguntava Juliana, com uma voz plangente. Melhor, Juliana, 
melhor - murmurava.
Supunha-se sempre melhor.
- Mas a senhora tem estado desinquieta! - dizia Juliana, despeitada da melhora.
- No - suspirava - dormi bem!
- Isso no tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer!
Queria argumentar com ela, convenc-la que estava pior! Convencer-se a si mesma 
que o alvio era efmero, que ia morrer depressa! E todas as manhs seguia o Dr. 
Pinto at  porta, com os braos cruzados, a face triste:
- Ento, senhor doutor, no h esperana?
- Est por dias!
Queria saber os dias: dois? cinco?
- Sim, Sra. Juliana - dizia o velho, calando as suas luvas pretas - uns dias, 
sete, oito.
- Oito dias!
E como a felicidade se aproximava, j tinha de olho trs pares de botinas que 
vira na vidraa do Manuel Loureno!
A velha, enfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!
Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados dela com a tia Virgnia, 
pagou-lhe um quarto no hospital, e prometeu tom-la para criada de dentro. A que 
tinha, uma Emlia muito bonita, ia casar.
Quando saiu do hospital para casa de Jorge, comeava a queixar-se mais do 
corao. Vinha desiludida de tudo; tinha s vezes vontade de morrer. Ouviam-se 
todo o dia pela casa os seus ais. Lusa achava-a fnebre.
Quis despedi-la ao fim de duas semanas, Jorge no consentiu; estava em dvida 
com ela, dizia. Mas Lusa no podia disfarar a sua antipatia; - e Juliana 
comeou a detest-la; ps-lhe logo um nome: a "Piorrinha"! Depois, dai a 
semanas, viu vir os estofadores; renovava-se a moblia da sala! A tia Virgnia 
deixara trs contos de ris a Jorge - e ela, ela que durante um ano fora a 
enfermeira, humilde como um co e fixa como uma sombra, aturando o mostrengo, 
tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canseiras! 
Julgava-se vagamente roubada. Comeou a odiar a casa.
Tinha para isso muitas razes, dizia: dormia num cubculo abafado; ao jantar no 
lhe davam vinho, nem sobremesa; o servio dos engomados era pesado; Jorge e 
Lusa tomavam banho todos os dias, e era um trabalho encher, despejar todas as 
manhs as largas bacias de folha; achava despropositada aquela mania de se porem 
a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos e 
nunca vira semelhante despropsito! A nica vantagem - dizia ela  tia Vitria - 
era no haver pequenos; tinha horror a crianas! Alm disso achava que o bairro 
era saudvel; e como tinha a cozinheira "na mo", no  verdade? havia aquele 
regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; 
se no, no era ela!
Fazia no entanto o seu servio; ningum tinha nada que lhe dizer. O olho aberto 
sempre e o ouvido  escuta, j se v! E como perdera a esperana de se 
estabelecer, no se sujeitava ao rigor de economizar; por isso ia-se consolando 
com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vcio - trazer o 
catita. O p era o seu orgulho, a sua mania, a sua despesa. Tinha-o bonito e 
pequenino.
- Como poucos - dizia ela -, no vai outro ao Passeio!
E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lanava-o muito para fora. 
A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Pblico, e ali, com a orla do 
vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de seda, estar a tarde inteira na 
poeira, no calor, imvel, feliz - a mostrar, a expor o p!
CAPTULO IV
Pelas trs horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para uma 
cadeira, derreada. No se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas horas 
que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta na vspera at 
deixara cinza de tabaco por cima das mesas! A negra  que as pagava. E que 
calor! Era de derreter! Uf!
- O caldinho h de estar pronto, hem! - disse, adocicando a voz. - Tira-mo, Sra. 
Joana, faz favor?
- Vossemec hoje est com outra cara - notou a cozinheira.
- Ai! Sinto-me outra, Sra. Joana! Pois olhe que adormeci com dia, j luzia o 
dia!
- E eu! - Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cor de fogo a passear-lhe 
por cima do corpo, e cada pancada na boca do estmago, como quem pisava uvas num 
lagar!
- Enfartamento - disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:
- Pois eu sinto-me outra. H meses que me no sinto to bem!
Sorri com os seus dentes amarelados. O caldo que Joana deitava na malga branca 
com um vapor cheiroso, cheio de hortalia dava-lhe uma alegria gulosa. Estendeu 
os ps, recostou-se, feliz, na boa sensao da tarde quente e luminosa, entrando 
largamente pelas duas janelas abertas.
O sol retirara-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas pobres 
encolhiam a sua folhagem chupada do calor; sobre uma tbua a um canto, numa 
velha panela bojuda, verdejava um p de salsa muito tratado; o gato dormia sobre 
um esteiro; esfreges secavam numa corda; e para alm alargava-se o azul vivo 
como um metal candente, as rvores dos quintais tinham tons ardentes do sol, os 
telhados pardos com as suas vegetaes esguias coziam no
calor e pedaos de paredes caiadas despediam uma rebrilhao dura.
- Est de apetite, Sra. Joana, est de apetite! - dizia Juliana, remexendo o 
caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de p, com os braos cruzados
sobre o seu peito abundante, regozijava-se:
- O que se quer  que esteja a gosto. 
- Est a preceito.
Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras. - E a campainha da porta 
que j tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.
Juliana no se mexeu. Bafos de aragem quente entravam; ouvia-se ferver a panela 
no fogo, e fora o martelar incessante da forja; s vezes o arrulhar triste de 
duas rolas que viviam na varanda, numa gaiola de vime, punha na tarde abrasada 
uma sensao de suavidade.
A campainha retilintou, sacudida com impacincia.
- Com a cabea, burro! - disse Juliana.
Riram. Joana fora sentar-se  janela, numa cadeira baixa; estendia os seus 
grossos ps, calados de chinelas de ourelo; coava-se devagarinho, no sovaco, 
toda repousada. 
A campainha retiniu violentamente.
- Fora, besta! - rosnou Juliana, muito tranqila.
Mas a voz irritada de Lusa chamou debaixo:
- Juliana!
- Que nem uma pessoa pode tomar a sustncia sossegada! Raio de casa! Irra!
- Juliana! - gritou Lusa.
A cozinheira voltou-se, j assustada:
- A senhora zanga-se, Sra. Juliana.
- Que a leve o diabo!
Limpou os beios gordurosos ao avental, desceu furiosa.
- Voc no ouve, mulher? Esto a bater h uma hora!
Juliana arregalou os olhos espantada; Lusa tinha vestido um roupo novo de 
fular cor de castanho, com pintinhas amarelas!
- "Temos novidade! Temo-la grossa!" - pensou Juliana pelo corredor.
A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito, um 
embrulho debaixo do brao, estava o "sujeito do negcio das minas!"
- Aquele sujeito de ontem! - veio dizer, toda pasmada.
- Mande entrar...
- "Viva!" - pensou.
Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de jbilo:
- Est c o peralta de ontem! Est c outra vez! Traz um embrulho! Que lhe 
parece, Sra. Joana? Que lhe parece?
- Visitas... - disse a cozinheira.
Juliana teve um risinho seco. Sentou-se, acabou o seu caldo,  pressa.
Joana indiferente cantarolava pela cozinha, o arrulhar das rolas continuava 
langoroso e dbil.
- Pois, senhores, isto vai rico! - disse Juliana.
Esteve um momento a limpar os dentes com a lngua, o olhar fixo, refletindo. 
Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Lusa; o seu olhar esquadrinhador 
avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da despensa; podia subir, 
beber um trago de bom vinho, engolir dois ladrilhos de marmelada... Mas 
possua-a uma curiosidade urgente, e, em bicos de ps, foi agachar-se  porta 
que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro; podia 
apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor,  
outra porta, ao p da escada; ps o olho  fechadura, colou o ouvido  frincha. 
O reposteiro dentro estava tambm cerrado.
- "Os diabos calafetaram-se!" - pensou.
Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidraa. Os 
olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Lusa sobressaiu; em seguida um silncio; e 
as vozes recomearam num tom sereno e contnuo. De repente o sujeito ergueu a 
fala, e entre as palavras que dizia, de p decerto, passeando, Juliana ouviu 
claramente: "Tu, foste tu!"
- Oh, que bbeda!
Um tilintlim tmido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era Sebastio 
muito vermelho do sol, com as botas cheias de p.
- Est? - perguntou, limpando a testa suada.
- Est com uma visita, Sr. Sebastio!
E cerrando a porta sobre si, mas baixo:
- Um rapaz novo que j c esteve ontem, um janota! Quer que v dizer?
- No, no, obrigado, adeus.
Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se  porta, a orelha contra 
a madeira, as mos atrs das costas; mas a conversao, sem salincia de vozes; 
tinha um rumor tranqilo e indistinto. Subiu  cozinha.
- Tratam-se por tu! - exclamou. - Tratam-se por tu, Sra. Joana! E muito 
excitada:
- Isto vai  vela! Cspite! Assim  que eu gosto delas!
O sujeito saiu s cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta, veio a 
correr; viu Lusa no patamar, debruada no corrimo, dizendo para baixo, com 
muita intimidade:
- Bem, no falto. Adeus.
Ficou ento tomada de uma curiosidade que a alterava como uma febre. Toda a 
tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Lusa com olhares de lado. Mas 
Lusa, com um roupo de linho mais velho, parecia serena, muito indiferente.
- "Que sonsa!"
Aquela naturalidade despertava a sua bisbilhotice.
- "Eu hei de te apanhar, desavergonhada!" - calculava.
Afigurou-se-lhe que Lusa tinha os olhos um pouco pisados. Estudava-lhe as 
posies, os tons de voz. Viu-a repetir o assado - pensou logo:
- "Abriu-lhe o apetite"!
E quando Lusa ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado.
- "Ficou derreada".
Lusa que nunca tomava caf, quis nessa tarde "meia chvena, mas forte, muito 
forte".
- Quer caf! - veio ela dizer  cozinheira, toda excitada. - Tudo  grande. E do 
forte. Quer do forte! Ora o diabo!
Estava furiosa.
- Todas o mesmo! Uma rcua de cabras!
Ao outro dia era domingo. Logo pela manh cedo, quando Juliana ia para a missa, 
Lusa chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a D. Felicidade. 
Ordinariamente mandava um recado; - e a curiosidade de Juliana acendeu-se logo 
diante daquele sobrescrito fechado e lacrado com o sinete de Lusa, um L gtico 
dentro de uma coroa de rosas.
- Tem resposta?
- Tem.
Quando voltou s dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Lusa quis saber se 
havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapu de palha 
escuro, que ela estivera a enfeitar com duas rosas de musgo.
Fazia um bocadinho de vento, mas para a tarde abrandava, decerto. E pensou logo: 
-"Temos passeata, vai ter com o gajo!"
Mas durante todo o dia, Lusa em roupo no saiu do seu quarto ou da sala, ora 
estendida na causeuse lendo aos bocados, ora batendo distraidamente no piano 
pedaos de valsas. Jantou s quatro horas. A cozinheira saiu, e Juliana ps-se a 
passar a sua tarde  janela da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as saias 
muito rijas de goma, a cuia dos dias santos - e pousava solenemente os cotovelos 
num leno, estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os pssaros 
chilreavam na figueira brava. Dos dois lados do tabique que cercava o terreno 
vago, agachavam-se os tetos escuros das duas ruazitas paralelas; eram casas 
pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi, os 
cabelos muito oleosos, faziam meia  janela, falando aos homens, cantarolando 
com um tdio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintais, muros 
brancos davam quele stio um ar adormecido de vila pacata. Quase ningum 
passava. Havia um silncio fatigado; e s s vezes o som distante de um realejo, 
que tocava a Norma ou a Lcia, punha uma melancolia na tarde. - E Juliana ali 
estava imvel at que os tons quentes da tarde empalideciam, e os morcegos 
comeavam a voar.
Pelas oito horas entrou no quarto de Lusa - ficou pasmada de a ver vestida toda 
de preto, de chapu! Tinha acendido as serpentinas na parede, os castiais no 
toucador; e sentada  beira da causeuse calava as luvas devagar, com a face 
muito sria, um pouco esbatida de p-de-arroz, o olhar cheio de brilho.
- O vento abrandou? - disse.
- Est a noite muito bonita, minha senhora.
Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou  porta. Era D. Felicidade, 
muito encalmada. Abafara todo o dia! E  noite nem uma aragem! At tinha mandado 
buscar uma carruagem descoberta, que num cup, credo, morria-se.
Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? Onde iriam? D. 
Felicidade, amplamente sentada, de chapu, tagarelava; uma indigesto que tivera 
na vspera com umas vagens; a cozinheira que a tinha querido comer em quatro 
vintns; uma visita que lhe fizera a Condessa de Arruela...
Enfim, Lusa, disse, baixando o seu vu branco:
- Vamos, filha. Faz-se tarde.
Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que propsito, irem duas mulheres ss 
por a fora, numa tipia! E se uma criada ento se demorava na rua mais meia 
hora, credo, que alarido! Que duas bbedas!
Foi  cozinha desabafar com a Joana. Mas a rapariga, estirada numa cadeira, 
dormitava.
Fora com o seu Pedro ao Alto de So Joo. E toda a tarde tinham passeado no 
cemitrio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epitfios, 
beijocando-se nos recantos que os chores escureciam, e regalando-se do ar dos e 
das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram a um quartilho no 
Espregueira... Tarde cheia! E estava derreada da soalheira, do p, da admirao 
de tanto tmulo rico, do homem, e da pinguita d'vinho.
O que ia, era refestelar-se para a cama!
- Credo, Sra. Joana, vossemec est-se a fazer uma dorminhoca! Olha que mulher! 
Com pouco arreia! Cruzes!
Desceu ao quarto de Lusa, apagou as luzes, abriu as janelas, arrastou a 
poltrona para a varanda - e, repimpada, os braos cruzados, ps-se a passar a 
noite.
O estanque ainda no se fechara, e a sua luzita lgubre como a estanqueira, 
estendia-se tristemente sobre a pedra mida da rua; as janelas ao p estavam 
abertas, por algumas, mal-alumiadas, viam-se dentro seres melanclicos; 
noutras, vultos imveis, luzia s vezes a ponta de um cigarro; aqui, alm 
tossia-se do padeiro; e o moo do padeiro, no silncio quente da noite, 
harpejava baixinho a guitarra.
Juliana pusera um vestido de chita claro; dois sujeitos que estavam  porta 
riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janela, para aquele de mulher: 
Juliana, ento, gozou! Tomavam-na decerto pela senhora, pela do Engenheiro; 
faziam-lhe olho, diziam brejeirices... Um tinha cala branca e chapu alto, eram 
janotas... E com os ps muito estendidos, os braos cruzados, de lado, 
saboreava, longamente, aquela considerao.
Passos fortes que subiam a rua, pararam  porta; a campainha retiniu de leve
- Quem ? - perguntou muito impaciente.
- Est? - disse a voz grossa de Sebastio.
- Saiu com a D. Felicidade; foram de carruagem.
- Ah! - fez ele. 
E acrescentou:
- Muito bonita noite!
- De apetite, Sr. Sebastio! De apetite! - exclamou alto.
E quando o viu descer a rua, gritou, afetadamente:
- Recados a Joana! No se esquea! - mostrando-se ntima, madama, com olho terno 
para os homens.
Aquela hora D. Felicidade e Lusa chegavam ao Passeio.
Era benefcio; j de fora se sentia o brua lento e montono, e via-se uma nvoa 
alta de poeira, amarelada e luminosa.
Entraram. Logo ao p do tanque encontraram Baslio. Fez-se muito surpreendido, 
exclamou:
- Que feliz acaso!
Lusa corou; apresentou-o a D. Felicidade.
A excelente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se dele, mas se no lhe 
dissessem talvez o no conhecesse! Estava muito mudado!
- Os trabalhos, minha senhora... - disse Baslio curvando-se. E acrescentou 
rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:
- E a velhice! Sobretudo a velhice!
Na gua escura e suja as luzes do gs torciam-se at uma grande profundidade. As 
folhagens em redor estavam imveis, no ar parado, com tons de um verde lvido e 
artificial. Entre os dois longos renques paralelos de rvores mesquinhas, 
entremeadas de candeeiros de gs, apertava-se, num empoeiramento de macadame, 
uma multido compacta e escura; e atravs do rumor grosso, as salincias 
metlicas da msica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.
Tinham ficado parados, conversando.
- Que calor, hem? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! Que enchente!
E olhavam a gente que entrava: moos muito frisados, com calas cor de flor de 
alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a 
cinta espartilhada e o peito enchumaado; duas meninas de cabelo riado, de 
movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do 
vestido atabalhoado; um eclesistico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca, 
e lunetas defumadas; uma espanhola com dois metros de saia branca muito rija, 
fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaqueto e 
bengalo, de chapu na nuca, o olho avinhado; e Baslio ria muito de dois 
pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado - vestidos de 
azul-claro, a cinta ligada numa faixa escarlate, barretinas de lanceiros, botas 
 hngara, cretinos e sonmbulos.
Um sujeito alto ento passou rente deles, e voltando-se, revirou para Lusa dois 
grandes olhos langorosos e prateados; tinha uma pra longa e aguada; trazia o 
colete decotado mostrando um belo peitilho, e fumava por uma boquilha enorme que 
representava um zuavo.
Lusa quis-se sentar.
Um garoto de blusa, sujo como um esfrego, correu a arranjar cadeiras; e 
acomodaram-se ao p de uma famlia acabrunhada e taciturna.
- Que fizeste tu hoje, Baslio? - perguntou Lusa.
Tinha ido aos touros.
- E que tal? Gostaste?
- Uma sensaboria. Se no fosse pelo trambolho do Peixinho tinha-se morrido de 
pasmaceira. Gado fraco, cavaleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Espanha! 
Isso sim!
D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera 
de visita em Elvas  tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as 
tripas dos cavalos... "Puh! E muito cruel!"
Baslio disse, com um sorriso:
- Que faria se visse os combates de galos, minha senhora!
D. Felicidade tinha ouvido contar - mas achava todos esses divertimentos 
brbaros, contra a Religio.
E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:
- Para mim no h nada como uma boa noite de teatro! Nada!
- Mas aqui representam to mal! - replicou Baslio com uma voz desolada. - To 
mal, minha rica senhora!
D. Felicidade no respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado de um 
brilho mido, saudava desesperadamente com a mo:
- No me viu - disse desconsolada.
- Era o Conselheiro? - perguntou Lusa.
- No. Era a Condessa de Alviela. No me viu! Vai muito  Encarnao, sou muito 
dela.  um anjo! No me viu. Ia com o sogro.
Baslio no tirava os olhos de Lusa. Sob o vu branco,  luz falsa do gs, no 
ar enevoado da poeira, o seu rosto tinha uma forma alva e suave, onde os olhos 
que a noite escurecia punham uma expresso apaixonada; os cabelinhos louros, 
frisados tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graa ameninada e amorosa; 
e as luvas gris perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante 
das mos, que ela pousara no regao, sustentando o leque, com uma fofa renda 
branca em torno dos seus pulsos finos.
- E tu, que fizeste hoje? - perguntou-lhe Baslio.
Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a ler.
Tambm ele passara a manh deitado no sof a ler a Mulher de Fogo de Belot. 
Tinha lido, ela?
- No, que ?
-  um romance, uma novidade.
E acrescentou sorrindo:
- Talvez um pouco picante; no to aconselho!
D. Felicidade andava a ler o Rocambole. Tanto lho tinham apregoado! Mas era uma 
tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque tinha 
percebido que a leitura lhe aumentava a indigesto.
- Sofre? - perguntou Baslio, com um interesse bem-educado.
D. Felicidade contou logo a sua dispepsia. Baslio aconselhou-lhe o uso do gelo. 
- De resto felicitava-a, porque as doenas de estmago, ultimamente, tinham 
muito chique. Interessou-se pela dela, pediu pormenores.
D. Felicidade prodigalizou-os; e falando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a 
sua simpatia por Baslio. Havia de usar o gelo!
- Com o vinho, j se sabe?
- Com o vinho, minha senhora!
- E olha que talvez! - exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no brao de 
Lusa, j esperanada.
Lusa sorriu, ia responder - mas viu o sujeito plido de pra longa que fitava 
nela os seus olhos langorosos, com obstinao. Voltou o rosto importunada. O 
sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pra.
Lusa sentia-se mole; o movimento rumoroso e montono, a noite clida, a 
acumulao da gente, a sensao de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher 
caseira um torpor agradvel, um bem-estar de inrcia, envolviam-na numa doura 
emoliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quase 
tinha preguia de mexer as mos, de abrir o leque.
Baslio notou o silncio. - Tinha sono?
D. Felicidade sorriu com finura.
- Ora, v-se sem o seu maridinho! Desde que o no tem est esta mona que se v.
Lusa respondeu, olhando Baslio instintivamente:
- Que tolice! At estes dias tenho andado bem alegre!
Mas D. Felicidade insistia:
- Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraozinho est no Alentejo!
Lusa disse, com impacincia:
- No hs de querer que me ponha aos pulos e s gargalhadas no Passeio.
- Est bem, no te enfureas! - exclamou D. Felicidade. E para Baslio:
- Que geniozinho, hem!
Baslio ps-se a rir.
- A prima Lusa antigamente era uma vbora. Agora no sei...
D. Felicidade acudiu:
-  uma pomba, coitada,  uma pomba! No, l isso,  uma pomba.
E envolvia-a num olhar maternal.
Mas a famlia taciturna ergueu-se, sem rudo - e as meninas adiante, os pais 
atrs, afastaram-se lugubremente, sucumbidos.
Baslio imediatamente apossou-se da cadeira ao p de Lusa - e vendo D. 
Felicidade a olhar distrada:
- Estive para te ir ver de manh - disse baixinho a Lusa.
Ela ergueu a voz, muito naturalmente, com indiferena:
- E por que no foste? Tnhamos feito msica. Fizeste mal. Devias ter ido...
D. Felicidade quis ento saber as horas. Comeava a enfastiar-se. Tinha esperado 
encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifcio de 
se apertar! Accio no vinha, os gases comeavam a afront-la; e o despeito 
daquela ausncia aumentava-lhe a tortura da digesto. Na sua cadeira, o corpo 
mole, ia seguindo a multido que girava incessantemente, numa nvoa empoeirada.
Mas a msica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande rudo de cobres, os 
primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.
Era pot-pourri da pera - e no havia msica de que gostasse mais. Estaria para 
a abertura de So Carlos, o Sr. Baslio?
Baslio disse, com uma inteno, voltando-se para Lusa:
- No sei, minha senhora, depende...
Lusa olhava, calada. A multido crescera. Nas ruas laterais mais espaosas, 
frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das rvores, os acanhados, as pessoas 
de luto, os que tinham o fato coado. Toda a burguesia domingueira viera 
amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pelas filas cerradas das 
cadeiras do asilo; e ali se movia entalada, com a lentido espessa de uma massa 
derretida, arrastando os ps, raspando o macadame, num amarfanhamento a garganta 
seca, os braos moles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente para cima e 
para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso sem alegria e sem 
bonomia, no arrebanhamento passivo que agrada s raas mandrionas; no meio da 
abundncia das luzes e das festividades da msica, um tdio morno circulava, 
penetrava como uma nvoa; a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom 
neutro; e nos rostos que passavam sob os candeeiros, nas zonas mais diretas de 
luz, viam-se desconsolaes de fadiga e aborrecimento de dia santo.
Defronte as casas da Rua Ocidental tinham na sua fachada o reflexo claro das 
luzes do Passeio; algumas janelas estavam abertas, as cortinas de fazenda 
escuras destacavam sobre a claridade interior dos candeeiros. Lusa sentia como 
uma saudade de outras noites de vero, de seres recolhidos. Onde? No se 
lembrava. O movimento ento retraa-a; e encontrava em face, fitando-a numa 
atitude lgubre, o sujeito de pra longa. Debaixo do vu sentia a poeira 
arder-lhe nos olhos; em redor dela gente bocejava.
D. Felicidade props uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas 
das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz 
do gs dava o mesmo tom amarelado olhavam de um modo fixo e cansado, num 
abatimento de pasmaceira. Aquele aspecto irritou Baslio, e como era difcil 
andar lembrou - "que se fossem daquela sensaboria".
Saram. Enquanto ele ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quase 
cair num banco sob a folhagem de um choro, exclamou aflita:
- Ai, filha! Estou que arrebento!
Passava a mo no estmago; tinha a face envelhecida.
- E o Conselheiro, que me dizes? Olha que j  pouca sorte! Hoje que eu vim ao 
Passeio...
Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
-  muito simptico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. Que eles 
conhecem-se, filha!
Declarou-se muito fatigada, apenas saram o porto. Era melhor tomarem um trem.
Baslio achava prefervel subirem a p at ao Largo do Loreto. A noite estava 
to agradvel! E o andar fazia bem  senhora D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, falou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a 
frialdade; Lusa tinha vergonha. Pelas portas do caf abertas, viam-se sobre as 
mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivduo, de cala branca, tomava 
placidamente o seu sorvete de morango.
No Rossio, sob as rvores, passeava-se; pelos bancos, gente imvel parecia 
dormitar; aqui e alm pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o 
chapu na mo, abanando-se, o colete desabotoado; a cada canto se apregoava gua 
fresca "do Arsenal"; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam 
vagarosamente. O cu abafava - e na noite escura, a coluna da esttua de D. 
Pedro tinha o tom bao e plido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Baslio, ao p de Lusa, ia calado. "Que horror de cidade!" - pensava. -"Que 
tristeza!" E lembrava-lhe Paris, de vero; subia,  noite, no seu faton, os 
Campos Elsios devagar; centenares de vitrias descem, sobem rapidamente, com um 
trote discreto e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento 
jovial de pontos de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas 
almofadas, balanadas nas molas macias; o ar em redor tem uma doura aveludada, 
e os castanheiros espalham um aroma sutil. Dos dois lados, dentre os arvoredos, 
saltam as claridades violentas dos cafs cantantes, cheios do brua das 
multides alegres, dos brios impulsivos das orquestras, os restaurantes 
flamejam; h uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para alm, sai das 
janelas dos palacetes, atravs dos estores de seda, a luz sbria e velada das 
existncias ricas. Ah! Se l estivesse! - Mas ao passar junto dos candeeiros 
olhava de lado para Lusa; o seu perfil fino sob o vu branco tinha uma grande 
doura; o vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma 
lassido que lhe quebrava a linha da cinta de um modo lnguido e prometedor.
Veio-lhe uma certa idia, comeou a dizer: Que pena que no houvesse em toda a 
Lisboa um restaurante, onde se pudesse ir tomar uma asa de perdiz e beber uma 
garrafa de champanhe frappe!
Lusa no respondeu. Devia ser delicioso - pensava. - Mas D. Felicidade 
exclamou:
- Perdiz, a esta hora!
- Perdiz ou outra qualquer coisa.
Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
Subiam pela Rua Nova do Carmo. Os candeeiros davam uma luz mortia; as altas 
casas dos dois lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha 
muito armada, descia passo a passo, sem rudo, sinistra e sutil.
Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria; a sua 
voz aguda e chorosa prometia a fortuna, muitos contos de ris. D. Felicidade 
ainda parou, com uma tentao... Mas uma troa de rapazes bbedos que descia de 
chapu na nuca, falando alto, aos tropees, assustou muito as duas. Lusa 
encolheu-se logo contra Baslio; D. Felicidade enfiada agarrou-lhe ansiosamente 
o brao, quis-se meter numa carruagem; e at ao Loreto foi explicando o seu medo 
aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem largar o brao 
de Baslio. Da fileira de tipias, ao lado das grades da Praa de Cames, um 
cocheiro lanou logo a sua caleche descoberta, de p na almofada apanhando 
confusamente as rdeas, com grandes chicotadas na parelha, excitado, gritando:
- Pronto, meu amo, pronto!
Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem ento passou, rondou - e 
Lusa desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pra.
Entraram para a caleche. Lusa ainda se voltou para ver Baslio imvel no largo, 
com o seu chapu na mo; depois acomodou-se, ps os pezinhos no outro assento e 
balanada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de So 
Roque, as rvores de So Pedro de Alcntara, as fachadas estreitas do Moinho de 
Vento, os jardins adormecidos da Patriarcal. A noite estava imvel, de um calor 
mole, e desejava, sem saber por que, rolar assim sempre, infinitamente, entre 
ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem 
cuidados, para alguma coisa de feliz que no distinguia bem! Um grupo defronte 
da Escola ia tocando o Fado do Vimioso; aqueles sons entraram-lhe na alma como 
um vento doce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas, 
suspirou baixo.
- Um suspirozinho que vai para o Alentejo - disse D. Felicidade, tocando-lhe no 
brao.
Lusa sentiu todo o sangue abrasar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou 
em casa.
Juliana veio alumiar. - O ch estava pronto, quando a senhora quisesse...
Lusa subiu da a pouco com um largo roupo branco, muito fatigada; na voltaire; 
sentia vir-lhe uma sonolncia; a cabea pendia-lhe; cerravas as plpebras... E 
Juliana tardava tanto com o ch! Chamou-a. Onde estava? Credo!
Tinha descido, p ante p, ao quarto de Lusa. E a tomando o vestido, as saias 
engomadas que ela despira e atirara para cima da causeuse, desdobrou-as, 
examinou-as, e com uma certa idia, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo 
lavado e quente, com uma pontinha de suor e de gua-de-colnia. Quando a sentiu 
chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo. - Fora abaixo dar uma 
arrumadela. Era o ch? Estava pronto...
E entrando com as torradas:
- Veio a o Sr. Sebastio, haviam de ser nove horas...
- Que lhe disse?
- Que a senhora tinha sado com a senhora D. Felicidade. Como no sabia, no 
disse para onde.
E acrescentou:
- Esteve a conversar comigo, o Sr. Sebastio... Esteve a conversar mais de meia 
hora!...
Lusa recebeu, na manh seguinte, da parte de Sebastio, um ramo de rosas, 
magenta-escuro, magnficas. Cultivava-as ele na quinta de Almada, e chamavam-se 
rosas D. Sebastio. Mandou-as pr nos vasos da sala; e como o dia estava 
encoberto, de um calor baixo e sufocante:
- Olhe - disse a Juliana - abra as janelas.
- "Bem" - pensou Juliana - "temos c o melro."
O melro veio com efeito s trs horas. Lusa estava na sala, ao piano.
- Est ali o sujeito do costume - foi dizer Juliana.
Lusa voltou-se corada, escandalizada da expresso:
- Ah! Meu primo Baslio? Mande entrar.
E chamando-a:
- Oua, se vier o Sr. Sebastio, ou algum, que entre.
Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o 
interesse picante. A sua malcia cheia, enfunada at a, caiu, engelhou-se como 
uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
Subiu  cozinha, devagar - lograda.
- Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal peralta  primo. Diz que  o primo 
Baslio.
E com um risinho:
-  o Baslio! Ora o Baslio! Sai-nos primo  ltima hora! O diabo tem graa!
- Ento que havia de o homem ser seno parente? - observou Joana.
Juliana no respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga 
de roupa para passar! E sentou-se  janela, esperando. O cu baixo e pardo 
pesava, carregado de eletricidade; s vezes uma aragem sbita e fina punha nas 
folhagens dos quintais um arrepio trmulo.
- " o primo!" - refletia ela. - "E s vem ento quando o marido se vai. Boa! E 
fica-se toda no ar quando ele sai; e  roupa branca e mais roupa branca, e 
roupo novo, e tipia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bbeda! Tudo 
fica na famlia!"
Os olhos luziam-lhe. J se no sentia to lograda. Havia ali muito "para ver e 
escutar". E o ferro, estava pronto?
Mas a campainha embaixo, tocou.
- Boa! Isto agora  um fadrio! Estamos na casa do despacho!
Desceu; e exclamou logo, vendo Julio com um livro debaixo do brao:
- Faz favor de entrar, Sr. Julio! A senhora est com o primo, mas diz que 
mandasse entrar!
Abriu a porta da sala bruscamente, de surpresa.
- Est aqui o Sr. Julio - disse com satisfao.
Lusa apresentou os dois homens.
Baslio ergueu-se do sof languidamente, e, num relance, percorreu Julio desde 
a cabeleira desleixada at s botas malengraxadas, com um olhar quase 
horrorizado.
- "Que pulha!" - pensou.
Lusa, muito fina, percebeu, e corou, envergonhada de Julio.
Aquele homem de colarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto 
malfeito - que idia daria a Baslio das relaes, dos amigos da casa! Sentia j 
o seu chique diminudo. E instintivamente, a sua fisionomia tornou-se muito 
reservada - como se semelhante visita a surpreendesse! Semelhante toalete a 
indignasse!
Julio percebeu o constrangimento dela; disse, j embaraado, ajeitando a 
luneta:
- Passei por aqui por acaso, entrei a saber se h algumas notcias de Jorge...
- Obrigada. Sim, tem escrito. Est bem...
Baslio, recostado no sof, como um parente intimo, examinava a sua meia de seda 
bordada de estrelinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, 
arrebitando um pouco o dedo mnimo - onde brilhavam, em dois grossos anis de 
ouro, uma safira e um rubi.
A afetao da atitude, o reluzir das jias irritaram Julio.
Quis mostrar tambm a sua intimidade, os seus direitos; disse:
- Eu no tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito 
ocupado...
Lusa acudiu para desautorizar logo aquela familiaridade:
- Eu tambm no me tenho achado bem. No tenho recebido ningum - a o ser meu 
primo, naturalmente!
Julio sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpresa, de indignao, - a 
balanar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a cala era curta, 
via-se quase o elstico esfiado das botas velhas.
Houve um silncio difcil.
- Bonitas rosas! - disse enfim Baslio, preguiosamente.
- Muito bonitas! - respondeu Lusa.
Estava agora compadecida de Julio; procurava uma palavra; disse-lhe enfim muito 
precipitadamente:
- E que calor!  de morrer! Tem havido muitas doenas?
- Colerinas - respondeu Julio. - Por causa das frutas. Doenas de ventre.
Lusa baixou os olhos. Baslio ento comeou a falar da Viscondessinha de 
Azeias; tinha-a achado acabada; e que era feito da irm, da grande?
Aquela conversao sobre fidalgas que ele no conhecia isolava mais Julio; 
sentia o suor umedecer-lhe o pescoo; procurava um dito, uma ironia, uma 
agudeza; e maquinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarela.
-  algum romance? - perguntou-lhe Lusa.
- No.  o tratado do Dr. Lee sobre doenas do tero.
Lusa fez-se escarlate; Julio tambm, furioso da palavra que lhe escapara. E 
Baslio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Rafaela Grij, que 
costumava ir  Rua da Madalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago...
- Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
- Com o gago?
- Sim. Tem um filhito dele, gago tambm.
- Que conversao, em famlia! E a D. Eugnia, a de Braga?
Juilo, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta seca:
- Estou com pressa, no me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus 
recados, hem?
Abaixou bruscamente a cabea a Baslio. Mas no achava o chapu; tinha rolado 
para debaixo de uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente 
contra a porta fechada, e saiu enfim desesperado, desejando vingar-se, odiando 
Lusa, Jorge, o luxo, a vida - trasbordando agora de ironias, de ditos, de 
rplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola... E no lhe acudira nada!
Mas apenas ele tinha fechado a cancela, Baslio ps-se de p, e cruzando os 
braos:
- Quem  esse pulha?
Lusa corou muito; balbuciou:
-  um rapaz mdico...
-  uma criatura impossvel,  uma espcie de estudante.
- Coitado, no tem muitos meios...
Mas no era necessrio ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! No 
devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava dele, 
que o recebesse no escritrio!...
Passeava pela sala, excitado, com as mos nos bolsos, fazendo tilintar o 
dinheiro e as chaves.
- So frescos os amigos da casa!... - continuou. - Que diabo! Tu no foste 
educada assim. Nunca tiveste gente deste gnero na Rua da Madalena.
No tivera; e pareceu-lhe que as ligaes do casamento lhe tinham trazido um 
pouco o plebesmo das convivncias. Mas um respeito pelas opinies, pelas de 
Jorge fez-lhe dizer:
- Diz que tem muito talento...
- Era melhor que tivesse botas.
Lusa, por cobardia, concordou.
- Tambm o acho esquisito! - disse.
- Horrvel, minha filha!
Aquela palavra fez-lhe bater o corao. Era assim que ele lhe chamava, houve um 
momento de silncio; e a campainha da porta retiniu fortemente.
Lusa ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastio! Baslio ach-lo-ia ainda mais 
reles. Mas Juliana veio dizer:
- O Sr Conselheiro. Mando entrar? 
- Decerto - exclamou.
E a alta figura de Accio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpaca 
deitadas para trs, a cala branca muito engomada caindo sobre os sapatos de 
entrada baixa, de lao.
Apenas Lusa lhe apresentou o primo Baslio, disse logo, respeitoso:
- J sabia que Vossa Excelncia tinha chegado; vi-o nas interessantes notcias 
do nosso high life. E do nosso Jorge?
Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...
Baslio, mais amvel, deixou cair:
- Eu realmente no tenho a menor idia do que se possa fazer em Beja. Deve ser 
horroroso!
O Conselheiro, passando sobre o bigode a sua mo branca onde destacava o anel de 
armas, observou:
-  todavia a capital do distrito!
Mas se j em Lisboa se no podia fazer nada, e era a capital do reino! - E 
Baslio repuxava, todo recostado, o punho da camisa. - Morria-se positivamente 
de pasmaceira.
Lusa, muito contente da afabilidade de Baslio, ps-se a rir:
- No digas isso diante do Conselheiro.  um grande admirador de Lisboa.
Accio curvou-se:
- Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.
E com muita bonomia:
- Conheo porm que no  para comparar aos Parises, s Londres, s Madris...
- Decerto - fez Lusa.
O Conselheiro continuou com pompa:
- Lisboa porm tem belezas sem igual! A entrada ao que me dizem (eu nunca entrei 
a barra)  um panorama grandioso, rival das Constantinoplas e das Npoles. Digno 
da pena de um Garrett ou de um Lamartine! Prprio para inspirar um grande 
engenho!...
Lusa, receando citaes ou apreciaes literrias, interrompeu-o; perguntou-lhe 
o que tinha feito. Tinham estado domingo no Passeio, ela e D. Felicidade; tinham 
esperado v-lo, e nada!
Nunca ia ao Passeio, ao domingo - declarou. - Reconhecia que era muito 
agradvel, mas a multido entontecia-o. Tinha notado - e a sua voz tomou o tom 
espaado de uma revelao - tinha notado que muita gente, num local, causa 
vertigens aos homens de estudo. De resto queixou-se da sua sade e do peso dos 
seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as guas de Vichy.
- Podes fumar - disse Lusa de repente, sorrindo, a Baslio. - Queres lume?
Ela mesma lhe foi buscar um fsforo, toda ligeira, feliz. Tinha um vestido 
claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabelos pareciam mais 
louros, a sua pele mais fina.
Baslio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
- O Passeio ao domingo  simplesmente idiota!...
O Conselheiro refletiu e respondeu:
- No serei to severo, Sr. Brito! - Mas parecia-lhe que com efeito antigamente 
era uma diverso mais agradvel. - Em primeiro lugar - exclamou com muita 
convico, endireitando-se - nada, mas nada, absolutamente nada pode substituir 
a charanga da Armada! - Alm disso havia a questo dos preos... Ah! Tinha 
estudado muito o assunto! Os preos diminutos favoreciam a aglomerao das 
classes subalternas... Que longe do seu pensamento lanar desdouro nessa parte 
da populao... As suas idias liberais eram bem conhecidas. - Apelo para a 
senhora D. Lusa! - disse. - Mas enfim, sempre era mais agradvel encontrar uma 
roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez no acreditassem, mas 
nem mesmo quando havia fogo de vistas! Nesses dias, sim, ia ver por fora das 
grades. No por economia! Decerto no. No era rico, mas podia fazer face a essa 
contribuio diminuta. Mas  que receava os acidentes!  que os receava muito! 
Contou a histria de um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de 
foguete furara o crnio. - E alm disso nada mais fcil que cair uma fagulha 
acesa na cara, num palet novo... -  conveniente ter prudncia - resumiu, 
compenetrado, limpando os beios com o leno de seda da ndia muito enrolado.
Falaram ento da estao; muita gente fora para Sintra; de resto, Lisboa no 
vero era to secante!... E o Conselheiro declarou que Lisboa s era imponente 
verdadeiramente imponente, quando estavam abertas as cmaras e So Carlos!
- Que estavas tu a tocar quando eu entrei? - perguntou Baslio.
O Conselheiro acudiu logo:
- Se estavam fazendo msica, por quem so... Sou um velho assinante de So 
Carlos, h dezoito anos...
Baslio interrompeu-o:
- Toca?
- Toquei. No o oculto. Em rapaz fui dado  flauta. E acrescentou, com um gesto 
benvolo:
- Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Lusa?
- No! Uma msica muito conhecida, j antiga; a Filha do pescador, de Meyerbeer. 
Tenho a letra traduzida.
Tinha cerrado as vidraas, sentara-se ao piano.
O Sebastio  que toca isto bem, no  verdade, Conselheiro?
- O nosso Sebastio - disse o Conselheiro com autoridade -  um rival dos 
Thalbergs e dos Liszts. Conhece o nosso Sebastio? - perguntou a Baslio.
- No, no conheo.
- Uma prola!
Baslio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
Tu ainda cantas? - perguntou4he Lusa, sorrindo.
- Quando estou s.
Mas o Conselheiro pediu-lhe logo "um trecho". Baslio ria. Tinha medo de 
escandalizar um velho assinante de So Carlos...
O Conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
- Coragem Sr. Brito, coragem! Lusa ento preludiou.
E Baslio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de bartono; as suas notas 
altas faziam a sala sonora. O Conselheiro, direito na poltrona escutava 
concentrado; a sua testa, franzida num vinco, parecia curvar-se sob uma 
responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos 
escuros, naquela fisionomia de calvo, que o calor tornava mais plida.
Baslio dizia com uma melancolia grave a primeira frase, to larga, da cano:
- Igual ao mar sombrio 
Meu corao profundo...
Um poeta, com uma dedicao obscura, traduzira a letra no Almanaque das 
Senhoras; Lusa pela sua prpria mo a tinha copiado nas entrelinhas da msica. 
E Baslio debruado sobre o papel sempre torcendo as pontas do bigode:
- Tem tempestades, cleras, 
Mas prolas no fundo!
Os olhos largos de Lusa afirmavam-se para a msica - ou a espaos, com um 
movimento rpido, erguiam-se para Baslio. Quando, na nota final, prolongada 
como a reclamao de um amor suplicante, Baslio soltou a voz de um modo 
apelativo:
- Vem! Vem 
Pousar,  doce amada, 
Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se nela com uma significao de tanto desejo que o peito 
de Lusa arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O Conselheiro bateu as palmas.
- Uma voz admirvel! - exclamava. - Uma voz admirvel!
Baslio dizia-se envergonhado.
- No, senhor, no, senhor! - protestou Accio, levantando-se. - Um excelente 
rgo! Direi, o melhor rgo da nossa sociedade!
Baslio riu. Uma vez que tinha sucesso, ento ia dizer-lhes uma modinha 
brasileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia 
muito balanada, de um embalado tropical cantou:
- Sou negrinha, mas meu peito 
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
- Isto fazia furor nas reunies da Bahia quando eu parti.
Era a histria de uma "negrinha" nascida na roa, e que contava, com lirismos de 
almanaque, a sua paixo por um feitor branco.
Baslio parodiava o tom sentimental de alguma menina baiana; e a sua voz tinha 
uma preciosidade cmica, quando dizia o ritornelo choroso:
- E a negra pra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.
O Conselheiro achou "delicioso"; e, de p na sala, lamentou a propsito da 
cantiga a condio dos escravos. Que lhe afirmavam amigos do Brasil que os 
negros eram muito bem tratados. Mas enfim a civilizao era a civilizao! E a 
escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiana no imperador...
- Monarca de rara ilustrao... - acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapu, e colando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que 
- havia muito tempo no tinha passado uma manh to completa. De resto nada 
havia como a boa conversao e a boa msica...
- Onde est Vossa Excelncia alojado, Sr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que no se incomodasse! Estava no Hotel Central. 
No havia consideraes que o impedissem de cumprir o seu dever - Cumpri-lo-ia! 
Ele era uma pessoa intil, a senhora D. Lusa bem o sabia - Mas se necessitar 
alguma coisa, uma informao, uma apresentao nas regies oficiais, licenas 
para visitar algum estabelecimento pblico, creia que me tem s suas ordens!
E conservando na sua mo a mo de Baslio:
- Rua do Ferregial de Cima, nmero trs, terceiro. O modesto tugrio de um 
eremita.
Tomou a curvar-se diante de Lusa:
- E quando escrever ao nosso viajante, que fao sinceros votos pela prosperidade 
dos seus empreendimentos. Por quem ! Criado de Vossa Excelncia. E direito, 
grave, saiu.
- Este ao menos  limpo - resmungou Baslio, com o charuto ao canto da boca.
Sentara-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Lusa aproximou-se:
- Canta alguma coisa, Baslio!
Baslio ps-se ento a olhar muito para ela.
Lusa corou, sorriu; atravs da fazenda clara e transparente do vestido, 
entrevia-se a brancura macia e lctea do colo e dos braos; e nos seus olhos, na 
cor quente do rosto havia uma animao e como uma vitalidade amorosa.
Baslio disse-lhe, baixo:
- Ests hoje nos teus dias felizes, Lusa.
O olhar dele, to vido, perturbava-a; insistiu:
- Canta alguma coisa.
O seu seio arfava.
- Canta tu - murmurou Baslio.
E devagarinho, tomou-lhe a mo. As duas palmas um pouco midas, um pouco 
trmulas, uniram-se.
A campainha, fora, tocou. Lusa desprendeu a mo, bruscamente. 
-  algum - disse agitada.
Vozes baixas falavam  cancela.
Baslio teve um movimento de ombros contrariado; foi buscar o chapu.
- Vais-te? - exclamou ela toda desconsolada. 
- Pudera! No posso estar s contigo um momento!
A cancela fechou-se com rudo. No  ningum, foi-se - disse Lusa.
Estavam de p, no meio da sala.
- No te vs! Baslio!
Os seus olhos profundos tinham uma suplicao doce. Baslio pousou o chapu 
sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
- E para que queres tu estar s comigo? - disse ela. - Que tem que venha gente? 
- E arrependeu-se logo daquelas palavras.
Mas Baslio, com um movimento brusco, passou-lhe o brao sobre os ombros, 
prendeu-lhe a cabea, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente.
Ela soltou-se a tremer, escarlate.
- Perdoa-me - exclamou ele logo, com um mpeto apaixonado. - Perdoa-me. Foi sem 
pensar. Mas  porque te adoro, Lusa!
Tomou-lhe as mos com domnio, quase com direito.
- No. Hs de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a ver estou doido por 
ti, como dantes, a mesma coisa. Nunca deixei de me morrer por ti. Mas no tinha 
fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica, feliz. No te podia levar para o 
Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu imaginas l o que aquilo ! Foi por isso que 
te escrevi aquela carta, mas o que eu sofri, as lgrimas que chorei!
Lusa escutava-o imvel, a cabea baixa, o olhar esquecido; aquela voz quente e 
forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mos de Baslio 
penetravam com o seu calor febril a substncia das suas; e, tomada de uma 
lassido, sentia-se como adormecer.
- Fala, responde! - disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as mos, procurando o 
seu olhar avidamente.
- Que queres que te diga? - murmurou ela.
A sua voz tinha um tom abstrato, mal-acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
- Falemos noutras coisas!
Ele balbuciava com os braos estendidos:
- Lusa! Lusa!
- No, Baslio, no!
E na sua voz havia o arrastado de uma lamentao, com a moleza de uma carcia.
Ele ento no hesitou, prendeu-a nos braos.
Lusa ficou inerte, os beios brancos, os olhos cerrados - e Baslio, 
pousando-lhe a mo sobre a testa, inclinou-lhe a cabea para trs, beijou-lhe as 
plpebras devagar, a face, os lbios depois muito profundamente; os beios dela 
entreabriram-se; os seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou o 
rosto, exclamou aflita:
- Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma fora nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as mos 
abertas pela testa, pelos cabelos:
- Oh meu Deus!  horrvel! - murmurou. - Deixa-me!  horrvel!
Ele adiantava-se com os dentes cerrados; mas Lusa recuava, dizia:
Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
Ele ento tranqilizou-a com a voz subitamente serena e humilde. No percebia. 
Por que se zangava? Que tinha um beijo? Ele no pedia mais. Que tinha ela 
imaginado, ento? Adorava-a, decerto, mas puramente.
- Juro-to! - disse com fora, batendo no peito.
F-la sentar no sof, sentou-se ao p dela. Falou-lhe muito sensatamente: - Via 
as circunstncias, e resignar-se-ia. Seria como uma amizade de irmos, nada 
mais.
Ela escutava-o, esquecida.
Decerto, dizia ele, aquela paixo era uma tortura imensa. Mas era forte, a S 
queria vir v-la, falar-lhe. Seria um sentimento ideal. - E os seus 
devoraram-na.
Voltou-lhe a mo, curvou-se, ps-lhe um beijo cheio na palma. Ela estremeceu-se 
logo:
- No! Vai-te! 
- Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a seda do 
chapu.
- Bem, adeus - repetiu melancolicamente.
- Adeus
Baslio disse ento com muita ternura:
- Ests zangada?
- No!
- Escuta - murmurou, adiantando-se.
Lusa bateu com o p.
- Oh, que homem! Deixa-me! Amanh. Adeus. Vai-te! Amanh!
- Amanh! - disse ele, baixinho.
E saiu rapidamente.
Lusa entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho ficou 
surpreendida: nunca se vira to linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca num gaveto do guarda-vestidos. Quem tocou h 
bocado? - perguntou Lusa.
- Foi o Sr. Sebastio. No quis entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com efeito, que voltava. Mas comeava quase a envergonhar-se de vir 
assim todos os dias, e encontr-la sempre "com uma visita!"
Logo no primeiro dia ficara muito surpreendido quando Juliana lhe disse:
- Um sujeito! Um rapaz novo que j c esteve ontem!" Quem seria? todos os amigos 
da casa... Seria algum empregado da secretaria ou algum proprietrio de minas, o 
filho do Alonso, talvez; um negcio de Jorge decerto...
Depois no domingo,  noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta, de 
Gounod, que ela desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda que 
tinha sado com D. Felicidade de carruagem, ficou muito embaraado com o grosso 
volume debaixo do brao, coando devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do 
entusiasmo de D. Felicidade pelo Teatro de D. Maria. Mas irem ss, naquele calor 
de julho, ao teatro! Enfim, era possvel. Foi a D. Maria.
O teatro, quase vazio, estava lgubre; aqui e alm, nalgum camarote, uma famlia 
feia perfilava-se, com cabelos negrssimos carregados de postios, gozando 
soturnamente a sua noite de domingo; na platia,  larga nas bancadas vazias, 
pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam com um ar encalmado e farto, 
limpando a espaos, com lenos de seda, o suor dos pescoos; na geral, gente de 
trabalho arregalava olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um 
tom dormente; bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile 
amarela, um velhote condecorado falava a uma magrita de cabelos riados, sem 
cessar, com o tom diludo de uma gua gordurosa e morna que escorre.
Sebastio saiu. Onde estariam? Soube-se na manh seguinte.- Descia o Moinho de 
Vento, e um vizinho, o Neto, que subia curvado sob o seu guarda-sol, com o 
cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente, para lhe dizer:
-  amigo Sebastio, oua c. Vi ontem  noite no Passeio a D. Lusa com um 
rapaz que eu conheo. Mas de onde conheo eu aquela cara? Quem diabo ?
Sebastio encolheu os ombros.
- Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheo-o. Noutro dia vi-o 
entrar para l. Voc no sabe?
No sabia.
- Eu conheo aquela cara. Tenho estado a ver se me recordo... Passava a mo pela 
testa. - Eu conheo aquela cara! Ele  de Lisboa. De Lisboa  ele!
E depois de um silncio, fazendo girar o guarda-sol:
- E que h de novo, Sebastio?
Tambm no sabia. Nem eu!
E bocejando muito:
- Isto est uma pasmaceira, homem!
Nessa tarde, s quatro horas, Sebastio voltou  casa de Lusa. Estava com "o 
sujeito!" Ficou ento preocupado. Decerto era algum negcio de Jorge; porque no 
compreendia que ela falasse, sentisse, vivesse, que no fosse no interesse da 
casa e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave ento - para reclamar 
visitas, encontros, tantas relaes. Tinham pois interesses importantes que ele 
no conhecia! E aquilo parecia-lhe uma ingratido, e como uma diminuio de 
amizade.
A tia Joana tinha-o achado "macambzio".
Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Baslio, o Baslio de 
Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio 
inquiet-lo Sebastio no conhecia Baslio pessoalmente, mas sabia a crnica da 
sua mocidade. No havia nela certamente, nem escndalo excepcional, nem romance 
pungente. Baslio tinha sido apenas um pndego e, como tal, passara 
metodicamente por todos os episdios clssicos da estroinice lisboeta: - 
partidas de monte at de madrugada com ricaos do Alentejo; uma tipia 
despedaada num sbado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma 
antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; 
noitadas de Colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados  
face atnita de um polcia; e uma profuso de gemas de ovos nas glrias do 
Entrudo. As nicas mulheres mesmo que apareciam na sua histria, alm das Lolas 
e das Carmens usuais, eram a PisteIli, uma danarina alem cujas pernas tinham 
uma musculatura de atleta, e a Condessinha de Alvim, uma doida, grande 
cavaleira, que se separara de seu marido depois de o ter chicotado, e que se 
vestia de homem para bater ela mesma em trem de praa do Rossio ao Dafundo. Mas 
isto bastava para que Sebastio o achasse um debochado, um perdido; ouvira que 
ele tinha ido para o Brasil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, 
numa especulao, no Paraguai; que mesmo na Bahia, com a corda na garganta, 
nunca fora um trabalhador; e supunha que a posse da fortuna para ele, seria 
apenas um desenvolvimento dos vcios. E este homem agora vinha ver a Luisinha 
todos os
dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...
Para qu?... Era claro, para a desinquietar!
Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolao destas idias 
quando uma voz encatarroada disse com respeito:
-  Sr. Sebastio!
Era o Paula dos mveis.
- Viva, Sr. Joo.
O Paula atirou para as pedras da rua um jato escuro de saliva, e com as mos 
cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:
-  Sr. Sebastio, h doena c por casa do senhor engenheiro? 
Sebastio todo surpreendido:
- No. Por qu?
O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
-  que tenho visto entrar para c todos os dias um sujeito. Imaginei que fosse 
o mdico.
E puxando o escarro:
- Desses novos da homeopatia!
Sebastio tinha corado.
- Nada - disse. -  o primo de D. Lusa.
- Ah! - fez o Paula. - Pois pensei... Queira desculpar, Sr. Sebastio.
E curvou-se respeitosamente.
- J temos falatrio! - foi pensando Sebastio.
E entrou em casa, descontente.
Morava ao fundo da rua, num prdio seu, de construo antiga, com quintal.
Sebastio era s. Tinha uma fortuna pequena em inscries, terras de lavoura 
para o lado de Seixal, e a quinta em Almada - o Rozegal. As duas criadas eram 
muito antigas na casa. A Vicncia, a cozinheira, era uma preta de So Tom j do 
tempo da mam. A tia Joana, a governanta, servia-o havia trinta e cinco anos; 
chamava ainda a Sebastio o "menino"; tinha j as tontices de uma criana, e 
recebia sempre os respeitos de uma av. Era do Porto, do Porto, como ela dizia, 
porque nunca perdera o seu acento minhoto. Os amigos de Sebastio chamavam-lhe 
uma velha de comdia. Era baixinha e gorda, com um sorriso muito bondoso; tinha 
os cabelos alvos como uma estriga, atados no alto num rolinho com um antigo 
pente de tartaruga; trazia sempre um vasto leno branco muito asseado, traado 
sobre o peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o seu passinho 
arrastado, fazendo tilintar os molhos de chaves, resmungando provrbios, tomando 
rap de uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte 
pnsil do Porto.
Em toda a casa havia um tom caturra e doce; na sala de visitas, quase sempre 
fechada, o vasto canap, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo do senhor 
D. Jos I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam a pompa de uma 
corte decrpita; das paredes da casa de jantar pendiam as primeiras gravuras das 
batalhas de Napoleo, onde se v invariavelmente, numa eminncia, o cavalo 
branco, para o qual galopa desenfreadamente do primeiro plano um hussardo, 
brandindo um sabre. Sebastio dormia os seus sonos de sete horas, sem sonhos, 
numa velha barra de pau preto torneado; e numa saleta escura, sobre uma cmoda 
de fecharias de metal amarelo, conservava-se, havia anos, o padroeiro da casa, 
So Sebastio - que se torcia, cravado de setas, nas cordas que o atavam ao 
tronco,  luz de uma lmpada, muito cuidada pela tia Joana, sob os rudos sutis 
dos ratos pelo forro.
A casa condizia com o dono. Sebastio tinha um gnio antiquado. Era solitrio e 
acanhado. J no Latim lhe chamavam o "Peludo"; punham-lhe rabos, roubavam-lhe 
impudentemente as merendas. Sebastio, que tinha a fora de um ginasta, oferecia 
a resignao de um mrtir.
Foi sempre reprovado nos primeiros exames do liceu. Era inteligente, mas uma 
pergunta, o reluzir dos culos de um professor, a grande lousa negra 
imobilizavam-no; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a coar os 
joelhos, o olhar vazio.
Sua me, que era da aldeia e que fora padeira, muito vaidosa agora das suas 
inscries, da sua quinta, da sua moblia de damasco, sempre vestida de seda, 
carregada de anis, costumava dizer:
- Ora! Tem que comer e beber! Estar a afligir a criana com estudos! deixa l!
A inclinao de Sebastio era pela msica. Sua me, por conselhos da me de 
Jorge, sua vizinha e sua ntima, tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as 
primeiras lies, a que ela assistia com enfeites de veludo vermelho e cheia de 
jias, o velho professor Aquiles Bentes, de culos redondos e cara de coruja, 
excitado com a sua voz nasal:
- Minha rica senhora! O seu menino  um gnio!  um gnio! H de ser um Rossini! 
 puxar por ele!  puxar por ele!
Mas era justamente o que ela no queria, era puxar por ele, coitadinho! Por isso 
no foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer, por hbito:
- H de ser um Rossini! H de ser um Rossini!
Somente em lugar de o gritar, brandindo papis de msica, murmurava-o, os 
enormes de leo enfastiado.
J ento os dois rapazes vizinhos, Jorge e Sebastio, eram ntimos. Jorge mais 
inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastio era sempre nas imitaes 
da diligncia, o vencido nas guerras. Era Sebastio que carregava os pesos, que 
oferecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia igual, deixava a Jorge 
toda a fruta. Cresceram. E aquela amizade sempre amuos, tornou-se na vida de 
ambos um interesse essencial e permanente.
Quando a me de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; habitariam a casa 
de Sebastio, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar um cavalo, 
mas conheceu Lusa no Passeio, e da a dois meses passava quase todo o seu dia 
na Rua da Madalena.
Todo aquele plano jovial da Sociedade Sebastio e Jorge - chamavam-lhe assim, 
rindo - desabou, como um castelo de cartas. Sebastio teve um grande pesar.
E era ele, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Lusa, sem 
espinhos, com cuidados devotos, embrulhados num papel de seda. Era ele que 
tratava dos arranjos do "ninho", ia apressar os estofadores, discutir preos de 
roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes, conferenciar com a 
inculcadeira, cuidar dos papis do casamento!
E  noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar com as 
expanses felizes de Jorge, que passeava pelo quarto at s duas horas da noite, 
em mangas de camisa, namorado, loquaz, brandindo o cachimbo!
Depois do casamento Sebastio sentiu-se muito s. Foi a Portel visitar um Velho 
esquisito, com um olhar de doido, que passava a existncia combinando enxertos 
no pomar, e lendo, relendo o Eurico. Quando voltou, passado um ms, Jorge 
disse-lhe radioso:
- E sabes, hem? Isto agora  que  a tua casa! Aqui  que tu vives!
Mas nunca obteve de Sebastio que fosse a sua casa com uma inteira intimidade. 
Sebastio batia  porta, timidamente. Corava diante de Lusa; o antigo "Peludo" 
de Latim reaparecia. Jorge lutara para que ele cruzasse sem cerimnia as pernas, 
fumasse cachimbo diante dela, no lhe dissesse a todo o momento: - "Vossa 
Excelncia" - meio erguido na cadeira.
Nunca vinha jantar seno arrastado. Quando Jorge no estava, as suas visitas 
eram curtas, cheias de silncio. Julgava-se gebo, tinha medo de maar.
Nessa tarde, quando ele foi para a sala de jantar, a tia Joana veio-lhe 
perguntar pela Luisinha.
Adorava-a, achava-a um anjinho, uma aucena.
- Como est ela? Viu-a?
Sebastio corou; no quis dizer, como na vspera, que estava gente, que no 
tinha entrado; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do Trajano, o 
seu velho perdigueiro:
- Est boa, tia Joana, est boa. Ento como h de estar? Est tima!
quela hora Lusa recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com muitas queixas 
sobre o calor, sobre as ms estalagens, histrias sobre o extraordinrio parente 
de Sebastio - saudades e mil beijos...
No a esperava, e aquela folha de papel cheia de uma letra miudinha, que lhe 
fazia reaparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura, 
deu-lhe uma sensao quase dolorosa. Toda a vergonha dos seus desfalecimentos 
cobardes, sob os beijos de Baslio, veio abrasar-lhe as faces. Que horror 
deixar-se abraar, apertar! No sof o que ele lhe dissera; com que olhos a 
devorara!... Recordava tudo - a sua atitude, o calor das suas mos, a tremura da 
sua voz... E maquinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo naquelas 
recordaes, abandonando-se-lhes, at ficar perdida na deliciosa lassido que 
elas lhe davam, com o olhar lnguido, os braos frouxos. Mas a idia de Jorge 
vinha ento outra vez fustig-la como uma chicotada. Erguia-se bruscamente, 
passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar...
- Ah! No!  horroroso,  horroroso! - dizia s, falando alto. - E necessrio 
acabar!
Resolveu no receber Baslio, escrever-lhe, pedir-lhe que no voltasse, que 
partisse! Meditava mesmo as palavras; seria seca e fria, no diria "meu querido 
primo", mas simplesmente "primo Baslio".
E que faria ele, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!
Imaginava-o s, no seu quarto de hotel, infeliz e plido; e daqui, pelos 
declives da sensibilidade, passava  recordao da sua pessoa, da sua voz 
convincente, das turbaes do seu olhar dominante; e a memria demorava-se 
naquelas lembranas com uma sensao de felicidade, como a mo se esquece 
acariciando a plumagem doce de um pssaro raro. Sacudia a cabea com 
impacincia, como se aquelas imaginaes fossem os ferres de insetos 
importunos; esforava-se por pensar s em Jorge; mas as idias ms voltavam, 
mordiam-na; e achava-se desgraada, sem saber o que queria, com vontades 
confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao 
acaso. Jesus, que infeliz que era! - E do fundo da sua natureza de preguiosa 
vinha-lhe uma indefinida indignao contra Jorge, contra Baslio, contra os 
sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e sofrer. 
Que a no secassem, Santo Deus!
Depois de jantar,  janela da sala, ficou a reler a carta de Jorge. Ps-se a 
recordar de propsito tudo o que a encantava nele, do seu corpo e das suas 
qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra, outros de sentimento, 
para o amar, para o respeitar. Tudo era por ele estar fora, na provncia! Se ele 
ali estivesse ao p dela! Mas to longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, 
contra a sua vontade, a certeza daquela ausncia dava-lhe uma sensao de 
liberdade; a idia de se poder mover  vontade nos desejos, nas curiosidades, 
enchia-lhe o peito de um contentamento largo, como uma lufada de independncia. 
Mas enfim, vamos, de que lhe servia estar livre, s? - E de repente tudo o que 
poderia fazer, sentir, possuir, lhe apareceria numa perspectiva longa que 
fulgurava; aquilo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que deixa 
entrever, num relance, alguma coisa de indefinido, de maravilhoso, que palpita e 
fasca - Oh! Estava doida, decerto!
Escureceu. Foi para a sala, abriu a janela; a noite estava quente e espessa, com 
um ar de eletricidade e de trovoada. Respirava mal; olhava para o cu, desejando 
alguma coisa fortemente, sem saber o qu.
O moo do padeiro embaixo, como sempre, tocava o fado; aqueles sons entravam-lhe 
agora na alma, com a brandura de um bafo quente e a melancolia de um gemido.
Encostou a cabea  mo como uma lassido. Mil pensamentozinhos corriam-lhe no 
crebro como os pontos de luz que correm num papel que se queimou; lembrava-lhe 
sua me, o chapu novo que lhe mandara M.me Franois, o tempo que faria em 
Sintra, a doura das noites quentes sob a escurido das ramagens...
Fechou a janela, espreguiou-se; e sentada na causeuse, no seu quarto, ficou 
ali, numa imobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir
que viesse. Mas bem depressa aquele cismar comeou a quebrar-se a cada momento 
como uma tela que se esgaa em rasges largos, e por trs aparecia logo como uma 
intensidade luminosa e forte a idia do primo Baslio.
As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia 
da separao dera-lhe cabelos brancos. Tinha sofrido por ela! - E no fim onde 
estava o mal? Ele jurara-lhe que aquele amor era casto, passando-se todo na 
alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim lho jurara, a ver, uma semana, 
quinze dias. E havia de dizer-lhe: "No voltes; vai-te"?
Quando a senhora quiser o ch... - disse da porta do quarto Juliana. 
Lusa deu um suspiro alto como acordando. No; que trouxesse a lamparina, mais 
tarde.
Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu ch  cozinha. O lume ia-se apagando, o 
candeeiro de petrleo estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.
- Hoje houve coisa, Sra. Joana - disse Juliana sentando-se. - Est toda no ar! E 
 cada suspiro! Ali houve-a e grossa.
Joana, do outro lado, com os cotovelos na mesa e a face sobre os punhos, 
pestanejava de sono.
- A Sra. Juliana, tambm, deita tudo para o mal - disse.
-  que era necessrio ser tola, Sra. Joana!
Calou-se, cheirou o acar; era um dos seus despeitos; gostava dele bem refinado 
- e aquele acar mascavado e grosso, que punha no ch um gosto de formigas, 
exasperava-a.
- Este  pior que o do ms passado! Para uma pobre de Cristo tudo  bom! - 
rosnou muito amargamente.
E depois de uma pausa repetiu:
-  que era necessrio ser tola, Sra. Joana!
A cozinheira disse preguiosamente:
- Cada um sabe de si...
- E Deus de todos - suspirou Juliana.
E ficaram caladas.
Lusa tocou a campainha embaixo.
- Que teremos ns agora? Est com as ccegas.
Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
- Quer mais gua! Olha a mania; ps-se agora a chafurdar  meia-noite! Sempre a 
gente as v...
Foi encher o regador, e enquanto a gua da torneira cantava no fundo da lata:
- E diz que lhe faa amanh ao almoo um bocado de presunto frito, do salgado. 
Quer picantes!
E com muito escrnio:
- Sempre a gente v coisas! Quer picantes!
 meia-noite a casa estava adormecida e apagada. Fora, o cu enegrecera mais; 
relampejou, e um trovo seco estalou, rolou.
Lusa abriu os olhos estremunhada; comeara a cair uma chuva grossa e sonora; a 
trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando as goteiras que 
cantavam sobre o lajedo; a alcova abafava, descobriu-se; o sono tinha fugido, e 
de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fora da lamparina, seguia 
o tique-taque do relgio. Espreguiou-se, e uma certa idia, uma certa viso 
foi-se formando no seu crebro, completando-se to ntida, quase to visvel, 
que se revirou na cama devagar, estirou os braos, lanou-os em roda do 
travesseiro, adiantando os beios secos - para beijar uns cabelos negros onde 
reluziam fios brancos.
Sebastio tinha dormido mal. Acordou s seis horas e desceu ao quintal em 
chinelas. Uma porta envidraada da sala de jantar abria para um terraozinho, 
largo apenas para trs cadeiras de ferro pintado e alguns vasos de cravos; dali, 
quatro degraus de pedra desciam para o quintal; era uma horta ajardinada, muito 
cheia, com canteirinhos de flores, saladas muito regadas, ps de roseiras junto 
dos muros, um poo e um tanque debaixo de uma parreirita, e rvores; terminava 
por um outro terrao assombreado de uma tlia, com um parapeito para uma rua 
baixa e solitria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um sitio 
recolhido, de uma paz alde. Muitas vezes Sebastio, de madrugada, ia para ali 
fumar o seu cigarro.
Era uma manh deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o cu arredondava-se a 
uma grande altura com o azulado de certas porcelanas e, aqui e alm, uma 
nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de leite; a folhagem tinha verde 
lavado a gua do tanque uma cristalinidade fria; pssaros chilreavam de leve com 
vos rpidos.
Sebastio estava debruado para a rua, quando a ponteira de uma bengala, passos 
vagarosos cortaram o silncio fresco. Era um vizinho de Jorge, o Cunha Rosado, o 
doente de intestinos; arrastava-se, curvado, abafado num cachen e num palet 
cor de pinho, com a barba grisalha desmazelada, a crescer.
- J a p vizinho! - disse Sebastio.
O outro parou, ergueu a cabea lentamente.
- Oh, Sebastio! - disse com uma voz plangente. - Ando a passear os meus leites, 
homem!
- A p?
- Ao princpio ia na burrita at fora de portas, mas diz que me fazia bem o 
passeiozito a p...
Encolheu os ombros com um gesto triste de dvida, de desconsolao. 
- E como vai isso? - perguntou Sebastio, muito debruado para a rua, com afeto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beios brancos:
- A desfazer-se!
Sebastio tossiu, embaraado, sem achar uma consolao.
- Mas o doente, com as duas mos apoiados  bengala, uma sbita radiao de 
interesse no olhar amortecido:
-  Sebastio, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias entrar pala 
casa do Jorge,  o Baslio de Brito, pois no ? O primo da mulher? O filho do 
Joo de Brito?
- , sim, por qu?
O Cunha fez: "Ah! Ah!" com uma grande satisfao.
- Bem dizia eu! - exclamou. - Bem dizia eu! E aquela teimosa que no! Que 
no!...
E ento explicou com uma tagarelice sbita, e cansaos de voz:
- O meu quarto  para a rua, e todos os dias, como eu estou quase sempre pela 
janela para espairecer... tenho visto aquele rapaz, a modo estrangeirado, entrar 
para l... todos os dias! "Este  o Baslio de Brito!" disse eu. Mas a minha 
mulher que no! Que no!... Que diabo, homem! Eu tinha quase a certeza... No 
conheo eu outra coisa!... At ele esteve para casar com a D. Lusa. Oh! Eu sei 
essa histria na ponta dos dedos... Morava ela na Rua da Madalena!
Sebastio disse vagamente:
- Pois ,  o Brito...
- Bem dizia eu!
Ficou um momento imvel, fitando o cho, e refazendo uma voz dolente:
- Pois, vou-me arrastando at casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
- Quem me dera a sua sade, Sebastio!
E dizendo adeus, com um gesto da mo calada de luva de casimira escura, 
afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o brao ao ventre, o seu 
largo palet cor de pinho.
Sebastio entrou preocupado. Todo o mundo comeava a reparar, hem! Pudera! Um 
rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, trs horas! Uma 
vizinhana to chegada, to maligna!...
Ao comeo da tarde saiu. Teve vontade de procurar Lusa; mas sem saber por qu, 
sentia um grande acanhamento; como que receava encontr-la diferente ou com 
outra expresso... E subia a rua devagar, sob o seu guarda-sol, hesitando, 
quando um cup que descia a trote largo veio parar  porta de Lusa.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um bigode 
levantado, trazia uma flor, no peito; devia ser o primo Baslio, pensou. O 
cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, ps-se a enrolar o 
cigarro.
Ao rudo do trem o Paula postou-se logo  porta, de bon carregado, as mos 
enterradas no bolso, com olhares de revs; a carvoeira defronte, imunda, 
disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um pasmo lorpa na face 
oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente a vidraa. Ento o Paula 
atravessou rapidamente a rua faiscante de sol, entrou no estanque; da a um 
momento apareceu  porta, com a estanqueira, de caro vivo; e cochichavam, 
cravavam olhares prfidos nas varandas de Lusa, no cup! O Paula, dali, 
arrastando as chinelas de tapete, foi segredar com a carvoeira; provocou-lhe uma 
risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi enfim estacar  sua porta entre um 
retrato de D. Joo VI e duas velhas cadeiras de couro, assobiando com jbilo. No 
silncio da rua ouvia-se num piano, a compasso de estudo, a Orao de uma 
virgem.
Sebastio ao passar olhou maquinalmente para as janelas de Lusa.
- Rico calor, Sr. Sebastio! - observou o Paula curvando-se. - E um regalo estar 
 fresca!
Lusa e Baslio estavam muito tranqilos, muito felizes na sala, com as portadas 
meio cerradas, numa penumbra doce. Lusa tinha aparecido de roupo branco, muito 
fresca, com um bom cheiro de gua de alfazema.
- Eu venho assim mesmo - disse ela. - No fao cerimnias.
Mas assim  que ela estava linda! Assim  que a queria sempre! - exclamou 
Baslio muito contente, como se aquele roupo de manh fosse j uma promessa da 
sua nudez.
Vinha muito tranqilo, afetava um tom de parente. No a inquietou com palavras 
veementes, nem com gestos desejosos; falou-lhe do calor, de uma zarzuela que 
vira na vspera, de velhos amigos que encontrara, e disse-lhe apenas que tinha 
sonhado com ela.
O qu? Que estavam longe, numa terra distante, que devia ser a Itlia, tantas as 
esttuas que havia nas praas, tantas as fontes sonoras que cantavam nas bacias 
de mrmore; era num jardim antigo, sobre um terrao clssico; flores raras 
transbordavam de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas esculpidas, 
paves abriam as caudas; e ela arrastava devagar sobre as lajes quadradas a 
cauda longa do seu vestido de veludo azul. De resto, dizia, era um terrao como 
de So Donato, a vila do Prncipe Demidoff - porque lembrava sempre as suas 
intimidades ilustres, e no se descuidava de fazer reluzir a glria das suas 
viagens.
E ela, tinha sonhado?
Lusa corou. - No, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a trovoada, 
ele?
- Estava a cear no Grmio, quando trovejou.
- Costumas cear?
Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grmio rilhar 
um bife crneo e tragar um Colares peonhento!
E fitando-a:
- Por tua causa, ingrata!
- Por sua causa?
- Por quem, ento? Por que vim eu a Lisboa? Por que deixei Paris?
- Por causa dos teus negcios...
Ele encarou-a severamente:
- Obrigado - disse, curvando-se at ao cho.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao p dela. - No, realmente era injusta. Se em 
Lisboa, era por ela. S por ela!
Fez uma voz meiga; perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho de amor 
muito pequenino, assim... - Mostrava o comprimento da unha. 
Riram.
- Assim, talvez. 
E o peito de Lusa arfava.
Ele ento examinou-lhe as unhas; admirou-lhas e aconselhou-lhe o verniz que usam 
as cocotes, que lhes d um lustre polido; ia-se apossando da sua mo, ps-lhe um 
beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo mnimo, jurou que era muito doce; 
arranjou-lhe com um contato muito tmido uns fios de cabelos que se tinham 
soltado - e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma suplicao.
- Que ?
-  que venhas comigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ela no respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas moles do roupo.
-  muito simples - acrescentou ele. - Tu vais-me encontrar a qualquer parte, 
longe daqui, est claro. Eu estou  espera de ti com uma carruagem, tu saltas 
para dentro e fouette, cocher!
Lusa hesitava.
- No digas que no.
- Mas onde?
- Onde tu quiseres. A Pao de Arcos, a Loures, a Queluz. Dize que sim.
A sua voz era muito urgente; quase ajoelhara.
- Que tem?  um passeio de amigos, de irmos.
- No! Isso no!
Baslio zangou-se, chamou-lhe beata. Quis sair. Ela veio tirar-lhe o chapu da 
mo, muito meiga, quase vencida.
- Talvez, veremos - dizia.
- Dize que sim! - insistia. - S boa rapariga!
- Pois sim, amanh veremos; amanh falaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Baslio no falou no passeio, nem no 
campo. No falou tambm do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, 
muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot,  Mulher de Fogo. E 
sentando-se ao piano, disse-lhe canes de caf-concerto, muito picantes; 
imitava a rouquido acre e canalha das cantoras; f-la rir.
Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crnica amorosa, anedotas, 
paixes chiques. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dramtico e 
sensibilizador, s vezes jovial, sempre cheio de delcias. E, de todas as 
mulheres de que falava, dizia recostando-se: era uma mulher distintssima; tinha 
naturalmente o seu amante...
O adultrio aparecia assim um dever aristocrtico. De resto a virtude parecia 
ser, pelo que ele contava, o defeito de um esprito pequeno, ou a ocupao reles 
de um temperamento burgus...
E quando saiu, disse, como recordando-se:
- Sabes que estou com minhas idias de partir?...
Ela perguntou, um pouco descorada:
- Por qu?
Baslio disse, muito indiferente:
- Que diabo fao eu aqui?... Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, 
e como dominando-se:
- Adeus, meu amor...
E saiu.
Quando nessa tarde Lusa entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.
Foi ela no dia seguinte que falou do campo. Queixou-se do continuo calor, da 
seca de Lisboa. Como devia estar lindo em Sintra!
- s tu que no queres - acudiu ele. - Podamos fazer um passeio adorvel.
Mas tinha medo, podiam ver...
- O qu! Num cup fechado? Com os estores descidos?
Mas ento era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta! Mas no! Iam a 
uma quinta. Podiam ir s Alegrias,  quinta de um amigo que estava em Londres. 
S viviam l os caseiros; era ao p dos Olivais; era lindo! Belas ruas de 
loureiros, sombras adorveis. Podiam levar gelo, champanhe...
- Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mos.
Ela corou. - Talvez. No domingo veria. 
Baslio conservava-lhe as mos presas. Os seus olhos encontraram-se, 
umedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as mos; foi abrir as 
vidraas ambas, dar  sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se 
numa cadeira ao p do piano, receando a penumbra, o sof, todas as 
cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque j temia as 
palavras, tanto como os silncios! Baslio cantou a Medj, a melodia de Gounod, 
to sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como 
bafos de uma noite eltrica. E quando Baslio saiu, ficou sentada, quebrada, 
como depois de um excesso.
Sebastio tinha estado nos ltimos trs dias em Almada, na Quinta do onde trazia 
obras.
Voltara na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janela de 
jantar que abria para o terraozinho, esperava o seu almoo, brincando com o 
Rolim - o seu gato, amigo e confidente da ilustre Vicncia, ndio como um 
prelado, ingrato como um tirano.
A manh comeava a aquecer; o quintal estava j cheio de sol; na gua do tanque, 
sob a parreira, claridades espelhadas e trmulas faiscavam. Nas duas gaiolas os 
canrios cantavam estridentemente.
A tia Joana, que andava a arranjar a mesa do almoo muito calada, ps-se ento a 
dizer com a sua vozinha arrastada e minhota:
- Ora, esteve a ontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratrios, com umas 
tontices!...
- A respeito de qu, tia Joana? - perguntou Sebastio.
- A respeito de um rapaz, que diz que vai agora todos os dias  casa da 
Luisinha.
Sebastio ergueu-se logo:
- Que disse ela, tia Joana?
A velha assentava a toalha devagar com a sua mo gorducha espalmada:
- Esteve ai a palrar. Quem seria, quem no seria? Diz que  um perfeito rapaz. 
Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No sbado, que estivera at quase 
 noitinha. E cantou-se na sala, diz que uma voz que nem no teatro...
Sebastio interrompeu-a, impaciente:
-  o primo, tia Joana. Ento quem havia de ser?  o primo que chegou do Brasil.
A tia Joana teve um bom sorriso.
- Eu logo vi que era coisa de parente. Pois diz que  um perfeito rapaz! E todo 
janota!
E saindo para a cozinha, devagar:
- Eu logo vi que era parente, logo disse!...
Sebastio almoou inquieto. Positivamente a vizinhana j se punha a mexericar, 
a comentar! Estava-se a armar um escndalo! - E, assustado, decidiu-se logo a ir 
consultar Julio.
Descia a Rua de So Roque para casa dele, quando o viu, que subia devagar pela 
sombra, com um rolo de papel debaixo do brao, uma cala branca enxovalhada, o 
ar suado.
- Ia a tua casa, homem! - disse Sebastio logo.
Julio estranhou a excitao desusada da sua voz.
Havia alguma novidade? Que era?
- Uma do diabo! - exclamou, baixo, Sebastio.
Estavam parados ao p da confeitaria. Na vidraa, por trs deles, 
emprateleirava-se uma exposio de garrafas de malvasia com os seus letreiros 
muito coloridos, transparncias avermelhadas de gelatinas, amarelides 
enjoativas de doces de ovos, e queques de um castanho-escuro tendo espetados 
cravos tristes de papel branco ou cor-de-rosa. Velhas natas lvidas 
amolentavam-se no oco dos folhados; ladrilhos grossos de marmelada esbeiavam-se 
ao calor; as empadinhas de marisco aglomeravam as suas crostas ressequidas. E no 
centro, muito proeminente numa travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos 
medonha e bojuda, com o ventre de um amarelo ascoroso, o dorso malhado de 
arabescos de acar, a boca escancarada; na sua cabea grossa esbugalhavam-se 
dois horrveis olhos de chocolates; os seus dentes de amndoa ferravam-se numa 
tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaavam.
- Vamos ali para o caf - disse Julio. - Aqui na rua arde-se!
- Tenho estado apoquentado - ia dizendo Sebastio. - Muito apoquentado! Quero 
falar-te.
No caf o papel azul-ferrete e as meias portas fechadas abatiam a spera 
intensidade da luz, davam uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas 
brilhavam com uma radiao faiscante. Por trs do balco, onde reluziam garrafas 
de cristal, um criado de jaqueto, estremunhado e esguedelhado, cabeceava de 
sono. Um pssaro chilreava dentro; sentia-se o bater espaado das bolas do 
bilhar atravs de uma porta de baeta verde; s vezes o prego de um cangalheiro 
na rua sobressaia, e - todos estes sons, por momentos se perdiam no rudo forte 
do descer de um trem travado.
Defronte deles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas 
grisalhas colavam-se a um crnio amarelado; o bigode tinha tons queimados do 
cigarro; e das noitadas ficara-lhe uma vermelhido inflamada nas plpebras. De 
vez em quando erguia preguiosamente a cabea, atirava para o cho areado um 
jato escuro de saliva, dava uma sacudidela triste ao jornal e tornava a fit-lo 
com ar infeliz. Quando os dois entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes 
gravemente a cabea.
Mas o que  ento? - perguntou logo Julio. Sebastio chegou-se mais para ele:
-  por causa l da nossa gente. Por causa do primo - disse baixo.
E acrescentou:
- Tu viste-lo, hem?
A lembrana repentina da sua humilhao na sala de Lusa trouxe um rubor de 
Julo. Mas muito orgulhoso, disse secamente:
- Vi
- E ento?
- Pareceu-me um asno! - exclamou, no se contendo.
-  um extravagante - disse com terror Sebastio. - No te pareceu, hem?
- Pareceu-me um asno - repetiu. - Umas maneiras, uma afetao, um alambicado, a 
olhar muito para as meias, umas meias ridculas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
- Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas - disse, apontando para os 
botins mal - engraxados -, tenho muita honra nelas; so de quem trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente no o 
cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
- Uma besta! - resumiu.
- Ti sabes que ele foi namoro da Lusa? - disse Sebastio, baixo, como assustado 
da gravidade da confidncia.
E respondendo logo ao olhar surpreendido de Julio:
- Sim. Ningum o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o h pouco, h meses. Foi. Estiveram 
a casar. Depois o pai faliu, ele foi para o Brasil, e de l escreveu a romper o 
casamento.
Julio sorriu, e encostando a cabea  parede:
- Mas isso  o enredo da Eugnia Grandet, Sebastio! Ests-me a contar o romance 
de Balzac! Isso  a Eugnia Grandet!
Sebastio fitou-o espantado.
- Ora! No se pode falar srio contigo. Dou-te a minha palavra de honra! - 
acrescentou vivamente.
- V, Sebastio, v, dize.
Houve um silncio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do teto sujo de 
fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mo sapuda, de tom pegajoso, 
cofiava amorosamente as repas. No bilhar vozes altercavam.
Sebastio ento, como tomado de uma resoluo, disse bruscamente:
- E agora vai l todos os dias, no sai de l!
Julio afastou-se na banqueta e encarou-o:
- Tu queres-me dar a entender alguma coisa, Sebastio?
E com uma vivacidade quase jovial:
- O primo atira-se?
Aquela palavra escandalizou Sebastio.
-  Julio! - E severamente: - Com essas coisas no se brinca!
Julio encolheu os ombros.
- Mas est claro que se atira! - exclamou. - s de bom tempo ainda! Est claro 
que sim! Namorou-a solteira, agora quere-a casada!
- Fala baixo - acudiu Sebastio.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recado na sua leitura fnebre.
Julio baixou a voz:
- Mas  sempre assim, Sebastio. O primo Baslio tem razo; quer o prazer sem a 
responsabilidade!
E quase ao ouvido dele:
-  de graa, amigo Sebastio!  de graa! Tu no imaginas que influncia isto 
tem no sentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilhrias vinham-lhe com abundncia:
- H um marido que a veste, que a cala, que a alimenta, que a engoma, que a 
vela se est doente; que a atura se ela est nervosa; que tem todos os encargos, 
todos os tdios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por 
conseqncia o primo no tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a 
asseada, fresca, apetitosa  custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfao, enrolando deliciosamente 
o cigarro, regozijando-se no escndalo.
-  timo! - acrescentou. - Todos os primos raciocinam assim. Baslio  primo, 
logo... Sabes o silogismo, Sebastio! Sabes o silogismo, menino! - gritou, 
dando-lhe uma palmada na perna.
-  o diabo - murmurou Sebastio cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
- Mas tu supes que uma rapariga de bem...
- Eu no suponho nada! - acudiu Julio.
- Fala baixo, homem!
- Eu no suponho nada - repetiu Julio baixinho. - Eu afirmo o que ele faz. 
Agora ela...
E acrescentou com secura:
- Como  uma rapariga honesta...
- Se ! - exclamou Sebastio, batendo uma punhada na pedra da mesa.
- Pronto! - cantou arrastadamente o moo.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balco 
bocejando, e que os dois continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os 
cotovelos  mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cair em cima 
um olhar desolado.
Sebastio disse, ento, com tristeza:
- A questo no  por ela. A questo  pela vizinhana.
Ficaram um momento calados. A altercao de vozes no bilhar crescia.
- Mas - disse Julio, como saindo de uma reflexo - a vizinhana?
- Sim, homem! Vem entrar para l o rapaz. Vem de tipia; faz um escndalo na 
rua. J se fala. J vieram com mexericos  tia Joana. H dias encontrei o Neto 
que reparou. O Cunha tambm. O homem dos trastes, embaixo, no se faz nada que 
ele no d f; so umas lnguas de tremer. H dias ia eu a passar quando o primo 
se apeou da carruagem para entrar, e foram logo concilibulos na rua, olhadelas 
para a janela, o diabo! Vai l todos os dias. Sabem que o Jorge est no 
Alentejo... Est duas e trs horas.  muito srio,  muito srio!
- Mas ela ento  tola!
- No v o mal...
Julio encolheu os ombros, duvidando.
Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem hercleo, de bigode negro, 
muito escarlate, saiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou 
para dentro:
- E fique sabendo que havia de encontrar homem!
Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.
O sujeito hercleo atirou a porta, furioso; atravessou o caf resfolegando, 
apopltico; um rapaz chupado, de jaqueto de inverno e cala branca, seguia-o, 
com um ar gingado.
- O que eu devia fazer - exclamava o agigantado, brandindo o punho - era quebrar 
a cara quele pulha!
O rapaz chupado dizia, com doura e servilismo, bamboleando-se:
- Questes no servem para nada, S Correia!
-  que sou muito prudente - berrou o hercleo. -  que me lembro tenho mulher e 
filhos! Se no bebia-lhe o sangue!
E saindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.
O criado muito plido, tremia dentro do balco; e o sujeito calvo, que erguera a 
cabea, teve um sorriso de tdio, e retomou tristemente o jornal.
Sebastio, ento, disse refletindo:
- No te parece que seria bom avis-la?
Julio encolheu os ombros, soltou uma baforada de fumo.
- Dize alguma coisa! - implorou Sebastio. - Tu no ias falar-lhe, hem?
- Eu? - exclamou Julio com um aspecto que repelia a idia. - Eu! Ests doido!
- Mas que te parece, enfim?
E a voz de Sebastio tinha quase uma aflio.
Julio hesitou:
- Vai, se queres. Diz-lhe que se tem reparado... Enfim, eu no sei, meu amigo!
E ps-se a chupar o seu cigarro.
Aquele mutismo afetou Sebastio. Disse com desconsolao:
- Homem, vim-te pedir um conselho...
- Mas que diabo queres tu? - E a voz de Julio irritava-se. - A culpa  dela.  
dela! - insistiu, vendo o olhar de Sebastio. -  uma mulher de vinte e cinco 
anos, casada h quatro, deve saber que se no recebe todos os dias um 
peralvilho, numa rua pequena, com a vizinhana a postos! Se o faz,  porque lhe 
agrada.
-  Julio! - disse muito severamente Sebastio.
E dominando-se, com a voz comovida:
- No tens razo, no tens razo!
Calou-se muito magoado.
Julio levantou-se.
- Amigo Sebastio, eu digo o que penso; tu fazes o que entendes.
Chamou o criado.
- Deixa - disse Sebastio precipitadamente, pagando.
Iam sair. Mas ento o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a 
porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastio um papel enxovalhado.
Sebastio, surpreendido, leu alto, maquinalmente:
- "O abaixo-assinado, antigo empregado da nao, reduzido a misria..."
- Fui ntimo amigo do nobre Duque de Saldanha! - gemeu chorosamente, com uma 
rouquido, o sujeito calvo.
Sebastio corou, cumprimentou, meteu-lhe na mo duas placas de cinco tostes, 
discretamente.
O sujeito dobrou profundamente o espinhao e declamou com uma voz cava: 
- Mil agradecimentos a Vossa Excelncia, senhor conde!
CAPTULO V
A manh estava abrasadora. Um pouco depois do meio-dia, Joana, estirada numa 
velha cadeira de vime da Ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava a 
sesta. Como madrugava muito, quela hora da calma vinha-lhe sempre uma 
quebreira.
As janelas estavam cerradas ao sol faiscante; as panelas no lume faziam um 
romrom dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorrada no 
amolecimento do calor trrido, quando Juliana entrou como uma rajada, atirou 
para o cho furiosa, uma braada de roupa suja, e gritou:
- Raios me partam se no h um escndalo nesta casa que vai tudo raso! 
Joana deu um salto estremunhada.
- Quem quer as coisas em ordem olha por elas! - berrava a outra com os olhos 
injetados. - No  estar todo o dia na sala a palrar com as visitas!
A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, j assustada.
- Que foi, Sra. Juliana, que foi?
- Est com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! Sangrias! Tem peguilhado 
por tudo! No estou para a aturar, no estou!
E batia o p com frenesi.
- Mas que foi? Que foi?
- Diz que os colarinhos tinham pouca goma; ps-se a despropositar! Estou a 
aturar! Estou farta! Estou at aqui! - bradava, puxando a pele engelhada da 
garganta. - Pois que me no faa sair de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara 
por qu! Desde que aqui temos homem e pouca-vergonha, boas noites!... Quem 
quiser que se meta em alhadas...
-  Sra. Juliana, pelo amor de Deus! Jesus! - E a Joana apertava a cabea nas 
mos. - Ai, se a senhora ouve!
- Que oua, digo-lho na cara! Estou farta! Estou farta!
Mas, de repente, fez-se branca como a cal; caiu sobre a cadeira de vime com as 
duas mos contra o corao, os olhos em alvo.
- Sra. Juliana! - gritou Joana. - Sra. Juliana! Fale! Borrifou-a de gua; 
sacudiu-a ansiosamente.
- Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Est melhor? Fale! Juliana 
deu um suspiro longo, de alivio, cerrou as plpebras. E arquejava
devagarinho, muito prostrada.
- Como se sente? Quer um caldinho?  fraqueza; h de ser fraqueza... Foi a 
pontada - murmurou Juliana.
Ai! Aqueles frenesis matavam-na! - dizia a cozinheira, remexendo-lhe o caldo, 
muito plida tambm. - A gente tinha de aturar os amos! Que tomasse a 
"substncia", que sossegasse!...
Naquele momento Lusa abriu a porta. Vinha em colete e saia branca.
Que barulho era aquele?
A Sra. Juliana, que lhe tinha dado uma coisa, quase desmaiara...
Foi a pontada - balbuciou Juliana.
E erguendo-se, com um esforo:
- Se a senhora no precisa nada, vou ao mdico...
- V, v! disse Lusa logo. E desceu.
Juliana ps-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joana consolava-a 
baixo: - Tambm, a Sra. Juliana arrenegava-se por qualquer coisa. E quando a 
gente tem pouca sade no h nada pior que enfrenesiar-se...
-  que no imagina! - e abafava a voz arregalando os olhos. - Tem estado de no 
se poder aturar! Est-se a vestir que nem para uma partida! Amarfanhou uns 
poucos de colares, atirou-os para o cho, que eu engomava que era uma porcaria, 
que no servia para nada... Ai! Estou farta! - repetia. - Estou farta!
-  ter pacincia! Todos tm a sua cruz!
Juliana teve um sorriso lvido, ergueu-se com um grande "ai", escabichou os 
dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sto.
Da a pouco, de luvas pretas, muito amarela, saiu.
Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. At ao mdico 
era um estiro!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... Mas tambm, largar 
trs tostes para trem!...
- Psiu, psiu! - fez do lado uma voz doce.
Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso 
desconsolado.
Que era feito da Sra. Juliana? A dar o seu passeio, hem?
Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo de osso. De muito gosto - disse.
- E como ia de sade?
Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao mdico...
Mas a estanqueira no tinha f nos mdicos. Era dinheiro deitado  rua... Citou 
a doena do seu homem, os gastos, um ror de moedas. E para qu? Para o ver penar 
e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro que sempre chorava!
E suspirou. Enfim, fosse feita a vontade de Deus! E l por casa do senhor 
engenheiro?
- Tudo sem novidade.
-  Sra. Juliana, quem  aquele rapaz que vai agora por l todos os dias?
Juliana respondeu logo:
-  o primo da senhora.
- Do-se muito!...
- Parece.
Tossiu, e com um cumprimentozinho:
- Pois, muito boas tardes, Sra. Helena.
E foi resmungando:
- Ora, fica-te a chuchar no dedo, lesma!
Juliana detestava a vizinhana; sabia que a escarneciam, que a imitavam, que lhe 
chamavam a "Tripa Velha"!... Pois tambm dela no haviam de saber nada! Podiam 
rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe 
cheirasse havia de ficar guardadinho, l dentro. - "Para uma ocasio" - pensava 
com rancor, sacudindo os quadris.
A estanqueira ficou  porta, despeitada. E o Paula dos mveis, que as vira 
conversar, veio logo, deslizando sutilmente nas suas chinelas de tapete:
- Ento a Tripa Velha escorregou-se? Ai! No se lhe tira nada!
O Paula enterrou as mos nos bolsos, com tdio:
- Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as mos...  ela quem abre a portita de 
noite...
- Tanto no direi! Credo! 
Paula fitou-a com superioridade:
- A Sra. Helena est ai ao seu balco... Mas eu  que as conheo, as mulheres da 
alta sociedade! Conheo-as nas pontas dos dedos.  uma cambada!
Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumerveis: at trintanrios. 
Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!
- E passeiam por ai, muito repimpadas de carrinho,  barba da gente de bem!
- Falta de religio! - suspirou a estanqueira.
O Paula encolheu os ombros:
- A religio  que , Sra. Helena! Com os padres  que !
E agitando furioso o punho fechado:
- Com os padres  uma choldra viva!
- Credo, Sr. Paula, que at lhe fica mal!...
E o caro amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida.
- Ora, histrias, Sra. Helena! - exclamou o homem com desprezo.
E bruscamente:
- Por que  que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo l 
dentro.
- Oh, Sr. Paula! Oh, Sr. Paula! - balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-se
O Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.
- Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterrneo ter com os vinhaa 
e mais vinhaa. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por a em todos os 
livros.
E erguendo-se nas chinelas:
- E os jesutas, se vamos a isso! Sim! Diga!
Mas recuou, e levando a mo  pala do bon:
- Um criado da senhora - disse com respeito.
Era Lusa que passava, vestida de preto, o vu descido. Ficaram calados, a 
olh-la.
- Que ela  muito bonita! - murmurou a estanqueira, com admirao.
O Paula franziu a testa:
- No  mau bocado... - disse. E acrescentou, com desdm: - Pra quem gosta 
daquilo!...
Houve um silncio. E o Paula rosnou:
- No so as saias que me levam o tempo, nem disto!...
E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro.
Tossiu, pigarreou, e ainda spero:
- Venha de l um pataco de Xabregas.
Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos 
arregalaram-se indignados; numa das janelas de cima na casa do Engenheiro, tinha 
avistado, por entre as vidraas abertas, a figura enfezada do Pedro, o 
carpinteiro.
Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braos:
- E agora, que a patroa vai  vida, l est o rapazola a entender-se com a 
criada!
Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:
- Aquela casa vai-se tornando um prostbulo!
- Um que, Sr. Paula?
- Um prostbulo, Sra. Helena! E como se dissesse um alcouce!
E, com passos escandalizados, o patriota afastou-se.
Lusa ia enfim ao campo com Baslio. Consentira na vspera, declarando logo que 
era s um passeio de meia hora, de carruagem, sem se apearem. Baslio ainda 
insistiu, falando em sombras de alamedas, uma merendinha, relvas Mas ela 
recusou, muito teimosa, rindo, dizendo: - Nada de relvas!...
E tinham combinado encontrar-se na Praa da Alegria. Chegou tarde, j depois das 
duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada.
Baslio esperava, fumando, num cup,  esquina, debaixo de uma rvore. Abriu 
rapidamente a portinhola, e Lusa entrou fechando atrapalhadamente a sombrinha; 
o vestido prendeu-se ao estribo, esgaou-se no rufo de seda; e achou-se ao lado 
dele, muito nervosa, ofegante, com o rosto abrasado, murmurando:
- Que tolice, que tolice esta!
Mal podia falar. O cup partiu logo a trote. O cocheiro era o Pintus, um 
batedor.
- To cansada, coitadinha! - disse-lhe Baslio muito meigo. Levantou-lhe o vu; 
estava suada; os seus largos olhos brilhavam da excitao, da pressa, do medo...
- Que calor, Baslio!
Quis descer um dos vidros do cup.
- No, isso no! Podiam v-los! Quando passassem as portas...
- Para onde vamos ns?
E espreitava, levantando o estore.
- Vamos para o lado do Lumiar,  o melhor sitio. No queres?
Encolheu os ombros. Que lhe importava? Ia sossegando; tinha tirado o vu ~ 
luvas; sorria, abanando-se com o leno, de onde saia um aroma fresco.
Baslio prendeu-lhe o pulso, ps-lhe muitos beijos longos, delicados, na pele 
fina, azulada de veiazinhas.
- Tu prometeste ter juzo! - fez ela com um sorriso clido olhando-o de lado.
Ora! Mas um beijo, no brao! Que mal havia? Tambm era necessrio no ser beata!
E olhava-a avidamente.
Os velhos estores do cup corridos eram de seda vermelha, e a luz que os 
atravessava envolvi-a num tom igual, cor-de-rosa e quente. Os seus beios tinham 
um escarlate molhado, a lisura s de uma ptala de rosa; e ao canto do olho um 
ponto de luz movia-se num fluido doce.
No se conteve, passou-lhe os dedos um pouco trmulos nas fontes, nos cabelos, 
com uma carcia fugitiva e assustada, e com a voz humilde:
- Nem um beijo na face, um s?
- Um s? - fez ela.
Pousou-lho delicadamente ao p da orelha. Mas aquele contato exasperou-lhe o 
desejo brutalmente; teve um som de voz soluado; agarrou-a com sofreguido, e 
atirava-lhe beijos tontos pelo pescoo, pela face, pelo chapu...
- No! No! - balbuciava ela, resistindo. - Quero descer! Dize que pare! Batia 
nos vidros; esforava-se por correr um, desesperada, magoando os dedos na dura 
correia suja.
Baslio ps-se a suplicar; que lhe perdoasse! Que doidice, zangar-se por um 
beijo! Se ela estava to linda!... Fazia-o doido. Mas jurava ir quieto, muito 
quieto...
A carruagem, ao p das portas, rolava sacudida na calada mida; nas terras, aos 
lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam imveis na luz branca e sobre 
a erva crestada o sol batia duramente numa fulgurao continua.
Baslio tinha descido um dos vidros; o estore corrido palpitava brandamente, 
ps-se ento a falar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava 
resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa - dizia. - No tencionava casar-se; 
"no compreendia nada melhor do que viver ao p dela, sempre. Dizia-se 
desiludido, enfastiado. Que mais lhe podia oferecer a vida? Tinha tido as 
sensaes dos amores efmeros, as aventuras das longas viagens. Ajuntara alguma 
de seu - e sentia-se velho.
Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mos:
- No  verdade que estou velho?
- No muito - e os seus olhos umedeciam-se.
Ah! Estava! Estava! O que lhe apetecia agora era viver para ela, vir descansar 
nas da sua intimidade. Ela era a sua nica famlia. - Fazia-se muito parente. - 
A famlia no fim de tudo  o que h de melhor ainda. No te incomoda que eu 
fume?
E acrescentou, raspando o fsforo:
- O que h de bom na vida  uma afeio profunda como a nossa. No  verdade? 
Contento-me com pouco, de resto. Ver-te todos os dias, conversar muito, saber 
que me estimas... - Por dentro do campo,  Pintus! - gritou com fora pela 
portinhola.
O cup entrou a passo no Campo Grande. Baslio ergueu os estores; um ar mais 
vivo penetrou. O sol caa sobre o arvoredo, transpassando-o de uma luz 
faiscante, formando no cho poeirento e branco sombras quentes de ramagens. Tudo 
tinha em redor um aspecto ressequido e exausto. Na terra gretada, a erva curta, 
crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira 
amarelada. Saloios passavam, amodorrados sobre o albardo, bamboleando as 
pernas, abrigados sob os vastos guarda-sis escarlates; e a luz que vinha de um 
cu azul-ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiao crua as paredes 
muito caiadas, as guas de algum balde esquecido s portas, todas as brancuras 
de pedras.
E Baslio continuava:
- Vendo tudo o que tenho l fora, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos 
Aires, talvez... No te agrada? Dize...
Ela calava-se; aquelas palavras, as promessas, a que a voz dele metlica e 
velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriao dum 
licor forte. O seu seio arfava.
Baslio baixou a voz, disse:
- Quando estou ao p de ti sinto-me to feliz; parece-me tudo to bom!...
- Se isso fosse verdade! - suspirou ela, encostando-se para o fundo do cup.
Baslio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pr a sua fortuna em 
inscries. Comeou a dar-lhe provas: j falara a um procurador; citou-lhe o 
nome, um seco, de nariz agudo...
E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:
- E se fosse verdade, dize, que fazias?
- Nem eu sei - murmurou ela.
Iam entrando no Lumiar, e por prudncia desceram os estores. Ela afastou um, e, 
espreitando, via fora passar rapidamente, ao lado do trem, rvores empoeiradas; 
um muro de quinta de um cor-de-rosa sujo, fachadas de casas mesquinhas; um 
nibus desatrelado; mulheres sentadas ao portal,  sombra, catando os filhos; e 
um sujeito vestido de branco, de chapu de palha, que estacou, arregalou os 
olhos para as cortinas fechadas do cup. E ia desejando habitar ali numa quinta, 
longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janelas, 
parreiras. sobre pilares de pedra, ps de roseiras, ruazinhas amveis sob 
rvores entrelaadas, um tanque debaixo de uma tlia, onde de manh as criadas 
ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao escurecer, ela e ele, um pouco 
quebrados das felicidades da sesta, iriam pelos campos, ouvindo sob o cu que se 
estrela, o coaxar triste das rs.
Cerrou os olhos. O movimento muito lanado do cup, o calor, a presena dele, o 
contato da sua mo, do seu joelho, amoleciam-na. Sentia um desejo a alargar-se 
dentro do peito.
- Em que vais tu a pensar? - perguntou-lhe ele baixo, muito terno. Lusa fez-se 
vermelha. No respondeu. Tinha medo de falar, de lhe dizer... 
Baslio tomou-lhe a mo devagarinho, com respeito, com cuidado, como coisa 
preciosa e santa; e beijou-lha de leve, com a servilidade de um negro e a uno 
de um devoto. Aquela carcia to humilde, to tocante, quebrou-a; os seus nervos 
distenderam-se; deixou-se cair para o canto do cup, rompeu a chorar...
Que era? Que tinha? Prendera-a nos braos, beijava-a, dizia-lhe palavras loucas.
- Queres que fujamos?
As suas lagrimazinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre a aquela 
face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma vibrao quase 
dolorosa.
- Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! 
Ela soluou, murmurou muito doridamente:
- No digas tolices.
Ele calou-se; ps a mo sobre os olhos com uma atitude melanclica, pensando:
- "Estou a dizer tolices, no h que ver!"
Lusa limpava as lgrimas, assoando-se devagarinho.
-  nervoso - disse. -  nervoso. Voltamos, sim? No me sinto bem. volte.
Baslio mandou bater para Lisboa.
Ela queixava-se de um ameao de enxaqueca. Ele tinha-lhe tomado a mo, 
repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe "sua pomba", "seu ideal". E pensava: 
- "Ests cada!"
Pararam na Praa da Alegria. Lusa espreitou, saltou depressa, dizendo:
- Amanh, no faltes, hem?
Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente para a 
Patriarcal.
Baslio ento desceu os vidros, e respirou com satisfao. Acendeu outro 
charuto, estendeu as pernas, gritou:
- Ao Grmio,  Pintus!
Na sala de leitura, o seu amigo o Viscondo Reinaldo, que havia anos vivia em 
Londres, e muito em Paris tambm, lia o Times languidamente, enterrado numa 
poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com a promessa de voltarem juntos por 
Madri. Mas o calor desolava Reinaldo; achava a temperatura de Lisboa reles; 
trazia lunetas defumadas; e andava saturado de perfumes, por causa "do cheiro 
ignbil de Portugal". Apenas viu Baslio deixou escorregar o Times nu tapete, e 
com os braos moles, a voz desfalecida:
- E ento essa questo da prima, vai ou no vai? Isto est horrvel, menino! Eu 
morro! Preciso o Norte! Preciso a Esccia! Vamos embora! Acaba com essa prima. 
Viola-a. Se ela te resiste, mata-a!
Baslio, que se estendera numa poltrona, disse, estirando muito os braos:
- Oh! Est caidinha!
- Pois avia-te, menino, avia-te!
Apanhou moribundamente o Times, bocejou, pediu soda - soda inglesa!
No havia, veio dizer o criado. Reinaldo fitou Baslio com espanto, com terror, 
e murmurou soturnamente:
- Que abjeo de pas!
Quando Lusa entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo  porta:
- O Sr. Sebastio est na sala. Tem estado um ror de tempo  espera... J c 
estava quando eu cheguei.
Tinha vindo com efeito havia meia hora. Quando a Joana lhe veio abrir, muito 
encarnada, com ar estremunhado, e resmungou que a senhora estava para fora, 
Sebastio ia logo descer, com o alvio delicioso de uma dificuldade adiada. Mas 
reagiu, retesou a vontade, entrou, ps-se a esperar... Na vspera tinha decidido 
falar-lhe, avis-la que aquelas visitas do primo, to repetidas, com 
espalhafato, numa rua maligna, podiam compromet-la... Era o diabo, 
dizer-lho!... Mas era um dever! Por ela, pelo marido, pelo respeito da casa! Era 
foroso acautel-la... E no se sentia acanhado. Perante as reclamaes do 
dever, vinham-lhe as energias da deciso. O corao batia-lhe um pouco, sim, e 
estava plido... Mas, que diabo havia de lho dizer!...
E passeando pela sala com as mos nos bolsos, ia arranjando as suas frases, 
procurando-as muito delicadas, bem amigas...
Mas a campainha retiniu, um frufru de vestido roou o corredor - e a sua coragem 
engelhou-se como um balo furado. Foi-se logo sentar ao piano, ps-se a bater 
vivamente no teclado. Quando Lusa entrou, sem chapu, descalando as luvas, 
ergueu-se, disse embaraado:
- Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava  espera... Ento de onde 
vem?
Ela sentou-se, cansada. Vinha da modista - disse. Fazia um calor! Por que no 
tinha entrado as outras vezes? No estava com visitas de cerimnia! Era famlia, 
era seu primo que viera de fora.
- Est bom, seu primo?
- Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! Ora, 
quem vive l fora!
Sebastio repetiu, esfregando devagar os joelhos:
Est claro, quem vive l fora!
- E Jorge, tem-lhe escrito? - perguntou Lusa.
- Recebi carta ontem.
Tambm ela. Falaram de Jorge, dos tdios da jornada, do que contava do 
fantstico parente de Sebastio, da demora provvel...
- Faz-nos uma falta, aquele maroto! - disse Sebastio.
Lusa tossiu. Estava um pouco plida, agora. Passava s vezes a mo pela testa, 
cerrando os olhos.
Sebastio, de repente, teve uma deciso:
- Pois eu vinha, minha rica amiga... - comeou.
Mas viu-a ao canto do sof com a cabea baixa, a mo sobre os olhos.
- Que tem? Est incomodada?
-  a enxaqueca que me veio de repente. J tinha tido ameaos na rua. E com uma 
fora!
Sebastio tomou logo o chapu:
- E eu a ma-la!  necessrio alguma coisa? Quer que v chamar o mdico?
- No! Vou-me deitar um momento; passa logo.
Que no apanhasse ar, ao menos, recomendava ele. Talvez sinapismos ou limo nas 
fontes... E em todo o caso, se no estivesse melhor que o mandasse chamar...
- Isto passa! E aparea, Sebastio! No se esconda...
Sebastio desceu, respirou largamente; e pensava:
- "Eu no me atrevo, Santo Deus!..." - Mas  porta, ao levantar os olhos, no 
fundo escuro da loja de carvo o vulto enorme da carvoeira, de chambre
branco, estendendo o olhar, cocando; por cima, trs das Azevedos, entre as 
velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riadas nalgum 
conciliculo maligno! Por trs dos vidros a criada do doutor costurava, com 
olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja de 
mveis, Sentiam-se as expectoraes do patriota.
- "No passa um gato que esta gente no d f!" - pensou Sebastio. "E que 
lnguas! Que lnguas! Devo faz-lo, ainda que estoure! Se ela amanh est 
melhor, digo-lhe tudo!"
Estava com efeito j boa, s nove horas, no dia seguinte, quando Juliana a foi 
acordar, com "uma cartinha da senhora D. Leopoldina".
A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de buo e 
esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana; beijocavam-se muito, diziam-se 
sempre finezas. E depois de ter guardado a resposta de Lusa num cabazinho que 
trazia no brao, traou o xale e muito risonha:
- Ento que h por c de novo, Sra. Juliana?
- Tudo velho, Sra. Justina. E mais baixo:
- O primo da senhora, agora, vem todos os dias. Perfeito rapaz! Tossiram ambas, 
baixinho, com malcia.
- E por l, Sra. Justina, quem vai por l?
Justina fez um aceno de desprezo.
- Um rapazola, um estudante. Fraca coisa!...
- Sempre pinga - disse Juliana com um risinho.
A outra exclamou:
- Olha quem! O pelintra! Nem cheta!
E erguendo o olhar com saudade:
- Ai, como o Gama no h! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me 
no desse os seus dez tostes, s vezes meia libra. Ai, devo dize-lo, foi ele 
que me ajudou para o meu vestido de seda! Este agora!... E um fedelho. Eu nem 
sei como a senhora suporta aquilo! E amarelado, enfezado! Aquilo pode prestar 
para nada!
Juliana disse ento:
- Pois olhe, Sra. Justina, eu agora  que comeo a considerar:  onde se est 
bem,  em casas em que h podres! Encontrei ontem a Agostinha, a que est em 
casa do comendador, ao Rato... Pois senhor, no se imagina.  tudo o que se 
pode! Tudo! Anel, vestido de seda, sombrinha, chapu! E de roupa branca diz que 
 um enxoval. E tudo o Couceiro, o que est com a ama. E pelas festas sua moeda. 
Diz que  um homem rasgado. Ela tambm, verdade seja, tem um trabalho: f-lo 
entrar pelo jardim, e para o fazer sair tem de esperar...
- Ah, l no! - acudiu a Justina. - L  pela escada.
Riram baixinho, saboreando o escndalo.
- Gnios... - disse Juliana.
- Ai, l isso, o nosso tem estmago - afirmou Justina. - Encontram na escada, e 
tanto se lhe d...
E muito afetuosamente, arranjando o xale:
- E adeusinho, que se faz tarde, Sra. Juliana. Ela vem hoje c jantar, a 
senhora. Estive toda a manh a engomar uma saia; desde s sete!
- Tambm eu por c - disse Juliana. - Elas  o que tem; quando h amante sempre 
h mais que engomar.
- Deitam mais roupa branca, deitam - observou a Justina.
- As que deitam! - exclamou Juliana, com desprezo.
Mas Lusa tocou a campainha dentro.
- Adeus, Sra. Juliana - disse logo a outra, ajeitando o chapu.
- Adeus, Sra. Justina.
Foi acompanh-la ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito apressada ao 
quarto de Lusa; estava j a p, vestindo-se, muito alegre, cantarolando.
O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:
Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas no posso ir 
antes das seis. Convm-te?
Ficou muito contente. Havia semanas que a no via... O que iam rir, palrar! E o 
Baslio devia vir s duas. Era um dia divertido, bem preenchido...
Foi logo  cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, o criadito 
de Sebastio tocava a campainha, com um ramo de rosas, a saber se estava melhor.
- Que sim, que sim! - gritou logo Lusa. - E para o tranqilizar, para que ele 
no viesse: - Que estava boa, que at talvez sasse...
As rosas, sim,  que vinham a propsito. Foi ela mesma p-las nos vasos, olhando 
sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava interessante, 
cheia de incidentes...
E s duas horas, vestida, veio para a sala, ps-se ao piano a estudar a Medj de 
Gounod, que Baslio trouxera, e que a encantava agora muito, com os seus acentos 
suspirados e clidos.
- s duas e meia, porm, comeou a estar impaciente; os dedos embrulhavam-se no 
teclado. - "J devia ter vindo, Baslio!" - pensava.
Foi abrir as janelas, debruar-se para a rua; mas a criada do doutor, que 
costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos to sfregos que Lusa fechou 
rapidamente as vidraas. Veio recomear a melodia, j nervosa.
Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada; batia-lhe o corao. A carruagem 
passou...
Trs horas j! O calor parecia-lhe maior, insuportvel; sentia-se afogueada; foi 
cobrir-se de p-de-arroz. Se Baslio estivesse doente! E num quarto de hotel! 
S, com criados desleixados! Mas no, ter-lhe-ia escrito nesse caso!... No 
viera, no se importara! Que grosseiro, que egosta!
Era bem tola em se afligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! Foi um 
leque, e as suas mos enraivecidas sacudiram num frenesi a gaveta, ao se abriu 
logo, um pouco perra. Pois bem, no o tornaria a receber! 
E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, 
desapareceu! Sentiu um alivio, um grande desejo de tranqilidade. Era absurdo, 
realmente, com um marido como Jorge, pensar noutro homem, um leviano, um 
estrina!...
Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperao, correu ao escritrio de uma folha 
de papel, escreveu  pressa:
Querido Baslio.
Por que no vens? Ests doente? Se soubesse os tormentos por que me fazes 
passar...
A campainha retiniu. Era ele! Amarrotou o bilhete, meteu-o no bolso do ficou 
esperando, palpitante. Passos de homem pisaram no tapete da sala. Entrou com o 
olhar faiscante... Era Sebastio, um pouco plido, que lhe apertou muito as 
mos. Estava melhor? Tinha dormido bem?
Sim, obrigada, estava melhor. Sentara-se no sof, muito vermelha. Mal sabia o 
que dizer.
Repetiu com um sorriso vago:
- Estou muito melhor! - E pensava: - "No me deixa agora a casa, este maador!"
- Ento, no saiu? - perguntou Sebastio, sentado na poltrona, com o chapu 
desabado nas mos.
No, estava um pouco fatigada ainda.
Sebastio passou devagar a mo pelos cabelos, e com uma voz que o embarao 
engrossava:
- Tambm agora tem sempre companhia pela manh...
- Sim, meu primo Baslio tem aparecido. H tanto tempo que nos no vamos! Fomos 
criados de pequenos, quase... Tenho-o visto quase todos os dias.
Sebastio fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a voz:
- Eu mesmo tinha vindo para lhe falar a esse respeito...
Lusa abriu um olhar surpreendido.
- A respeito de qu?
-  que se repara... A vizinhana  a pior coisa que h, minha rica amiga. 
Repara em tudo. J se tem falado. A criada do lente, o Paula. At j vieram  
tia Joana. E como o Jorge no est... O Neto tambm reparou. Como no sabem o 
parentesco... E como vem todos os dias...
Lusa ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:
- Ento eu no posso receber os meus parentes sem ser insultada? - exclamou.
Sebastio levantou-se tambm. Aquela clera sbita nela, uma pessoa to doce, 
atarantou-o como um trovo que estala num cu claro de vero.
Ps-se a dizer, quase ansiosamente:
- Oh, minha rica senhora! Mas repare, eu no digo...  por causa da 
vizinhana!...
- Mas que pode dizer a vizinhana?
A sua voz tinha uma vibrao aguda. E batendo com as mos, apertando-as, 
exaltada:
- Isto  curioso! Tenho um parente nico, com quem fui criada, que no vejo h 
uns poucos de anos, vem-me fazer trs ou quatro visitas, est um momento, e j 
querem deitar maldade!
Falava convencida, esquecendo as palavras de Baslio, os beijos, o cup...
Sebastio, acabrunhado, enrolava o chapu nas mos trmulas. E com uma voz 
abafada:
- Eu, tinha-me parecido prudente avisar; o Julio tambm...
- O Julio? - exclamou ela. - Mas que tem o Julio com isso? Com que direito se 
metem no que se passa em minha casa? O Julio!
A interveno, as decises de Julio pareciam-lhe um acrscimo de afronta. Caiu 
numa cadeira, com as mos contra o peito, os olhos no teto.
- Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! Se ele aqui estivesse, Santo Deus!
Sebastio balbuciou aniquilado:
- Era para seu bem...
- Mas que mal me pode suceder?
E erguendo-se, indo de um mvel a outro, numa excitao:
-  o meu nico parente. Fomos criados ambos; brincvamos juntos. Em casa de 
mam, na Rua da Madalena, estava l sempre. Ia l jantar todos os dias. fssemos 
irmos. Em pequena trazia-me ao colo...
E amontoava detalhes daquela fraternidade, exagerando uns, inventando acaso, na 
improvisao da clera.
- Vem aqui - acrescentava - est um bocado; fazemos msica; ele toca ente, fuma 
um charuto, vai-se...
Instintivamente justificava-se.
Sebastio estava sem idia, sem resoluo. Parecia-lhe aquela uma outra Lusa, 
diferente, que o assustava; e quase curvava os ombros sob a estridncia da sua 
voz, que nunca conhecera to forte, vibrando numa loquacidade trapalhona.
Erguendo-se enfim, disse com uma dignidade melanclica:
- Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.
Fez-se um silncio grave. Aquele tom sbrio, quase severo, obrigou-a a corar um 
pouco dos seus espalhafatos; baixou os olhos; disse embaraada:
- Perdoe, Sebastio! Mas realmente!... No, acredite, juro-lhe, estou-lhe muito 
obrigada em me avisar. Fez muito bem Sebastio!
Exclamou logo, vivamente:
- Para evitar qualquer calnia dessas lnguas danadas! Pois no  verdade?
Justificou ento a sua interveno, com muita amizade: s vezes por uma palavra 
arma-se uma intriga, e quando uma pessoa est prevenida...
- Decerto, Sebastio! - repetiu ela. - Fez perfeitamente bem em me avisar. 
Decerto!
Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento limpava com 
o leno os cantos secos da boca.
- Mas que hei de eu fazer, Sebastio! Diga!
Ele comovia-se agora de a ver assim ceder, aconselhar-se, quase lamentava 
gravidade das suas advertncias, perturbar a alegria das suas intimidades. 
Disse:
- Est claro que deve ver seu primo; receb-lo... Mas enfim, sempre  bom uma 
certa reserva, com esta vizinhana! Eu se fosse a si contava-lhe... 
explicava-lhe...
- Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastio?
- Repararam. Quem seria? Quem no seria? Que vinha; que estava; o diabo!
Lusa ergueu-se impetuosamente:
- Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lho tenho dito! Isto  uma rua 
impossvel! No se mexe um dedo que no espreitem, que no cochichem!
- No tm que fazer...
Houve um silncio. Lusa passeava pela sala, com a cabea baixa, a testa 
franzida; e parando, olhando quase ansiosamente para Sebastio:
- O Jorge se soubesse  que tinha um desgosto! Santo Deus!
- Escusa de saber! - exclamou logo Sebastio. - Isto fica entre ns!
- Para o no afligir, no  verdade? - acudiu ela
- Est claro! Isto fica entre ns.
E Sebastio estendendo-lhe a mo, quase humildemente.
- Ento no est zangada comigo, hem?
- Eu, Sebastio! Que tolice!
- Bem, bem. Acredite! - e espalmou a mo sobre o peito - eu entendi que era o 
meu dever. Porque enfim, a minha rica amiga no sabia nada...
- Estava bem longe!...
- Decerto. Bem, adeus. No a quero maar mais. - E com uma voz profunda, 
comovida: - C estou s ordens, hem!
- Adeus, Sebastio... Mas que gente! Por ver entrar o pobre rapaz trs ou quatro 
vezes!...
- Uma canalha, uma canalha! - disse Sebastio, arregalando os olhos.
E saiu.
Apenas ele fechou a porta:
- Que desaforo! - exclamou Lusa. - Isto s a mim!
Porque a interveno de Sebastio, no fundo, irritava-a mais que os mexericos da 
vizinhana! A sua vida, as suas visitas, o interior da sua casa era discutido, 
resolvido por Sebastio, por Julio, por tutti quanti! Aos vinte e cinco anos 
tinha mentores! No estava m! E por qu, Santo Deus? Porque seu primo, o seu 
nico parente vinha v-la!...
Mas ento, de repente, emudecia interiormente. Lembravam-lhe os olhares de 
Baslio, as suas palavras exaltadas, aqueles beijos, o passeio ao Lumiar. A sua 
alma corava baixo, mas o seu despeito seguia declamando alto: - decerto, havia 
um sentimento, mas era honesto, ideal, todo platnico!... Nunca seria outra 
coisa! Podia ter l dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma 
mulher de bem, fiel, s de um!...
E esta certeza irritava-a ento contra os palratrios da rua! Que de resto era 
l possvel, que s por verem entrar Baslio, quatro ou cinco vezes, s duas 
horas da tarde, comeassem logo a murmurar, a cortar na pele?... Sebastio era 
um caturra, com terrores de ermito! E que idia, ir consultar Julio! Julio! 
Era ele, decerto, que o instigara a vir pregar, assust-la, humilh-la!... Por 
qu? Azedume, inveja! Porque Baslio tinha beleza, toalete, maneiras, 
dinheiro!... Se tinha!
As qualidades de Baslio apareciam-lhe ento magnficas e abundantes como os 
atributos de um deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver junto 
dela! O amor daquele homem, que tinha esgotado tantas sensaes, abandonado 
decerto tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmao gloriosa da sua beleza e a 
irresistibilidade da sua seduo.
A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder. No o 
queria ver diminudo; queria-o sempre presente, crescendo, balouando sem cessar 
diante dela, o murmrio lnguido das ternuras humildes! Podia l separar-se de 
Baslio! Mas se a vizinhana, as relaes comeavam a comentar, a cochichar... 
Jorge podia saber!... Aquela suposio o corao arrefecia-lhe... - Sebastio 
tinha razo, no fundo, era evidente!
Numa rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquele lindo rapaz, e, 
agora que seu marido no estava... Era terrvel! - Que havia de fazer, Santo 
Deus!...
A campainha retiniu com fora; Leopoldina entrou.
Vinha furiosa com o cocheiro; que imaginasse ela, hem! Tinha parado ao Correio e 
o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!...
E que calor, uf! - Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mos no ar para 
descer o sangue, dando-lhes palidez; e diante do toucador, compondo ligeiramente 
os frisados do cabelo, com uma cor na pele, muito espartilhada, admirvel 
corpete couraado:
- Que tens tu, filha? Ests toda no ar!
Nada. Tinha-se zangado com as criadas...
- Ai! Esto insuportveis! - Contou as exigncias da Justina, os seus 
desmazelos. - E muito agradecida ainda que ela se me no v! Quando a gente 
depende delas... - E pondo p-de-arroz no rosto, com uma voz lenta: - L o meu 
senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fora com...- 
Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Lusa, mais baixo, com um tom alegre, muito 
sincero: - Mas olha, a falar a verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro... 
Que ele coitado com a sua mesada mal lhe chega. Disse comigo: nada, vou ver a 
Lusa. Tambm os homens sempre, sempre, secam!... - Que tens tu para jantar? No 
fizeste cerimnia, hem?
E com uma idia sbita:
- Tens tu bacalhau?
Devia haver, talvez. Que extravagncia! Por qu?
- Ai! - exclamou. - Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta 
bacalhau! Aquele animal! Eu  a minha paixo. Com azeite e alho! - Mas calou-se, 
contrariada - Diabo!
- O qu?
-  que hoje no posso comer alho...
E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastio, p-la casa 
do corpete. Desejava ter uma sala assim - pensava, olhando em redor. Queria-a de 
repes azul, com dois grandes espelhos, um lustre de gs, e o seu retrato a leo 
de corpo inteiro, decotada, ao p de um rico vaso de flores...
Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do Barba-Azul.
E vendo Lusa entrar:
- Mandaste arranjar o bacalhau?
- Mandei.
- Assado?
- Sim.
- E atirou, com a sua voz mordente, a sua cano querida da Gr-duquesa:
- Ouvi dizer que meu av de vinho, 
Era um tal amador...
Mas Lusa achava aquela msica "espalhafatona"; queria alguma coisa triste, 
doce... O fado! Que tocasse o fado!...
Leopoldina exclamou logo:
- Ai, o fado novo! Tu no ouviste?  lindo! Os versos so divinos!
Preludiou, cantando com um balouar lnguido da cabea, o olhar erguido e turvo:
- O rapaz que eu ontem vi 
Era moreno e bem feito...
- Tu no sabes isto, Lusa? Oh, filha!  o ltimo!  de chorar! Recomeou, com o 
tom muito quebrado. Era a histria rimada de um amor infeliz. Falava-se nas 
"raivas do cime, nas rochas de Cascais, nas noites de luar, nos suspiros da 
saudade", todo o palavreado mrbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava 
tons dolentes  voz, revirava um olhar expirante; uma quadra sobretudo 
enternecia-a; repetiu-a com paixo:
- Vejo-o nas nuvens do cu
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteia
Sinto-o sempre ao p de mim.
- Lindo! - suspirava Lusa.
E Leopoldina terminava com ais! em que a sua voz se arrastava numa extenso 
desafinada.
Lusa, de p junto do piano, sentia o cheiro do feno que ela usava; o fado, os 
versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o teclado os 
dedos geis e magros de Leopoldina, onde reluziam as pedras dos anis que lhe 
tinha dado o Gama.
Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o jantar na 
mesa!
Leopoldina declarou que vinha a cair de fome! E a sala de jantar com as vidraas 
abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul de horizonte onde se 
algodoavam nuvenzinhas muito brancas - alegrou-a; a sala de jantar dela 
tirava-lhe at o apetite; era uma tristeza; deitava para o saguo!
Ps-se a depenicar bagos de uvas, a trincar bocadinhos de conserva - e reparando 
no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:
- Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pndego!
- E h que tempos que no jantavam juntas! Desde quando?
- Desde o meu primeiro ano de casada - lembrou Lusa.
Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito nesse tempo; Jorge ir s 
lojas ambas, aos confeiteiros,  Graa... A lembrana daquela camaradagem 
levou-a s recordaes mais distantes do colgio. Tinha visto, havia dias, a 
Rita Pessoa, com o sobrinho. - Lembraste dele?
- O Espinafre?
- "Espinafre" ou no era no colgio o homem, o ideal, o heri; todas lhe 
escreviam bilhetes, desenhavam-lhe coraes de onde saia uma fogueira; 
metiam-lhe no bon muito sebento ramos de flores de papel... E quando a Micaela 
foi apanhada, no cacifo dos bas, a devor-lo de beijos!...
Lusa disse:
- Que horror!
- No que a Micaela era doida!
Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava cheia de 
filhos...
- Isto  um vale de lgrimas! - resumiu Leopoldina, recostando-se. 
Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do 
garfo, provava, deixava, punha-se a comer cdeas de po que barrava de manteiga. 
E deleitava-se nas recordaes do colgio! Que bom tempo!
- Lembraste quando estivemos de mal? 
Lusa no se lembrava...
- Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento - disse 
Leopoldina.
Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era 
a Joaninha , a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a corte um 
ms.
- Tolices! - disse Lusa corando um pouco.
- Tolices! Por qu?
Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras 
sensaes, as mais intensas. Que agonia de cimes! Que delrio de 
reconciliaes! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as 
palpitaes do corao, as primeiras da vida!
- Nunca - exclamou -, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti 
pela Joaninha!... Pois podes crer...
Um olhar de Lusa deteve-a. - A Juliana! Diabo! Tinha-se esquecido! 
Constrangia-se muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o 
tique-taque dos metlico dos taces.
- E que foi feito da Joaninha? - perguntou Lusa.
- Morrera tsica - e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doena bem triste, 
no era? Mas no lhe tinha medo, ela! Batia no seio, bem formado:
- Isto  rijo, isto  so! 
Juliana saiu, e Lusa observou logo:
- V no que falas, filha! Tem cuidado!
Leopoldina curvou-se:
- Ah! A respeitabilidade da casa! Tens razo! - murmurou.
E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovao!
- Bravo! Est soberbo!
Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em 
lascas.
- Tu vers - dizia ela. - No te tentas? Fazes mal!
Teve ento um movimento decidido de bravura, disse:
- Traga-me um alho, Sra. Juliana! Traga-me um bom alho!
E apenas ela saiu:
- Eu vou ter logo com o Fernando, mas no me importa!... Ah! Obrigada, Sra. 
Juliana! No h nada como o alho!...
Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau de um fio mole de 
azeite, com gravidade. - Divino! - exclamou. Tornou a encher o copo; achava 
aquilo uma pndega.
- Mas que tens tu?
Lusa com efeito parecia preocupada. Tinha suspirado baixo. Duas vezes, 
endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:
- Parece que tocaram a campainha, v ver.
No era ningum.
- Quem havia de ser? No esperas teu marido, decerto.
- Ah! no!
E ento Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito atenta, 
lascazinhas de bacalhau:
- E teu primo veio ver-te?
Lusa fez-se vermelha.
- Sim, tem vindo. Tem vindo vrias vezes.
- Ah!
E depois de um silncio:
- Ainda est bonito?
- No est feio...
- Ah!
Lusa apressou-se a perguntar se tinha encomendado o vestido de xadrezinho? No. 
E comearam a falar de toaletes, fazendas, lojas e preos... Depois, de 
conhecidas, de outras senhoras, de boatos - perdendo-se numa conversa de 
mulheres ss, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.
Viera o assado. Leopoldina j ia tendo uma cor quente nas faces. Pediu a Juliana 
que lhe fosse buscar o leque; - e recostada, abanando-se, declarou que se sentia 
como um prncipe. E ia bebericando golinhos de vinho. Que boa idia, jantarem 
juntas!...
Apenas Juliana disps os pratos de fruta, Lusa disse-lhe logo que chamaria para 
o caf, que podia ir. Foi ela mesmo fechar a porta da sala, correr o reposteiro 
de cretone:
- Estamos  vontade, agora! Fao-me velha s de olhar para esta criatura! Estou 
morta por a ver pelas costas!
- Mas por que a no pes na rua? 
Jorge que no queria, seno...
Leopoldina protestou. Boa! Os maridos no deviam ter vontade!... Era o que 
faltava!...
- E o teu, ento? - disse Lusa, rindo.
- Obrigada! - exclamou Leopoldina. - Um homem que faz quarto  parte!...
De resto detestava os homens que se ocupam de criadas, de ris, de azeites e 
vinagres...
- Que l o meu cavalheiro at pesa a carne! - Sorriu, com dio. - Tambm  o que 
vale, seno!... Eu s de ir  cozinha me do enjos... 
Quis deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.
Lusa acudiu:
- Queres, tu champanhe? - Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um 
proprietrio de minas.
Foi ela mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul; - e com 
risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as; olhavam os 
copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se de saber abrir muito 
bem o champanhe; falava vagamente de ceias passadas...
- Em tera-feira gorda, h dois anos!...
E toda recostada na cadeira, com um sorriso clido, as asas do nariz dilatadas, 
a pupila mida, olhava com sensualidade os globulozinhos vivos que subiam, sem 
cessar, no copo esguio.
- Se fosse rica, bebia sempre champanhe - disse.
Lusa no, ambicionava um cup; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a 
Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga vida, 
com carruagens, camarotes de assinatura, uma casa em Sintra, ceias, bailes, 
toaletes, jogo... Porque gostava do monte. - dizia - fazia-lhe bater o corao.
E estava convencida que havia de adorar a roleta.
- Ah! - exclamou. - Os homens so bem mais felizes que ns! Eu nasci para homem! 
O que eu faria!
Levantou-se, foi-se deixar cair muito languidamente na voltaire, ao p da 
janela. A tarde descia serenamente; por trs das casas, para l dos terrenos 
vagos, nuvens arredondavam-se, amareladas, orladas de cores sangneas ou de 
tons alaranjados.
E voltando-lhe a mesma idia de ao, de independncia:
- Um homem pode fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pode viajar, correr aventuras... 
Sabes tu, fumava agora um cigarrito...
O pior  que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia to mal!...
-  um convento, isto! - murmurou Leopoldina. - No tens m priso, minha filha!
Lusa no respondeu; tinha encostado a cabea  mo: e com o olhar vago, como 
continuando alguma idia.
- So tolices, no fim, andar, viajar! A nica coisa neste mundo  a gente estar 
na sua casa, com o seu homem, um filho ou dois...
Leopoldina deu um salto na voltaire. Filhos! Credo, que nem falasse em 
semelhante coisa! Todos os dias dava graas a Deus em os no ter!
- Que horror! - exclamou com convico. - O incmodo todo o tempo que se 
est!... As despesas! Os trabalhos, as doenas! Deus me livre!  uma priso! E 
depois quando crescem, do f de tudo, palram, vo dizer... Uma mulher com 
filhos est intil para tudo, est atada de ps e mos! No h prazer na vida. E 
estar ali a atur-los... Credo! Eu? Que Deus no me castigue, mas se tivesse 
essa desgraa parece-me que ia ter com a velha da Travessa da Palha!
- Que velha? - perguntou Lusa.
Leopoldina explicou. Lusa achava uma infmia. A outra encolheu os ombros, 
acrescentou:
- E depois, minha rica,  que uma mulher estraga-se; no h beleza de corpo que 
resista. Perde-se o melhor. Quando se  como a tua amiga, a D. Felicidade, 
enfim!... Mas quando se  direitinha e arranjadinha!... Nada, minha rica! 
Embaraos no faltam!
Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio tocar o final 
da Traviata; ia escurecendo; j as verduras dos quintais tinham uma igual cor 
parda; e as casas para alm esbatiam-se na sombra.
A Traviata lembrou a Lusa a Dama das camlias; falaram do romance; recordaram 
episdios...
- Que paixo que eu tive por Armando em rapariga! - disse Leopoldina.
- E eu foi por D'Artagnan - exclamou ingenuamente Lusa.
Riram muito.
- Comeamos cedo - observou Leopoldina. - D-me uma gotinha mais.
Bebeu, pousou o clice - e encolhendo os ombros:
- Oh! Comeamos cedo? Comeam todas! Aos treze anos j a gente vai na sua quarta 
paixo. Todas so mulheres, todas sentem o mesmo! - E batendo o compasso com o 
p, cantou, no tom do fado:
- O amor  uma doena
Que costuma andar no ar;
S d'ir  janela s vezes
S'apanha a febre d'amar!
- Estou hoje com uma telha! - E espreguiando-se muito languidamente: - No fim 
de contas  o que h de melhor neste mundo; o resto  uma sensaboria! No  
verdade? Dize, tu! No  verdade?
Lusa murmurou:
- Se ! - E acrescentou logo: - Creio eu!
Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:
- Cr ela! Pobre inocentinha! Vejam o anjinho!
Foi-se encostar  janela; ficou a olhar pelos vidros o descer do crepsculo; de 
repente ps-se a dizer devagar:
- Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Cristo a privar-se, a passar uma 
vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar, uma soalheira 
e boas noites, vai-se para o alto de So Joo! T rola! 
A sala agora estava um pouco escura.
- Pois no te parece? - perguntou ela.
Aquela conversa embaraava Lusa; sentia-se corar, mas o crepsculo, as palavras 
de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento de uma tentao. Declarou todavia 
imoral semelhante idia.
- Imoral, por qu?
Lusa falou vagamente nos deveres, na religio. Mas os deveres irritavam 
Lepoldina. Se havia uma coisa que a fizesse sair de si - dizia - era ouvir falar 
em deveres!...
- Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido? 
Calou-se, e passeando pela sala excitada:
- E em quanto  religio, histrias! A mim me dizia o Pe, Estvo, o de luneta, 
que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvies, se eu fosse com ele 
a Carriche!
- Ah, os padres... - murmurou Lusa.
- Os padres qu? So a religio! Nunca vi outra. Deus, esse, minha rica, est 
longe, no se ocupa do que fazem as mulheres.
Lusa achava horrvel aquele modo de pensar. A felicidade, a verdadeira, segundo 
ela, era ser honesta...
- E a bisca em famlia! - resmungou Leopoldina, com dio. 
Lusa disse, animada:
- Pois olha que com as tuas paixes, umas atrs das outras... 
Leopoldina estacou:
- O qu?
- No te podem fazer feliz!
- Est claro que no! - exclamou a outra. - Mas... - procurou a palavra; no a 
quis empregar decerto; disse apenas com um tom seco: - Divertem-me!
Calaram-se. Lusa pediu o caf.
Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; da a pouco foram para a sala.
- Sabes quem me falou ontem de ti? - disse Leopoldina, indo estender-se no div,
- Quem?
- O Castro.
- Que Castro?
- O de culos, o banqueiro.
- Ah!
- Muito apaixonado por ti sempre.
Lusa riu.
- Doido, palavra! - afirmou Leopoldina.
A sala estava s escuras, com as janelas abertas; a rua esbatia-se num 
crepsculo pardo, um ar lnguido e doce amaciava a noite.
Leopoldina esteve um momento calada; mas o champanhe, a meia obscuridade 
deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar confidenciazinhas. Estirou-se 
mais no div, numa atitude toda abandonada; ps-se a falar dele. Era ainda o 
Fernando, o poeta. Adorava-o.
- Se tu soubesses! - murmurava com um ar de xtase. -  um amor de rapaz!
A sua voz velada tinha inflexes de uma ternura clida. Lusa sentia-lhe o 
hlito e o calor do corpo, quase deitada tambm, enervada; a sua respirao alta 
tinha por vezes um tom suspirado; e a certos detalhes mais picantes de 
Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como de ccegas... Mas passos 
fortes de botas de tachas subiram a rua, e no candeeiro defronte o gs saltou 
com um jato vivo. Uma branda claridade plida penetrou na sala.
Leopoldina ergueu-se logo. - Tinha de ir j, j, ao acender do gs. Estava  
espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo s escuras, a pr o chapu, 
buscar a sombrinha. - Tinha-lhe prometido, coitado, no podia faltar. Mas 
realmente embirrava de ir s. Era to longe! Se a Juliana pudesse vir 
acompanh-la...
- Vai, sim, filha! - disse Lusa.
Ergueu-se preguiosamente com um grande ai!, foi abrir a porta, e deu de cara 
com Juliana, na sombra do corredor.
- Credo, mulher, que susto!
- Vinha saber se queriam luz...
- No. V por um xale para acompanhar a senhora D. Leopoldina! Depressa!
Juliana foi correndo.
- E quando apareces tu, Leopoldina? - perguntou Lusa.
Logo que pudesse. Para a semana estava com idias de ir ao Porto ver a tia 
Figueiredo, passar quinze dias na Foz...
A porta abriu-se.
- Quando a senhora quiser... - disse Juliana.
Fizeram grandes adeuses, beijaram-se muito. Lusa disse rindo ao ouvido de 
Leopoldina: - S feliz!
Ficou s. Fechou as janelas, acendeu as velas, comeou a passear pela sala, 
esfregando devagar as mos. E, sem querer, no podia desprender a idia de 
Leopoldina que ia ver o seu amante! O seu amante!...
Seguia-a mentalmente: caminhava depressa decerto falando com Juliana; chegava; 
subia a escada, nervosa; atirava com a porta - e que delicioso, que vido, que 
profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambm ela amava - e um mais belo, mais 
fascinante. Por que no tinha vindo?
Sentou-se ao piano preguiosamente; ps-se a cantar baixo, triste, o fado de 
Leopoldina:
- E por mais longe que esteia 
Vejo-o sempre ao p de mim!...
Mas um sentimento de solido, de abandono, veio impacient-la. Que seca, estar 
ali to sozinha! Aquela noite clida, bela e doce, atraa-a, chamava-a para 
fora, passeios sentimentais, ou para contemplaes do cu, num banco de jardim, 
com as mos entrelaadas. Que vida estpida, a dela! Oh! Aquele Jorge! Que idia 
ir para o Alentejo!
As conversas de Leopoldina e a lembrana das suas felicidades voltavam-lhe a 
cada momento; uma pontinha de champanhe agitava-se no sangue. O relgio do 
quarto comeou lentamente a dar nove horas - e de repente a campainha retiniu.
Teve um sobressalto; no podia ser ainda Juliana! Ps-se a escutar assustada. 
Vozes falavam  cancela.
- Minha senhora - veio dizer Joana baixo -  o primo da senhora que se vem 
despedir...
Abafou um grito, balbuciou:
- Que entre!
Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro 
franziu-se; Baslio entrou, plido, com um sorriso fixo.
- Tu partes! - exclamou ela surdamente, precipitando-se para ele.
- No! - E prendeu-a nos braos. - No! Imaginei que me no recebias a esta 
hora, e tomei este pretexto.
Apertou-a contra si, beijou-a; ela deixava, toda abandonada; os seus lbios 
prendiam-se aos dele. Baslio deitou um olhar rpido, em redor, pela sala, e 
foi-a levando abraado, murmurando: - Meu amor! Minha filha! - Mesmo tropeou na 
pele de tigre, estendida ao p do div.
- Adoro-te!
- Que susto que tive! - suspirou Lusa. 
- Tiveste?
Ela no respondeu; ia perdendo a percepo ntida das coisas; sentia-se como 
adormecer; balbuciou: - Jesus! No! No! - Os seus olhos cerraram-se.
Quando a campainha retiniu fortemente s dez horas, Lusa, havia momentos, 
sentara-se  beira do div. Mal teve fora de dizer a Baslio:
- H de ser a Juliana, tinha ido fora...
Baslio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi acender um charuto. Para 
quebrar o silncio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, 
erguendo um pouco a voz, comeou a cantarolar a ria do terceiro ato do Fausto.
- Al pallido chiarore 
Dei ostri d'oro...
Lusa, atravs das ltimas vibraes dos seus nervos, ia entrando na realidade; 
os seus joelhos tremiam. E ento, ouvindo aquela melodia, uma recordao foi-se 
formando no seu esprito, ainda estremunhado: era uma noite, havia anos, em So 
Carlos, num camarote com Jorge; uma luz eltrica dava ao jardim, no palco, um 
tom lvido de luar legendrio; e numa atitude exttica e suspirante o tenor 
invocava as estrelas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: "Que lindo!" E o seu 
olhar devorava-a. Era no segundo ms do seu casamento. Ela estava com um vestido 
azul-escuro. E  volta, na carruagem, Jorge, passando-lhe a mo pela cinta, 
repetia:
- Al pallido chiarore 
Dei astri d'oro...
E apertava-a contra si...
Ficara imvel  beira do div, quase a escorregar, os braos frouxos, o olhar 
fixo, a face envelhecida, o cabelo desmanchado. Baslio ento veio sentar-se 
devagarinho junto dela. Em que estava a pensar?
- Nada.
Ele passou-lhe o brao pela cinta, comeou a dizer que havia de procurar uma 
casinha para se verem melhor, estarem mais  vontade; no era mesmo prudente ali 
em casa dela...
E falando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do 
charuto.
- No te parece que vir eu aqui, todos os dias, pode ser reparado?
Lusa ergueu-se bruscamente; lembrara-lhe Sebastio!... E com uma voz um pouco 
desvairada:
- J  to tarde! - disse.
- Tens razo.
Foi buscar o chapu em bicos de ps, veio beij-la muito, saiu.
Lusa sentiu-o acender um fsforo, fechar devagarinho a cancela.
Estava s; ps-se a olhar em roda, como idiota. O silncio da sala parecia-lhe 
enorme. As velas tinham uma chama avermelhada. Piscava os olhos, tinha a boca 
seca. Uma das almofadas do div estava cada, apanhou-a.
E com um ar sonmbulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E j vinha 
com a lamparina, estava a arranj-la...
Tinha tirado a cuia; subiu  cozinha quase a correr. A Joana, que estivera 
dormitando, espreguiava-se com bocejos enormes.
Juliana ps-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no 
olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para 
Joana:
- E ento a que horas veio o primo da senhora?
- Veio logo que vossemec saiu, estavam a dar as nove.
- Ah!
Desceu com a lamparina; e sentindo Lusa na alcova despir-se:
- A senhora no quer ch? - perguntou, com muito interesse.
- No.
Foi  sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Ps-se a olhar em 
redor, devagar, andando com um passo sutil... De repente agachou-se, 
ansiosamente: ao p do div uma coisa reluzia. Era uma travessa de Lusa, de 
tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de ps, 
pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.
- Quem anda a? - perguntou da alcova a voz sonolenta de Lusa.
- Sou eu, minha senhora, sou eu; estive a fechar a sala. Muito boas noites, 
minha senhora!
quela hora Baslio entrava no Grmio. Procurou pelas salas. Estavam desertas. 
Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em atitudes lgubres, 
ruminavam os jornais; aqui, alm, junto a mesinhas redondas, pessoas de cala 
branca mastigavam torradas com uma satisfao plcida; as janelas estavam 
fechadas, a noite quente, e o calor mole do gs abafava. Ia descer quando de uma 
saleta de jogo, de repente, saiu o rudo irritado de uma altercao; trocavam-se 
injrias, gritava-se: - Mente! O asno  voc! 
Baslio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande silncio; uma das 
vozes disse com brandura:
- Paus!
A outra respondeu com benevolncia:
-  o que devia ter feito h pouco.
E imediatamente a questo rebentou de novo, estridente. Praguejavam, 
obscenidades.
Baslio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de p, apoiado ao taco, seguia com 
uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Baslio, veio para 
ele rapidamente, e muito interessado:
- Ento?
- Agora mesmo - disse Baslio mordendo o charuto.
- Enfim, hem? - exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.
- Enfim!
- Ainda bem, menino! Ainda bem!
Batia-lhe no ombro, comovido.
Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, 
para dar com mais segurana o efeito, dizia com a voz constrangida pela atitude:
- Estimo, estimo, porque essa coisa comeava a arrastar...
- Taque! Falhou a carambola.
- No dou meia! - murmurou com rancor.
E chegando-se a Baslio, a dar giz no taco:
- Ouve c...
Falou-lhe ao ouvido.
- Como um anjo, menino! - suspirou Baslio.
CAPTULO VI
Foi Juliana que na manh seguinte veio acordar Lusa, dizendo  porta da alcova 
com a voz abafada, em confidncia:
- Minha senhora! Minha senhora!  um criado com esta carta; diz que vem do 
hotel.
Foi abrir uma das janelas, em bicos de ps; e voltando  alcova com uma cautela 
misteriosa:
- E est  espera da resposta, est  porta.
Lusa, estremunhada, abriu o largo envelope azul com um monograma - dois BB, um 
prpura, outro ouro, sob uma coroa de conde.
- Bem, no tem resposta.
- No tem resposta - foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado ao 
corrimo, fumando um grande charuto, e cofiando as suas pretas.
- No tem resposta? Bem, muito bom dia. - Levou o dedo secamente  aba do coco, 
e desceu, gingando.
Perfeito homem, foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.
- Quem bateu, Sra. Juliana? - perguntou-lhe logo a cozinheira.
Juliana resmungou:
- Ningum; um recado da modista.
Desde pela manh a Joana achava-lhe o ar esquisito. Sentira-a desde s sete 
horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraas da sala de jantar, arrumar 
as louas no aparador. E com uma azfama! Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao 
mesmo tempo que os canrios, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao 
sol. Quando veio tomar o seu caf  cozinha no palestrou como de costume; 
parecia preocupada e ausente.
Joana at lhe perguntou:
- Sente-se pior, Sra. Juliana?
- Eu? Graas a Deus, nunca me senti to bem.
- Como a veio to calada...
- A malucar c por dentro... A gente nem sempre est para grulhar.
Apesar de serem nove horas no quisera acordar a senhora. Deixa-a descansar, 
coitada! - disse. Foi em pontas de ps encher devagarinho a bacia grande do 
banho, no quarto; para no fazer rudo, sacudiu no corredor as saias, o vestido 
da vspera: e os seus olhos brilharam avidamente quando sentiu na algibeirinha 
um papel amarrotado! Era o bilhete que Lusa escrevera a Baslio: "Por que no 
vens?... Se soubesses o que me fazes sofrer!..." Teve-o um momento na mo, o 
beio, o olhar fixo num clculo agudo; por fim tornou a met-lo na algibeira de 
Lusa, dobrou o vestido, foi estend-lo com muito cuidado na causeuse.
Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Lusa, com 
uma voz meiga:
- So dez e meia, minha senhora!
Lusa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Baslio: No pudera - escrevia 
ele - estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! se de manh 
muito cedo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos ps dela. 
Compusera aquela prosa na vspera, no Grmio, s trs horas, depois de alguns 
rubbers de uste, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura preguiosa da 
ilustrao. E terminava, exclamando: - "Que outros desejem a fortuna, a glria 
as honras, eu desejo-te a ti! S a ti, minha pomba, porque tu s o nico lao 
que me prende  vida, e se amanh perdesse o teu amor, juro-te que punha um 
termo, com uma boa bala, a esta existncia intil!" - Pedira mais cerveja, e 
levara a carta para a fechar em casa, num envelope com o seu monograma, porque 
sempre fazia mais efeito.
E Lusa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez 
que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao 
calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho 
tpido; sentia um acrscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava 
enfim numa existncia superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu 
encanto diferente, cada passo conduzia a um xtase, e a alma se cobria de um 
luxo radioso de sensaes!
Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupo, veio levantar os 
transparentes da janela... Que linda manh! Era um daqueles dias do fim de 
agosto em que o estio faz uma pausa; h prematuramente, no calor e na luz, uma 
tranqilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve, o ar 
no tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; 
respira-se mais livremente; e j no se v na gente que passa o abatimento mole 
da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido 
a noite de um sono so, contnuo, e todas as agitaes, as impacincias dos dias 
passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho; achou 
a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento mido no olhar - seria 
verdade ento o que dizia Leopoldina, que no havia como uma maldadezinha para 
fazer a gente bonita? Tinha um amante, ela!
E imvel no meio do quarto, os braos cruzados, o olhar fixo, repetia: "Tenho um 
amante!" Recordava a sala na vspera, a chama aguada das velas, e certos 
silncios extraordinrios em que lhe parecia que a vida parara, enquanto os 
olhos do retrato da me de Jorge, negros na face amarela, lhe estendiam da 
parede o seu olhar fixo de pintura. Mas Juliana entrou com um tabuleiro de roupa 
passada. Eram horas de se vestir...
Que requintes teve nessa manh! Perfumou a gua com um cheiro de Lubio, escolheu 
a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as 
bretanhas e as holandas mais caras, as moblias mais aparatosas, grossas jias 
inglesas, um cup forrado de cetim... Porque nos temperamentos sensveis as 
alegrias do corao tendem a completar-se com as sensualidades do luxo; o 
primeiro erro que se instala numa alma at a defendida, facilita logo aos 
outros entradas tortuosas - assim, um ladro que se introduz numa casa vai 
abrindo sutilmente as portas  sua quadrilha esfomeada.
Subiu para o almoo, muito fresca, com o cabelo em duas tranas, em roupo 
branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janelas, porque apesar de no 
estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura! E, vendo que lhe 
esquecera o leno, correu a buscar-lhe um, que perfumou com gua-de-colnia. 
Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos figos:
- No lhe vo fazer mal, minha senhora! - exclamou quase lacrimosamente.
Andava em redor dela com um sorriso servil, sem rudo; ou defronte da mesa, com 
os braos cruzados, parecia admir-la com orgulho, como um ser precioso e 
querido, todo seu, a sua ama! O seu olhar esbugalhado apossava-se dela.
E dizia consigo:
- "Grande cabra! Grande bbeda!"
Lusa, depois do almoo, veio para o quarto estender-se na causeuse com o seu 
Dirio de Noticias. Mas no podia ler. As recordaes da vspera 
redemoinhavam-lhe na alma a cada momento, como as folhas que um vento de outono 
levanta a espaos de um cho tranqilo; certas palavras dele, certos mpetos, 
toda a sua maneira de amar... E ficava imvel, o olhar afogado num fluido, 
sentindo aquelas reminiscncias vibrarem-lhe muito tempo, docemente, nos nervos 
da memria. Todavia a lembrana de Jorge no a deixava; tivera-a sempre no 
esprito, desde a vspera; no a assustava, nem a torturava; estava ali, imvel 
mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se ele 
tivesse morrido, ou estivesse to longe que no pudesse voltar, ou a tivesse 
abandonado! Ela mesma se espantava de se sentir to tranqila. E todavia 
impacientava-a ter constantemente aquela idia no esprito, impassvel, com uma 
obstinao espectral; punha-se instintivamente a acumular as justificaes: no 
fora culpa sua. No abrira os braos a Baslio voluntariamente!... Tinha sido 
uma fatalidade; fora o calor da hora, o crepsculo, uma pontinha de vinho 
talvez... Estava doida, decerto. E repetia consigo as atenuaes tradicionais: 
no era a primeira que enganara seu marido; e muitas era apenas por vcio; ela 
fora por paixo... Quantas mulheres viviam num amor ilegtimo e eram ilustres, 
admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E ele amava-a tanto!... Seria to fiel, 
to discreto! As suas palavras eram to cativantes, os seus beijos to 
estonteadores!... E enfim que lhe havia de fazer agora? J agora!...
E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escritrio. Logo ao entrar o seu olhar deu 
com a fotografia de Jorge - a cabea de tamanho natural - no seu caixilho 
envernizado de preto. Uma comoo comprimiu-lhe o corao; ficou como tolhida - 
como uma pessoa encalmada de ter corrido, que entra na frieza de um subterrneo; 
e examinava o seu cabelo frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas 
espadas encruzadas que reluziam por cima. Se ele soubesse matava. Fez-se muito 
plida. Olhava vagamente em redor o casaco de veludo de trabalho dependurado num 
prego; a manta em que ele embrulhava os ps dobrada a um lado; as grandes folhas 
de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o potezinho de tabaco, e a caixa 
das pistolas!... Matava-a decerto!
Aquele quarto estava to penetrado da personalidade de Jorge, que lhe parecia 
que ele ia voltar, entrar da a bocado. Se ele viesse de repente!... Havia trs 
dias que no recebia carta - e quando ela estivesse ali a escrever ao seu num 
momento o outro podia aparecer e apanh-la!... Mas eram tolices, pensou. O vapor 
do Barreiro s chegava s cinco horas; e depois ele dizia na carta que ainda se 
demorava um ms, talvez mais...
Sentou-se, escolheu uma folha de papel, comeou a escrever na sua letra um pouco 
gorda:
Meu adorado Baslio.
Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que ele vinha, Era 
melhor no se pr a escrever, talvez!... Ergueu-se, foi  sala devagar, 
sentou-se no div; e, como se o contato daquele largo sof e o ardor das 
recordaes que ele lhe trazia da vspera lhe tivesse dado a coragem das aes 
amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escritrio, escreveu rapidamente:
No imaginas com que alegria recebi esta manh a tua carta...
A pena velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudi-la, como lhe tremia um 
pouco a mo, um borro negro caiu no papel. Ficou toda contrariada; pareceu-lhe 
aquilo um mau agouro. Hesitou um momento - e coando a cabea, os cotovelos 
sobre a mesa, sentia Juliana varrer fora o patamar, cantarolando a Carta 
Adorada. Enfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos midos - e 
atirou-os para um caixo de pau envernizado com duas argolas de metal, que 
estava ao canto junto  mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papis 
inteis; chamavam-lhe "o sarcfago"; Juliana decerto, descuidara-se de o 
esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada:
Escolheu outra folha, recomeou:
Meu adorado Baslio.
No imaginas como fiquei quando recebi tua carta, esta manh, ao acordar. 
Cobri-a de beijos...
Mas o reposteiro franziu-se numa prega mole, a voz de Juliana disse 
discretamente:
- Est ali a costureira, minha senhora.
Lusa, sobressaltada, tinha tapado a folha de papel com a mo.
- Que espere.
E continuou:
... Que tristeza que fosse a carta e que no fosses tu que ali estivesses! Estou 
pasmada de mim mesma, como em to pouco tempo te apossaste do meu corao, mas a 
verdade  que nunca deixei de te amar. No me julgues por isto leviana, nem 
penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas  que nunca deixei de te 
amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estpida viagem para to longe, no tu 
superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Baslio. Era mais 
forte que eu, meu Baslio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que 
tu te vinhas despedir, Baslio, fiquei como morta; mas quando vi que no, nem eu 
sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-ta, porque te amo, que eu 
mesma, me estranho... Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? 
Mau! Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas no posso, meu adorado 
Baslio!  superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te perteno 
corpo e alma, pareo-me que te amo mais, se  possvel...
- Onde est ela? Onde est ela? - disse uma voz na sala.
Lusa ergueu-se, com um salto, lvida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a 
carta, quis escond-la no bolso, - o roupo no tinha bolso! E desvairada, sem 
reflexo, arremessou-a para o sarcfago. Ficou de p, esperando, as duas mos 
apoiadas  mesa, a vida suspensa.
O reposteiro ergueu-se - e reconheceu logo o chapu de veludo azul de D. 
Felicidade.
- Aqui metida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, filha, 
ests como a cal...
Lusa deixou-se cair no fauteuil1, branca e fria; disse com um sorriso cansado:
-`Estava a escrever, deu-me uma tontura...
- Ai! Tonturas, eu! - acudiu logo D. Felicidade. -  uma desgraa, a cada 
momento a agarrar-me aos mveis; at tenho medo de andar s. Falta de purgas!
- Vamos para o quarto! - disse logo Lusa. - Estamos melhor no quarto.
Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.
Atravessaram a sala; Juliana comeava a arrumar. Lusa ao passar, viu na pedra 
da consola, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza; era da vspera, do 
charuto dele! Sacudiu-a - e ao erguer os olhos, ficou pasmada de se ver to 
plida.
A costureira vestida de preto, com um chapu de fitas roxas, esperava sentada  
beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha 
provar o corpete de um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, falando 
baixo, com uma humildade triste e uma tossinha seca; e apenas ela saiu, leve, 
com o seu andar de sombra, o xale tinto muito cingido s omoplatas magras - D. 
Felicidade comeou logo a falar dele, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no 
Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera falar! Fizera-lhe uma cortesia 
muito seca, por demais, e tique-taque por ali fora, que se diria que ia fugido! 
Que te parece? Ai! Aquelas indiferenas matavam-na. E no as compreendia, no 
realmente no as compreendia...
- Porque enfim - exclamava - eu bem me conheo, no sou nenhuma criana, mas 
tambm no sou nenhum caco! Pois no  verdade?
- Certamente - disse Lusa distrada. Lembrava-lhe a carta.
- Olha que aqui onde me vs com os meus quarenta, decotada, ainda valho. O que 
so ombros e colo  do melhor!
- Lusa ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:
- Do melhor! Tomaram-no muitas novas!
- Creio bem - concordou Lusa, sorrindo vagamente.
- E ele tambm no  nenhum rapazinho novo...
- No...
- Mas muito bem conservado! - E os olhos luziam-lhe. uma mulher muito feliz!
- Muito...
- Um homem de apetecer! - suspirou D. Felicidade. E Lusa ento:
- Tu esperas um instantinho? Vou l dentro e volto j.
- Vai, filha, vai.
Lusa correu ao escritrio, direita ao sarcfago. Estava vazio! E a carta dela, 
Santo Deus?
Chamou logo Juliana, aterrada.
- Voc despejou o caixo dos papis?
- Despejei, sim, minha senhora - respondeu muito tranqilamente.
E com interesse:
- Por qu, perdeu-se algum papel?
Lusa fazia-se plida.
- Foi um papel que eu atirei para o caixo. Onde o despejou voc?
- No barril do lixo, como  costume, minha senhora; imaginei que nada servia...
- Ah! Deixe ver!
Subiu rapidamente  cozinha. Juliana atrs, ia dizendo:
- Ora esta! Pois ainda no h cinco minutos! O caixo estava mais cheio... Andei 
a dar uma arrumadela no escritrio... Valha-me Deus, se a senhora tem dito...
Mas o barril do lixo estava vazio, Joana tinha-o ido despejar abaixo naquele 
instantinho; e vendo a inquietao de Lusa:
- Por qu, perdeu-se alguma coisa?
- Um papel - disse Lusa, que olhava em redor, pelo cho, muito branca.
- Iam uns poucos de papis, minha senhora - disse a rapariga -, eu deitei tudo 
ao despejo.
- Podia ter ficado algum cado por fora, Sra. Joana - lembrou timidamente 
Juliana.
- V ver, v ver, Joana - acudiu Lusa com uma esperana.
Juliana parecia aflita:
- Jesus, senhor! Eu podia l adivinhar! Mas para que no disse a senhora?...
- Bem, bem, a culpa no  sua, mulher...
- Credo, que at se me est a embrulhar o estmago... E  coisa de importncia, 
minha senhora?
- No,  uma conta...
- Valha-me Deus!...
Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Lusa agarrou-o, leu:-".. o 
dimetro do primeiro poo de explorao..."
- No, no  isto! - exclamou toda contrariada.
- Ento foi pra baixo pra o cano, minha senhora; no est! mais nada.
- Viu bem?
- Esquadrinhei tudo...
E Juliana continuava, desolada:
- Antes queria perder dez tostes! Uma assim! Eu, minha senhora, podia l 
adivinhar...
- Bem, bem! - murmurou Lusa descendo.
Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida... Lembrou-lhe o 
bilhete que escrevera na vspera a Baslio, e que metera, todo amarrotado, no 
bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada.
D. Felicidade tirara o chapu, acomodara-se na causeuse.
- Tu desculpas, hem? - fez Lusa.
- Anda, filha, anda! Que ?
- Perdi uma conta - respondeu.
Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira... Aquilo serenou-a. A 
carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprudncia!
- Bem, acabou-se! - disse sentando-se resignada.
E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
- Ora, eu vinha-te falar numa coisa. Mas v l! Olha que  segredo.
Lusa ficou logo sobressaltada.
- Tu sabes - continuou D. Felicidade, devagar, com pausas - que a minha criada, 
a Josefa, est para casar com o galego... O homem  de ao p de Tui, e diz que 
na terra dele h uma mulher que tem virtude para fazer casamentos que  uma 
coisa milagrosa... Diz que  o mais que h... Em deitando a sorte a um o homem 
entra-lhe uma tal paixo que se arranja logo o casamento e  a maior felicidade.
Lusa tranqilizada, sorriu.
- Escuta - acudiu D. Felicidade -, no te ponhas j com as tuas coisas...
No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
- Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros 
que no faziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim toda a sorte de 
ingratido... Em a mulher deitando o encanto, os homens comeam a esmoecer, a 
arrepender-se, a apaixonar-se, e esto pelo beio... A rapariga contou-me isso. 
Eu lembrei-me logo...
- De deitar uma sorte ao Conselheiro! - exclamou Lusa.
- Que te parece?
Lusa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou. Contou 
outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que abandonou a 
mulher e os filhos, fugira com uma bbeda... Em todos a sorte operara de um modo 
fulminante, produzindo um amor sbito e fogoso pela pessoa desprezada. Apareciam 
logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, vidos, a p, a 
cavalo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e 
humildes como escravos acorrentados...
- Mas o galego - continuava ela muito excitada - diz que para ir  terra, falar 
 mulher, levar o retrato do Conselheiro,  necessrio o retrato dele, o meu,  
necessrio o meu; ir falar, voltar - quer sete moedas!...
- Oh! D. Felicidade! - fez Lusa repreensivamente.
- No me digas, no venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
E erguendo-se:
- Mas so sete moedas! Sete moedas! - exclamou, arregalando os olhos.
Juliana apareceu  porta, e muito baixinho, com um sorriso:
- A senhora faz favor?
Chamou-a para o corredor, em segredo:
- Esta carta. Que vem do hotel.
Lusa fez-se escarlate.
- Credo, mulher! No  necessrio fazer mistrios!
Mas no entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lpis, escrita  
pressa:
"Meu amor" - dizia Baslio - "por um feliz acaso descobri o que precisvamos, um 
ninho discreto para nos vermos...
E indicava a rua, o nmero, os sinais, o caminho mais perto.
...Quando vens, meu amor? Vem amanh. Batizei a casa com o nome de Paraso; para 
mim, minha adorada,  com efeito o Paraso. Eu espero-te l desde o meio-dia; 
logo que te aviste, deso.
Aquela precipitao amorosa em arranjar o ninho - provando uma paixo 
impaciente, toda ocupada dela - produziu-lhe uma dilatao doce do orgulho; ao 
mesmo tempo que aquele Paraso secreto, como num romance, lhe dava a esperana 
de felicidades excepcionais; e todas as suas inquietaes, os sustos da carta 
perdida se dissiparam de repente sob uma sensao clida, como flocos de nvoa 
sob o sol que se levanta.
Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
- Que te parece, hem? - perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idia ocupava 
tiranicamente.
- O qu?
- Achas que mande o homem a Tui?
Lusa encolheu os ombros; veio-lhe um tdio de tais enredos de bruxaria, 
misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romntica, achava 
repugnante aquele sentimentalismo senil.
- Tolices! - disse com muito desdm.
- Oh, filha! No me digas, no me digas! - acudiu desolada D. Felicidade.
- Bem, ento manda, manda! - fez Lusa, j impaciente.
- Mas so sete moedas! - exclamou D. Felicidade, quase chorosa.
Lusa ps-se a rir.
- Por um marido? Acho barato...
- E se a sorte falha?
- Ento  caro!
D. Felicidade deu um grande "ai!" Estava muito infeliz, naquela hesitao entre 
os impulsos da concupiscncia e as prudncias da economia. Lusa teve pena dela, 
e, tirando um vestido do guarda-roupa:
- Deixa l, filha! No ho de ser necessrias bruxarias!...
D. Felicidade ergueu os olhos ao cu.
- Vais sair? - perguntou melancolicamente.
- No.
D. Felicidade props-lhe ento que viesse com ela  Encarnao. Visitavam a 
Silveira, coitada, que tinha um furnculo! E viam a armao da igreja para a 
festa; estreava-se o frontal novo, um primor!
- E estou tambm com vontade de ir rezar uma estaozinha, para aliviar c por 
dentro - ajuntou, suspirando.
Lusa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no 
coro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposies 
sentimentais. Comeou a vestir-se depressa.
- Como tu ests gorda, filha! - exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os 
ombros, o colo.
Lusa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das 
suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pele branca e fina.
- Redondinha - disse, namorando-se.
- Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!
E acrescentou, tristemente:
- Tambm com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem 
cuidados...
- Vamos l, minha rica - disse Lusa -, que as tristezas no te tm feito 
emagrecer.
- Pois sim, pois sim! Mas... - e parecia desolada, como curvada sob as suas 
prprias runas - c por dentro  uma desgraa, estmago, fgado...
- Se a mulher de Tui faz o milagre, pe tudo isso como novo!
Felicidade sorriu, com uma dvida desconsolada.
- Sabes que tenho um chapu lindo? - exclamou de repente Lusa. - No viste? 
Lindo!
Foi logo busc-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de miostis.
- Que te parece?
-  um primor!
Lusa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azuis.
- D frescura - fez D. Felicidade.
- No  verdade?
P-lo com muito cuidado, toda sria. Ficava-lhe bem! Baslio se a visse havia 
gostar, pensou. Era bem possvel que o encontrassem...
- Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava to delicioso viver, 
sair, ir  Encarnao, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo as 
chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo, 
tontinha, cantarolando:
- Amici, ta notte e bella... 
La ra la la...
Quase topou com Juliana, que varria o corredor.
- No deixe de engomar a saia bordada para amanh, Juliana! 
- Sim, minha senhora. Est em goma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
- Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!...
E ela mesma, tomada subitamente de um jbilo agudo, atirou vassouradas rpidas, 
soltando na sua voz rachada:
- Alm de amanh termina a campanha, 
P-o-o-or aqui se diz...
Se tal for verdade, se no for patranha...
E com um espremido enftico:
- Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastio e Julio passeavam em So 
Pedro de Alcntara.
Sebastio estivera contando a sua cena com Lusa, e como desde ento a sua 
estima por ela crescera. Ao principio escabreara-se, sim...
- Mas teve razo! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu levei a coisa mal, 
fui muito  bruta...
Depois, coitadinha, concordara logo, mostra-se muito desgostosa, toda zelosa do 
seu pudor, pedira-lhe conselhos... At tinha as lgrimas nos olhos.
- Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se passava... 
Que te parece?
- Sim - disse vagamente Julio.
Tinha-o escutado distrado, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto trreo 
cavava-se, com uma cor mais biliosa.
- Ento achas que fiz bem, hem?
E depois de uma pausa:
- Que ela  uma senhora de bem s direitas! As direitas, Julio!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada; 
grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando, enegrecendo para o lado da 
Graa por trs das colinas; um vento rasteiro passava por vezes, pondo um 
arrepio nas folhas das rvores.
- De maneira que agora estou descansado - resumiu Sebastio. - No te parece?
Julio encolheu os ombros com um sorriso triste:
- Quem me dera os teus cuidados, homem! - disse.
E falou ento com amargura nas suas preocupaes. - Havia uma semana que se 
abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escola, e preparava-se para 
ele. Era a sua tbua de salvao, dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo 
nome, a clientela podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre era estar de 
dentro!... Mas a certeza da sua superioridade no o tranqilizava - porque enfim 
em Portugal, no  verdade? Nestas questes a cincia, o estudo, o talento so 
uma histria; o principal so os padrinhos! Ele no os tinha - e o seu 
concorrente, um sensaboro, era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na 
Cmara; era um colosso! Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe 
indispensvel meter tambm as suas cunhas! Mas quem?
- Tu no conheces ningum, Sebastio?...
Sebastio lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo da 
maioria, um pouco fanhoso. Se Julio queria, falava-lhe... Mas sempre ouvira 
dizer que a Escola no era gente de empenhos e de intriga... De resto tinham o 
Conselheiro Accio...
- Uma besta! - fez Julio. - Um parlapato. Quem faz l caso daquilo? O teu 
pnmo, hem! O teu primo parece-me bom! E necessrio algum que fale, trabalhe... 
- Porque acreditava muito nas influncias dos empenhos, no domnio dos 
"personagens", nas docilidades da fortuna quando dirigida pelas habilidades da 
intriga. E com um orgulho raiado de ameaa: - Que eu hei de lhes mostrar o que  
saber as coisas, Sebastio!
Ia explicar-lhe o assunto da tese, mas Sebastio interrompeu-o:
- Ela a vem.
- Quem?
- A Lusa.
Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, s. - Respondeu 
 cortesia dos dois homens com um sorriso, adeusinhos da mo, um pouco corada.
E Sebastio imvel, seguindo-a devotamente com os olhos:
- Se aquilo no respira mesmo honestidade! Vai s lojas... Santa rapariga!
Ia encontrar Baslio no Paraso pela primeira vez. E estava muito nervosa: no 
dominar, desde pela manh, um medo indefinido que lhe fizera pr um vu muito 
espesso, e bater o corao ao encontrar Sebastio. Mas ao mesmo uma curiosidade 
intensa, mltipla, impelia-a, com um estremecimentozinho de prazer. - Ia, enfim, 
ter ela prpria aquela aventura que lera tantas vezes nos romances amorosos! Era 
uma forma nova do amor que ia experimentar, sensaes excepcionais! Havia tudo - 
a casinha misteriosa, o segredo ilegtimo, todas as palpitaes do perigo! 
Porque o aparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa em si 
interessava-a, atraa-a mais que Baslio! Como seria? Era os lados de Arroios, 
adiante do Largo de Santa Brbara; lembrava-se vagamente que havia ali uma 
correnteza de casas velhas... Desejaria antes que fosse numa quinta, com 
arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam as mos enlaadas, num silncio 
potico; e depois o som da gua que cai nas bacias de pedra daria um ritmo 
lnguido aos sonhos amorosos... Mas era num terceiro andar - quem sabe como 
seria dentro? Lembrava-lhe um romance de Paulo Fval em que o heri, poeta e 
duque, forra de cetins e tapearias o interior de uma choa; encontra ali a sua 
amante; os que passam, vendo aquele casebre arruinado, do um pensamento 
compassivo  misria que decerto o habita - enquanto dentro, muito secretamente, 
as flores se esfolham nos vasos de Svres e os ps nus pisam gobelins 
venerveis! Conhecia o gosto de Baslio - e o Paraso decerto era como no 
romance de Paulo Fval.
Mas no Largo de Cames reparou que o sujeito de pra comprida, o do Passeio, a 
vinha seguindo, com uma obstinao de galo; tomou logo um cup. E ao descer o 
Chiado, sentia uma sensao deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu 
amante, e mesmo olhava com certo desdm os que passavam,
no movimento da vida trivial - enquanto ela ia para uma hora to romanesca da 
vida amorosa! Todavia  maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma 
contrao de acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alabardeiros 
solenes, a escadaria de um palcio. Imaginava Baslio esperando-a estendido num 
div de seda; e quase receava que a sua simplicidade burguesa, pouco experiente, 
no achasse palavras bastante finas ou carcias bastante exaltadas. Ele devia 
ter conhecido mulheres to belas, to ricas, to educadas no amor! Desejava 
chegar num cup seu, com rendas de centos de mil ris, e ditos to espirituosos 
como um livro...
A carruagem parou ao p de uma casa amarelada, com uma portinha pequena. Logo  
entrada um cheiro mole e salobre enojou-a. A escada, de degraus gastos, subia 
ingrememente, apertada entre paredes onde a cal caa, e a umidade fizera ndoas. 
No patamar da sobreloja, uma janela com um gradeadozinho de arame, parda do p 
acumulado, coberta de teias de aranha, coava a luz suja do saguo. E por trs de 
uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger de um bero, o chorar doloroso de uma 
criana.
Mas Baslio desceu logo, com o charuto na boca, dizendo baixo:
- To tarde! Sobe! Pensei que no vinhas. O que foi?
A escada era to esguia, que no podiam subir juntos. E Baslio, caminhando 
adiante, de esguelha:
- Estou aqui desde a uma hora, filha! Imaginei que te tinhas esquecido da rua...
Empurrou uma cancela, f-la entrar num quarto pequeno, forrado de papel s 
listras azuis e brancas.
Lusa viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarelada, feita de 
remendos juntos de chitas diferentes; e os lenis grossos, de um branco 
encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos...
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraada. E os seus olhos muito abertos, 
iam-se fixando - nos riscos ignbeis da cabea dos fsforos, ao p da cama; na 
esteira esfiada, comida, com uma ndoa de tinta entornada; nas bambinelas da 
janela, de uma fazenda vermelha, onde se viam passagens; numa litografia, onde 
uma figura, coberta de uma tnica azul flutuante, espalhava flores voando... 
Sobretudo uma larga fotografia, por cima do velho canap de palhinha, 
fascinava-a: era um indivduo atarracado, de aspecto hlare e alvar, com a barba 
em colar, o feitio de um piloto ao domingo; sentado, de calas brancas, com as 
pernas muito afastadas, pousava uma das mos sobre um joelho, e a outra muito 
estendida assentava sobre uma coluna truncada; e por baixo do caixilho, como 
sobre a pedra de um tmulo, pendia de um prego de cabea amarela, uma coroa de 
perptuas!
- Foi o que se pode arranjar - disse-lhe Baslio. - E foi um acaso;  muito 
retirado,  muito discreto... No  muito luxuoso...
- No - fez ela, baixo. - Levantou-se, foi  janela, ergueu uma ponta da 
cortininha de cassa fixada  vidraa; defronte eram casas pobres; um sapateiro 
grisalho, batia a sola a uma porta;  entrada de uma lojita balouava-se um ramo 
de carqueja ao p de um mao de cigarros pendentes de um barbante; e, a uma 
janela, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no colo uma criana 
doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha cor de melo.
Lusa mordia os beios; sentia-se entristecer. Ento ns de dedos bateram 
discretamente  porta. Ela assustou-se, desceu rapidamente o vu. Baslio foi 
abrir. Uma voz adocicada, cheia de ss melfluos, ciciou baixo. Lusa ouviu 
vagamente: - Sossegadinhos, suas chavezinhas...
- Bem, bem! - disse Baslio apressado, batendo com a porta.
- Quem ?
-  a patroa.
O cu pusera-se a enegrecer; j a espaos grossas gotas de chuva se esmagavam 
nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais melanclico.
- Como descobriste tu isto? - perguntou Lusa, triste.
- Inculcaram-mo.
Outra gente, ento, tinha vindo ali, amado ali? - pensou ela. E a cama 
pareceu-lhe repugnante.
- Tira o chapu - disse Baslio, quase impaciente -, ests-me a fazer aflio 
com esse chapu na cabea.
Ela soltou devagar o elstico que o prendia, foi p-lo no canap de 
desconsoladamente.
Baslio tomou-lhe as mos, e atraindo-a, sentando-se na cama:
- Ests to linda! - Beijou-lhe o pescoo, encostou a cabea ao peito dela. E 
com a vista muito quebrada:
- O que eu sonhei contigo esta noite!
Mas de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente 
bateram  porta, com pressa.
- Que ? - bradou Baslio furioso.
A voz cheia de ss explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava  
secar. Se se encharcasse, que perdio!...
- Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! - berrou Baslio.
- D-lhe o cobertor...
- Que a leve o diabo!
E Lusa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se com uma 
vaga resignao, entre os joelhos de Baslio - vendo constantemente voltada para 
si a face alvar do piloto.
Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, 
ao partir, nos lodaais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os 
incensos e os almscares das florestas aromticas, imvel sobre o seu 
tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.
Apenas Lusa comeou a sair todos os dias, Juliana pensou logo: 'Bem, vai o 
gajo!"
E a sua atitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza a 
abrir a porta, alvoroada, quando Lusa voltava s cinco horas. E que zelo! Que 
exatides! Um boto que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram mil 
perdes, minha senhora", "desculpe por esta vez", muitas lamentaes humildes. 
Interessava-se com devoo pela sade dela, pela sua roupa, pelo que tinha para 
jantar...
Todavia, desde as idas ao Paraso, o seu trabalho aumentara: todos os dias agora 
tinha de engomar; muitas vezes era preciso ensaboar  noite colares, rendinhas, 
punhos, numa bacia de lato, at s onze horas. As seis da manh, mais cedo, j 
estava com o ferro s voltas. E no se queixava; at dizia a Joana:
- Ai!  um regalo ver assim uma senhora asseada!... Que as h! Credo! No, no  
por dizer, mas at me d gosto. Depois, graas a Deus, agora tenho sade; o 
trabalho no me assusta!
No tornara a resmungar da patroa. Afirmava mesmo  Joana repetidamente:
- A senhora, ai,  uma santa! Muito boa de aturar... No a h melhor!
O seu rosto perdera alguma coisa do tom bilioso, da contrao amarga. As vezes, 
ao jantar ou  noite, costurando calada ao p de Joana,  luz do petrleo, 
vinham-lhe sorrisos sbitos, o olhar clareava-se-lhe numa dilatao jovial.
- A Sra. Juliana tem o ar de quem est a pensar em coisas boas...
- A malucar c por dentro, Sra. Joana! - respondia com satisfao.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo falar com tranqilidade do vestido de seda 
que estreou num dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:
- Tambm um dia hei de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!
J outras vezes revelara por palavras vagas a idia de uma abundncia prxima. 
Joana at lhe dissera:
- A Sra. Juliana espera alguma herana?
- Talvez! - respondeu secamente.
E cada dia detestava mais Lusa. Quando pela manh a via arrebicar-se, 
perfumar-se com gua-de-colnia, mirar-se ao toucador cantarolando, saa do 
quarto porque lhe vinham venetas de dio, tinha medo de estourar! Odiava-a pelas 
toaletes, pelo ar alegre, pela roupa branca, pelo homem que ia ver, por todos os 
seus regalos de senhora. "A cabra!" Quando ela saa ia espreitar, v-la subir a 
rua, e fechando a vidraa com um risinho rancoroso:
- Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia h de chegar! Oh, se h de!
Lusa com efeito divertia-se. Saa todos os dias s duas horas. Na rua j se 
dizia que a do Engenheiro tinha o seu So Miguel.
Apenas ela dobrava a esquina o concilibulo juntava-se logo a cochichar. Tinham 
a certeza que se ia encontrar com o peralta. Onde seria? - era a grande 
curiosidade da carvoeira.
- No hotel - murmurava o Paula. - Que nos hotis  escndalo bravio. Ou talvez - 
acrescentava com tdio - nalguma dessas pocilgas da Baixa!
A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era to apropositada!
- Vaca solta lambe-se toda, Sra. Helena! - rosnava o Paula. - So todas o mesmo!
- Menos isso! - protestava a estanqueira. - Que eu sempre fui uma mulher 
honesta!
- E ela? - reclamava a carvoeira - ningum tinha que lhe dizer!
- Falo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sedas!  uma cambada. 
Eu  que o sei! - E acrescentava gravemente: - No povo h mais moralidade. O 
povo  outra raa! - E com as mos enterradas nos bolsos, as pernas muito 
abertas, ficava absorto, com a cabea baixa, o olhar cravado no cho. - Se ! - 
murmurava. - Se ! - Como se estivesse positivamente achando as pedrinhas da 
calada menos numerosas que as virtudes do povo!
Sebastio que tinha estado na quinta de Almada quase duas semanas, ficou 
aterrado quando, ao voltar, a Joana lhe deu as grandes "novidades": que a 
Luisinha agora saa todos os dias s duas horas, que o primo no voltara; a 
Gertrudes  que lho dissera; no se falava na rua noutra coisa...
- Ento a pobre senhora nem sequer pode ir s lojas, aos seus arranjos! - 
exclamou Sebastio. - A Gertrudes  uma desavergonhada, e nem sei como a tia 
Joana consente que ela ponha aqui os ps. Vir com esses mexericos!...
- Cruzes! Olha o destempero! - replicou muito escandalizada tia Joana. - Oh, 
menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na rua! Que ela at a 
defende; at ela  que a defende! At se esteve a queixar que se fala! Que se 
fala! Boa! - E a tia Joana saiu, resmungando: - Olha o destempero, credo!
Sebastio chamou-a, aplacou-a:
- Mas quem fala, tia Joana?
- Quem? - E muito enfaticamente: - Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!
Sebastio ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ela agora se punha a sair os 
dias; uma senhora, que quando estava Jorge no saa do buraco! A vizinhana que 
murmurara das visitas do outro naturalmente comeava a comentar as sadas dela! 
Estava-se a desacreditar! E ele no podia fazer nada! Ir adverti-ta? Ter outra 
cena? No podia.
Procurou-a. No lhe queria decerto tocar em nada; ia s v-la. No estava. 
Voltou dai a dois dias. Juliana veio-lhe dizer  cancela, com o seu sorriso 
amarelado: "Foi-se agora mesmo, h um instantinho. Ainda a apanha  Patriarcal". 
Enfim, um dia encontrou-a ao princpio da Rua de So Roque. Lusa pareceu muito 
contente em o ver: - Por que se tinha demorado tanto em Almada? Que desero!
Trazia carpinteiros; era necessrio vigiar as obras. E ela?
- Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho do muito s. 
Nem Julio, nem Conselheiro; ningum. A D. Felicidade  que aparecido s vezes 
de fugida. Est agora sempre metida na Encarnao... Isto devota! - E riu.
Ento onde ia?
- A umas comprazitas,  modista depois... - E aparea agora, Sebastio, hem?
- Hei de aparecer.
-  noite. Estou to s! Tenho tocado muito, e o que me vale  o piano!
Nessa mesma tarde Sebastio recebeu uma carta de Jorge.
Tens visto a Lusa? Estive quase com cuidado, porque estive mais de cinco dias 
sem carta dela. De resto est preguiosa como uma freira; quando escreve so 
quatro linhas porque est o correio a partir. Vai dizer ao correio que espere, 
que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar s, que todos a abandonaram; que 
tem vivido como num deserto. V se lhe vais fazer companhia, coitada, etc.
No dia seguinte ao anoitecer foi  casa dela. Apareceu-lhe muito vermelha, com 
os olhos estremunhados, de roupo branco. Tinha chegado muito cansada de fora; 
tinha-lhe dado o sono depois de jantar; adormecera sobre a causeuse... Que havia 
de novo? E bocejava.
Falaram das obras de Almada, do Conselheiro, de Julio; e ficaram calados. Havia 
um constrangimento.
Lusa ento acendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova msica que estudava, a 
Medg de Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava sempre; pediu a 
Sebastio que a tocasse, e junto do piano, batendo o compasso com o p, 
acompanhava baixo a melodia, a que a execuo de Sebastio dava um encanto 
penetrante. Quis tentar depois, mas enganou-se, zangou-se; atirou a msica para 
o lado, veio sentar-se no sof, dizendo:
- Quase nunca toco! Esto-se-me a enferrujar os dedos!...
Sebastio no se atrevia a perguntar pelo primo Baslio. Lusa no lhe 
pronunciou sequer o nome. E Sebastio, vendo naquela reserva uma diminuio de 
confiana ou um resto persistente de despeito, disse que tinha de ir  
Associao Geral da Agricultura; e saiu muito desconsolado.
Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietao diferente. As vezes era a 
tia Joana que lhe dizia  tarde: A Luisinha l saiu hoje outra vez! Por este 
calor, at pode apanhar alguma! Credo!" Outras, era o concilibulo dos vizinhos, 
que avistava de longe, e que decerto estavam a cortar na pele da pobre senhora! 
Parecia-lhe tudo aquilo exatamente a "ria da calnia" no Barbeiro de Sevilha: a 
calnia ao principio leve como o frmito das asas de um pssaro, subindo num 
crescendo aterrador at estalar como um trovo!
Dava agora voltas para no passar na rua, diante do Paula e da estanqueira; 
tinha vergonha deles! Encontrara o Teixeira Azevedo, que lhe perguntara:
- Ento o Jorge quando vem? Que diabo! O rapaz fica por l!
E aquela observao trivial aterrou-o.
Enfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julio. Encontrou-o no seu quarto 
andar, em mangas de camisa e em chinelas, enxovalhado e esguedelhado rodeado de 
papelada, com uma chocolateirinha de caf ao p, trabalhando. O soalho negro 
estava cheio de pontas de cigarros; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre 
a cama desfeita havia livros abertos; - e um cheiro relentado saa do desmazelo 
das coisas. A janela de peitoril dava para o saguo, de onde vinha o cantar 
estridente de uma criada, e o rudo areado do esfregar de tachos. 
Julio, apenas ele entrou, ergueu-se, espreguiou-se, enrolou um cigarro, e 
declarou que estava a trabalhar desde s sete!... Hem? Era bonito! Para que 
soubesse o Sr. Sebastio!
- De resto chegaste a propsito. Estava para mandar  tua casa... Devia receber 
a um dinheiro e no veio. D c uma libra.
E imediatamente comeou a falar da tese. A coisa saa!
Leu-lhe pargrafos do prlogo com uma deleitao paternal, e, muito satisfeito, 
na abundncia de confiana que d a excitao do trabalho, com grandes passadas 
pelo quarto:
- Hei de lhes mostrar que ainda h portugueses em Portugal, Sebastio! Hei de os 
deixar de boca aberta! Tu vers!
Sentou-se; ps-se a numerar as folhas escritas, assobiando. Sebastio, ento, 
com timidez, quase vexado de perturbar com as suas preocupaes domsticas 
aqueles interesses cientficos, disse baixo:
- Pois eu vim-te falar por causa l da nossa gente...
Mas a porta abriu-se com fora, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco 
doido, entrou; era um estudante da Escola, amigo de Julio, e quase 
imediatamente os dois recomearam uma discusso que tinham travado de manh, e 
que fora interrompida s onze horas, quando o rapaz de olhar doido a almoar  
urea.
- No, menino! - exclamava o estudante, exaltado. - Estou na minha! A Medicina  
uma meia cincia; a Fisiologia  outra meia cincia! So cincias conjeturais, 
porque nos escapa a base, conhecer o princpio da vida!
E cruzando os braos diante de Sebastio, bradou-lhe:
- Que sabemos ns do princpio da vida?
Sebastio, humilhado, baixou os olhos.
Mas Julio indignava-se:
- Ests desmoralizado pela doutrina vitalista, miservel! - Trovejou contra o 
Vitalismo, que declarou "contrrio ao esprito cientfico". Uma teoria que 
pretende que as leis que governam os corpos brutos no so as mesmas que 
governam os corpos vivos -  uma heresia grotesca - exclamava. - E Bichat que a 
proclama  uma besta!
O estudante, fora de si, bradou - que chamar a Bichat uma besta era simplesmente 
de um alarve.
Mas Julio desprezou a injria, e continuou, exaltado nas suas idias:
- Que nos importa a ns o princpio da vida? Importa-me tanto como a primeira 
camisa que vesti! O principio da vida  como outro qualquer princpio:
um segredo! Havemos de ignor-lo eternamente! No podemos saber nenhum 
principio. A vida, a morte, as origens, os fins, mistrios! So causas primrias 
com que no temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar sculos, que no 
avanamos uma polegada. O fsiologista, o qumico, no tm nada com os 
princpios das coisas; o que lhes importa so os fenmenos! Ora, os fenmenos e 
as suas causas imediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor 
nos corpos brutos, como nos corpos vivos - numa pedra, como num desembargador! E 
a Fisiologia e a Medicina so cincias to exatas como a Qumica! Isto j vem de 
Descartes!
Travaram ento um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastio 
atnito tivesse descoberto a transio, encarniaram-se sobre a idia de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Julio atacava 
Deus com clera: chamava-lhe uma hiptese safada", "uma velha caturrice do 
partido miguelista"! E comearam a assaltar-se sobre a questo social, como dois 
galos inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o 
princpio da autoridade! Julio berrava pela "anarquia individual!" E depois de 
citarem com fria Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. 
Julio, que dominava pela estridncia da voz, censurou violentamente ao 
estudante - as suas inscries a seis por cento, o ridculo de ser filho de um 
corretor de fundos, e o bife de proprietrio que vinha de comer na urea!
Olharam-se, ento, com rancor.
Mas da a momentos o estudante deixou cair com desdm algumas palavras sobre 
Claude Bernard, e a questo recomeou, furiosa.
Sebastio tomou o chapu.
- Adeus - disse baixo.
- Adeus, Sebastio, adeus - disse prontamente Julio.
Acompanhou-o ao patamar.
- E quando quiseres que eu fale a meu primo... - murmurou Sebastio.
- Pois sim, veremos, eu pensarei - disse Julio com indiferena, como se o 
orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustia.
Sebastio foi descendo as escadas, pensando: "No se lhe pode falar em nada, 
agora!"
De repente veio-lhe uma idia: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ela! 
D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher de idade, 
ntima de Lusa; tinha mais autoridade, mais habilidade mesmo... 
Decidiu-se logo; tomou um trem, foi  Rua de So Bento. 
A criada de D. Felicidade apareceu-lhe, desolada e lacrimosa:
- Pois no sabe?
- Ai! At admira! 
- Mas o qu? 
- A senhora! Uma desgraa assim! Torceu um p na Encarnao, deu uma n estado 
muito mal, muito mal. 
- Aqui?
- Na Encarnao. Nem pode sair. Est com a senhora D. Ana Silveira. Uma desgraa 
assim! E est num frenesi!
- Mas quando foi? 
- Anteontem  noite.
Sebastio saltou para o trem, mandou bater para casa de Lusa. D. Felicidade, 
doente, na Encarnao! Mas ento Lusa podia bem sair todos os dias! Ia v-la, 
fazer-lhe companhia, tratar dela!... 
A vizinhana no tinha que rosnar! Ia ver a pobre doente!...
Eram duas horas quando a parelha estacou  porta de Lusa. Encontrou-a, que 
descia a escada, vestida de preto, de luva gris-perle, com um vu negro.
- Ah! Suba, Sebastio, suba! Quer subir?
Parara nos degraus, com uma corzinha no rosto, um pouco embaraada. 
- No, obrigado. Vinha dizer-lhe... No sabe? A D. Felicidade...
- O qu?
- Torceu um p. Est mal. 
- Que me diz?
Sebastio deu os pormenores.
- Vou l j.
- Deve ir. Eu no posso ir, no entram homens. Coitada! Diz que est mal. - 
Acompanhou-a at  esquina da rua, ofereceu-lhe mesmo a tipia: - E muitos 
recados que tenho pena de a no ver!... Pobre senhora! E diz que est num 
frenesi!
Viu-a afastar para a Patriarcal, e, admirando a graa da sua figura, esfregava 
as mos satisfeito.
Estavam justificadas, santificadas mesmo aquelas passeatas todos os dias! Ia ser 
a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessrio que todos soubessem: o 
Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo que quando a 
vissem de manh subir a rua, dissessem: "L vai fazer companhia  doente! Santa 
senhora".
O Paula estava  porta da loja - e Sebastio com uma idia sbita, entrou. 
Estava-se estimando de se sentir to fecundo em expedientes, to hbil!
Deitou um pouco O chapu para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o painel que 
representava D. Joo VI:
- Quanto quer vossemec por isto,  Sr. Paula?
O Paula ficou surpreendido:
- O Sr. Sebastio est a brincar?
Sebastio exclamou:
- A brincar? - Falava muito srio! Queria uns quadros para a sala de entrada, em 
Almada; mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel escuro. - Como 
isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!
- Desculpe, Sr. Sebastio... Pois nesse caso h por a alguns painis a calhar.
- Este D. Joo VI agrada-me. Quanto custa isto?
O Paula disse, sem hesitar:
- Sete mil e duzentos. Mas  obra de mestre.
Era uma tela desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada, com 
uma cabeleira em cachos, sobressaam vagamente sobre um fundo sombrio. Um 
vermelho bao indicava o veludo de uma casaca de corte; a pana saliente e 
ostentosa enchia um colete esverdeado. E a parte mais conservada da tela era, ao 
lado sobre um coxim, a coroa real, que o artista trabalhara com uma 
minuciosidade entusiasta, ou por preocupao de idiota, ou por adulao de 
corteso.
Sebastio achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preo escrito por trs, numa 
tirinha de papel; espanejou a tela com amor; indicou as belezas, falou na sua 
honestidade; deprimiu outros vendedores de mveis, que tinham a conscincia nas 
palmilhas; jurou que o retrato pertencera ao Pao de Queluz, e ia atacar as 
questes pblicas - quando Sebastio disse resumindo:
- Bem, pois mande-mo logo, fico com ele. E mande a conta.
- Leva uma rica obra!
Sebastio agora olhava em redor. Queria falar do p torcido de D. Felicidade, e 
procurava uma transio. Examinou umas jarras da ndia, um trem; e avistando 
uma poltrona de doente:
- Aquilo  que era bom para a D. Felicidade! - exclamou logo - aquela cadeira! 
Boa cadeira!
O Paula arregalou os olhos.
- Para a D. Felicidade Noronha - repetiu Sebastio. - Para estar deitada... Pois 
no sabia, homem? Partiu um p; tem estado muito mal.
- A D. Felicidade, a amiga de c? - e indicou com o polegar a casa do 
Engenheiro.
- Sim, homem! Quebrou um p na Encarnao. At l ficou. A D. Lusa vai para l 
fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ela para l...
- Ah! - fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa: - Mas eu ainda a vi 
entrar para c h de haver oito dias.
- Foi anteontem. - Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando muito umas 
gravuras: - De resto a D. Lusa j ia todos os dias  Encarnao, mas era para 
ver a Silveira, a D. Ana Silveira, que esteve mal. Coitada, h trs semanas que 
tem passado uma vida de enfermeira. No sai da Encarnao! E agora  a D.
Felicidade. No  m maada!
- Pois no sabia, no sabia - murmurava o Paula, com as mos enterradas nos 
bolsos.
- Mande-me o D. Joo VI, hem?
- s ordens, Sr. Sebastio.
Sebastio foi para casa. Subiu  sala; e atirando o chapu para o sof: "Bem, 
pensou, "agora ao menos esto salvas as aparncias!" - Passeou algum com a 
cabea baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um justificar 
aqueles passeios para com a vizinhana, fazia-lhe parecer mais cruel a idia de 
que os no podia justificar para consigo. Os comentrios dos vizinhos iam findar 
por algum tempo, mas os seus?... Queria ach-los falsos, pueris, injustos; e, 
contra sua vontade, o seu bom senso e a sua retido estavam sempre a revolv-los 
baixo. Enfim, tinha feito o que devia! E com um gesto triste, falando s, no 
silncio da sala:
- O resto  com a sua conscincia!
Nessa tarde, na rua, sabia=se j que a D. Felicidade Noronha torcera um p na 
Encarnao (outros diziam quebrara uma perna), e que a D. Lusa no lhe saia da 
cabeceira... O Paula declarara com autoridade:
-  de boa rapariga,  de muito boa rapariga!
A Gertrudes do doutor foi logo,  noitinha, perguntar  tia Joana, se era 
verdade da perna quebrada. A tia Joana corrigiu: era o p, torcera o p! E a 
Gertrudes veio dizer ao doutor, ao ch, que a D. Felicidade dera uma queda, que 
ficara em pedaos. - Foi na Encarnao - acrescentou. - Diz que anda tudo l 
numa roda viva. A Luisinha at l tem dormido... 
- Pieguices de beatas! - rosnou com tdio o doutor.
Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, da a dias, o Teixeira Azevedo (que apenas 
cumprimentava Lusa), tendo-a encontrado na Rua de So Roque, parou, e com uma 
cortesia profunda:
- Desculpe Vossncia. Como vai a sua doente?
- Melhor, agradecida.
- Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por calor  
Encarnao...
Lusa corou.
- Coitada! No lhe falta companhia, mas...
-  de muita caridade, minha senhora - exclamou com nfase. - Tenho-o dito por 
toda a parte.  de muita caridade. Um criado de Vossncia!
E afastou-se comovido.
Lusa fora logo, com efeito, ver D. Felicidade. Tinha uma luxao simples; nos 
quartos da Silveira, com o p em compressas de arnica, cheia de terror de perder 
a perna, passava o dia rodeada de amigas, chorando-se, saboreando os mexericos 
do recolhimento, e debicando petiscos.
Apenas algum entrava para a ver, redobrava de exclamaes e de queixas; vinha 
logo a histria mida, incidentada, prolixa da desgraa; ia a descer, a pr o p 
no degrau; escorregara; sentiu que ia a cair; ainda se sustentou, e pde dizer: 
"Ai, Nossa Senhora da Sade!" Ao princpio a dor no foi grande; mas podia ter 
morrido; tinha sido um milagre!
Todas as senhoras concordavam que era realmente um milagre. Olhavam-na 
compungidas, e iam ao coro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos 
especiais o alvio da Noronha!
A primeira visita de Lusa foi para D. Felicidade uma consolao; deu-lhe 
melhoras; porque se ralava de estar ali de cama, sem saber notcias dele, sem 
poder falar dele!
E nos dias seguintes, apenas ficava s no quarto com Lusa, chamava-a logo para 
a cabeceira, e num murmrio misterioso: tinha-o visto? Sabia dele? - A sua 
aflio era que o Conselheiro no soubesse que ela estava doente, e no lhe 
pudesse dar aqueles pensamentos compassivos a que o seu p tinha direito, e que 
seriam um conforto para o seu corao! Mas Lusa no o vira - e D. Felicidade, 
remexendo a chazada, exalava suspiros agudos.
As duas horas Lusa saa da Encarnao e ia tomar um trem ao Rossio: para no 
parar  porta do Paraso com espalhafato de tipia, apeava-se ao Largo de Santa 
Brbara; e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com 
os olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.
Baslio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa; para no se enfastiar, 
s, tinha trazido para o Paraso uma garrafa de conhaque, acar, limes - e com 
a porta entreaberta fumava, fazendo grogues frios. O tempo arrastava-se; via a 
todo o momento as horas, e sem querer ia escutando, notando os rudos ntimos da 
famlia da proprietria que vivia nos quartos interiores: a rabugem de uma 
criana, uma voz acatarroada que ralhava, e de repente uma cadelinha que 
comeava a ladrar furiosa. Baslio achava aquilo burgus e reles; 
impacientava-se. Mas um frufru de vestido roava a escada e os tdios dele, bem 
como os receios dela, dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos. Lusa 
vinha sempre com pressa; queria estar em casa s cinco horas, e era um estiro 
depois! Entrava um pouco suada, e Baslio gostava da transpiraozinha tpida 
que havia nos seus ombros nus.
- E teu marido? - perguntava ele. - Quando vem?
- No fala em nada. - Ou ento: - No recebi carta, no sei nada.
Parecia ser aquela a preocupao de Baslio, na alegria egosta da posse 
recente. Tinha ento carcias muito extticas; ajoelhava-se aos ps dela; fazia 
voz de criana:
- Lili no ama Bibi...
Ela ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.
- Lili adora Bibi!...  doida por Bibi!
E queria saber se pensava nela; o que tinha feito na vspera. Fora ao Grmio; 
jogara uns robbers, viera para casa cedo; sonhara com ela...
- Vivo para ti, meu amor, acredita!
- E deixava-lhe cair a cabea no regao, como sob uma felicidade excessiva. 
Outras vezes, mais srio, dava-lhe certos conselhos de gosto, de toalete: 
pedira-lhe que no trouxesse postios no cabelo, que no usasse botinas de 
elstico.
Lusa admirava muito a sua experincia do luxo; obedecia-lhe, amoldava-se suas 
idias: - at afetar, sem o sentir, um desdm pela gente virtuosa, para imitar 
as suas opinies libertinas.
E lentamente, vendo aquela docilidade, Baslio no se dava ao incmodo de se 
constranger; usava dela, como se a pagasse! Acontecera uma manh escrever-lhe 
duas palavras a lpis que no podia ir ao Paraso, sem outras explicaes! Uma 
ocasio mesmo no foi, sem a avisar - e Lusa achou a porta fechada. Bateu 
timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante - e voltou muito 
desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.
No aceitava o menor incmodo, nem para lhe causar um contentamento. Lusa 
tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos  sua casa, passar a 
noite; viriam Sebastio, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor; 
era uma alegria para ela, e depois dava s suas relaes um ar mais parente, 
mais legtimo.
Mas Baslio pulou:
- O qu! Ir cabecear de sono com quatro caturras... Ah! No!... 
- Mas conversa-se, faz-se msica...
- Merci! Conheo-a, a msica das soires de Lisboa! A Valsa do Beijo e o 
Trovador. Safa!
Depois duas ou trs vezes falara de Jorge com desdm. Aquilo ofendera-a. 
Ultimamente mesmo, quando ela entrava no Paraso, j no tinha a delicadeza 
amorosa de se levantar alvoroado: sentava-se apenas na cama, e tirando 
preguiosamente o charuto da boca:
- Ora viva a minha flor! - dizia.
E um ar de superioridade quando lhe falava! Um modo de encolher os ombros, de 
exclamar: "Tu no percebes nada disso!" Chegava a ter palavras cruas, gestos 
brutais. E Lusa comeou a desconfiar que Baslio no a estimava, apenas a 
desejava!
Ao princpio chorou. Resolveu explicar-se com ele, romper se fosse necessrio. 
Mas adiou, no se atrevia: a figura de Baslio, a sua voz, o seu olhar 
dominavam-na; e acendendo-lhe a paixo tiravam-lhe a coragem de a perturbar com 
queixas. Porque estava convencida ento que o adorava; o que lhe dava tanta 
exaltao no desejo, se no era a grandeza do sentimento?... Gozava tanto, o 
amava muito!... E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se neste 
raciocnio sutil.
Ele tinha s vezes uma secura spera de maneiras, era verdade; certos tons de 
indiferena, era certo... Mas noutros momentos, quantas denguices, que tremuras 
na voz, que frenesi nas carcias!... Amava-a tambm, no havia dvida. Aquela 
certeza era a sua justificao. E como era o amor que os produzia, no se 
envergonhava dos alvoroos voluptuosos com que ia todas as manhs ao Paraso!
Duas ou trs vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia tambm 
apressada o Moinho de Vento.
- De onde vinha voc? - perguntara-lhe em casa.
- Do mdico, minha senhora, fui ao mdico.
Queixava-se de pontadas, palpitaes, faltas de ar.
- Flatos! Flatos!
Com efeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manh; depois apenas 
Lusa, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada no 
seu vestido de merino, de chapu e sombrinha, vinha dizer a Joana:
- At logo, vou ao mdico.
- At logo, Sra. Juliana - dizia a cozinheira radiante.
E ia logo fazer sinal ao carpinteiro.
Juliana descia por So Pedro de Alcntara, e tomando para o Largo do Carmo ia  
ruazita, defronte do quartel. Ali morava num terceiro andar a sua ntima amiga, 
a tia Vitria.
Era uma velha que fora inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancela, numa placa de 
metal, com letras negras: "VITRIA SOARES, INCULCADEIRA". Mas nos ltimos anos a 
sua indstria tornou-se mais complicada, muito tortuosa.
Exercia-a numa saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do teto 
encardido, alumiada por duas tristes janelas de peito. Um vasto sof ocupava 
quase a parede do fundo; fora decerto de repes verde, mas o estofo coado, 
comido, remendado, tinha agora, sob largas ndoas, uma vaga cor parda; as molas 
partidas, rangiam com estalidos melanclicos; a um dos cantos, numa cova que o 
uso cavara, dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada 
revelava que fora salvo de um incndio. Sobre o sof pendia a litografia do 
senhor D. Pedro IV. Entre as duas janelas havia uma cmoda alta; e em cima, 
entre um Santo Antnio e um cofre feito de bzios, um macaquinho empalhado, com 
olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho de rvore. Ao entrar via-se logo, 
junto da janela fronteira  porta, a uma mesa coberta de oleado, um dorso magro 
e curvado, e um barretinho de seda com uma borla arrebitada. Era do Sr. Gouveia, 
o escriturrio!
O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido - em que se sentia a 
cavalaria, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de capote 
e leno, face gordalhufa e buo; cocheiros com o cabelo acamado, muito lustroso 
de leo, e blusa de riscadinho; pesados galegos cor de greda, de passadas 
retumbantes e formas lorpas; criadinhas de dentro, amareladas, de olheiras, 
sombrinha de cabo de osso, e as luvas de pelica com passagens nas pontas dos 
dedos.
Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguo, por cuja portinha 
verde se viam s vezes desaparecer dorsos respeitveis de proprietrios, ou 
caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.
Em certas ocasies, aos sbados, juntavam-se cinco, seis pessoas; velhas falavam 
baixo, com gestos misteriosos; uma altercao mal-abafada roncava no patamar, de 
repente desatavam a chorar; e, impassvel, o Sr. Gouveia escrevinhava os seus 
registos, arremessando para o lado jatos melanclicos de saliva.
A tia Vitria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido roxo - ia, 
vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a cada momento 
da algibeira rebuados de avenca para o catarro.
A tia Vitria era uma grande utilidade; tornara-se um centro! A criadagem reles, 
mesmo a criadagem fina, tinha ali para tudo o seu despacho. Emprestava dinheiro 
aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever pelo Sr 
Gouveia as correspondncias amorosas ou domsticas dos que no tinham ido a 
escola; vendia vestidos em segunda mo; alugava casaca; aconselhava colocaes, 
recebia confidncias, dirigia intrigas, entendia de partos. Nenhum criado era 
inculcado por ela; mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de subir, 
descer as escadas da tia Vitria. Tinha alm disso muitas relaes, infinitas 
condescendncias; celibatrios maduros iam entender-se com ela, para o 
confortozinho de uma sopeira gordita e nova; era ela quem inculcava as serventes 
s mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: "a tia 
Vitria tem mais manhas que cabelos!"
Mas, ultimamente, apesar dos seus afazeres, apenas Juliana entrava, levava--a 
para o quarto nas traseiras, fechava a porta, e havia para meia hora!
E Juliana saia sempre vermelha, os olhos acesos, feliz! Voltava depressa para 
casa e mal entrava:
- A senhora ainda no voltou, Sra. Joana?
- Ainda no.
- Est na Encarnao. Coitada! No tem m cruz, ir aturar a velha! E depois 
naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ela muito bem! Espairecer!
Joana era decerto espessa e obtusa; alm disso a paixo animal pelo rapazola 
emparvecia-a. Todavia, percebera que a Sra. Juliana andava muito derretida pela 
senhora; disse-lho mesmo um dia:
- Vossemec agora, Sra Juliana, parece mais na bola da senhora!
- Na bola?
- Sim, quero dizer, mais aquela, mais...
- Mais apegada  senhora?
- Mais apegada.
- Sempre o estive. Mas ento! s vezes a gente tem os seus repentes... Que olhe, 
Sra Joana, no se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom gnio, nada se 
esquisitices, nenhumas prises... Ai,  dar louvores ao cu de estarmos neste 
descanso.
- E !
A casa com efeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranqila: Lusa saa 
todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; a sua antipatia por 
Juliana parecia dissipada; considerava-a uma pobre de Cristo! Juliana tomava os 
seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joana, muito livre, muito s em 
casa, regalava-se com o carpinteiro. No vinham visitas. D. Felicidade, na 
Encarnao, inundava-se de arnica. Sebastio fora para a Almada vigiar as obras. 
O Conselheiro partira para Sintra, "dar umas frias ao esprito", tinha ele dito 
a Lusa, e deliciar-se nas maravilhas daquele den. O Sr. Julio, "o doutor", 
como dizia a Joana, trabalhava a sua tese. As horas eram muito regulares; havia 
sempre um silncio pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquele 
recolhimento satisfeito de toda a casa, exclamou para Joana:
- No se pode estar melhor! A barca vai num mar de rosas!
E acrescentou, com uma risadinha:
- E eu ao leme!
CAPTULO VII
Por esse tempo, uma manh que Lusa ia para o Paraso viu de repente sair de um 
portal, um pouco adiante do Largo de Santa Brbara, a figura azafamada de 
Ernestinho.
- Por aqui, prima Lusa! - exclamou ele logo muito surpreendido. - Por estes 
bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!
Vinha vermelho; trazia as bandas do casaco de alpaca todas deitadas para trs, e 
agitava com excitao um rolo grosso de papis.
Lusa ficou um pouco embaraada; disse que viera fazer uma visita a uma amiga. - 
Oh! Ele no conhecia; tinha chegado do Porto...
- Ah, bem! Bem! E que  feito, como tem passado? Quando vem o Jorge? - 
Desculpou-se logo de a no ter ido ver; mas  que no tinha uma migalha livre! 
De manh a alfndega;  noite os ensaios...
- Ento sempre vai? - perguntou Lusa.
- Vai.
E entusiasmado:
- E como vai! Um primor! Mas que trabalho, que trabalho! - Agora vinha ele de 
casa do ator Pinto, que fazia o papel de amante, de Conde de Monte Redondo; 
tinha-o ouvido dizer as palavras finais do terceiro ato: "Maldio, a sorte 
funesta esmaga-me! Pois bem arcarei brao a brao com a sorte!  luta!" Era uma 
maravilha! Vinha tambm de lhe dar parte que alterara o monlogo do segundo ato. 
O empresrio achava-o longo...
- Ento continua a implicar, o empresrio?
Ernestinho fez uma visagem de hesitao.
- Implica um bocado... - E com um rosto radioso: - Mas est delirante! Esto 
todos delirantes! Ontem me dizia ele: "Lesminha"... E o nome que me do por 
pndega. Tem graa, no  verdade? Dizia-me ele "Lesminha, na primeira 
representao cai a Lisboa em peso! Voc enterra-os a todos!"  bom homem! E 
agora vou-me a casa do Bastos, o folhetinista da Verdade. No conhece?
Lusa no se lembrava bem.
- O Bastos, o da Verdade! - insistia ele.
E vendo que Lusa parecia alheia ao nome, ao indivduo:
- Ora no conhece outra coisa! - Ia descrever-lhe as feies, citar-lhe as 
obras...
Mas Lusa, impaciente, para findar:
- Ah, sim! Lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!
- Pois  verdade, vou  casa dele. - Tomou um tom compenetrado: - Somos muito 
amigos,  muito bom rapaz; e tem um pequerrucho lindo!... - E apertando-lhe 
muito a mo: - Adeusinho, prima Lusa, que no posso perder um momento. Quer que 
a v acompanhar?
- No,  aqui perto.
- Adeus, recados ao Jorge!
- Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atrs dela.
- Ah! Esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?
Lusa abriu muito os olhos.
-  condessa,  herona! - exclamou Emestinho.
- Ah!
- Sim, o marido perdoa-lhe, obtm uma embaixada, e vo viver no estrangeiro.  
mais natural...
- Decerto! - disse vagamente Lusa.
- E a pea acaba, dizendo o amante, o Conde de Monte Redondo: "E eu irei para a 
solido morrer desta paixo funesta!"  de muito efeito! - Esteve um
momento a olh-la, e bruscamente: - Adeus, prima Lusa, recadinhos ao Jorge!
E abalou.
Lusa entrou no Paraso muito contrariada. Contou o encontro a Baslio. 
Ernestinho era to tolo! Podia mais tarde falar naquilo, citar a hora, 
perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...
E tirando o vu, o chapu:
- No; realmente  imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor no vir tanto. 
Pode-se saber...
Baslio encolheu os ombros, contrariado:
- Se queres no venhas.
Lusa olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:
- Obrigada!
Ia a pr o chapu, mas ele veio prender-lhe as mos; abraou-a, murmurando:
- Pois tu falas em no vir! E eu, ento? Eu que estou em Lisboa por tua causa...
- No, realmente dizes s vezes coisas... tens certos modos... 
Baslio abafou-lhe as palavras com beijos.
- Ta, ta, ta! Nada de questes! Perdoa. Ests to linda...
Lusa, ao voltar para casa, veio a refletir naquela cena. No - pensava -, j 
no era a primeira vez que ele mostrava um desprendimento muito seco por ela, 
pela sua reputao, pela sua sade! Queria-a ali todos os dias, egoistamente. 
Que as ms lnguas falassem; que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E 
para qu?... Porque enfim, saltava aos olhos, ele amava-a menos... As suas 
palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... J no tinha 
aqueles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda numa carcia palpitante, 
nem aquela abundncia de sensao que o fazia cair de joelhos com as mos 
trmulas como as de um velho!... J se no arremessava para ela, mal ela 
aparecia  porta, como sobre uma presa estremecida!... J no havia aquelas 
conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se 
esqueciam, depois da hora ardente e fsica, quando ela ficava numa lassitude 
doce, com o sangue fresco, a cabea deitada sobre os braos nus! - Agora! 
Trocado o ltimo beijo, acendia o charuto, como num restaurante ao fim do 
jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatrio dar uma 
penteadela no cabelo com um pentezinho de algibeira. (O que ela odiava o 
pentezinho!) As vezes at olhava o relgio!... E enquanto ela se arranjava no 
vinha, como nos primeiros tempos, ajud-la, pr-lhe o colarinho, picar-se nos 
seus alfinetes, rir em volta dela, despedir-se com beijos apressados da nudez 
dos seus ombros antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros - ou 
sentado, com um ar macambzio, bamboleava a perna!
E depois positivamente no a respeitava, no a considerava... Tratava-a por cima 
do ombro, como uma burguesinha, pouco educada e estreita, que apenas conhece o 
seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabea alta, falando no 
"esprito de madame de tal", nas "toaletes da condessa de tal"! Como se ela 
fosse estpida, e os seus vestidos fossem trapos! Ah, era secante! E parecia, 
Deus me perdoe, parecia que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a 
possuir... Imediatamente lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto 
respeito! Jorge, para quem ela era decerto a mais linda, a mais elegante, a mais 
inteligente, a mais cativante!... E j pensava um pouco que sacrificara a sua 
tranqilidade to feliz a um amor bem incerto!
Enfim, um dia que o viu mais distrado, mais frio, explicou-se abertamente com 
ele. Direita, sentada no canap de palhinha, falou com bom senso, devagar, com 
um ar digno e preparado: Que percebia bem que ele se aborrecia; que o seu grande 
amor tinha passado; que era portanto humilhante para ela verem-se nessas 
condies, e que julgava mais digno acabarem...
Baslio olhava-a, surpreendido da sua solenidade; sentia um estudo, uma afetao 
naquelas frases; disse muito tranqilamente, sorrindo:
- Trazias isso decorado!
Lusa ergueu-se bruscamente; encarou-o, teve um movimento desdenhoso dos lbios.
- Tu ests doida, Lusa?
- Estou farta. Fao todos os sacrifcios por ti; venho aqui todos os dias; 
comprometo-me, e para qu? Para te ver muito indiferente, muito secado...
- Mas meu amor...
Ela teve um sorriso de escrnio.
- Meu amor! Oh! So ridculos esses fingimentos!
Baslio impacientou-se.
- J isso c me faltava, essa cena! - exclamou impetuosamente. E cruzando os 
braos diante dela: - Mas que queres tu? Queres que te ame como no teatro, em 
So Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo 
o mundo, com o seu corao, mas no tem gestos de tenor, aqui del rei que  
frio, que se aborrece,  ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de 
joelhos, que declame, que revire os olhos, que faa juras, outras tolices?
- So tolices que tu fazias...
- Ao principio! - respondeu ele brutalmente. - J nos conhecemos muito para 
isso, minha rica.
E havia apenas cinco semanas!
- Adeus! - disse Lusa.
- Bem. Vais zangada?
Ela respondeu, com os olhos baixos, calando nervosamente as luvas:
- No.
Baslio ps-se diante da porta, e estendendo os braos:
- Mas s razovel, minha querida. Uma ligao como a nossa no  o dueto do 
Fausto. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrifcios necessrios; 
encontramo-nos, somos felizes... Que diabo queres tu mais? Por que te queixas?
Ela respondeu com um sorriso irnico e triste:
- No me queixo. Tens razo.
- Mas no vs zangada, ento.
- No...
- Palavrinha?
- Sim...
Baslio tomou-lhe as mos.
- D ento um beijinho em Bibi...
Lusa beijou-o de leve na face.
- Na boquinha, na boquinha! - E ameaando-a com o dedo, fitando-a muito: - Ah, 
geniozinho! Tens bem o sangue do Sr. Antnio de Brito, nosso extremoso tio, que 
arrepelava as criadas pelos cabelos! - E sacudindo-lhe o queixo: - E vens 
amanh?
Lusa hesitou um momento:
- Venho.
Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio dizer-lhe 
logo muito quizilada: que a Joana tinha sado s quatro horas; no tinha 
voltado; o jantar estava por acabar... 
- Onde foi?
Juliana encolheu os ombros com um sorrisinho.
Lusa percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto de 
piedade desdenhosa.
- H de lucrar muito com isso. Boa tola! - disse.
Juliana olhou-a espantada.
- "Est bbeda! - pensou.
- Bem, que se lhe h de fazer? - exclamou Lusa. - Esperarei...
E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:
- Que egosta, que grosseiro, que infame! E  por um homem assim que uma mulher 
se perde!  estpido!
Como ele suplicava, se fazia pequenino, humilde ao princpio! O que so os 
amores dos homens! Como tm a fadiga fcil!
E imediatamente lhe veio a idia de Jorge! Esse no! Vivia com ela havia trs 
anos - e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado. Mas o outro! Que 
indigno! J a conhecia h muito! Ah! Estava bem certa agora, nunca a amara, ele! 
Quisera-a por vaidade, por capricho, por distrao, para ter uma mulher em 
Lisboa!  o que era! Mas amor? Qual!
E ela mesma, por fim! Amava-o, ela? Concentrou-se, interrogou-se... Imaginou 
casos, circunstncias; se ele a quisesse levar para longe, para Frana, iria? 
No! Se por um acaso, por uma desgraa enviuvasse, antevia alguma felicidade 
casando com ele? No!
Mas ento!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e se 
admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o seu corao 
vazio. O que a levara ento para ele?... Nem ela sabia; no ter nada que fazer, 
a curiosidade romanesca e mrbida de ter um amante, mil vaidadezinhas 
inflamadas, um certo desejo fsico... E sentira-a, porventura, essa felicidade, 
que do os amores ilegtimos, de que tanto se fala nos romances e nas peras, 
que faz esquecer tudo na vida, afrontar a morte, quase faz-la amar? Nunca! Todo 
o prazer que sentira ao princpio, que lhe parecera ser o amor - vinha da 
novidade, do saborzinho delicioso de comer a ma proibida, das condies do 
mistrio do Paraso, de outras circunstncias talvez, que nem queria confessar a 
si mesma, que a faziam corar por dentro!
Mas que sentia de extraordinrio agora? Bom Deus, comeava a estar menos 
comovida ao p do seu amante, do que ao p do seu marido! Um beijo de Jorge 
perturbava-a mais, e viviam juntos havia trs anos! Nunca se secara ao p de 
Jorge, nunca! E secava-se positivamente ao p de Baslio! Baslio, no fim, o que 
se tornara para ela? Era como um marido pouco amado, que ia amar fora de casa! 
Mas ento, valia a pena?...
Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque enfim, ela e Baslio estavam 
nas condies melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, 
cercava-os o mistrio, excitava-os a dificuldade... Por que era ento que quase 
bocejavam? E que o amor  essencialmente perecvel, e na hora em que nasce 
comea a morrer. S os comeos so bons. H ento um delrio, um entusiasmo, um 
bocadinho do cu. Mas depois!... Seria pois necessrio estar sempre a comear, 
para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E aparecia-lhe ento 
nitidamente a explicao daquela existncia de Leopoldina, inconstante, tomando 
um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limo espremido, e 
renovando assim constantemente a flor da sensao! - E, pela lgica tortuosa dos 
amores ilegtimos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!
Logo no dia seguinte ps-se a dizer consigo que era bem longe o Paraso! Que 
maada, por aquele calor, vestir-se, sair! Mandou saber de D. Felicidade por 
Juliana e ficou em casa, de roupo branco, preguiosa, saboreando a sua 
preguia.
Nessa tarde recebeu uma carta de Jorge: que ainda se demorava, mas que a sua 
viuvez comeava a pesar-lhe. Quando se veria enfim na sua casinha, na sua 
alcovinha?...
Ficou muito comovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma compaixo terna 
por Jorge, to bom, coitado! Um indefinido desejo de o ver e de o beijar, a 
recordao de felicidades passadas perturbaram-na at s profundidades do seu 
ser. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe que tambm j estava farta de estar s, 
que viesse, que era estpida semelhante separao... E era sincera naquele 
momento.
Tinha fechado o envelope, quando Juliana lhe veio trazer "uma carta do hotel". 
Baslio mostrava-se desesperado:
... Como no vieste, vejo que ests zangada; mas  decerto o teu orgulho, no o 
teu amor que te domina; no imaginas o que senti quando vi que no vinhas hoje. 
Esperei at s cinco horas; que suplcio! Fui talvez seco, mas tu tambm estavas 
implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e 
esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem amanh. Adoro-te tanto! Que outra 
prova queres, que esta que te dou de abandonar os meus interesses, as minhas 
relaes, os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.
Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. 
Aquilo era verdade. Por que estava ele em Lisboa? Por ela. Mas se reconhecia 
agora - que o no amava, ou to pouco! E depois era vil trair assim Jorge, to 
bom, to amoroso, vivendo todo para ela. Mas se Baslio realmente estivesse to 
apaixonado!... As suas idias redemoinhavam, como folhas de outono, violentadas 
por ventos contraditrios. Desejava estar tranqila, que a no perseguissem. 
Para que voltara aquele homem? Jesus! Que havia de fazer? Tinha os seus 
pensamentos, os seus sentimentos numa dolorosa trapalhada.
E na manh seguinte estava na mesma hesitao. Iria, no iria? O calor fora, a 
poeirada da rua faziam-lhe apetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do 
pobre rapaz tambm! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostes. Era cunho, devia 
ir. Vestiu-se sem vontade, secada - tendo todavia um certo desejo dos 
refinamentos de prazer que do as expanses da reconciliao...
Mas que surpresa! Esperava encontr-lo humilde e de joelhos; achou-o com a testa 
franzida e muito spero.
- Lusa, parece incrvel; por que no vieste ontem?
Na vspera, Baslio, quando viu que ela faltava, teve um grande despeito e medo 
maior; a sua concupiscncia receou perder aquele lindo corpo de rapariga, e o 
seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se aquela escravazinha dcil. 
Resolveu portanto, a todo o custo, cham-la ao rego. Escreveu-lhe; e 
mostrando-se submisso para a atrair, decidiu ser severo para a castigar. - E 
acrescentou:
-  uma criancice ridcula. Por que no vieste?
Aquele modo enraiveceu-a:
- Porque no quis.
Mas emendou logo:
- No pude.
- Ah!  essa a maneira por que respondes  minha carta, Lusa?
- E tu,  esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
- Bem; queres uma questo? s como as outras.
- Que outras?
E toda escandalizada:
- Ah!  demais! Adeus!
Ia sair.
- Vais-te, Lusa?
- Vou.  melhor acabarmos por uma vez...
Ele segurou o fecho da porta rapidamente.
- Falas srio, Lusa?
- Decerto. Estou farta!
- Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. Ela deu um passo, 
e Baslio com a voz um pouco trmula:
- Ento,  para sempre? Nunca mais?
Lusa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma 
comoo. Rompeu a chorar.
As lgrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia to dolorida, to frgil, to 
desamparada!...
Baslio caiu-lhe aos ps; tinha tambm os olhos midos.
- Se tu me deixares, morro!
Os seus lbios uniram-se num beijo profundo, longo, penetrante. A excitao dos 
nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixo; e foi uma manh 
deliciosa.
Ela prendia-o nos braos nus, plida como cera, balbuciava:
- No me deixes nunca, no?
- Juro-to! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde; era necessrio ir-se! E a mesma idia decerto acudiu-lhes - 
porque se olharam avidamente, e Baslio murmurou:
- Se pudesses aqui passar a noite!
Ela disse aterrada, quase suplicante:
- Oh! No me tentes, no me tentes...
Baslio suspirou, disse:
- No,  uma tolice. Vai.
Lusa comeou a arranjar-se,  pressa. E de repente, parando, com um sorriso:
- Sabes tu uma coisa?
- O qu, meu amor?
- Estou a cair com fome! No almocei nada, estou a cair!
Ele ficou desolado:
- Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
- Que horas so, filho?
Baslio viu o relgio; disse quase envergonhado:
- Sete!
- Ai, Santo Deus!
Punha o chapu, o vu, atrapalhadamente:
- Que tarde! Jesus! Que tarde!
- E amanh, quando?
-  uma.
- Com certeza?
- Com certeza.
- Ao outro dia foi muito pontual. Baslio veio esper-la ao fundo da escada; e 
apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:
- Que me fizeste tu? Desde ontem que estou doido!
Mas Lusa estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
- Que  aquilo?
Ele sorriu, levou-a pela mo junto da barra de ferro, e destapando o cesto, com 
uma cortesia grave:
- Provises, festins, bacanais! No dirs depois que tens fome!
Era um lanche. Havia sanduches, um pt de foie gras, fruta, uma garrafa de 
champanhe, e, envolto em flanela, gelo.
-  brilhante! - disse ela, com um sorriso quente, rubra de prazer.
- Foi o que se pode arranjar, minha querida prima! J v que pensei em si!
Ps o cesto no cho, e vindo para ela com os braos abertos:
- E tu pensaste em mim, meu amor? Os olhos dela responderam - e a presso 
apaixonada dos seus braos. As trs horas lancharam. Foi delicioso; tinham 
estendido um guardanapo sobre a cama; a loua tinha a marca do Hotel Central; 
aquilo parecia a Lusa muito estrina, adorvel - e ria de sensualidade, fazendo 
tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champanhe. 
Sentia uma felicidade que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte 
de gestos buliosos. Comia com gula; e eram adorveis os seus braos nus 
movendo-se por cima dos pratos.
Nunca achara Baslio to bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado 
para aquelas intimidades da paixo; quase julgava possvel viver ali, naquele 
cacifo, anos, feliz com ele, num amor permanente, e lanches s trs horas... 
Tinham as pieguices clssicas; metiam-se bocadinhos na boca; ela ria com os seus 
dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos - e ele 
quis-lhe ensinar ento a verdadeira maneira de beber champanhe. Talvez ela no 
soubesse!
- Como ? - perguntou Lusa erguendo o copo.
- No  com o copo! Horror! Ningum que se preza bebe champanhe por um copo. O 
copo  bom para o Colares...
Tomou um gole de champanhe e num beijo passou-o para a boca dela. Lusa riu 
muito, achou "divino"; quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar 
luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada  beira do leito, os seus pezinhos 
calados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto um pouco dobrada 
sobre si, os cotovelos sobre o regao, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua 
pessoa a graa lnguida de uma pomba fatigada.
Baslio achava-a irresistvel; quem diria que uma burguesinha podia ter tanto 
chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mos, 
beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas "to feias, com fechos de 
metal", beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e ento fez-lhe baixinho um 
pedido. Ela corou, sorriu, dizia: "no! no!" E quando saiu do seu delrio tapou 
o rosto com as mos, toda escarlate; murmurou repreensivamente:
- Oh, Baslio!
Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensao nova; tinha-a 
na mo!
S s seis horas se desprendeu dos seus braos. Lusa fez-lhe jurar que havia de 
pensar nela toda a noite: - No queria que ele sasse; tinha cime do Grmio, do 
ar, de tudo! E j no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:
- E amanh mais cedo, sim? Para estarmos todo o dia.
- No vais ver a D. Felicidade?
- Que me importa a D. Felicidade! No me importa ningum! Quero-te a ti! S a 
ti!
- Ao meio-dia?
- Ao meio-dia!
Quanto lhe pesou  noite a solido do seu quarto! Tinha uma impacincia que a 
impelia a prolongar a excitao da tarde, agitar-se. Ainda quis ler, mas bem 
depressa arremessou o livro; as duas velas acesas sobre o toucador pareciam-lhe 
lgubres; foi ver a noite; estava tpida e serena. Chamou Juliana:
- V pr um xale, vamos  casa da senhora D. Leopoldina.
Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois de uma grande demora, 
esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:
- A senhora foi pra o Porto!
- Para o Porto!
- Sim. Demorava-se quinze dias.
Lusa ficou muito desconsolada. Mas no queria voltar; o seu quarto solitrio 
aterrava-a.
- Vamos um bocado at ali abaixo, Juliana. A noite est to bonita!
- Rica, minha senhora!
Foram pela Rua de So Roque. E como guiadas pelas duas linhas de pontos de gs 
que desciam a Rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o 
Hotel Central.
Estaria em casa? Pensaria nela? Se pudesse ir surpreend-lo de repente, 
atirar-lhe aos braos, ver as suas malas... Aquela idia fazia-a arfar. Entraram 
na Praa de Cames. Gente passeava devagar; sobre a sombra mais escura que 
faziam as rvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se gua fresca; claridades 
cruas de vidraas, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da 
noite; e no rumor lento das ruas em redor, sobressaam as vozes agudas dos 
vendedores de jornais.
Ento um sujeito com um chapu de palha passou to rente dela, to 
intencionalmente que Lusa teve medo. - Era melhor voltarem - disse.
Mas ao meio da Rua de So Roque o chapu de palha reapareceu, roou quase o 
ombro de Lusa; dois olhos repolhudos dardejaram sobre ela.
Lusa ia desesperada; o tique-taque das suas botinas batia vivamente a laje do 
passeio; de repente, ao p de So Pedro de Alcntara, de sob o chapu de palha 
saiu uma voz adocicada e brasileira, dizendo-lhe junto ao pescoo:
- Aonde mora,  menina?
Agarrou aterrada o brao de Juliana.
A voz repetiu:
- No se agaste, menina, onde mora?
- Seu malcriado! - rugiu Juliana.
O chapu de palha imediatamente desapareceu entre as rvores.
Chegaram a casa a arquejar. Lusa tinha vontade de chorar; deixou-se cair na 
causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudncia, pr-se a passear pelas ruas de 
noite, com uma criada! Estava doida, desconhecia-se. Que dia aquele! E 
recordava-o desde pela manh: o lanche, o champanhe bebido pelos beijos de 
Baslio, os seus delrios libertinos; que vergonha! E ir a casa de Leopoldina, 
de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente 
lembrou-lhe Jorge no Alentejo trabalhando por ela, pensando nela... Escondeu o 
rosto entre as mos, detestou-se; os seus olhos umedeceram-se.
Mas na manh seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de 
todas as suas tolices da vspera, e com a sensao indefinida, palpite ou 
pressentimento, de que no devia ir ao Paraso. O seu desejo, porm, que a 
impelia para l vivamente, forneceu-lhe logo razes; era desapontar Baslio; a 
no ir hoje no devia voltar, e ento romper... Alm disso a manh muito linda 
atraa a rua; chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul 
uma frescura lavada e doce.
E s onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do 
Conselheiro Accio que subia da Rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, 
a cabea alta.
Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
- Que encontro verdadeiramente feliz!...
- Como est, Conselheiro? Ditosos olhos que o vem!
- E Vossa Excelncia, minha senhora? Vejo-a com excelente aspecto!
Passou-lhe  esquerda com um movimento solene; ps-se a caminhar ao lado dela.
- Permite-me decerto que a acompanhe na sua excurso?
- Decerto, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...
- Estive em Sintra, minha querida senhora. - E parando: - No sabia? O Dirio de 
Noticias especificou-o!
- Mas depois de vir de Sintra?
Ele acudiu:
- Ah! Tenho estado ocupadssimo! Ocupadissimo! Inteiramente absorvido na 
compilao de certos documentos que me eram indispensveis para o meu livro... - 
E depois de uma pausa: - Cujo nome no ignora, creio.
Lusa no se recordava inteiramente. O Conselheiro ento exps o titulo, os 
fins, alguns nomes de captulos, a utilidade da obra: era a descrio pitoresca 
dos principais cidades de Portugal e seus mais famosos estabelecimentos.
-  um guia, mas um guia cientfico. Ilustrarei com um exemplo: Vossa Excelncia 
quer ir a Bragana: sem o meu livro  muito natural (direi,  certo) que volta 
sem ter gozado das curiosidades locais; com o meu livro percorre os edifcios 
mais notveis, recolhe um fundo muito slido de instruo, e tem ao mesmo tempo 
o prazer.
Lusa mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu vu branco.
- Est hoje muito agradvel! - disse ela.
- Agradabilssimo! Um dia criador!
- Que bom fresco aqui!
Tinham entrado em So Pedro de Alcntara; um ar doce circulava entre as rvores 
mais verdes; o cho compacto, sem p, tinha ainda uma ligeira umidade; e, apesar 
do sol vivo, o cu azul parecia leve e muito remoto.
O Conselheiro ento falou do estio; tinha sido trrido! Na sua sala de jantar 
tinha havido quarenta e oito graus  sombra! Quarenta e oito graus! - E com 
bonomia, querendo logo desculpar a sala daquela exagerao canicular: - Mas  
que est exposta ao sul! Faamos essa justia! Est muito exposta ao sul! Hoje, 
porm, est verdadeiramente restaurador.
Convidou-a mesmo a dar uma volta embaixo no jardim. Lusa hesitava. E o 
Conselheiro puxando o relgio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda no 
era meio-dia. Estava certo pelo Arsenal; era um relgio ingls. - Muito 
preferveis aos suos! - acrescentou com ar profundo.
Cobardemente, por inrcia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Lusa foi 
descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto - pensava - tinha 
tempo, tomaria um trem...
Foram encostar-se s grades. Atravs dos vares viam, descendo num declive, 
telhados escuros, intervalos de ptios, cantos de muro com uma ou outra magra 
verdura de quintal ressequido; depois, no fundo do vale, o Passeio estendia a 
sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaos branquejavam pedaos 
da rua areada. Do lado de l erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da Rua 
Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraas; por trs iam-se 
elevando no mesmo plano terrenos de um verde crestado fechados por fortes muros 
sombrios; a cantaria da Encarnao de um amarelo triste; outras construes 
separadas, at ao alto da Graa coberta de edifcios eclesisticos, com renques 
de janelinhas conventuais e torres de igrejas, muito brancas sobre o azul; e a 
Penha de Frana, mais para alm, punha em relevo o vivo do muro caiado, de onde 
sobressaia uma tira verde-negra de arvoredo.  direita, sobre o monte pelado, o 
castelo assentava, atarracado, ignobilmente sujo; e a linha muito quebrada de 
telhados, de esquinas de casas da Mouraria e da Alfama descia com ngulos 
bruscos at as duas pesadas torres da S, de um aspecto abacial e secular. 
Depois viam um pedao do rio, batido da luz; duas velas brancas passavam 
devagar; e na outra banda,  base de uma colina baixa que o ar distante azulava, 
estendia-se a correnteza de casarias de uma povoaozinha de um branco de cr 
luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos 
trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibrao metlica das carretas que 
levam ferraria, e algum grito agudo de prego.
- Grande panorama! - disse o Conselheiro com nfase. - E encetou logo o elogio 
da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, s 
Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande 
emprio, e era uma pena que a canalizao fosse to m, e a edilidade to 
negligente!
- Isto devia estar na mo dos ingleses, minha rica senhora! - exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatritica. Jurou que era uma maneira de 
dizer. Queria a independncia do seu pas; morreria por ela, se fosse 
necessrio; nem ingleses nem castelhanos!... S ns, minha senhora! - E 
acrescentou com uma voz respeitosa: - E Deus!
- Que bonito est o rio! - disse Lusa.
Accio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
- O Tejo!
Quis ento dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, 
amarelas, esvoaavam; um gotejar de gua fazia no tanque um ritmozinho de jardim 
burgus; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabea dos bustos de mrmore, 
que se elevam dentre os macios e as moitas de dlias, pssaros pousavam.
Lusa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades to altas...
- Por causa dos suicdios! - acudiu logo o Conselheiro. - E todavia, segundo a 
sua opinio, os suicdios em Lisboa diminuam consideravelmente; atribua isso  
maneira severa e muito louvvel como a imprensa os condenava...
- Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa  uma fora!
- Se fssemos andando?... - lembrou Lusa.
O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a, a ir colher uma flor, reteve-lhe vivamente 
o brao:
- Ah, minha rica senhora, por quem ! Os regulamentos so muito explcitos! No 
os infrinjamos, no os infrinjamos! - E acrescentou: - O exemplo deve vir de 
cima.
Foram subindo, e Lusa pensava: - "Vai para casa; larga-me ao Loreto."
Na Rua de So Roque espreitou o relgio de uma confeitaria: era meia hora depois 
do meio-dia! J Baslio esperava!
Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.
- Ah! Pensei que ia para casa, Conselheiro!
- J agora quero acompanh-la, se Vossa Excelncia mo permite. Decerto no sou 
indiscreto?
- Ora essa! De modo nenhum.
Uma carruagem da Companhia passava, seguida de um correio a trote.
O Conselheiro, com um movimento ansioso, tirou profundamente o chapu.
-  o presidente do conselho. No viu? Fez-me um sinal de dentro. - Comeou logo 
o seu elogio: era o nosso primeiro parlamentar; vastssimo talento, uma 
linguagem muito castigada! - E ia decerto falar das coisas pblicas, mas Lusa 
atravessou para os Mrtires, erguendo um pouco o vestido por causa de uns restos 
de lama. Parou  porta da igreja, e sorrindo:
- Vou aqui fazer uma devoozinha. No o quero fazer esperar. Adeus, 
Conselheiro, aparea. - fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mo.
- Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que no se demora muito. 
Esperarei, no tenho pressa. - E com respeito: - Muito louvvel esse zelo!
Lusa entrou na igreja desesperada. Ficou de p debaixo do coro, calculando: - 
"Demoro-me aqui, ele cansa-se de esperar e vai-se!" Por cima reluziam vagamente 
os pingentes de cristal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco 
fosca. E as arquiteturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as 
balaustradas laterais de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde 
destacavam os dourados da capela, os frontais roxos dos plpitos, ao fundo dois 
reposteiros de um roxo mais escuro, e sob o dossel cor de violeta os ouros do 
trono. Um silncio fresco e alto repousava. Diante do batistrio um rapaz de 
joelhos, com um balde de zinco ao p, esfregava o cho com uma rodilha, 
discretamente; dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de xales tingidos, 
curvavam-se, aqui e alm, diante de um altar; e um velho, de jaqueta de 
saragoa, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas numa melopia lgubre; 
via-se a sua cabea calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, 
dobrando-se, batia no peito com desespero.
Lusa subiu ao altar-mor. Baslio impacientava-se, decerto, pobre rapaz! 
Perguntou ento, timidamente, as horas a um sacristo que passava. O homem 
ergueu a sua face cor de cidra para uma janela na cpula, e olhando Lusa de 
lado:
- Vai indo para as duas.
Para as duas! Era capaz de no esperar, Baslio! Veio-lhe um receio de perder a 
sua manh amorosa, um desejo spero de se achar no Paraso, nos braos dele! E 
olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas de espadas, os Cristos 
chagados - cheia de impacincias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de 
ferro, o pequeno bigode de Baslio!... Mas demorou-se, queria "fatigar o 
Conselheiro, deix-lo ir". Quando pensou que ele teria partido, saiu 
devagarinho. - Viu-o logo  porta, direito, com as mos atrs das costas, lendo 
a pauta dos jurados.
Comeou imediatamente a louvar a sua devoo. No entrara porque no quisera 
perturbar o seu recolhimento. Mas aprovava-a muito! A falta de religio era a 
causa de toda a imoralidade que grassava...
- E alm disso  de boa educao. Vossa Excelncia h de reparar que toda a 
nobreza cumpre...
Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquela 
linda senhora, to olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ela 
misteriosamente; disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
- Est um dia aprecivel!
E ofereceu-lhe bolos  porta do Baltresqui. Lusa recusou.
- Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.
A sua voz vinha agora a Lusa com a impertinncia de um zumbido; apesar de no 
fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a 
correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como sonmbula, cheia 
de necessidade de chorar.
Sem razo, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois de hesitar pediu 
gravatas de fular a um caixeiro louro e jovial.
- Brancas? De cor? De riscas? Com pintinhas?
- Sim, verei, sortidas.
No lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda 
vagamente, plida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incomodada: ofereceu-lhe 
gua, qualquer coisa...
No era nada; o ar  que lhe fazia bem; voltaria. Saiu. O Conselheiro, muito 
solcito, prontificou-se a acompanh-la a uma boa farmcia tomar gua de flor de 
laranja... Desciam ento a Rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia afirmando que o 
caixeiro fora muito polido; no se admirava, porque no comrcio havia filhos de 
boas famlias; citou exemplos.
Mas vendo-a calada:
- Ainda sofre?
- No, estou bem.
- Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rossio, at ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. 
E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a Rua do Ouro.
Lusa olhava em redor, aflita; procurava uma idia, uma ocasio, um 
acontecimento - e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do Teatro 
de D. Maria levara-o para as questes da arte dramtica; tinha achado que a pea 
do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto s gostava de comdias. No 
que se no entusiasmasse com as belezas de um Frei Lus de Sousa!, mas a sua 
sade no lhe permitia as agitaes fortes. Assim por exemplo...
Mas Lusa tivera uma idia, e imediatamente:
Ah! Esquecia-me! Tenho de ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Lusa, estendendo-lhe a mo, com a voz 
rpida:
- Adeus, aparea, hem? - E precipitou-se para o portal do Vitry.
Subiu at ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados; parou, 
arquejando; esperou: desceu devagar, espreitou  porta... A figura do 
Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.
Chamou um trem.
- A quanto puder! - exclamou.
A carruagem entrou quase a galope na ruazinha do Paraso. Figuras pasmadas 
apareceram  janela. Subiu, palpitante. A porta estava fechada - e logo a 
cancela do lado abriu-se, e a voz doce da patroa segredou:
- J saiu. H de haver meia hora.
Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do cup, rompeu 
num choro histrico. Correu os estores para se esconder; arrancou o vu, rasgou 
uma luva, sentindo em si violncias inesperadas. Ento veio-lhe um desejo 
frentico de ver Baslio! Bateu nos vidros desesperadamente, gritou:
- Ao Hotel Central!
Porque estava num daqueles momentos em que os temperamentos sensveis tm 
impulsos indomveis; h uma delcia colrica em espedaar os deveres e as 
convenincias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de 
sensualidade!
A parelha estacou, resvalando  porta do hotel. O Sr. Baslio de Brito no 
estava, o senhor Visconde Reinaldo, sim.
- Bem, para casa, para onde eu disse!
O cocheiro bateu. E Lusa, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o 
Conselheiro, o estafermo, o imbecil! Maldizia a vida que lhos fizera conhecer, a 
ele e a todos os amigos da casa! Vinha-lhe uma vontade acre de mandar o 
casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse  cabea!...
 porta no tinha troco para o cocheiro. - Espere! - disse, subindo furiosa. - 
Eu lhe mandarei pagar!
"Que bicha!, pensou o cocheiro.
Foi Joana que veio abrir; e quase recuou, vendo-a to vermelha, to excitada.
Lusa foi direita ao quarto: o cuco cantava trs horas. Estava tudo desarrumado; 
vasos de plantas no cho, o toucador coberto com um lenol velho, roupa suja 
pelas cadeiras. E Juliana, com um leno amarrado na cabea, varria 
tranqilamente, cantarolando.
- Ento voc ainda no arrumou o quarto! - gritou Lusa. 
Juliana estremeceu quela clera inesperada.
- Estava agora, minha senhora!
- Que estava agora vejo eu! - rompeu Lusa. - So trs horas da tarde e ainda o 
quarto neste estado!
Tinha atirado o chapu, a sombrinha.
- Como a senhora costuma vir sempre mais tarde... - disse Juliana. E seus beios 
faziam-se brancos.
- Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem voc com isso? A sua obrigao  
arrumar logo que eu me levante. E no querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!
Juliana fez-se escarlate e cravando em Lusa os olhos injetados:
- Olhe, sabe que mais? No estou para a aturar! E arremessou violentamente a 
vassoura.
- Saia! - berrou Lusa. - Saia imediatamente! Nem mais um momento em casa!
Juliana ps-se diante dela, e com palmadas convulsivas no peito a voz rouca:
- Hei de sair se eu quiser! Se eu quiser!
- Joana! - bradou Lusa.
Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, algum! Mas Juliana 
descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:
- A senhora no me faa sair de mim! A senhora no me faa perder a cabea! - E 
com a voz estrangulada atravs dos dentes cerrados: - Olhe que nem todos os 
papis foram pra o lixo!
Lusa recuou, gritou:
- Que diz voc?
- Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui! E 
bateu na algibeira, ferozmente.
Lusa fitou-a um momento com os olhos desvairados e caiu no cho, junto  
causeuse, desmaiada.
CAPTULO VIII
A primeira impresso, mal-acordada, de Lusa foi que duas figuras, que no 
conhecia, estavam debruadas sobre ela. Uma, a mais forte, afastou-se; o som 
frio de um frasco de vidro, pousado sobre o mrmore do toucador, despertou-a. 
Sentiu ento uma voz dizer abafadamente:
- Est muito melhor. Mas deu-lhe de repente, Sra. Juliana?
- De repente.
- Eu vi-a entrar to afogueada...
Passos sutis pisaram o tapete; a voz de Joana perguntou-lhe junto do rosto:
- Est melhor, minha senhora?
Abriu os olhos; a percepo ntida das coisas foi-lhe voltando; estava estendida 
na causeuse; tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro 
de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovelo, devagar, com um olhar errante, vago:
- E a outra?...
- A Sra. Juliana? Foi-se deitar. Tambm se no achava bem. Foi de ver a senhora, 
coitada... Est melhorzinha?
Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscilar 
brandamente:
- Pode ir, Joana, pode ir - disse.
- A senhora no precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...
Lusa, s, ps-se a olhar em roda, espantada. Estava j tudo arrumado, as 
janelas cerradas. Uma luva ficara cada no cho; ergueu-se, ainda trpega; foi 
apanh-la; esteve a esticar-lhe os dedos maquinalmente, como sonmbula, p-la na 
gaveta do toucador. Alisou o cabelo; achava-se mudada, com outra expresso, como 
se fosse outra; e o silncio do quarto impressionava-a, como extraordinrio.
- Minha senhora - disse a voz tmida de Joana.
- Que ?
-  o cocheiro.
Lusa voltou-se, sem compreender:
- Que cocheiro?
- Um cocheiro; diz que a senhora que no tinha troco, que o mandou esperar...
- Ah!
E como a uma luz de gs que salta subitamente e alumia uma decorao, viu, num 
relance, toda a sua desgraa.
Ficou to trmula que mal podia abrir a gavetinha da cmoda:
Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido... - balbuciava. Deu o dinheiro a Joana; 
e vindo cair sobre a causeuse:
- Estou perdida! - murmurou, apertando as mos na cabea.
Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no esprito, com a intensidade de 
desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus 
amigos, a indignao de uns, o escrnio dos outros; e estas imagens caindo com 
rudo na sua alma, como combustveis numa fogueira, ateavam-lhe desesperadamente 
o terror.
Que lhe restava? - Fugir com Baslio!
Aquela idia, a primeira, a nica, apossou-se dela impetuosamente, traspassou-a 
- como a gua de uma inundao que subitamente alaga um campo.
Ele tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam to felizes em Paris, no seu 
apartamento da Rua Saint Florentin! Pois bem, iria! No levaria malas; poria no 
seu pequeno saco de marroquim alguma roupa branca, as jias da mam... E os 
criados? A casa? Deixaria uma carta a Sebastio para que viesse, fechasse 
tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul - ou o preto! Mais nada. 
O resto compra-lo-ia longe, noutras cidades...
- Se a senhora quer vir jantar... - disse Joana  porta do quarto.
Tinha posto um avental branco, e acrescentou:
A Sra. Juliana est deitada, diz que est com a dor, no pode servir  mesa.
- J vou.
Tomou apenas uma colher de sopa, bebeu um grande gole de gua; e erguendo-se:
- Que tem ela?
- Diz que  uma dor muito forte no corao.
Se morresse! Estava salva, ela! Podia ficar, ento! E com uma esperana 
perversa:
- V ver, Joana, v ver como est!
Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dor! Iria logo ao quarto dela 
rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E no teria medo do silncio da morte, 
fiem da lividez do cadver...
- Est mais descansada, minha senhora - veio dizer a Joana - diz que logo que se 
levanta. Ento a senhora no come mais nada? Credo!
- No.
E entrou para o quarto, pensando: - "De que serve estar a imaginar coisas? S me 
resta fugir...
Decidiu-se logo a escrever a Sebastio; mas no pode acertar com outras palavras 
alm do comeo, no alto, numa letra muito trmula: "Meu amigo!"
Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ela no voltasse, nem  tarde, 
nem  noite - as criadas, a outra, a infame! iriam logo a Sebastio. Era o 
ntimo da casa. Que espanto o dele! Imaginaria algum acidente, correria  
Encarnao, depois  polcia, esperaria numa angstia at de madrugada! Todo o 
dia seguinte seriam outras esperanas de a ver chegar, decepes aterradas at 
que telegrafaria a Jorge! E a essa hora decerto, ela, encolhida no canto do 
vago, rolaria, ao rudo ofegante da mquina, para um destino novo!...
Mas por que se afligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraa! O que havia 
de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a 
examinar ris de cozinha e a fazer croch, e partir com um homem novo e amado, 
ir para Paris! Para Paris! Viver nas consolaes do luxo, em alcovas de seda, 
com um camarote na pera!... Era bem tola em se afligir! Quase fora uma 
felicidade aquele "desastre"! Sem ele nunca teria tido a coragem de se 
desembaraar da sua vida burguesa; mesmo quando um alto desejo a impelisse, 
haveria sempre uma timidez maior para a reter!
E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria s de um homem; no teria 
de amar em casa e amar fora de casa!
Veio-lhe mesmo a idia de ir ter imediatamente com Baslio, acabar com aquilo 
por uma vez. Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e 
os bbedos...
Foi logo arranjar o saco de marroquim. Meteu lenos, alguma roupa branca, o 
estojo das unhas, o rosrio que lhe dera Baslio, ps-de-arroz, algumas jias 
que tinham pertencido  mam... Quis levar as cartas de Baslio tambm... 
Tinha-as guardadas num cofre de sndalo, no gaveto do guarda-vestidos. 
Espalhou-as no regao; abriu uma, de onde caiu uma florzinha seca; outra que 
tinha, na dobra, a fotografia de Baslio. De repente, pareceu-lhe que no 
estavam completas! Tinha sete; cinco bilhetes curtos, e duas cartas - a primeira 
que ele lhe escrevera, to terna! E a ltima no dia do arrufo! Contou-as... 
Faltava, com efeito, a primeira, e dois bilhetes! Tinha-lhas roubado, tambm!... 
Ergueu-se lvida. Ah, que infame! Veio-lhe uma raiva de subir ao sto, lutar 
com ela, arrancar-lhas, esgan-la!... Que lhe importava, por fim! - E deixou-se 
cair na causeuse, aniquilada. - Que ela tivesse uma, duas, todas - era a mesma 
desgraa!
E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapu, um 
xale-manta...
O cuco cantou dez horas. Entrou ento na alcova; ps o castial sobre a mesinha, 
ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fusto branco. Era a ltima 
vez que ali dormia! Fora ela que bordara aquela coberta de croch no primeiro 
ano de casada; no havia um malha que no correspondesse a uma alegria. Jorge s 
vezes vinha v-la trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou 
falava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodo grosso! Ali 
dormira com ele trs anos: o seu lugar era de l, do lado da parede... Fora 
naquela cama que ela estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas ele no 
se deitara - a vel-la, a conchegar-lhe a roupa, a dando-lhe os caldos, os 
remdios, com toda a sorte de palavras doces que lhe faziam to bem!... 
Falava-lhe como a criancinha pequena; dizia-lhe: "Isso vai passar, amanh ests 
boa, vamos passear". Mas o seu olhar ansioso estava marejado de lgrimas! Ou 
ento pedia-lhe: "Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!..." E 
ela queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que lhe 
voltava, lhe refrescava o sangue!
Nos primeiros dias da convalescena era ele que a vestia; ajoelhava-se para lhe 
calar os sapatos, embrulhava-a no roupo, vinha estend-la na causeuse, 
sentava-se ao p dela a ler-lhe romances, desenhar-lhe paisagens, recortar-lhe 
soldados de papel. E dependia toda dele; no tinha mais ningum no mundo para a 
tratar, para sofrer, chorar por ela - seno ele! Adormecia sempre com as mos 
nas suas, porque a doena deixara-lhe um vago medo dos pesadelos da febre; e o 
pobre Jorge, para a no acordar, ali ficava com a mo presa, horas, sem se 
mover. Deitava-se vestido num colchozito ao p dela. Muitas vezes, acordando de 
noite, o tinha visto a limpar as lgrimas; de alegria, decerto, porque ela ento 
estava salva! O mdico, o bom Dr. Caminha, tinha-o dito: "Est livre de perigo; 
agora  refazer esse corpinho". E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, 
tinha tomado as mos do velho - tinha-as coberto de beijos!
E agora, quando ele soubesse, quando ele voltasse! Quando ao entrar ali na 
alcova - visse os dois travesseirinhos, ainda! Ela iria longe, com outro, por 
caminhos estranhos, ouvindo outra lngua. Que horror! E ele ali estaria, naquela 
casa s, chorando, abraado a Sebastio. Quantas memrias dela para o torturar! 
Os seus vestidos, as suas chinelinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida 
triste, a dele! Dormiria ali s! J no teria ningum para o acordar de manh 
com um beijinho, passar-lhe o brao pelo pescoo, dizer-lhe: " tarde, Jorge!" 
Tudo acabar para ambos. Nunca mais! - Rompeu a chorar, de bruos sobre a 
cama...
Mas a voz de Juliana falou alto no corredor com Joana. Ergueu-se aterrada. Viria 
ter com ela, aquela infame? Os passos achinelados afastaram-se devagar, e Joana 
entrou com o rol e com a lamparina.
- A Sra. Juliana - disse - levantou-se um momento, mas diz que ainda est mal, 
coitada. Foi-se deitar. A senhora no precisa mais nada?
- No - disse da alcova.
Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.
Juliana em cima no dormia. A dor passara-lhe - e agitava-se sobre o enxergo, 
"com o diabo da espertina"! Como tantas outras noites, nas ltimas semanas. 
Porque desde que apanhara a carta no sarcfago vivia numa febre; mas a alegria 
era to aguda, a esperana to larga que a sustentavam, lhe davam sade! Deus 
enfim tinha-se lembrado dela! Desde que Baslio comeara a vir a casa, tivera 
logo um palpite, uma coisa que lhe dizia que tinha chegado enfim a sua vez! A 
primeira satisfao fora naquela noite em que achara, depois de Baslio sair s 
dez horas, a travessinha de Lusa cada ao p do sof. Mas que exploso de 
felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canseira, apanhou enfim 
a carta no sarcfago! Correu ao sto, leu-a avidamente, e quando viu a 
importncia da "coisa" arrasaram-se-lhe os olhos de lgrimas; arremessou a sua 
alma perversa para as alturas, bradando em si, num triunfo:
- Bendito seja Deus! Bendito seja Deus!
E que havia de fazer aquilo? - foi ento a sua inquietao. Ora pensava em a 
vender a Lusa por uma forte soma... Mas onde tinha ela o dinheiro? No; o 
melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaas de a publicar, extorquir-lhe 
um ror de libras por meio de outra pessoa, j se v, e ela  capa! E em certos 
dias em que a figura, as toaletes, as passeatas de Lusa a irritavam mais, 
vinham-lhe venetas de sair para a rua, chamar os vizinhos, ler o papel, p-la 
mais rasa que a lama, vingar-se da cabra!
Foi a tia Vitria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo que para a armadilha 
ser completa era necessrio uma carta do janota. Comeara ento o lento trabalho 
de lha apanhar! Fora preciso muita finura, muita chave experimentada, duas 
feitas por moldes de cera, pacincia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas 
pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Vitria - que rira, rira!... 
Sobretudo o bilhete em que Baslio lhe dizia: "Hoje no posso ir, mas espero-te 
amanh s duas; mando-te essa rosinha, e peo-te que faas o que fizeste  
outra, traz-la no seio, porque  to bom quando vens assim, sentir-te o 
peitinho perfumado!... " A tia Vitria, sufocada, a quis mostrar  sua velha 
amiga, a Pedra, a Pedra gorda, que estava na saleta.
A Pedra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal-cheios tinham 
sacudidelas furiosas de hilaridade. E com as mos nas ilhargas, rubra, roncando, 
com o seu vozeiro de trombone:
- Essa  das boas, tia Vitria! Essa  de mestre. No, isso merece ir para os 
papis. Ai os bbedos! Raios do diabo!
A tia Vitria, ento, disse muito seriamente a Juliana:
- Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso j podes falar do alto. E esperar 
a ocasio. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ela no 
desconfiar, e o olho alerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!
E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito consigo - 
aquele gozo de a ter "na mo", a Luisinha, a senhora, a patroa, a Piorrinha! 
Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem - e pensava com uma 
voluptuosidade felina: "Anda, folga, folga, que eu c ta tenho armada!" Aquilo 
dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente senhora da casa. Tinha ali 
fechada na mo a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patres! Que 
desforra!
E o futuro, estava certo! Aquilo era dinheiro, o po da velhice. Ah! Tinha-lhe 
chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma salve-rainha de graas a Nossa 
Senhora, me dos homens!
Mas agora, depois daquela cena com Lusa - no podia ficar de braos cruzados, 
com as cartas na algibeira. Devia sair de casa, pr-se em campo, fazer alguma 
coisa. O qu? A tia Vitria  que havia de dizer...
Logo pela manh s sete horas, sem tomar o seu caf, sem falar a Joana, desceu 
devagar, saiu.
A tia Vitria no estava em casa. Gente na saleta esperava. O Sr. Gouveia, com a 
borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu 
catarro. Juliana deu os bons-dias em redor, e sentou-se a um canto, direita com 
a sua sombrinha nos joelhos.
Conversava-se; e uma mulher de trinta anos, picada das bexigas, que estava 
sentada no canap, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada 
para uma gordita com um xale de quadrados vermelhos:
- Pois no imagina, Sra. Ana, no faz idia!  uma desgraa!  todas as noites 
como um carro. As vezes at acordo com o barulho que ele faz a falar s, a 
tropear na escada... Eu, do que tenho mais medo,  que o demnio adormea com a 
luz e haja um rogo. Ah!  de todo!
- Quem? - perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanrio, que falava 
de p a um criado alto, de suas e gravata branca enxovalhada.
- O Cunha, o filho do meu patro.  uma desgraa!
- Piteireiro, hem? - disse o rapazola, enrolando o cigarro.
- Um horror! Eu pela manh nem posso entrar no quarto, que  um cheiro. A me, 
coitadinha, chora, rala-se; o rapaz j esteve para ser posto fora do emprego. 
Ai! No estou nada contente, nada contente!
- Pois olhe que por l tambm h desgosto grande - disse, baixando a voz, a do 
xale de quadrados.
Os dois homens aproximaram-se.
- O senhor - continuou ela com gestos aterrados -  um desaforo com a 
cunhada!... A senhora sabe, e aquilo so questes de dia e de noite! As duas 
irms andam numa bulha pegada. O homem toma as dores da rapariga; a mulher 
pe-se aos gritos... Ai! Aquilo vem a acabar mal!
- E ento se a gente tem l o seu descuido - disse o da gravata branca com 
indignao -  aqui del rei, e daqui e dali!
- L a sua gente  sossegada, Sr. Joo - observou a picada das bexigas.
-  boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu 
vestido, a sua placa... Mas os velhotes  uma santa gente, a verdade  a 
verdade! E come-se bem!
E voltando-se para o trintanrio, batendo-lhe no ombro, com uma voz que o 
admirava e que o invejava:
- Mas isto sim! Isto  que  lev-la! O rapazola sorriu com satisfao:
- Ora! So mais as vozes do que as nozes!
- V l, mostra l - disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovelo -, 
mostra l!
O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaando a blusa, tirou 
do bolso do colete de riscadinho um relgio de ouro.
- Muito bonito! Rica prenda! - disseram as duas mulheres.
- Suor do meu rosto - fez ele, acariciando o queixo.
O da gravata branca indignou-se:
- Ora seu maroto! - E baixo para as raparigas: - Suor do seu rosto, hem! -  o 
serafim da patroa, uma senhora da alta que aquilo so tudo sedas, muitssimo boa 
mulher, um bocado entradota, mas muitssimo boa mulher; recebe destas 
lembranas, um relgio de um par de moedas - e ainda fala!
O rapazola disse ento, enterrando as mos na algibeira:
- E se quiser agora, h de largar a corrente!
- H de lhe custar muito! - exclamou o da gravata branca.
- Uma gente que tem a pela Baixa correntezas de casas! Metade da Rua dos 
Retroseiros  dela!
- Mas muito agarrada! - disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro 
ao canto da boca: - Estou com ela h dois meses, e ainda se no desabotoou seno 
com o relgio e trs libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe 
o p! - E cofiando o cabelo para a testa: - No faltam mulheres! E das que tm 
Dom!
Mas a tia Vitria entrou, muito azafamada, com o xale no brao; e vendo Juliana:
- Ol! Por c! Tive que dar umas voltas; estou na rua desde s seis. Bons dias, 
Sra. Teodsia; bons dias, Ana. Viva, temos por c o alfenim! Entra c pra 
dentro, Juliana! Eu j venho, meus pombinhos,  um instante!
Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguo:
- E ento, que h de novo?
Juliana ps-se a contar longamente a cena da vspera, o desmaio...
- Pois minha rica - disse a tia Vitria -, o que est feito, est feito; no h 
tempo a perder;  mos  obra! Tu vais ao Brito, ao hotel, e entendes-te com 
ele.
Juliana recusou-se logo; no se atrevia, tinha medo...
A tia Vitria refletiu, coando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio 
Gouveia, e voltando, fechando a porta do quarto:
- Arranja-se quem v. Tens tu as cartas?
Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas 
hesitou um momento, olhou a tia Vitria com desconfiana.
- Tens medo de largar os papis, criatura? - exclamou ofendida a velha. - 
Arranja-te tu; ento arranja-te tu...
Juliana deu-lhas logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...
- A pessoa - disse a tia Vitria - vai amanh  noite falar com o Brito, e 
pede-lhe um conto de ris!
Juliana teve um deslumbramento. Um conto de ris! A tia Vitria estava a 
brincar!
- Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quase no tinha mal nenhum, pagou 
uma pessoa que bate a o Chiado de carruagem - ainda ontem a vi com uma 
pequerrucha que tem - pagou trezentos mil ris. E em belas notas. Pagou-os o 
janota, j se sabe; foi o janota que pagou. Se fosse outro, no digo, mas o 
Brito!  rico,  um mos-rotas; cai logo...
Juliana, muito branca, agarrou-lhe o brao, trmula:
- Oh, tia Vitria! Dava-lhe um corte de seda.
- Azul! At j te digo a cor!
- Mas o Brito  homem muito teso, tia Vitria; se lhe tira as cartas, se lhe faz 
alguma!
A tia Vitria. fitou-a com desdm:
- Sais-me uma simplria! Imaginas que eu mando l algum tolo? Nem as cartas vo; 
o que vai  uma cpia! Olha quem! O melro que l h de ir!
E depois de refletir um momento:
- Tu vai-te para casa...
- No, l isso no volto...
- Tambm tens razo. At ver em que param as modas, vem c dormir. Jantas c 
hoje; tenho uma rica pescada...
- Mas no haver perigo, tia Vitria, se o Brito vai  polcia...
A tia Vitria encolheu os ombros, e impacientada:
- Olha, vai-te, que me ests a enfrenesiar! Polcia! Qual polcia! Essas coisas 
levam-se l  polcia... Deixa a coisa comigo! Adeus - e s quatro para jantar, 
hem!
Juliana saiu como levada pelo ar! Um conto de ris! Era o conto de ris que 
voltava, o que j um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cair na 
mo, com um tlintlim de libras e um frufru de notas! E o crebro enchia-se-lhe 
confusamente de perspectivas diferentes, todas maravilhosas; um mostrador de 
capelista onde ela venderia! Um marido ao seu lado, s horas da ceia! Pares de 
botinas das boas, das chiques. Onde poria o dinheiro? No banco? No; no fundo da 
arca - para estar mais seguro, mais  mo!
Para passar a sua manh, comprou uma quarta de rebuados, e foi-se sentar no 
Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando j a sua vida rica, 
julgando-se j senhora; mesmo fez olho a um proprietrio pacifico e rubicundo 
que se afastou escandalizado!
Aquela hora Lusa acordava. E sentando-se bruscamente na cama: - " hoje!" - foi 
o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrvel contraram-lhe o 
corao. Comeou depois a vestir-se, muito nervosa com a idia de ver Juliana! 
Estava mesmo imaginando fechar-se, no almoar, sair p ante p s onze horas, 
ir procurar Baslio ao hotel, quando a voz de Joana disse  porta do quarto:
- A senhora faz favor?
Comeou logo a contar, muito espantada, que a Sra. Juliana tinha sado de manh; 
ainda no voltara; estava tudo por arrumar...
- Bem, arranje-me o almoo, eu j vou... - Que alvio para ela!
Calculou logo que Juliana deixara a casa. Para qu? Para lhe armar alguma, 
decerto! O melhor era sair imediatamente... Podia esperar Baslio no Paraso.
Foi  sala de jantar, bebeu um gole de ch, de p,  pressa.
- A Sra. Juliana ter-lhe- dado alguma coisa? - veio dizer Joana assombrada.
Lusa encolheu os ombros; respondeu vagamente:
- Depois se saber...
Era hora e meia; foi pr o chapu. O corao batia-lhe alto, e apesar do terror 
de ver entrar Juliana, no se decidia a sair; sentou-se mesmo, com o saco de 
marroquim nos joelhos. "Vamos!", pensou enfim. - Ergueu-se; mas parecia que 
alguma coisa de sutil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova 
devagar; o seu roupo estava cado aos ps da cama, as suas chinelinhas sobre o 
tapete felpudo... - Que desgraa! - disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos 
pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao lbum, tirou a 
fotografia de Jorge, meteu-a toda trmula no saco de marroquim, olhou ainda em 
roda como desvairada, saiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.
 Patriarcal passava um cup de praa. Tomou-o, mandou-o a ir ao Hotel Central.
O Sr. Brito sara logo de manh cedo, disse o porteiro muito azafamado. Decerto 
algum paquete chegara, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas de 
oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da 
chegada, ainda entontecidos do balouo do mar, falavam, chamavam. Aquele 
movimento animou-a; veio-lhe um desejo de viagens, do rudo noturno das gares  
claridade do gs, da agitao alegre das partidas nas manhs frescas, sobre o 
tombadilho dos paquetes!
Deu ao cocheiro a adresse do Paraso. E  maneira que o trem trotava parecia-lhe 
que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam num 
horizonte abandonado. A porta de um livreiro julgou entrever Julio; debruou-se 
pela portinhola, precipitadamente; no o avistou, teve pena; ia-se sem ver um 
amigo da casa! Todos agora, Julio, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe 
pareciam adorveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que 
repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastio, to bom! Nunca 
mais lhe ouviria tocar a sua malaguenha!
Ao fim da Rua do Ouro o cup parou num embarao de carroas, e Lusa viu no 
passeio ao lado o Castro, o Castro dos culos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe 
dizia que tinha uma paixo por ela; um rapazito roto ofereceu-lhe cautelas; e o 
Castro ndio, com os dois polegares nas algibeiras do colete branco, dizia 
graas ao rapaz, com um desdm ricao, dardejando olhadelas sobre Lusa, atravs 
dos seus culos de ouro. Ela, pelo canto do olho, observava-o; tinha uma paixo 
por ela, aquele homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre panudo, a 
perninha curta. A lembrana de Baslio atravessou-a, a sua linda figura!... - e 
bateu nos vidros impaciente, com pressa de o ver.
O trem partiu enfim. O Rossio reluzia ao sol; do americano, parado  esquina, 
gente descia apressada, de calas brancas, vestidos leves, vinda de Belm, de 
Pedrouos; preges cantavam. - Todos ali ficavam nas suas famlias, nas suas 
felicidades; s ela partia!
Na Rua Ocidental, viu vir a D. Camila - uma senhora casada com um velho, ilustre 
pelos seus amantes. Parecia grvida; e adiantava-se devagar, com a face branca 
satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjozinho de 
jaqueta cor de pinho, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, 
vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mo onde um beb se babava. E a 
Camila, feliz, vinha tranqilamente pela rua expondo as suas fecundidades 
adlteras! Era muito festejada; ningum dizia mal dela; era rica, dava 
soires... - "O que  o mundo!" - pensava Lusa.
O trem parou  porta do Paraso, era meio-dia. A portinha em cima estava 
fechada: e a patroa apareceu logo, ciciando que sentia muitssimo, mas s o 
senhor  que tinha a chavezinha; se a senhora quisesse descansar... Nesse 
momento outra carruagem chegou, e Baslio apareceu galgando os degraus.
- At que enfim! - exclamou abrindo a porta. - Por que no vieste ontem?...
- Ah! Se tu soubesses...
E, agarrando-lhe os braos, cravando os olhos nele:
- Baslio, sabes, estou perdida!
- Que h?
Lusa atirara o saco de marroquim para o canap, e, de um flego, contou-lhe a 
histria da carta apanhada nos papis; as dele roubadas, a cena no quarto...
- O que me resta  fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tem-lo 
dito muitas vezes. Estou pronta. Trouxe aquele saco, com o necessrio, leno, 
luvas... hem?
Baslio com as mos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia 
atnito os seus gestos, as suas palavras.
- Isso s a ti! - exclamou. - Que doida! Que mulher! E muito excitado: - Isto  
l questo de fugir! Que ests tu a falar em fugir?  uma questo de dinheiro. O 
que ela quer  dinheiro.  ver quanto quer, e pagar-se-lhe!
- No, no! - fez Lusa. - No posso ficar! - Tinha uma aflio na voz. A mulher 
venderia a carta, mas conservava o segredo; a todo o tempo podia falar, Jorge 
saber; estava perdida; no tinha coragem de voltar para casa! - No sinto
um momento de descanso, enquanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se no 
podes, amanh. Eu vou para algum hotel, onde ningum saiba; escondo-me esta 
noite. Mas, amanh vamos. Se ele sabe, mata-me, Baslio! Sim, dize que sim!
- Agarrara-se a ele; procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos 
dele.
Baslio desprendeu-se brandamente:
- Ests doida, Lusa; tu no ests em ti! Pode l pensar-se em fugir? Era um 
escndalo atroz; ramos apanhados decerto, com a policia, com os telgrafos! t 
impossvel! Fugir  bom nos romances! E depois, minha filha, no  um caso para 
isso!  uma simples questo de dinheiro...
Lusa fazia-se branca, ouvindo-o.
- E alm disso - continuou Baslio, muito agitado, pelo quarto - eu no estou 
preparado, nem tu! No se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem 
remdio, Lusa. Uma mulher que foge, deixa de ser a senhora D. Fulana;  a 
flana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho decerto de ir ao 
Brasil; onde hs de tu ficar? Queres ir tambm, um ms num beliche, arriscar-te 
 febre amarela? E se teu marido nos persegue, se formos detidos na fronteira? 
Achas bonito voltar entre dois polcias, e ir passar um ano ao Limoeiro? O teu 
caso  simplicssimo. Entendes-te com essa criatura; d-se-lhe um par de libras, 
que  o que ela quer, e ficas em tua casa, sossegada, respeitada como dantes - 
somente mais acautelada! Aqui est!
Aquelas palavras caam sobre os planos de Lusa, como machadadas que derrubam 
rvores. s vezes a verdade que elas continham atravessava-a irresistivelmente, 
viva como um relmpago, desagradvel como um gume frio. Mas via naquela recusa 
uma ingratido, um abandono. Depois de se ter instalado, pela imaginao, numa 
segurana feliz, longe, em Paris - parecia-lhe intolervel ter de voltar para 
casa, de cabea baixa, sofrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que 
entrevira naquele outro destino, agora que lhe fugiam de entre as mos, 
pareciam-lhe maravilhosos, quase indispensveis! E depois de que servia resgatar 
a carta a dinheiro? A criatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, 
tendo sempre em volta de si aquele perigo a rondar!
Ficara calada, como perdida numa reflexo vaga; e de repente erguendo a cabea, 
com um olhar brilhante:
- Ento, dize!...
- Mas estou-te a dizer, filha... 
- No queres?
- No! - exclamou Baslio com fora. - Se tu ests doida, no estou eu! 
- Oh! Pobre de mim, pobre de mim!
Deixou-se cair no sof, tapou o rosto com as mos. Soluos baixos sacudiam-lhe o 
peito.
Baslio sentou-se ao p dela. Aquelas lgrimas mortificavam-no, 
impacientavam-no.
- Mas, santo nome de Deus, escuta-me!
Ela voltou para ele os olhos que reluziam sob o pranto:
- Para que dizias ento, tantas vezes, que seramos to felizes; que se eu 
quisesse...
Baslio ergueu-se bruscamente:
- Pois tu pensaste em fugir, em te meter comigo num vago, vir para Paris, viver 
comigo, ser a minha amante?
- Sai de casa para sempre, a est o que eu fiz!
- Mas vais voltar para casa! - exclamou ele, quase com clera. - Por que havias 
de tu fugir? Por amor? Ento devamos ter partido h um ms; no h razo agora 
para nos irmos. Para qu, ento? Para evitar um escndalo? Com um escndalo 
maior, no  verdade? Um escndalo irreparvel, medonho! Estou-te a falar como 
um amigo, Lusa! - Tomou-lhe as mos, com muita ternura: - Tu imaginas que eu 
no seria feliz em ir viver contigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho 
outra experincia. O escndalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu 
imaginas que a mulher vai-se pr a falar? O seu interesse  safar-se, 
desaparecer; sabe perfeitamente o que fez; que te roubou; que usou de chaves 
falsas. A questo  pagar-lhe.
Ela disse, com uma voz lenta:
- E o dinheiro, onde o tenho eu?
- Est claro que o dinheiro tenho-o eu! - E depois de uma pausa: - No muito, 
estou mesmo um pouco atrapalhado, mas enfim... - Hesitou, disse: - se a criatura 
quiser duzentos mil ris, do-se-lhe!
- E se no quiser?
- Que h de ela querer, ento? Se rouba a carta  para a vender! No  para 
guardar um autgrafo teu!
Vinham-lhe palavras duras; passeava pelo quarto exasperado. Que pretenso querer 
vir com ele para Paris, embaraar-lhe para sempre a sua vida! E que despesa to 
tola, dar um ror de libras a uma ladra! Depois aquele incidente, a carta de 
namoro roubada nos papis sujos, a criada, a chave falsa do gaveto dos vestidos 
- parecia-lhe soberanamente burgus, um pouco pulha. E parando, para acabar:
- Enfim; oferece-lhe trezentos mil ris, se quiseres. Mas pelo amor de Deus, no 
faas outra; no estou para pagar as tuas distraes a trezentos mil ris cada 
uma!
Lusa fez-se lvida, como se ele lhe tivesse cuspido no rosto.
- Se  uma questo de dinheiro, eu o pagarei, Baslio!
No sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... No o 
aceitaria dele!
Baslio encolheu os ombros:
- Ests-te a dar ares; onde o tens tu?
- Que te importa? - exclamou.
Baslio coou a cabea, desesperado. E tomando-lhe as mos, com uma impacincia 
reprimida:
- Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu no tens dinheiro.
Ela interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o brao;
- Pois sim, mas fala tu a essa mulher, fala-lhe tu, arranja tudo. Eu no a quero 
tornar a ver. Se a vejo, morro, acredita. Fala-lhe tu!
Baslio recuou vivamente, e batendo com o p:
- Ests doida, mulher! Se eu lhe falo, ento pede tudo, ento pede-me a pele! 
Isso  contigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!
- Nem isso me fazes?
Baslio no se conteve:
- No! Com os diabos, no!
- Adeus!
- Tu ests fora de ti, Lusa!
- No. A culpa  minha - dizia, descendo o vu com as mos trmulas eu  que 
devo arranjar tudo!
E abriu a porta. Baslio correu a ela, prendeu-a por um brao.
- Lusa, Lusa! O que queres tu fazer? No podemos romper assim! Escuta...
- Fujamos ento, salva-me de todo! - gritou ela, abraando-o ansiosamente.
- Caramba! Se te estou a dizer que no  possvel!
Ela atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O cup esperava-a.
- Para o Rossio - disse.
E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar, convulsivamente.
Baslio saiu do Paraso muito agitado. As pretenses de Lusa, os seus terrores 
burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quase 
vontade de no voltar ao Paraso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha 
pena dela, coitada! E depois, sem a amar, apetecia-a; era to bem feita, to 
amorosa; as revelaes do vcio davam-lhe um delrio to adorvel! Um 
conchegozinho to picante enquanto estivesse em Lisboa... Maldita complicao! 
Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:
- Quando vier o senhor Visconde Reinaldo, que v ao meu quarto.
Estava alojado no segundo andar, com janelas para o rio. Bebeu um clice de 
conhaque e estirou-se no sof. Ao p, na jardineira, tinha o seu buvar com um 
largo monograma em prata sob a coroa de conde, caixas de charutos, os seus livro 
- Mademoiseile Giraud, ma femme; La vierge de Mabilie; Ces friponnes!; Mmoires 
secrtes d'une femme de chambre; Le chien d'arrt; Manuel du chasseur, nmeros 
do Fgaro, a fotografia de Lusa, e a fotografia de um cavalo.
E soprando o fumo do charuto, comeou a considerar, com horror, a "situao"! 
No lhe faltava mais nada seno partir para Paris, com aquele trambolhozinho! 
Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida to arranjadinha, e patatrs! 
Embrulhar tudo, porque  menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do 
esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o comeo fora um erro! 
Tinha sido uma idia de burgus inflamado ir desinquietar a prima da Patriarcal. 
Viera a Lisboa para os seus negcios; era trat-los, aturar o calor e o boeuf  
la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a ptria ao inferno!... Mas 
no, idiota! Os seus negcios tinham-se concludo - e ele, burro, ficara ali a 
torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipias para o Largo de Santa Brbara 
para qu? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Alphonsine!
Que, verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradvel, 
muito excitante; porque era muito completo! Havia adulteriozinho, o 
incestozinho. Mas aquele episdio agora estragava tudo! No, realmente, o mais 
razovel era safar-se!
A sua fortuna tinha sido feita com negcio de borracha, no alto Paraguai; a 
grandeza da especulao trouxera a formao de uma companhia, com capitais 
brasileiros; mas Baslio e alguns engenheiros franceses queriam resgatar as 
aes brasileiras, que eram um empecilho, formar em Paris uma outra companhia, e 
dar ao negcio um movimento mais ousado. Baslio partira para Lisboa entender-se 
com alguns brasileiros, e comprara as aes habilmente.
A prolongao daquele incidente amoroso tornava-se uma perturbao na sua vida 
prtica... E, agora que a aventura tomava um aspecto secante, convinha passar o 
p!
A porta abriu-se e o Visconde Reinaldo entrou - afogueado, de lunetas azuis, 
furioso.
Vinha de Benfica! Morto, absolutamente morto com aquele calor, de um pas de 
negros. Tivera a estpida idia de ir visitar uma tia - que o fizera logo membro 
de uma associao para no sei que diabo de que creche, e que lhe pregara moral! 
Tambm, que idia de colegial - ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma 
coisa que lhe causasse repugnncia, eram as ternuras de famlia!
- E tu, que queres tu? Eu vou-me meter num banho at ao jantar!
- Sabes o que me sucede? - disse Baslio, erguendo-se.
- O qu?
- Imagina. O caso mais estpido.
- O marido apanhou-te?
- No, a criada!
- Shocking! - exclamou Reinaldo com nojo.
Baslio contou miudamente "o caso". E cruzando os braos diante dele:
- E agora?
- Agora  safar-te!
E levantou-se.
- Onde vais tu?
- Vou ao banho.
Que esperasse, que diabo; queria falar com ele...
- No posso! - exclamou Reinaldo com um egosmo frentico. Vem tu c abaixo! 
Posso perfeitamente conversar na gua!
Saiu, berrando por William, o seu criado ingls.
Quando Baslio desceu aos banhos, Reinaldo estirado com voluptuosidade na tina, 
de onde saa um forte cheiro de gua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu 
conforto:
- Ento cartinha apanhada nos papis sujos!
- No, Reinaldo, mas francamente estou embaraado; que achas tu que eu faa?
- As malas, menino!
E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:
- A est o que  fazer amor s primas da Patriarcal Queimada!
- Oh! - fez Baslio, impaciente. 
- Oh, qu? - E, coberto de flocos de espuma, com as mos apoiadas ao rebordo de 
mrmore da tina: - Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira 
por confidente, que lhe est na mo, que perde a carta nos papis sujos, que 
chora, que pede duzentos mil ris, que se quer safar isso  l amante, isso  l 
nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!
- Meu rico,  uma mulher deliciosa!
O outro encolheu os ombros, descrente. Baslio deu logo provas; descreveu 
belezas do corpo de Lusa; citou episdios lascivos.
O teto e os tabiques envernizados de branco refletiam a luz, com tons macios de 
leite; a exalao da gua tpida aumentava o calor morno; e um cheiro fresco de 
sabo e gua de Lubin adoava o ar.
- Bem! Ests pelo beio - resumiu Reinaldo com tdio, estirando-se. 
Baslio teve um movimento de ombro, que repelia aquela suposio grotesca.
- Mas dize, ento, queres ficar-lhe agarrado s saias ou queres desembaraar-te 
dela? Mas a verdade, venha a verdade!
- Eu - disse logo Baslio, chegando-se  tina, baixo - se me pudesse 
desembaraar decentemente... 
- Oh, desgraado! Tens uma ocasio divina! Ela saiu como uma bicha, dizes tu. 
Bem; escreve-lhe uma carta, que vendo que ela deseja romper, no a queres 
importunar, e partes. Os teus negcios esto concludos, no  verdade? Escusas 
de negar; o Lapierre disse-me que sim. Bem, ento s decente; manda fazer as 
malas, e livra-te da sarna.
E tomando a esponja, deixava cair grandes golpes de gua pela cabea, pelos 
ombros, soprando, regalado na frescura aromtica.
- Mas tambm - disse Baslio - deix-la agora naquela atrapalhao com a criada! 
No fim  minha prima...
Reinaldo agitou os braos, com hilaridade.
- Esse esprito de famlia  timo! Vai l, idiota; dize-lhe que s obrigado a 
partir, os teus negcios, etc., e mete-lhe umas poucas de notas na mo.
-  brutal...
- E caro!
Baslio disse ento:
- Olha que tambm  uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...
Reinaldo estirou-se mais, e disse com jbilo:
- Esto a estas horas a esgadanharem-se uma  outra!
Recostou-se numa beatitude; quis saber as horas; declarou que estava 
confortvel; que se sentia feliz! Contanto que o John se no tivesse esquecido 
de frapper o champanhe!
Baslio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Lusa de repes verde, a figura 
horrvel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com efeito a ralhar, a 
descompor-se? Que pulhice que era tudo aquilo! Positivamente devia partir.
- Mas que pretexto lhe hei de eu dar para sair de Lisboa?
- Um telegrama! No h nada como um telegrama! Telegrafa j ao teu homem em 
Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que , que te mande logo este 
despacho: "Parta, negcios maus, etc."  o melhor!
- Vou faz-lo - disse Baslio erguendo-se, muito decidido.
- E partimos amanh? - gritou Reinaldo.
- Amanh.
- Por Madri?
- Por Madri.
- Salero! - Ps-se de p na tina, entusiasmado, a escorrer, e com movimentos 
aduncos de magricela saltou para fora, embrulhou-se no roupo turco. O seu 
criado William entrou logo, sutilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um p entre as 
mos, secou-lho com precaues, ps-se respeitosamente a calar-lhe a meia de 
seda preta com ferradurinhas bordadas.
Na manh seguinte, um pouco antes do meio-dia, Joana veio bater discretanente  
porta do quarto de Lusa, e com a voz baixa - desde o desmaio falava-lhe sempre 
baixo, como a uma convalescente:
- Est ali o primo da senhora.
Lusa ficou surpreendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos 
vermelhos de chorar; ps num instante um pouco de p-de-arroz, alisou o cabelo, 
entrou na sala.
Baslio, vestido de claro, sentara-se melancolicamente no mocho do piano. Trazia 
um ar grave, e, sem transio, comeou a dizer: - que apesar de ela se ter 
zangado na vspera, ele considerava ainda tudo "como dantes". Viera porque 
naquele momento no se podiam separar sem algumas explicaes, sobretudo sem 
resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo 
lgrimas:
- Porque eu vejo-me forado a sair de Lisboa, minha querida!
Lusa, sem olhar para ele, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Baslio 
acrescentou logo:
- Por pouco tempo, naturalmente; trs semanas ou um ms... Mas enfim tenho de 
partir... Se fossem s os meus interesses! - Encolheu os ombros com desdm. - 
Mas so interesses de outros... E aqui est o que eu recebi est manh.
Estendeu-lhe um telegrama. Ela conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mo 
fazia tremer o papel.
- L, peo-te que leias!
- Para qu? - fez ela.
Mas leu baixo: "Venha, graves complicaes. Presena absolutamente necessria. 
Parta j".
Dobrou o papel, entregou-lho.
- E partes, hem?
-  foroso.
- Quando?
- Esta noite.
Lusa ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mo:
- Bem, adeus.
Baslio murmurou:
- s cruel, Lusa!... No importa! Em todo o caso h um negcio que  necessrio 
terminar. Falaste  mulher?
- Est tudo arranjado - respondeu ela, franzindo a testa. Baslio tomou-lhe a 
mo, e quase com solenidade:
- Minha filha, eu sei que s muito orgulhosa, mas peo-te que digas a verdade. 
Eu no te quero deixar em dificuldades. Falaste-lhe?
Ela retirou a mo, e com uma impacincia crescente:
- Arranjou-se tudo; arranjou-se tudo!...
Baslio parecia muito embaraado; estava mesmo um pouco plido: enfim, tirando 
uma carteira da algibeira, comeou:
- Em todo o caso  possvel,  natural (ns no sabemos com quem lidamos),  
natural que haja outras exigncias... - abriu a carteira, tomou um sobrescrito 
pequenino e cheio.
Lusa seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Baslio.
- Por isso, para te poderes entender melhor com ela, sempre me parece bom 
deixar-te algum dinheiro.
- Tu ests doido? - exclamou ela.
- Mas...
- Tu queres-me dar dinheiro? - A sua voz tremia.
- Mas enfim...
- Adeus! - E ia sair da sala, indignada.
- Lusa, pelo amor de Deus! Tu no me compreendeste...
Ela parou; disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
- Compreendi, Baslio, obrigada. Mas no, no  necessrio. Estou nervosa,  o 
que ... No prolonguemos mais isto... Adeus...
- Mas sabes que volto, dentro de trs semanas...
- Bem, ento nos veremos...
Ele atraiu-a, deu-lhe um beijo na boca, encontrou os seus lbios passivos e 
inertes.
Aquela frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, 
pondo muita paixo na voz:
- Nem um beijo me queres dar?
Nos olhos de Lusa passou um ligeiro claro; beijou-o rapidamente, e recuando:
- Adeus.
Baslio esteve um momento a olh-la; teve como um leve suspiro:
- Adeus! - E da porta, voltando-se, com melancolia: - Escreve-me ao menos. Sabes 
a minha morada. Rua Saint Florentin, 22.
Lusa chegou-se  janela. Viu-o acender o charuto na rua, falar ao cocheiro, 
saltar para o cup, fechar com fora a portinhola, sem um olhar para as janelas!
O trem rolou. Era o no 10 ... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo 
amor, tinham cometido a mesma culpa. - Ele partia alegre, levando as recordaes 
romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim 
era o mundo!
Veio-lhe um sentimento pungente de solido e de abandono. Estava s, e a vida 
aparecia-lhe como uma vasta plancie desconhecida, coberta da densa noite, 
eriada de perigos!
Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cair no sof; viu ao p o saco de 
marroquim, que preparara na vspera para fugir; abriu-o, ps-se a tirar 
lentamente os lenos, uma camisinha bordada - encontrou a fotografia de Jorge! 
Ficou com ela na mo, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom. - No, 
no estava no mundo s! Tinha-o a ele! Amava-a aquele; nunca a trairia, nunca a 
abandonaria! - E colando os beios ao retrato, umedecendo-o de beijos 
convulsivos, atirou-se de bruos, lavada em lgrimas dizendo: - Perdoa-me, 
Jorge, meu Jorge, eu querido Jorge, Jorge da minha alma!
Depois de jantar, Joana veio dizer-lhe timidamente:
- A senhora no lhe parece que seria bom ir saber da Sra. Juliana?
- Mas onde quer voc ir saber? - perguntou Lusa.
- Ela, s vezes vai  casa de uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do 
Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambm no mandar recado 
desde ontem pela manh... Coisa assim! Eu podia ir saber...
- Pois bem, v, v.
Aquela desapario brusca inquietava tambm Lusa. Onde estava? Que fazia? 
Parecia-lhe que alguma coisa se tramava em segredo, longe dela; que viria de 
repente estalar-lhe sobre a cabea, terrivelmente...
Anoiteceu. Acendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim s em casa; e, 
passeando pelo quarto, pensava que quela hora Baslio em Santa Apolnia 
comprava alegremente o seu bilhete, instalava-se no vago, acendia o charuto, e 
da a pouco, a mquina arquejando lev-lo-ia para sempre! Porque no acreditava 
"na demora de trs semanas, um ms"! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o 
detestar sentia que alguma coisa dentro em si se partia com aquela separao, e 
sangrava dolorosamente!
Eram quase nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria 
Joana de volta; foi abrir com um castial - e recuou vendo Juliana, amarela, 
muito alterada.
- A senhora faz favor de me dar uma palavra?
Entrou no quarto atrs de Lusa, e imediatamente rompeu, gritando, furiosa:
- Ento a senhora imagina que isto h de ficar assim? A senhora imagina que por 
o seu amante se safar, isto h de ficar assim?
- Que , mulher? - fez Lusa, petrificada.
- Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto h de ficar em nada? - 
berrou.
- Oh, mulher, pelo amor de Deus!...
A sua voz tinha tanta angstia que Juliana calou-se.
Mas depois de um momento, mais baixo:
- A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma coisa era! Queria 
pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cansada de trabalhar, e quero o 
meu descanso. No ia fazer escndalo; o que desejava  que ele me ajudasse... 
Mandei ao hotel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido 
para o lado dos Olivais, para o inferno! E o criado ia  noite com as malas. Mas 
a senhora pensa que me logram? - E retomada pela sua clera, batendo com o punho 
furiosamente na mesa: - Raios me partam, se no houver uma desgraa nesta casa, 
que h de ser falada em Portugal!
- Quanto quer voc pelas cartas, sua ladra? - disse Lusa, erguendo-se . 
direita, diante dela.
Juliana ficou um momento interdita.
- A senhora ou me d seiscentos mil ris, ou eu no largo os papis! - 
respondeu, empertigando-se.
- Seiscentos mil ris! Onde quer voc que eu v buscar seiscentos mil ris?
- Ao inferno! - gritou Juliana. - Ou me d seiscentos mil ris, ou to certo 
como eu estar aqui, o seu marido h de ler as cartas!
Lusa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.
- Que fiz eu para isto, meu Deus? Que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
- A senhora diz bem, sou uma ladra,  verdade; apanhei a carta no cisco; tirei 
as outras do gaveto.  verdade! E foi para isto, para mas pagarem! - E 
traando, destraando o xale, numa excitao frentica: - No que a minha vez 
havia de chegar! Tenho sofrido muito, estou farta! V buscar o dinheiro onde 
quiser. Nem cinco ris de menos! Tenho passado anos e anos a ralar-me! Para 
ganhar meia moeda por ms, estafo-me a trabalhar, de madrugada at  noite, 
enquanto a senhora est de pnria!  que eu levanto-me s seis horas da manh - 
e  logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora est muito regalada em 
vale de lenis, sem cuidados, nem canseiras. H um ms que me ergo com o dia, 
para meter em goma, passar, engomar! A senhora suja, suja, quer ir ver quem lhe 
parece, aparecer-lhe com tafularias por baixo e c est a negra, com a pontada 
no corao, a matar-se com o ferro na mo! E a senhora, so passeios, tipias, 
boas sedas, tudo o que lhe apetece - e a negra? A negra a esfalfar-se!
Lusa, quebrada, sem fora de responder, encolhia-se sob aquela clera como um 
pssaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violncia da sua 
voz. E as lembranas das fadigas, das humilhaes, vinham atear-lhe a raiva, 
como achas numa fogueira.
- Pois que lhe parece? - exclamava. No que eu coma os restos e a senhora os 
bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem 
mo d? Tenho de o comprar! A senhora j foi ao meu quarto? E uma enxovia! A 
percevejada  tanta que tenho de dormir quase vestida! E a senhora se sente uma 
mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por 
frincha. Uma criada! A criada  o animal. Trabalha se pode, seno rua, para o 
hospital. Mas chegou-me a minha vez - e dava palmadas no peito, fulgurante de 
vingana. - Quem manda agora, sou eu!
Lusa soluava baixo.
- A senhora chora! Tambm eu tenho chorado muita lgrima! Ai! Eu no lhe quero 
mal, minha senhora, certamente que no! Que se divirta, que goze, que goze! O 
que eu quero  o meu dinheiro. O que eu quero  o meu dinheiro aqui escarrado, 
ou o papel h de ser falado! Ainda este teto me rache, se eu no for mostrar a 
carta ao seu homem, aos seus amigos,  vizinhana toda, que h de andar 
arrastada pelas ruas da amargura!
Calou-se, exausta; e com a voz entrecortada de cansaos:
- Mas d-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papis; 
e o que l vai, l vai, e at lhe levo outras. Mas o meu dinheiro para aqui! E 
tambm lhe digo, que morta seja eu neste instante com um raio, se depois de eu 
receber o meu dinheiro esta boca se torna a abrir! - E deu uma palmada na boca.
Lusa erguera-se devagar, muito branca:
- Pois bem - disse, quase num murmrio - eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere 
uns dias.
Fez-se um silncio - que depois do rudo parecia muito profundo; e tudo no 
quarto como que se tornara mais imvel. Apenas o relgio batia o seu 
tique-taque, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz 
avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traou o xale, e depois de fitar Lusa um momento:
- Bem, minha senhora - disse, muito seca.
Voltou as costas, saiu.
Lusa sentiu-a bater a cancela com fora.
- Que expiao, Santo Deus! - exclamou, caindo numa cadeira, banhada de novo em 
lgrimas.
Eram quase dez horas quando Joana voltou.
- No pude saber nada, minha senhora; na inculcadeira ningum sabe dela.
- Bem, traga a lamparina.
E Joana ao despir-se no seu quarto, rosnava consigo:
- A mulher tem arranjo; est metida por a com algum scio!
Que noite para Lusa! A cada momento acordava num sobressalto, abria os olhos na 
penumbra do quarto, e caa-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquele cuidado 
pungente: que havia de fazer? Como havia de arranjar dinheiro? Seiscentos mil 
ris! As suas jias valiam talvez duzentos mil ris. Mas depois, que diria 
Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
A noite estava quente, e na sua inquietao a roupa escorregara; apenas lhe 
restava o lenol sobre o corpo. As vezes a fadiga readormecia-a de um sono 
superficial, cortados de sonhos muito vivos. Via montes de libras reluzirem 
vagamente, maos de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para 
as agarrar, mas as libras comeavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas 
sobre um cho liso, e as notas desapareciam voando muito leves com um frmito de 
asas irnicas. Ou ento era algum que entrava na sala, curvava-se 
respeitosamente, e comeava a tirar do chapu, a deixar-lhe cair no regao 
libras, moedas de cinco mil ris, peas, muitas, profusamente; no conhecia o 
homem; tinha um chin vermelho e uma pra impudente. Seria o diabo? Que lhe 
importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a 
correr atrs dela, por um corredor que no findava, e que comeava a 
estreitar-se, a estreitar-se, at que era como uma fenda por onde ela se 
arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o monto de 
libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pele nua do peito. Acordava 
assustada; e o contraste da sua misria real com aquelas riquezas do sonho, era 
como um acrscimo de amargura. Quem lhe poderia valer? - Sebastio! Sebastio 
era rico, era bom. Mas mand-lo chamar, e dizer-lhe ela, ela Lusa, mulher de 
Jorge: - "Empreste-me seiscentos mil ris". - Para qu, minha senhora?" E podia 
l responder: "Para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante". Era l 
possvel! No, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.
A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto; atirou a 
touca, os seus longos cabelos soltaram-se; prendeu-os ao acaso com um gancho; e 
de costas, com a cabea sobre os braos nus, pensava amargamente no romance de 
todo aquele vero - a chegada de Baslio, o passeio ao Campo Grande, a primeira 
visita ao Paraso...
Onde iria ele, aquele infame? Dormindo tranqilamente nas almofadas do vago!
E ela ali, na agonia!
Atirou o lenol; abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, 
adormeceu, quando a madrugada rompia.
Acordou tarde, sucumbida. Mas logo na sala de jantar a beleza da manh gloriosa 
reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janela aberta; os canrios 
faziam um concerto; da forja ao p saa um martelar jovial; e o largo azul 
vigoroso levantava as almas. - Aquela alegria das coisas deu-lhe como uma 
coragem inesperada. No se havia de abandonar a uma desesperana inerte... Que 
diabo! Devia lutar!
Vieram-lhe esperanas, ento. Sebastio era bom; Leopoldina tinha expedientes; 
havia outras possibilidades, o acaso mesmo; e tudo isto podia, em definitivo, 
formar seiscentos mil ris, salv-la! Juliana desapareceria, Jorge voltaria! - 
E, alvoroada, via perspectivas de felicidades possveis reluzirem, no futuro, 
deliciosamente.
Ao meio-dia veio o criadito de Sebastio; o senhor tinha chegado de Almada; 
desejava saber como a senhora estava.
Correu ela mesma  porta; que pedia ao Sr. Sebastio, que viesse logo que 
pudesse!
Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia falar a Sebastio... No fim era o que lhe 
restava: contar ela tudo a Sebastio, ou que a outra contasse tudo a seu marido. 
Impossvel hesitar! E depois podia atenuar, dizer que fora s uma 
correspondncia platnica... A partida de Baslio, alm disso, fazia daquele 
erro um fato passado, quase antigo... E Sebastio era to amigo dela!
Veio; era uma hora. Lusa que estava no quarto sentiu-o entrar, e s o som dos 
seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quase um terror. 
Parecia-lhe agora muito difcil, terrvel de dizer... Preparara frases, 
explicaes, uma histria de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mo 
no fecho da porta, a tremer. Tinha medo dele! Ouvia-o passear pela sala; e 
receando que a impacincia lhe desse mau humor, entrou.
Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno; nunca o seu olhar lhe parecera to reto, 
e a sua bata to sria!
- Ento que ? Precisa alguma coisa? - perguntou-lhe ele depois das primeiras 
palavras sobre Almada, sobre o tempo.
Lusa teve uma cobardia indominvel, respondeu logo:
-  por causa de Jorge!
- Aposto que no lhe tem escrito?
- No.
- Esteve muito tempo sem me escrever tambm. - E rindo:- Mas hoje recebi duas 
cartas por atacado.
Procurou-as entre outros papis que tirou da algibeira. Lusa fora sentar-se no 
sof; olhava-o com o corao aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam 
devagarinho o estofo.
-  verdade - dizia Sebastio, revolvendo o mao de papis - Recebi duas; fala 
em voltar; diz que est muito secado... - E estendendo uma carta a Lusa: - Pode 
ver.
Lusa desdobrara-a, e comeava a ler; mas Sebastio, estendendo a mo 
precipitadamente:
- Perdo, no  essa!
- No, deixe ver...
- No diz nada, so negcios...
- No, quero ver!
Sebastio, sentado  beira da cadeira, coava a barba, olhando-a, muito 
contrariado. E Lusa de repente, franzindo a testa:
- O qu? - A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpresa irritada. - 
Realmente!...
- So tolices, so tolices! - murmurava Sebastio, muito vermelho.
Lusa ps-se ento a ler alto, devagar:
- Sabers, amigo Sebastio, que fiz aqui uma conquista. No  o que se pode 
chamar uma princesa, porque  nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. 
Parece estar abrasada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdoe, 
mas desconfio at que me leva apenas um vintm pelos charutos de pataco, fazendo 
assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e 
a tenda!
- Que graa! - murmurou Lusa, furiosa.
- Receio muito que se repita comigo o caso bblico da mulher de Putifar. 
Acredita que h um certo mrito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira 
como ,  lindssima. E tenho medo que suceda algum fracasso  minha pobre 
virtude...
Lusa interrompeu-se, e olhou Sebastio com um olhar terrvel.
- So brincadeiras! - balbuciou ele.
Ela seguiu, lendo:
- Olha, se a Lusa soubesse desta aventura! De resto, o meu sucesso no pra 
aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos!  de Lisboa, de uma gente 
Gamacho, que parece que mora para Belm, conheces? E d-se ares de morrer de 
tdio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soire em minha honra, e 
em minha honra, creio tambm, decotou-se. Muito bonito colo.
Lusa fez-se escarlate.
-  uma queda do diabo...
- Est doido! - exclamou ela.
- E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alentejo, e deixando um rasto de 
chamas sentimentais por essa provncia fora. O Pimentel recomenda-se...
Lusa ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a 
Sebastio:
- Muito bem, diverte-se! - disse com uma voz sibilante.
- So l coisas que se tomem a srio! No deve tomar a srio...
- Eu! - exclamou ela. - Acho muito natural at!
Sentou-se, comeou, com volubilidade, a falar de outras coisas, de D. 
Felicidade, de Julio...
- Trabalha muito agora para o concurso - disse Sebastio. - Quem no tenho visto 
 o Conselheiro.
- Mas, quem  essa gente Gamacho, de Belm?
Sebastio encolheu os ombros - e com um ar quase repreensivo:
- Ora, realmente tomou a srio...
Lusa interrompeu-o:
- Ah! Sabe? Meu primo Baslio partiu.
Sebastio teve um alvoroo de alegria.
- Sim?
- Foi para Paris; no creio que volte. - E depois de uma pausa, parecendo ter 
esquecido Jorge, e a carta: - S em Paris est bem... Estava no ar para partir. 
- Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido: - Precisava casar, 
aquele rapaz.
- Para assentar - disse Sebastio.
Mas Lusa no acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavalos, 
de aventuras, pudesse dar um bom marido.
Sebastio era de opinio que s vezes sossegavam, e eram homens de famlia...
- Tm mais experincia - disse.
- Mas um fundo leviano - observou ela.
E depois destas palavras vagas calaram-se com embarao.
- Eu, a falar a verdade - disse ento Lusa -, estimei que meu primo partisse... 
Como tinha havido essas tolices na vizinhana... Ultimamente mesmo quase que o 
no vi. Esteve a ontem; veio despedir-se, fiquei surpreendida...
Estava tornando impossvel a histria de um galanteio platnico, cartas trocadas 
- mas um sentimento mais forte que ela impelia-a a atenuar, distanciar as suas 
relaes com Baslio. Acrescentou mesmo:
- Eu sou amiga dele, mas somos muito diferentes... Baslio  egosta, pouco 
afeioado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente; sentiu que se enterrava.
Sebastio lembrava-se ouvir-lhe dizer que tinham sido criados ambos de pequenos; 
mas, enfim, aquela maneira de falar do primo, parecia-lhe a prova maior de que 
no houvera nada. Quase se queria mal pelas dvidas, que tivera, to 
injustas!...
- E volta? - perguntou.
- No me disse, mas no creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idia da carta, de repente:
- Ento Sebastio  o confidente de Jorge?
Ele riu:
- Oh, minha senhora! Pois acredita...
- E a mim quando me escreve, que se aborrece, que est s, que no suporta o 
Alentejo... - Mas vendo Sebastio olhar o relgio: - O qu, j?  cedo.
Tinha de estar na Baixa antes das trs, disse ele.
Lusa quis ret-lo. No sabia para qu - porque a cada momento sentia a sua 
resoluo diminuir, desaparecer como a gua de um rio que se absorve no seu 
leito. Ps-se a falar-lhe das obras de Almada.
Sebastio comeara-as pensando que duzentos ou trezentos mil ris fariam as 
restauraes necessrias; mas depois umas coisas tinham trazido outras - e, 
dizia, est-se-me tornando um sorvedouro!
Lusa riu, foradamente.
- Ora, quando se  proprietrio e rico!...
- Isso sim! Parece que no  nada: mas uma pintura numa porta, uma janela nova, 
uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquilo, e l se vo oitocentos 
mil ris... Enfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
- Eu espero que aquele vadio se no demore muito...
- Se a estanqueira der licena... Ficou a passear na sala, nervosa, com aquela 
idia. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as 
outras!... Decerto, tinha confiana nele, mas os homens!... De repente 
representou-lhe a estanqueira prendendo-o nos braos detrs do balco, ou Jorge 
beijando, nalguma entrevista, de noite, o colo bonito da mulher do delegado!... 
E tumultuosamente apareceram-lhe todas as razoes que provavam irrecusavelmente a 
traio de Jorge: estava h dois meses fora! Sentia-se cansado da sua viuvez! 
Encontrava uma mulher bonita! Tomava aquilo como um prazer passageiro, sem 
importncia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e ofendida, 
que viesse imediatamente - ou que partia ela - Entrou no quarto, muito excitada. 
A fotografia de Jorge, que ela tirara na vspera do saco de marroquim, ficara no 
toucador. Ps-se a olh-la: no admirava que o namorassem; era bonito, era 
amvel... Veio-lhe uma onda de cime, que lhe obscureceu o olhar; se ele a 
enganasse, se tivesse a certeza da "mais pequena coisa" - separava-se, 
recolhia-se a um convento, morria decerto, matava-o!...
- Minha senhora - veio dizer Joana -,  um galego com esta carta. Est  espera 
da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escrita em papel pautado, numa letra medonha, eriada de erros de ortografia, 
dizia:
Minha senhora.
Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve atribuir tanto  minha desgraa 
como  falta de sade, o que s vezes faz que se tenham gnios repentinos. Mas 
se a senhora quer que eu volte e faa o servio como dantes - ao qual creio que 
a senhora no pode opor-se, terei muito gosto em ser agradvel na certeza que 
nunca mais se falar em tal at que a senhora queira, e cumpra o que prometeu. 
Prometo fazer o meu servio, e desejo que a senhora esteja por isto pois que  
para bem de todos. Pois que foi gnio e naturalmente todos tm os seus repentes, 
e com isto no canso mais e sou 
Serva muito obediente
a criada
Juliana Couceiro Tavira.
Ficou com a carta na mo, sem resoluo. A sua primeira vontade foi dizer - 
"no!" Tornar a receb-la, v-la, com a sua face horrvel, a cuia enorme! Saber 
que ela tinha no bolso a sua carta, a sua desonra, e cham-la, pedir-lhe gua, a 
lamparina, ser servida por ela! No! Mas veio-lhe um terror; se recusasse 
irritava a criatura; Deus sabe o que faria! Estava nas mos dela; devia passar 
por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento:
- Que sim, que venha,  a resposta.
Juliana veio com efeito s oito horas. Subiu p ante p para o sto, ps o fato 
de casa e as chinelas, e desceu para o quarto dos engomados, onde Joana sentada 
num tapete costurava,  luz do petrleo.
Joana, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: onde estivera? O que tinha 
acontecido? Por que no dera notcias? - Juliana contou que fora a uma visita a 
uma amiga,  Calada do Marqus de Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, 
e a dor... No quis mandar dizer, porque imaginara que poderia vir. Mas qual! 
Estivera dia e meio de cama...
Quis saber ento o que tinha feito a senhora, se sara, quem estivera...
- A senhora tem andado a modo incomodada - disse Joana.
-  do tempo - observou Juliana. - Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas 
continuaram o sero.
As dez horas Lusa ouviu bater devagarinho  porta do quarto. Era ela, decerto!
- Entre...
A voz de Juliana disse muito naturalmente:
- Est o ch na mesa.
Mas Lusa no se decidia a ir  sala, com medo, horror de a ver! Deu voltas no 
quarto, demorou-se; foi enfim, toda trmula. Juliana vinha justamente no 
corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:
- Quer que v pr a lamparina, minha senhora? Lusa fez que sim com a cabea, 
sem a olhar.
Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, 
cerrado as portas, quase em pontas de ps:
- A senhora no precisa mais nada? - perguntou.
- No.
- Muito boa noite, minha senhora. E no houve outra palavra mais.
- "Parece um sonho!" - pensava Lusa, ao despir-se melancolicamente.
- Esta criatura, com as minhas cartas, instalada em minha casa para me torturar, 
me roubar!" - Como se achava ela, Lusa, naquela situao? Nem sabia. As coisas 
tinham vindo to bruscamente, com a precipitao furiosa de uma borrasca, que 
estala! No tivera tempo de raciocinar, de se defender; fora embrulhada; e ali 
estava, quase sem dar f, na sua casa sob a dominao da sua criada! Ah! Se 
tivesse falado a Sebastio! Tinha agora o dinheiro, decerto, notas, ouro... Com 
que frenesi lho arremessaria,. a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!... 
- Jurou a si prpria falar a Sebastio, dizer tudo! Iria mesmo  casa dele, para 
o impressionar mais!
Da a pouco, quebrada da agitao do dia, adormecera - e sonhava que um estranho 
pssaro negro lhe entrara no quarto, fazendo uma ventania, com as suas asas 
pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escritrio, gritando: 
"Jorge!" Mas no via nem livros, nem estante, nem mesa; havia uma armao reles 
, de loja de tabaco, e por trs do balco, Jorge acariciava sobre os joelhos uma 
bela mulher de formas robustas, em camisa de estopa, que perguntava com uma voz 
desfalecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixo: - "Brejeiros ou de 
Xabregas?" - Fugia ento de casa indignada, e, atravs de sucessos confusos, 
via-se ao lado de Baslio, numa rua sem fim, onde os palcios tinham fachadas de 
catedrais, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava 
soluando a Baslio a traio de Jorge. E Baslio, saltitando em volta dela com 
requebros de palhao, repenicava uma viola, e cantava:
- Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar 
Se um corao ofendido
Tem obrigao de amar!
- No tem! - gania a voz de Ernestinho, brandindo triunfante um rolo de papel. - 
E tudo se obscurecia de repente nos largos vos circulares que fazia Juliana com 
as suas asas de morcego.
CAPTULO IX
Juliana voltara para casa de Lusa por conselhos da tia Vitria.
- Olha, minha rica - tinha-lhe ela dito -, no h que ver, o pssaro fugiu-nos! 
Suspira, bem podes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia adivinhar 
que o homem desarvorava! No, l isso podes tirar da o sentido! Que escusas de 
esperar nem cheta...
- Tambm me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Vitria!
A velha encolheu os ombros:
- No lucras nada com isso. Ou que eles se desquitem, ou que ele lhe parta os 
ossos, ou que a mande para um convento - tu no ganhas nada. E se se acomodarem, 
mais ficas a chuchar no dedo, porque nem tens a consolao de fazeres a ciznia. 
E isto , se as coisas correrem pelo melhor, porque podes muito bem ficar mas  
em lenis de vinagre com alguma carga de pau que eles te mandem dar. - E vendo 
um gesto espantado de Juliana: - J no era o primeiro caso, minha rica, j no 
era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita coisa, e nem tudo vem nos 
jornais!
Positivamente o que ela tinha a fazer era voltar para a casa. Por que enfim o 
que restava de tudo aquilo? O medo de D. Lusa; esse  que l estava sempre a 
dar-lhe por dentro a clica; desse  que era necessrio tirar partido...
- Tu voltas para l - dizia -  espera que ela cumpra o que prometeu. Se te d o 
dinheiro, bem... Se no, tem-na em todo o caso na mo, ests de dentro da praa, 
sabes o que se passa, podes-lhe apanhar muita coisa...
Mas Juliana hesitava. - Era difcil viverem debaixo das mesmas telhas sem haver 
uma questo por d c aquela palha.
- No te diz uma palavra, tu vers...
- Mas tenho medo...
- De qu? - exclamava a tia Vitria. Ela no era mulher para a envenenar, no  
verdade? Ento? Quem a nada se arriscava nada ganhava. - Isto  se queres - 
acrescentou - seno trata de te arranjar noutra parte, e deita as cartas para o 
fundo da arca. Que diabo! Tu vais ver, se no te convm, safas-te...
Juliana decidiu ir, a "ver".
E reconheceu logo, que aquela finria da tia Vitria tinha carradas de razo.
Lusa, com efeito, parecia resignada. Sebastio tinha ido para Almada, outra 
vez. Mas como estava decidida, apenas ele voltasse, a ir a casa dele uma manh, 
atirar-se-lhe aos ps, contar-lhe tudo, tudo, suportava Juliana, refletindo: -"E 
apenas por dias!" - Por isso no lhe disse uma palavra. Para qu? O que tinha a 
fazer era pagar-lhe e p-la fora, no  verdade? Enquanto o no pudesse fazer, 
era agentar e calar. At que Sebastio voltasse...
Entretanto evitava v-la. Nunca a chamava. No saa da alcova de manh, sem a 
ter sentido fora no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala 
de jantar com um livro, e nos intervalos no levantava os olhos das pginas. E 
durante todo o dia conservava0se no quarto com a porta fechada, lendo, 
costurando, pensando em Jorge - s vezes tambm em Baslio com dio, desejando a 
volta de Sebastio, e preparando a sua histria.
Juliana, uma manh, encontrou Lusa no corredor trazendo para o quarto o regador 
cheio de gua.
- Oh, minha senhora! Por que no chamou? - exclamou, quase escandalizada.
- No tem dvida - disse Lusa.
Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:
-  minha senhora! - disse muito ofendida. - Isto assim no pode continuar. A 
senhora parece que tem medo de me ver, credo! Eu voltei para fazer o meu servio 
como dantes... Verdade, verdade, naturalmente, sempre espero que a senhora faa 
o que prometeu... E l largar as cartas no largo, sem ter seguro o po da 
velhice. Mas o que se passou foi um repente de gnio, e j pedi perdo  
senhora. Quero fazer o meu servio... Agora se a senhora no quer, ento saio, e 
-, acrescentou com uma voz seca - talvez seja pior para todos!...
Lusa, muito perturbada, balbuciou:
- Mas...
- No, minha senhora - cortou Juliana severamente - aqui a criada sou eu.
E saiu, empertigada.
Tanta audcia aterrou Lusa. Aquela ladra era capaz de tudo!
Ento, para a no irritar comeou, da por diante, a cham-la, a dizer: -"traga 
isto, traga aquilo" - sem a olhar.
Mas Juliana fazia-se to servial, era to calada, que Lusa pouco a pouco, dia 
a dia, com o seu carter mbil, inconsciente, cheio de deixar-se ir, principiou 
a perder o sentimento pungente daquela dificuldade. E no fim de trs semanas as 
coisas tinham entrado nos seus eixos - dizia Juliana.
Lusa j gritava por ela do quarto, j a mandava a recados fora; Juliana chegava 
a ter s vezes migalhas de conversao: - Est um calor de morrer... A lavadeira 
tarda... - Um dia arriscou esta frase mais intima: - Encontrei a criada da 
senhora D. Leopoldina.
Lusa perguntou:
- Ainda est para o Porto?
- Ainda se demora um ms, minha senhora...
De resto havia na casa um aspecto muito tranqilo, e Lusa, depois de tantas 
agitaes, abandonava-se com gozo  satisfao daquele descanso. Ia s vezes ver 
D. Felicidade  Encarnao, que j se levantava. E esperava sempre Sebastio, 
mas sem impacincia, quase contente por ver adiado o momento terrvel de lhe 
dizer: "Escrevi a um homem, Sebastio!"
Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.
Uma tarde Lusa ficara mais tempo  janela da sala de jantar; deixara cair o 
livro no regao, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que de algum quintal 
vizinho viera pousar sobre o tabique de terreno vago. Pensava vagamente em 
Baslio, no Paraso... Sentiu passos; era Juliana.
- Que ?
A mulher cerrara a porta, e vindo junto dela, baixo:
- Ento a senhora ainda no decidiu nada? 
Lusa sentiu como uma pancada no estmago.
- Ainda no pude arranjar nada...
Juliana esteve um momento a olhar para o cho:
- Bem - murmurou, por fim.
E Lusa ouviu-a, no corredor, dizer alto:
- Isto quando o senhor voltar  que so os ajustes de contas!
Quando Jorge voltasse! Imediatamente no seu esprito, que se tinha pouco a pouco 
serenado, todos os sustos, as angstias estremeceram de novo quela ameaa - 
assim uma rajada sbita pe em convulso um arvoredo. Devia, pois, fazer alguma 
coisa antes que ele chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, que no se 
demoraria, que a avisaria pelo telgrafo... Desejava, agora, que do ministrio o 
mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Espanha ou pela frica; que alguma 
catstrofe, sem lhe fazer mal, o retardasse meses!...
Que faria ele, se soubesse? Mat-la-ia? Lembravam-lhe as suas palavras muito 
srias, naquela noite, quando Ernestinho contara o final do seu drama... 
Met-la-ia numa carruagem, lev-la-ia a um convento? E via a grossa portaria 
fechar-se com um rudo funerrio de ferrolhos, olhos lgubres estud-la 
curiosamente...
O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idia ntida de seu marido; 
imaginava um outro Jorge sanguinrio e vingativo, esquecendo o seu carter bom, 
to pouco melodramtico. Um dia foi ao escritrio, tomou a caixa das pistolas, 
fechou-a num ba de roupa velha, e escondeu a chave!...
Uma idia amparava-a: era que apenas Sebastio viesse de Almada, estava salva; e 
apesar daquela agonia mida de todos os momentos, quase receava saber que ele 
tivesse chegado - tanto a confisso da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi 
por esse tempo, ento, que lhe veio uma lembrana - escrever a Baslio. O terror 
permanente amolecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltrao da gua faz a uma 
parede; e todos os dias comeou a achar uma razo, mais uma, para se dirigir 
"quele infame": fora seu amante, j sabia todo o caso das cartas, era o seu 
nico parente... E no teria de "dizer" a Sebastio! J s vezes pensara que no 
aceitar dinheiro de Baslio fora uma "fanfarronada bem tola!" Um dia enfim 
escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe seiscentos mil 
ris. Foi ela mesmo lev-la ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.
Nessa tarde, por acaso, Sebastio, que chegara de Almada, veio v-la. Recebeu-o 
com alegria, feliz por no ter de lhe contar..
Falou da volta de Jorge; aludiu mesmo ao primo Baslio,  pouca vergonha da 
vizinhana...
- No - disse -  a primeira coisa que hei de contar ao Jorge.
Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, no seu 
caminho para Frana, como se a sua mesma vida fosse dentro daquele sobrescrito 
entregue ao acaso dos trens e  confuso das viagens! Chegara a Madri, depois a 
Barcelona, depois a Paris! Um carteiro corria a entreg-la na Rue Saint 
Florentin. Baslio abria-a tremendo, enchia um sobrescrito de notas, muitas, que 
cobria de beijos, e o envelope, trazendo a sua salvao e o seu descanso, 
comeava a rolar para baixo, pela Frana e pela Navarra, soprando como um 
monstro e apressando-se como um prprio.
No dia em que a resposta devia chegar, levantou-se mais cedo, agitada, com o 
ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. Via-se j a expulsar 
Juliana, a soluar de alegria!... Mas s dez e meia comeou a estar nervosa; s 
onze chamou Joana, que fosse saber se o carteiro passara.
- Diz que sim, minha senhora, que l passou.
- Canalha! - murmurou, pensando em Baslio.
Talvez, todavia, no tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, mas 
desconsolada, j sem f. Nada! Nem na outra manh, nem nas seguintes! O infame!
Veio-lhe ento a idia de loteria - porque insensivelmente a esperana 
tornara-se-lhe necessria. A primeira vez que saiu comprou umas poucas de 
cautelas. Apesar de no ser religiosa nem supersticiosa, meteu-as debaixo da 
peanha de um So Vicente de Paula que tinha sobre a cmoda, na alcova. No se 
perdia nada. Examinava-as todos os dias, somava os algarismos a ver se davam 
"nove, noves fora, nada", ou um nmero par - que  de bom agouro! E aquele 
contato dirio com a imagem do santo levando-a a pensar decerto na proteo 
inesperada do cu, fez uma promessa de cinqenta missas se as cautelas fossem 
premiadas!...
Saram brancas - e ento desesperou de tudo; abandonou-se a uma inao em que 
sentia quase uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, quase sem se 
vestir, desejando morrer, devorando nos jornais todos os casos de suicdios, de 
falncias, de desgraas - consolando-se com a idia de que nem s ela sofria, e 
que a vida em redor, na cidade, fervilhava de aflies.
s vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se ento de novo a 
abrir-se com Sebastio; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; mas no 
achava as palavras, no conseguia arranjar uma histria racional; vinha-lhe uma 
cobardia; e recaia na sua inrcia, pensando: "amanh, amanh..."
Quando, s, no seu quarto, se chegava por acaso  janela, punha-se a imaginar o 
que diria a vizinhana, quando se soubesse! Conden-la-iam? Lament-la-iam? 
Diriam: - "Que desavergonhada"? Diriam: - "Coitadinha"? E por dentro d vidraa 
seguia, com um olhar quase aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o 
embasbacamento obeso da carvoeira, as Azevedos por trs das bambinelas de cassa! 
Como eles todos gritariam: - "Bem dizamos ns! Bem dizamos ns!" Que desgraa! 
- Ou ento via de repente Jorge, terrvel, fora de si, com as cartas na mo; e 
encolhia-se como se l estivesse sob a clera dos seus punhos fechados.
Mas o que a torturava mais era a tranqilidade de Juliana - espanejando, 
cantarolando, servindo-a ao jantar de avental branco. Que tencionava ela? Que 
preparava ela? As vezes vinha-lhe uma onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, 
decerto atirar-se-lhe-ia ao pescoo, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas 
pobre dela; era "uma mosquinha"!
Justamente, numa dessas manhs, Juliana entrou no quarto - com o vestido preto 
de seda no brao. Estendeu-o na causeuse, e mostrou a Lusa, na saia, ao p do 
ltimo folho, um rasgo largo que parecia feito com um prego; vinha saber se a 
senhora queria que o mandasse  costureira.
Lusa lembrava-se bem; rasgara-o uma manh no Paraso a brincar com Baslio!
- Isto  fcil de arranjar - dizia Juliana, passando de leve a mo espalmada 
sobre a seda, com lentido de uma carcia.
Lusa examinava-o, hesitante:
- Ele tambm j no est novo... Olhe, guarde-o pra voc!
Juliana estremeceu, fez-se vermelha:
- Oh, minha senhora! - exclamou. - Muito agradecida!  um rico presente. Muito 
agradecida, minha senhora! Realmente... - E a voz perturbava-se-lhe.
Tomou-o nos braos, com cuidado, correu logo  cozinha. E Lusa, que a seguira 
p ante p, ouviu-a dizer toda excitada:
-  um rico presente,  o que h de melhor. E novo! Uma rica seda! - Fazia 
arrastar a cauda pelo cho, com um frufru. Sempre o invejara; e tinha-o agora, 
era o seu vestido de seda! -  de muito boa senhora, Sra. Joana,  de um anjo!
Lusa voltou ao quarto, toda alvoroada; era como uma pessoa perdida de noite, 
num descampado - que de repente, ao longe, v reluzir um claro de vidraa! 
Estava salva! Era presente-la, era fart-la! Comeou logo a pensar no que lhe 
podia dar mais, pouco a pouco: o vestido roxo, roupas brancas, o roupo velho, 
uma pulseira!
Da a dois dias - era um domingo - recebeu um telegrama de Jorge:
"Parto amanh do Carregado. Chego pelo comboio do Porto s seis." Que 
sobressalto! Voltava, enfim!
Era nova, era amorosa - e no primeiro momento todos os sustos, as inquietaes 
desapareceram sob uma sensao de amor e de desejo, que a inundou. Viria de 
madrugada, encontr-la-ia deitada - e j pensava na delcia do seu primeiro 
beijo!...
Foi-se ver ao espelho: estava um pouco magra, talvez com a fisionomia um pouco 
fatigada... E a imagem de Jorge aparecia-lhe ento muito nitidamente, mais 
queimada do sol, com os seus olhos ternos, o cabelo to anelado! Que estranha 
coisa! Nunca lhe apetecera tanto v-lo. Foi logo ocupar-se dele; o escritrio 
estaria bem arranjado? Quereria um banho morno; seria necessrio aquecer a gua 
na tina grande!... E ia e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.
Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, f-la estremecer. Que faria ela, a 
mulher? Ao menos que a deixasse naqueles primeiros dias gozar a volta de Jorge, 
tranqilamente!... Veio-lhe uma audcia, chamou-a.
Juliana entrou, com o vestido de seda novo, movendo-se cuidadosamente:
- Quer alguma coisa, minha senhora?
- O Sr. Jorge volta amanh... - disse Lusa.
E suspendeu-se; o corao batia-lhe fortemente.
- Ah! - fez Juliana. - Bem, minha senhora.
E ia sair
- Juliana! - fez Lusa, com a voz alterada.
A outra voltou-se, surpreendida.
E Lusa batendo com as mos, num movimento suplicante:
- Mas voc ao menos nestes primeiros dias... Eu hei de arranjar, esteja cena!...
Juliana acudiu logo:
- Oh, minha senhora! Eu no quero dar desgostos a ningum. O que eu quero  um 
bocadinho de po para a velhice. De minha boca no h de vir mal a ningum. O 
que peo  senhora  que se for da sua vontade e me quiser ir ajudando...
- L isso, sim... O que voc quiser..
- Pois pode, estar certa que esta boca... - E fechou os lbios com os dedos.
Que alegria para Lusa! Tinha uns dias, umas semanas, enfim, sem tormentos, com 
o seu Jorge! Abandonou-se ento toda  deliciosa impacincia de o ver. Era 
singular - mas parecia-lhe que o amava mais!... - E depois pensaria, veria, 
daria outros presentes a Juliana, poderia pouco a pouco preparar Sebastio... 
Quase se sentia feliz.
De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha:
- A Sra. Joana saiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta preciso de 
sair, tambm! Se a senhora lhe no custasse ficar s...
- No! Fico, que tem? V, v!
E, dai a pouco, sentiu-a bater os taces no corredor, fechar com rudo a 
cancela.
Ento de repente uma idia deslumbrou-a, como a fulgurao de um relmpago: - ir 
ao quarto dela, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as cartas!
Viu-a da janela dobrar a esquina. Subiu logo ao sto, devagar, escutando, com o 
corao aos saltos. A porta do quarto de Juliana estava aberta; vinha de l um 
cheiro de mofo, de rato e de roupa enxovalhada que a enjoou; pelo postigo 
entrava uma luz triste, de tarde escura; e por baixo, encostada  parede, ficava 
a arca! Mas estava fechada! Decerto! Desceu correndo, veio buscar o seu molho de 
chaves... Sentiu uma vergonha - mas se achasse as cartas! Aquela esperana 
deu-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcolico. Comeou a experimentar 
as chaves; a mo tremia-lhe; de repente a lingeta, com um estalinho seco,
cedeu! Ergueu a tampa, estavam ali talvez! E ento, com cautela, muito 
femininamente, ps-se a tirar as coisas uma por uma, pondo-as em cima do 
colcho: o vestido de merino; um leque com figuras douradas, embrulhado em papel 
de seda; velhas fitas roxas e azuis, passadas a ferro; uma pregadeira de cetim 
cor-de-rosa, com um corao bordado a matiz; dois frasquinhos de cheiro, 
intactos, tendo colados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; trs 
pares de botinas embrulhadas em jornais; a roupa branca, de onde se exalava um 
cheiro  madeira e de folhas de ma camoesa. Entre duas camisas estava um mao
de cartas atadas com um nastro... Nenhuma era dela! Nem de Baslio! Eram de 
letra de aldeia, ininteligvel e amarelada! Que raiva! E ficou a olhar para a 
arca vazia, de p; com os braos tristemente cados.
Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. um gato 
que, com passos leves, vadiava pelo telhado. - Tornou a repor tudo as mesmas 
dobras, fechou a arca, ia a sair - mas lembrou-se de procurar na gaveta da mesa 
e debaixo do travesseiro. Nada! Impacientou-se ento; no se queria ir sem ter 
gasto toda a esperana; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amolentada 
do enxergo, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! Nada!
Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpresa! Era D. 
Felicidade.
- s tu! Como ests tu? Entra.
Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sara na vspera da Encarnao; 
o p s vezes ainda lhe fazia mal; mas graas a Deus estava escapa! E que lhe 
agradecesse, era a sua primeira visita!
Entraram no quarto. Escurecia. Lusa acendeu as velas.
- E como me achas tu, hem? - perguntou D. Felicidade, pondo-se diante dela.
- Um bocadito mais plida.
Ai! Tinha sofrido muito! Ergueu a saia, mostrou o p calado num sapato largo; 
obrigou Lusa a apalp-lo... Que uma consolao lhe restava:  que toda a Lisboa 
a fora ver! Graas a Deus! Toda a Lisboa; o que h de melhor em Lisboa!
- E tu esta semana - acrescentou - nem apareceste! Pois olha que te cortaram na 
pele...
- No pude, filha. O Jorge chega amanh, sabias?
- Ah, sua brejeira! Viva! Est esse coraozinho aos pulos! - E disse-lhe um 
segredinho.
Riram muito.
- Pois eu - continuou D. Felicidade sentando-se - arranjei-te hoje a partida. 
Encontrei esta manh o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos 
Mrtires! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que sa! E um bocado adiante 
dou com Julio; diz que tambm vinha!... - E com a voz desfalecida:
- Sabes? Tomava uma colherinha de doce...
Foi Lusa que abriu a porta ao Conselheiro e a Julio, que se tinham encontrado 
na escada, dizendo-lhes a rir:
- Hoje sou eu o guarda-porto!
D. Felicidade, na sala, para disfarar a perturbao que lhe deu o espetculo 
amado da pessoa de Accio, comeou, falando muito, a censur-la por deixar assim 
sair no mesmo dia as duas criadas...
- E se te achares incomodada, filha; se te der alguma coisa?
Lusa riu. No era afeta a fanicos...
Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:
- Tem continuado a sofrer dos dentes, D. Lusa?
Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia! - exclamou D. Felicidade. Julio 
declarou que raras vezes vira uma dentio to perfeita.
O Conselheiro apressou-se a citar: - Em lbios de coral, prolas finas..."
E acrescentou:
-  verdade, mas a ltima vez que tive a honra de estar com D. Lusa, viu-se to 
repentinamente aflita com um dente, que teve de ir a correr chumb-lo ao Vitry.
Lusa fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joana; ia 
abrir...
-  verdade - continuou o Conselheiro - tnhamos feito um delicioso passeio, 
quando de repente D. Lusa empalidece, e parece que a dor era to urgente que se 
precipitou para a escada do dentista, como louca...
A propsito de dores, D. Felicidade, que estava ansiosa por interessar, comover 
o Conselheiro, comeou a histria do seu p: disse a queda, o milagre de no ter 
morrido, as visitas assduas de condessas e viscondessas, o susto em toda a 
Encarnao, os cuidados do bom Dr. Caminha...
- Ai! Sofri muito! - suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma 
palavra simptica.
Accio, ento, disse com autoridade:
-  sempre um erro, ao descer uma escada ngreme, no procurar o apoio do 
corrimo.
- Mas podia ter morrido! - exclamou ela. E voltando-se para Julio: - Pois no  
verdade?
- Neste mundo morre-se por qualquer coisa - disse ele enterrado numa poltrona, 
fumando voluptuosamente. Ele mesmo estivera naquela tarde para ser atropelado 
por um trem; destinara o domingo para se dar um feriado, e fizera um grande 
passeio pela circunvalao... - H mais de um ms vivo no meu cubculo, como um 
frade beneditino na livraria do seu convento! - acrescentou, rindo, quebrando 
complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete.
O Conselheiro quis saber ento o assunto da tese: decerto muito momentoso!... E 
apenas Julio lhe disse: Sobre Fisiologia, Sr. Conselheiro", Accio observou 
logo, com uma voz profunda:
- Ah! Fisiologia! Deve ser ento de grande magnitude! E presta-se mais ao estilo 
ameno.
Queixou-se, tambm, de vergar ao peso dos seus trabalhos literrios...
- Esperemos todavia, Sr. Zuzarte, que no sejam infrutferas as nossas viglias!
- As suas, Sr. Conselheiro, as suas! - E com interesse: - Quando nos d o seu 
novo trabalho? H sofreguido em o ver!
- H alguma sofreguido - concordou o Conselheiro com seriedade. H dias me 
dizia o senhor ministro da Justia (esse robustssimo talento), h dias me 
dizia, me fazia a honra de me dizer: D-nos depressa o seu livro, Accio, 
estamos precisados de luz, de muita luz!" Foi assim que ele disse. Eu 
inclinei-me, naturalmente, e respondi: "senhor ministro, no serei eu que a 
negue ao meu pais, quando o meu pas a necessitar!"
- Muito bem, muito bem, Conselheiro!
- E - acrescentou - dir-lhes-ei aqui em famlia, que o nosso ministro do reino 
me deixou entrever num futuro no remoto, a comenda de So Tiago!
- J lha deviam ter dado, Conselheiro! - exclamou Julio, divertindo-se.
- Mas neste desgraado pas... J a devia ter ao peito, Conselheiro!
- H que tempos! - exclamou com fora D. Felicidade.
- Obrigado, obrigado! - balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expanso do seu 
jbilo ofereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rap a Julio.
- Tomarei para espirrar - disse ele.
Sentia-se naquela tarde numa disposio benvola; o trabalho e as altas 
esperanas que ele lhe dava tinham decerto dissipado o seu azedume; parecia at 
ter esquecido a sua humilhao, quando encontrara ali, naquela sala, o primo 
Baslio, porque apenas Lusa entrou, perguntou-lhe por ele.
- Partiu para Paris, no sabiam? H que tempos!
D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Baslio. Tinha ido deixar 
bilhetes de visita a ambos - o que encantara D. Felicidade e ensoberbecera o 
Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo! - exclamava ela. E Accio afirmou com 
autoridade:
-  uma voz de bartono, digna de So Carlos.
- E muito elegante! - disse D. Felicidade.
- Um gentleman! - resumiu o Conselheiro.
Julio, calado, bamboleava a perna. Agora, queles elogios, o seu despeito 
renascia; lembrava a secura cortante de Lusa, naquela manh, as poses do outro. 
No resistiu a dizer:
- Um pouco sobrecarregado nas jias e nos bordados das meias. De resto  moda no 
Brasil, creio...
Lusa corou; teve-lhe dio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de Baslio.
D. Felicidade ento, perguntou por Sebastio: no o via havia um sculo; e 
lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava sade, s v-la.
-  uma grande alma - disse com nfase o Conselheiro. - Todavia censurava-o um 
pouco por no se ocupar, no se tornar til ao seu pas. - Porque enfim - 
declarou - o piano  uma bonita habilidade, mas no d uma posio na sociedade. 
- Citou ento Ernestinho, que, posto que dando-se  arte dramtica, era todavia 
(e a sua voz tornou-se grave), segundo todas as informaes, um excelente 
empregado aduaneiro...
Que fazia ele, Ernestinho? - perguntaram.
Julio tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a Honra e paixo ia da a duas 
semanas; j se estavam a imprimir os cartazes, e na Rua dos Condes j lhe no 
chamavam seno o Dumas filho portugus! E o pobre rapaz cr-se realmente um 
Dumas filho!
- No conheo esse autor - disse com gravidade o Conselheiro - posto que me 
parea, pelo nome, ser filho do escritor que se tornou famoso pelos Trs 
mosqueteiros e outras obras de imaginao!... Mas, de resto, o nosso Ledesma  
um esmerado cultor da arte dos Corneilles! No lhe parece, D. Lusa?
- Sim - disse ela com um sorriso vago.
Parecia preocupada. Fora j duas vezes ao relgio do quarto ver as horas; quase 
dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o ch? Ela mesma foi pr as 
chvenas no tabuleiro, armar o paliteiro. Quando voltou  sala notou um silncio 
enfastiado... - Queriam que fosse tocar? - perguntou. 
Mas D. Felicidade que olhava, ao p de Julio, as gravuras do Dante, ilustrado 
por G. Dor, que ele folheava com o volume sobre os joelhos, exclamou, de 
repente:
- Ai que bonito! Que ? Muito bonito! Viste, Lusa? Lusa aproximou-se.
-  um caso de amor infeliz, senhora D. Felicidade - disse Julio. -  a 
histria triste de Paulo e Francesca de Rimini. - E explicando o desenho: - 
Aquela senhora sentada  Francesca; este moo de guedelha, ajoelhado aos ps 
dela, e que a abraa,  seu cunhado, e, lamento ter de o dizer, seu amante. E 
aquele barbaas que l ao fundo levanta o reposteiro e saca da espada,  o 
marido. que vem, e zs! - E fez o gesto de enterrar o ferro.
- Safa! - fez D. Felicidade, arrepiada. - E aquele livro cado o que ? Estavam 
a ler?... 
Julio disse discretamente:
- Sim... Tinham comeado por ler, mas depois... Quel giorno pi non vi leggemmo 
avante, o que quer dizer: - "E ns no lemos mais em todo o dia!"
- Puseram-se a derriar - disse D. Felicidade com um sorriso.
- Pior, minha rica senhora, pior! Porque segundo a mesma confisso de Francesca, 
este moo, o da guedelha, o cunhado, La boca me bacci tutto tremante, o que 
significa: - "A boca me beijou tremendo todo..."
- Ah! - fez D. Felicidade, com um olhar rpido para o Conselheiro.
-  uma novela?
-  o Dante, D. Felicidade - acudiu com severidade o Conselheiro -, um poema 
pico classificado entre os melhores. Inferior, porm, ao nosso Cames! Mas 
rival do famoso Mlton!
- Que nessas histrias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres! - 
exclamou ela. E voltando-se para o Conselheiro: - Pois no  verdade?
- Sim, D. Felicidade, repetem-se l fora com freqncia essas tragdias 
domsticas. O desenfreamento das paixes  maior. Mas entre ns, digamo-lo com 
orgulho, o lar  muito respeitado. Assim eu, por exemplo, em todas as minhas 
relaes em Lisboa, que so numerosas, graas a Deus, no conheo seno esposas 
modelos. - E com um sorriso corteso: - De que  decerto a flor a dona da casa.
D. Felicidade revirou os olhos para Lusa que estava encostada  cadeira dela, e 
batendo-lhe no brao:
- Isto  uma jia! - disse com amor.
- E de resto - acudiu o Conselheiro - o nosso Jorge merece-o. Porque, como diz o 
poeta:
Seu corao  nobre, e a fronte altiva
Revela-lhe da alma a pura essncia.
Aquela conversao impacientava Lusa. Ia sentar-se ao piano, quando D. 
Felicidade exclamou: - Dize c, ento no se toma hoje ch nesta casa?
Lusa foi outra vez  cozinha. Disse a Joana que viesse ela mesma com o ch. - E 
da a pouco Joana, de avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o 
tabuleiro.
- E a Juliana? - perguntou logo D. Felicidade.
- Saiu, coitada - explicou, Lusa -, tem andado doente...
- E anda-te ento por fora at estas horas?... Boa! At desacredita uma casa...
O Conselheiro tambm achava imprudente:
- Porque enfim as tentaes so grandes numa capital, minha senhora!
Julio exclamou, rindo:
- No, se aquela  tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus 
contemporneos.
- Oh, Sr. Zuzarte! - acudiu o Conselheiro, quase severamente - referia-me a 
outras tentaes: entrar, por exemplo, numa loja de bebidas, apetecer-lhe ir ao 
circo e desleixar os seus deveres...
Mas D. Felicidade no podia sofrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar 
de ser capaz de tudo...
Lusa defendeu-a; era muito servial, muito boa engomadeira, muito honesta...
- E anda-te pela rua at s onze da noite!... Credo! Fosse comigo!
- E creio - observou o Conselheiro - que tem uma doena mortal. No  verdade, 
Sr. Zuzarte?
- Mortal. Um aneurisma - respondeu Julio, sem levantar os olhos.
- Ainda para mais! - exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz: - Tu o que deves 
fazer  descartar-te dela! Uma criada com uma doena dessas! Que at lhe pode 
arrebentar a vir dar um copo de gua  gente. Cruzes!
O Conselheiro apoiava:
- E s vezes, que embaraos com a autoridade!
Julio fechou o Dante, e disse:
- Eu, tem-me esquecido de avisar o Jorge; mas um dia a criatura cai-lhes redonda 
no cho. - E sorveu um gole de ch.
Lusa estava aflita. Parecia-lhe que uma nova complicao se formava para a 
torturar... Ps-se a dizer que era to difcil arranjar criadas...
L isso era, concordaram.
Falaram de criados, das suas exigncias. Estavam cada vez mais atrevidos! E em 
se lhes dando confiana! E que imoralidade!...
- Muitas vezes  culpa das amas - disse D. Felicidade. - Fazem das criadas 
confidentes, e isto, em elas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...
As mos trmulas de Lusa faziam-lhe tilintar a chvena. Disse, com uma vota 
afetadamente risonha:
- E o Conselheiro, que tal de criados?
Accio tossiu:
- Bem. Tenho uma pessoa respeitvel, com bom paladar, muito escrupulosa em 
contas...
- E que no  feia - acudiu Julio. - Assim me pareceu uma vez que fui  Rua do 
Ferregial...
Uma vermelhido espalhara-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o 
ansiosamente, com a pupila chamejante. Accio, ento, disse com severidade:
- Nunca reparo para a fisionomia dos subalternos, Sr. Zuzarte.
Julio ergueu-se e enterrando as mos nos bolsos, jovialmente:
- Foi um grande erro abolir a escravatura!...
- E o princpio da liberdade? - acudiu logo o Conselheiro. - E o Princpio da 
liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade  
um bem maior.
Alargou-se ento em consideraes: fulminou os horrores do trfico, lanou 
suspeitas sobre a filantropia dos ingleses, foi severo com os plantadores da 
Nova Orleans, contou o caso da Charles et Georges: dirigia-se exclusivamente a 
Julio, que fumava, cabisbaixo.
D. Felicidade fora-se sentar ao p de Lusa e muito inquieta, falando-lhe ao 
ouvido:
- Tu conheces a criada do Conselheiro?
- No.
- Ser bonita?
Lusa encolheu os ombros.
- No sei que me diz o corao, Lusa! Estou a abafar!
E enquanto Accio, de p, perorava para Julio, D. Felicidade ia murmurando a 
Lusa as queixas da sua paixo.
Que alvio para Lusa quando eles saram! O que ela sofrera, l por dentro, toda 
aquela noite! Que maadores, que idiotas! - E a outra sem vir! Oh, que vida a 
sua!
Foi  cozinha dizer a Joana:
- Espere pela Juliana, tenha pacincia. Que ela no pode tardar; aquilo a mulher 
achou-se pior!
Mas j passava de meia-noite, j Lusa estava deitada, quando a campainha tocou 
de leve; depois mais forte; enfim, com impacincia.
A rapariga adormeceu, pensou Lusa. Saltou da cama, subiu descala  cozinha. 
Joana, estirada para cima da mesa, ressonava ao p do candeeiro de petrleo, que 
fumegava fetidamente. Sacudiu-a, f-la pr de p, estremunhada; voltou, 
correndo, deitar-se; e sentiu da a pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer 
com satisfao:
- J est tudo acomodado, hem? Pois eu estive no teatro. Muito bonito! Do 
melhor, Sra. Joana, do melhor!
Lusa adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a. - 
Estava num teatro imenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: jias faiscavam 
sobre seios mimosos, condecoraes reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, 
um rei triste e moo, imvel numa atitude rgida e hiertica, sustentava na mo 
a esfera armilar, e o seu manto de veludo escuro, constelado de pedrarias como 
um firmamento, espalhava-se em redor em pregas de escultura, fazendo tropear a 
multido dos cortesos vestidos como valetes de paus.
Ela estava no palco; era atriz; debutava no drama de Ernestinho; e toda nervosa 
via diante de si na vasta platia sussurrante, fileiras de olhos negros e 
acesos, cravados nela com furor; no meio a calva do Conselheiro, de uma 
redondeza nevada e nobre, sobressaia, rodeada como uma flor de um vo amoroso de 
abelhas. No palco oscilava a vasta decorao de uma floresta; ela notava 
sobretudo,  esquerda, um carvalho secular, de uma arrogncia herica -cujo 
tronco tinha vaga configurao de uma fisionomia, e se parecia com Sebastio.
Mas o contra-regra bateu as palmas; era esguio, parecia-se com D. Quixote, 
trazia culos redondos com aros de lata; brandia o Jornal do Comrcio torcido em 
saca-rolhas, e gania: "Salta a cenazinha de amor! Salta-se essa maravilha!" 
Ento a orquestra, onde os olhos dos msicos reluziam como granadas e as suas 
cabeleiras se eriavam como montes de estopa, tocou com uma lentido 
melanclica o fado de Leopoldina; e uma voz spera e canalha cantava em falsete:
Vejo-as nas nuvens da tarde, 
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteja
Sinto-o sempre ao p de mim.
Lusa achava-se nos braos de Baslio que a enlaavam, a queimavam; toda 
desfalecida, sentia-se perder, fundir-se num elemento quente como o sol e doce 
como o mel; gozava prodigiosamente; mas, por entre os seus soluos, sentia-se 
envergonhada, porque Baslio repetia no palco, sem pudor, os delrios libertinos 
do Paraso! Como consentia ela?
O teatro, numa aclamao imensa bradava: "Bravo! Bis! Bis!" Lenos aos milhares 
esvoaavam como borboletas brancas num campo de trevo; os braos nus das 
mulheres lanavam com um gesto ondeado ramos de violetas dobradas; o rei 
erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou como um buqu a sua esfera 
armilar; e o Conselheiro logo, num frenesi, para seguir os exemplos de Sua 
Majestade, desaparafusando rapidamente a calva, atirou-lha, com um berro de dor 
e de glria! O contra-regra gania: - "Agradeam! Agradeam!" Ela curvava-se: os 
seus cabelos de Madalena rojavam pelo tablado; e Baslio, a seu lado, seguia com 
olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a graa de um 
toureiro e a destreza de um clown!
Subitamente, porm, todo o teatro teve um "ah!" de espanto. Fez-se um silncio 
ansioso e trgico; e todos os olhos, milhares de olhos atnitos se fitavam n 
pano de fundo, onde um caramancho arqueava a sua estrutura toda estrelada de 
rosinhas brancas. Ela voltou-se tambm como magnetizada, e viu Jorge, Jorge que 
se adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mo; e a lmina 
reluzia - menos que os olhos dele! Aproximou-se da rampa e curvando-se, disse 
com uma voz graciosa:
- Real Majestade, senhor infante, senhor governador civil, minhas senhoras, e 
meus senhores - agora  comigo! Reparem neste trabalhinho!
Caminhou ento para ela com passos marmreos que faziam oscilar o tablado; 
agarrou-lhe os cabelos, como um molho de erva que se quer arrancar; Curvou-lhe a 
cabea para trs; ergueu de um modo clssico o punhal; fez a pontaria ao seio 
esquerdo; e balanando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o ferro!
- Muito bonito! - disse uma voz. - Rico trabalho!
Era Baslio que fizera entrar nobremente na platia o seu faton! Direito na 
almofada, com o chapu ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com a mo 
negligente a inquietao soberba dos seus cavalos ingleses; e ao seu lado, 
sentado como um trintanrio coberto das suas vestes sacerdotais, vinha o 
patriarca de Jerusalm! - Mas Jorge arrancara o punhal todo escarlate; as gotas 
de sangue corriam at a ponta, coalhavam; caam depois com um som cristalino, 
punham-se a rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ela deitara-se, 
expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastio; ento, como a terra era 
dura, a rvore estendeu por baixo dela as suas razes, macias como coxins de 
penas; como o sol a mordia, a rvore desdobrou sobre ela as suas ramagens, como 
os panos de uma tenda; e das folhas deixava-lhe escorrer sobre os lbios gotas 
de vinho da Madeira! Ela via no entanto com terror o seu sangue sair da ferida, 
vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poas aqui, ribeirinhos tortuosos 
alm. E ouvia a platia berrar:
- O autor! Fora o autor!
Ernestinho, muito frisado, plido, apareceu; agradecia soluando; e, s 
cortesias, saltava aqui, acol - para no sujar no sangue da prima Lusa os seus 
sapatinhos de verniz...
Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente: - Ol, como vai isso? - 
Parecia-lhe de Jorge. De onde vinha? Do cu? Da platia? Do corredor? Um rudo 
forte, como de uma mala que se deixa cair, acordou-a. Sentou-se na cama.
- Bem, deixe a - disse a voz de Jorge.
Saltou em camisa. Ele entrava. E ficaram enlaados, num longo abrao, os beios 
colados, sem uma palavra. O relgio do quarto dava sete horas.
CAPTULO X
Nesse dia pela uma hora Jorge e Lusa acabavam de almoar, como na vspera da 
partida dele. Mas agora no pesava a faiscante inclemncia da calma; as janelas 
estavam abertas ao sol amvel de outubro; j passavam no ar certas frescuras 
outonais; havia uma palidez meiga na luz;  tardinha j sabiam bem os palets; e 
tons amarelados comeavam a envelhecer as verduras.
- Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho! - disse Jorge, estirando-se 
na voltaire.
Estivera contando a Lusa a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha 
ganho dinheiro! Trazia os elementos de um belo relatrio; criara amigos naquela 
boa gente do Alentejo; estavam acabadas as soalherias, as cavalgadas pelos 
montados, os quartos de hospedaria; e ali estava enfim na sua casinha. E como na 
vspera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delcias o 
bigode - porque tinha cortado a barba! Fora a grande admirao de Lusa, quando 
o viu. Ele explicara, com humilhao e melancolia, que tivera um furnculo no 
queixo, com o calor...
- Mas que bem te fica! - tinha ela dito - que bem que te fica!
Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de loua da China, muito antigos, 
com mandarins bojudos, de tnicas esmaltadas, suspensos majestosamente no ar 
azulado; uma preciosidade que descobrira em casa de umas velhas miguelistas, em 
Mrtola. Lusa dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras guarda-loua; e 
em bicos de ps, com a larga cauda do seu roupo estendida por trs, a massa 
loura do cabelo pesado, um pouco desmanchado sobre as costas - parecia a Jorge 
mais esbelta, mais irresistvel, e nunca a sua cinta fina lhe atrara tanto os 
braos.
- A ltima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te?
- Lembro - disse Lusa sem se voltar, colocando muito delicadamente um prato.
- E  verdade - perguntou Jorge de repente - teu primo? Viste-lo? Veio ver-te?
O prato escorregou, houve um tlintlim de copos. 
- Sim, veio - disse Lusa, depois de um silncio - esteve a umas vezes. 
Demorou-se pouco... 
Abaixou-se, abriu o gaveto do guarda-loua, esteve a remexer nas colheres de 
prata; ergueu-se enfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mos:
- Pronto!
E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.
- Como te fica bem! - dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, de um modo 
ardente. Quando se atirara aos seus braos naquela madrugada, sentira como 
abrir-se-lhe o corao, e um amor repentino revolver-lho deliciosamente; 
viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos 
braos at lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensao 
mltipla, de uma doura infinita, que a traspassara at s profundidades do seu 
ser. E passando-lhe um brao pelo pescoo, murmurava com um movimento de uma 
adulao quase lasciva:
- Ests contente? Sentes-te bom? Dize!
Nunca lhe parecera to bonito, to bom; a sua pessoa depois daquela separao 
dava-lhe as admiraes, os enlevos de uma paixo nova.
-  o Sr. Sebastio - veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.
Jorge deu um pulo, afastou Lusa bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando:
- Aos meus braos! Aos meus braos, celerado!
Da a dias, uma manh que Jorge sara para o ministrio, Juliana entrou no 
quarto de Lusa, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amvel:
- Eu desejava falar  senhora numa coisa.
E comeou a dizer - que o seu quarto em cima no sto era pior que uma enxovia; 
que no podia l continuar; o calor, o mau cheiro, os percevejos, a falta de ar, 
e no inverno a umidade, matavam-na! Enfim, desejava mudar para baixo, quarto dos 
bas.
O quarto dos bas tinha uma janela nas traseiras; era alto e espaoso; 
guardavam-se ali os oleados de Jorge, as suas malas, os palets velhos, e 
venerveis bas do tempo da av, de couro vermelho com pregos amarelos.
- Ficava ali como no cu, minha senhora!
- E... aonde se haviam de pr os bas?
- No meu quarto, em cima. E com um risinho: - Os bas no so gente, no 
sofrem...
Lusa disse um pouco embaraada:
- Bem, eu verei; eu falarei ao Sr. Jorge.
- Conto com a senhora.
Mas apenas nessa tarde Lusa explicou a Jorge "a ambio da pobre de Cristo", 
ele deu um salto:
- O qu? Mudar os bas? Est doida!
Lusa ento insistiu: era o sonho da pobre criatura desde que viera para casa! 
Enterneceu-o. No, ele no imaginava; ningum imaginava o que era o quarto da 
pobre mulher! O cheiro empestava; os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro 
estava roto, chovia dentro; fora l h dias, e ia tombando para o lado...
- Santo Deus! Mas isso  o que minha av contava das enxovias de Almeida! 
Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bas no sto.
Quando Juliana soube o favor:
- Ai, minha senhora,  a vida que me d! Deus lho pague! Que eu no tinha sade 
para viver num cacifo daqueles.
Ultimamente queixava-se mais; andava amarela, trazia os beios um pouco 
arroxeados; tinha dias de uma tristeza negra, ou de uma irritabilidade mrbida; 
os ps nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!...
Foi por isso que da a dois dias veio pedir a Lusa, se fazia o favor de ir ao 
quarto dos bas. E l, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso:
- Isto no pode ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira seno, no 
vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro no importunava a senhora, mas...
- Bem, bem, eu arranjarei - disse Lusa com uma voz paciente.
E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manh em que os esteireiros a 
pregavam, Jorge veio perguntar atnito a Lusa o que era aquilo, rolos de 
esteira no corredor?"
Ela ps-se a rir; pousou-lhe as mos sobre os ombros:
- Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava 
podre. At a queria pagar, e que eu lha descontasse nas soldadas. Ora por uma 
ridicularia... - E com um gesto compassivo: - Tambm so criaturas de Deus; no 
so escravas, filho!
- Magnfico! E que no tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudana foi 
essa, tu que a no podias ver?
- Coitada! - fez Lusa - reconheci que era boa mulher. E como estive to s, 
dei-me mais com ela. No tinha com quem falar; fez-me muita companhia. At 
quando estive doente...
- Estiveste doente? - exclamou Jorge espantado.
- Oh! Trs dias, s - acudiu ela - uma constipao. Pois olha que dia e noite 
no se tirou de ao p de mim.
Lusa ficou com receio que Jorge falasse na doena, e Juliana desprevenida 
negasse, por isso, nessa tarde, ao escurecer chamou-a ao quarto:
- Eu disse ao Sr. Jorge que voc me tinha feito muito boa companhia na doena... 
- E o seu rosto abrasava-se de vergonha.
Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:
- Fico entendida, minha senhora! Pode estar sossegada!
Com efeito Jorge, ao outro dia, depois do caf, voltou-se para Juliana, e com 
bondade:
- Parece que voc fez boa companhia  Sra. Lusa.
- Fiz o meu dever - exclamou, curvando-se com a mo no peito.
- Bem, bem - fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sair da sala meteu-na mo meia 
libra.
- Palerma! - rosnou ela.
Foi nessa semana que comeou a queixar-se  Lusa, que a roupa e os vestidos, na 
arca, se lhe amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ela tivesse 
dinheiro, no vinha com aqueles pedidos  senhora, mas... Enfim uma manh 
declarou terminantemente que precisava uma cmoda.
Lusa sentiu uma raiva acender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado
- Uma meia cmoda?
- Se a senhora quer fazer o favor, ento uma cmoda inteira...
- Mas voc tem pouca roupa - disse Lusa. Comeava a instalar-se na humilhao e 
j regateava as condescendncias.
- Tenho, sim, minha senhora - replicou Juliana -, mas vou agora completar-me!
A cmoda foi comprada em segredo, e introduzida ocultamente. Que dia de 
felicidade para Juliana! No se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira 
nova! Passava a mo, com a tremura de uma carcia, sobre o polimento luzidio!... 
Forrou-lhe as gavetas de papel de seda; e comeava a completar-se!
Foram semanas de amargura para Lusa.
Juliana entrava no quarto todas as manhs, muito cumprimenteira, comeava a 
amimar, e de repente com uma voz lamentosa:
- Ai! Estou to falta de camisas! Se a senhora me pudesse ajudar...
Lusa ia s suas gavetas cheias, cheirosas, e comeava melancolicamente a pr  
parte as peas mais usadas. Adorava a sua roupa branca; tinha tudo s dzias, 
com lindas marcas, sachs para perfumar; e aquelas ddivas dilaceravam-se com 
mutilaes! Juliana por fim j pedia com secura, com direito:
- Que bonita que esta camisinha! - dizia simplesmente. - A senhora a quer, no?
- Leve, leve! - dizia Lusa sorrindo, por orgulho, para no se mostrar 
violentada.
E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada 
de alegria, com o candeeiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, desfazendo as 
duas letras de Lusa, marcando regaladamente as suas, a linha vermelha, enormes 
- J C T - Juliana Couceiro Tavira!
Mas enfim cessou, porque, como ela dizia, de roupa branca estava como um ovo.
- Agora, se a senhora me quiser ajudar com alguma coisa para sair...
E Lusa comeou a vesti-la.
Deu-lhe um vestido roxo de seda, um casaco de casimira preta, com bordados a 
sutache. E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as para 
ele as no reconhecer; mandou tingir de castanho o vestido; ela mesma por sua 
mo ps uma guarnio de veludo no casaco. Trabalhava para ela, agora! Como 
acabaria tudo aquilo, Santo Deus?
Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:
- Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.
D. Felicidade,  noite, tambm notou:
- Que chique! Nem uma criada do pao!
- Coitada! Coisas que ela aproveita...
Prosperava, com efeito! No punha na cama seno lenis de linho. Reclamara 
colches novos, um tapete para os ps da cama, felpudo! Os sachs que perfumavam 
a roupa de Lusa iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de 
cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cmoda dois 
vasos da Vista Alegre dourados! Enfim um dia santo, em lugar da cuia de retrs, 
apareceu com um chignon de cabelos!
Joana pasmava daquelas tafularias. Atribua-as  bondade da senhora, e 
ressentia-se de ser "esquecida". Um dia mesmo, que Juliana estreara uma 
sombrinha, disse diante de Lusa, com uma voz de despeito:
- Para umas tudo, para outras nada!...
Lusa riu, acudiu:
- Tolices! Eu sou a mesma pra todas.
Mas refletiu: Joana podia ter desconfianas tambm, ter ouvido alguma coisa a 
Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, deu-lhe dois 
lenos de seda, depois dois mil ris para um vestido; e da por diante nunca lhe 
recusou licena para sair  noitinha  casa de uma tia...
A Joana ia por toda a parte falando da senhora, que era um anjo. Na rua, de 
resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do "quarto novo", dizia-se 
baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com indignao, que ali 
positivamente havia marosca.
Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as 
suspeitas.
- Ora! Dizem que tenho isto e aquilo. No  tanto! Tenho as minhas comodidades. 
Mas tambm a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de noite, sem arredar 
p... Por mais que faam no me pagam, que arruinei a minha sade!
Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a famlia agradecida, 
dizia-se; tratavam-na como parenta!
E, pouco a pouco, a casa do Engenheiro teve para os criados da vizinhana a vaga 
seduo de um paraso; dizia-se que as soldadas eram enormes, havia vinho  
discrio, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites 
caldo de galinha! Cada um invejava aquela "pechincha". Pela inculcadeira, a fama 
da casa do Engenheiro alargou-se. Criou-se uma legenda.
Jorge, atnito, recebia todos os dias cartas de pessoas oferecendo-se para 
criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, 
cocheiros, guarda-portes, ajudantes de cozinha... Citavam as casas titulares de 
que tinham sado; pediam audincia; suspeitando certas coisas uma bonita criada 
de quarto juntou a sua fotografia; um cozinheiro trouxe uma carta de empenho do 
diretor-geral do ministrio.
- Estranho caso! - dizia Jorge, pasmado - disputam-se a honra de me servir! 
Imaginaro que me saiu a sorte grande?
Mas no dava muita ateno quela singularidade. Vivia ento muito ocupado; 
andava escrevendo o seu relatrio; e todos os dias saa ao meio-dia, voltava s 
seis com rolos de papis, mapas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, 
radiante.
Contou o caso, todavia, rindo, um domingo  noite. O Conselheiro observou logo.
- Com o bom gnio de D. Lusa, com o seu, Jorge, neste bairro saudvel, numa 
casa sem escndalos, sem questes de famlia, toda virtude,  natural que a 
criadagem menos favorecida aspire a uma posio to agradvel.
- Somos os amos ideais! - disse Jorge, batendo muito alegre no ombro.
A casa, com efeito, tornava-se agradvel. Juliana exigira que o jantar fosse 
mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira, 
vigiava os foges, provava, ensinava pratos  Joana.
- Esta Joana  uma revelao - dizia Jorge - v-se-lhe crescer o talento.
Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pele, colches 
macios, saboreava a vida; o seu temperamento adoara-se naquelas abundncias; 
depois, bem aconselhada pela tia Vitria, fazia o seu servio com um zelo 
minucioso e hbil. Os vestidos de Lusa andavam cuidados como relquias. Nunca 
os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol de outubro alegrava a 
casa, muito asseada, de uma pacatez de abadia. At o gato engordava.
E no meio daquela prosperidade - Lusa definhava-se. At onde iria a tirania de 
Juliana? Era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por vezes com um 
olhar to intensamente rancoroso, que receava que ela se voltasse subitamente, 
como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, cantarolando a Carta Adorada, 
dormindo em colches to bons como os seus, pavoneando-se na sua roupa, reinando 
na sua casa! Era justo, justos cus?
s vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braos, blasfemava, debatia-se na sua 
desgraa, como nas malhas de uma rede; mas, no encontrando nenhuma soluo, 
recaa numa melancolia spera - em que o seu gnio se pervertia. Seguia com 
satisfao a amarelido crescente das feies de Juliana; tinha esperanas no 
aneurisma: no rebentaria um dia, o demnio?
E diante de Jorge tinha de a elogiar!
A vida pesava-lhe. Apenas ele pela manh saa e fechava a cancela, logo as suas 
tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como grandes vus 
espessos que se abatem lugubremente; no se vestia ento at s quatro, cinco 
horas, e com o roupo solto, em chinelas, despenteada, arrastava o seu 
aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de 
fugir, ir meter-se num convento! A sua sensibilidade muito exaltada impeli-la-ia 
decerto a alguma resoluo melodramtica - se a no retivesse, com a fora de 
uma seduo permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, imensamente! 
Amava-o com cuidados de me, com mpetos de concubina... Tinha cimes de tudo, 
at do ministrio, at do relatrio! Ia interromp-lo a cada momento, tirar-lhe 
a pena da mo, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos dele no corredor 
davam-lhe o alvoroo dos amores ilegtimos...
De resto ela mesma se esforava por desenvolver aquela paixo, achando nela a 
compensao inefvel das suas humilhaes. Como lhe viera aquilo? Porque sempre 
o amara, decerto, reconhecia-o agora - mas no tanto, no to exclusivamente! 
Nem ela sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente naquela violncia 
amorosa pouca dignidade conjugal; suspeitava que o que tinha era apenas um 
capricho. Um capricho por seu marido! No lhe parecia rigorosamente casto... Que 
lhe importava, de resto? Aquilo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que 
fosse, era delicioso!
Ao princpio a idia do outro pairava constantemente sobre esse amor, pondo um 
gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a pouco 
esquecera-o tanto, o outro - que a sua recordao, quando por acaso voltava, no 
dava mais amargor  nova paixo, que um torro de sal pode dar s guas de uma 
torrente. Que feliz que seria - se no fosse a infame!
Era a infame que se sentia feliz! s vezes s no seu quarto, punha-se a olhar em 
redor com um riso de avaro: desdobrava, batia os vestidos de seda; punha as 
botinas em fileira, contemplando-as de longe, exttica; e debruada sobre as 
gavetas abertas da cmoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a com o 
olhar de posse satisfeita. Como a da Piorrinha! - murmurava, afogada em jbilo.
- Ai! Estou muito bem! - dizia ela  tia Vitria.
- Que dvida que ests! A carta no te rendeu um conto de ris, mas olha que te 
trouxe um par de regalos. E  que h de ser uma pingadeira; h de ser a boa pea 
de linho, o bom adereo, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. 
Carda-a; filha, carda-a!
Mas j havia pouco que cardar. E lentamente Juliana comeou a pensar, que agora 
o que devia era gozar. Se tinha bons colches - para que se havia de levantar 
cedo? Se tinha bons vestidos - por que no havia de ir espairecer para a rua? 
Toca a tirar partido!
Uma manh que estava mais frio deixou-se ficar na cama at s nove horas, as 
janelas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou secamente, 
que tinha estado com a dor. Da a dois dias Joana, s dez horas, veio dizer 
baixo a Lusa:
- A Sra. Juliana ainda est na cama; est tudo por arrumar. Lusa ficou 
aterrada. O qu? Teria de sofrer os seus desmazelos, como as suas exigncias?
Foi ao quarto dela:
- Ento voc levanta-se a estas horas?
- Foi o que me recomendou o mdico - replicou muito insolente. 
E da por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao 
almoo. Lusa pediu logo a Joana que fizesse o servio por ela: era por pouco 
tempo; a pobre criatura andava to adoentada! E para acomodar a cozinheira 
deu-lhe meia moeda, para a ajuda de um vestido.
Juliana depois sem pedir licena, comeou a sair. Quando voltava tarde para o 
jantar, no se desculpava.
Um dia Lusa no se conteve; disse-lhe, vendo-a passar no corredor e calar as 
luvas pretas:
- Voc vai sair?
Ela respondeu, muito atrevidamente:
-  como v. Fica tudo arrumado, tudo o que  minha obrigao. E abalou, batendo 
os taces.
Ora, no lhe faltava mais nada seno estar a constranger-se por causa da 
Piorrinha!
Joana comeava a resmungar: "passa a sua vida na rua a Sra. Juliana e eu  que 
agento..."
- Se voc estivesse doente, tambm ningum lhe ia  mo - acudiu Lusa; aflita, 
quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e 
sobremesa.
Havia agora um desperdcio na casa. Os ris cresciam. Lusa andava sucumbida. - 
Como acabaria tudo aquilo?
Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.
Para sair mais cedo fazia apenas o essencial. Era Lusa que acabava de encher os 
jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoo, que levava para o sto 
roupa suja que ficava pelos cantos...
Um dia Jorge que entrara s quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Lusa 
apressou-se a dizer que Juliana sara, mandara-a ela  modista.
Da a dias, eram seis horas, ainda no tinha voltado para servir ao jantar. 
Tinha ido  modista..., explicou Lusa.
- Mas se a Juliana  unicamente para ir  modista, ento toma-se outra criada 
para fazer o servio da casa - disse ele. quelas palavras secas Lusa fez-se 
plida; duas lgrimas rolaram-lhe pela face
Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Lusa no se dominou, rompeu choro 
nervoso, histrico.
- Mas que , minha filha, que tens? Zangaste-te?...
Ela no podia responder, sufocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de toalete, 
beijou-a muito.
S quando o choro acalmou  que ela pde dizer, com voz soluada:
- Falaste-me to secamente, e eu estou to nervosa...
Ele riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lgrimas - mas ficou inquieto.
J ento lhe notara certas tristezas, abatimentos inexplicveis, uma 
irritabilidade nervosa... Que seria?
Para que Jorge no tornasse a surpreender os desleixos, Lusa comeou a 
completar todas as manhs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito 
tranqilamente decidiu-se a deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter. Ora 
no varria, depois no fazia a cama; enfim uma manh no vazou as guas sujas. 
Lusa foi espreitar no corredor que Joana no descesse, no a visse, e fez ela 
mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mos, as lgrimas corriam-lhe pelo 
rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!...
D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surpreendera-a a varrer a sala.
- Que eu o faa - exclamou - que tenho s uma criada, mas tu!...
- A Juliana tinha tanto que engomar...
- Ai! No lhe tires servio do corpo, que no to agradece. E ainda se ri por 
cima! Se a pes em maus costumes!... Que agente, que agente!
Lusa sorriu, disse:
- Ora, por uma vez na vida!
A sua tristeza aumentava cada dia.
Refugiava-se ento no amor de Jorge como na sua nica consolao. A noite 
trazia-lhe a sua desforra; Juliana a essa hora dormia; no via a sua cara 
medonha; no a receava; no tinha de a elogiar; no trabalhava por ela! Era ela 
mesma, era Lusa, como dantes! Estava na sua alcova, com o seu marido, fechada 
por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter at apetite! E trazia com 
efeito s vezes marmelada e po para o quarto - para fazer uma ceiazinha!
Jorge estranhava-a. "Tu de noite s outra", dizia. Chamava-lhe "ave noturna". 
Ela ria em saia branca pelo quarto, com os braos nus, o colo nu, o cabelo num 
rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava - at que Jorge lhe dizia:
- Passa da uma hora, filha!
Despia-se ento rapidamente, caa-lhe nos braos.
Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manh, tudo lhe parecia 
vagamente pardo. A vida sabia-lhe m. Vestia-se devagar, com repugnncia - 
entrando no seu dia como numa priso.
Perdera agora toda a esperana de se libertar! s vezes ainda lhe vinha, como um 
relmpago, a vontade de contar tudo a Sebastio, tudo. Mas quando o via, com o 
seu olhar honesto, abraar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e 
ele to cheio sempre de admirao por ela, parecia-lhe mais fcil sair para a 
rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse - que ir a Sebastio, ao 
ntimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: "Escrevi uma carta a um 
homem, a criada roubou-ma!" No, antes morrer naquela agonia de todos os dias, e 
ter ela mesma, de rastos, de lavar as escadas! As vezes refletia, pensava: - 
"Mas com que conto eu? -" No sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E 
deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha sentindo vagamente,  
distncia, alguma coisa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria!
Por esse tempo Jorge comeou a queixar-se que as suas camisas andavam 
mal-gomadas. A Juliana positivamente "perdia a mo". Um dia mesmo zangou-se; 
chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:
- Isto no se pode vestir, est indecente!
Juliana fez-se amarela; cravou em Lusa um olhar chamejante; mas, com os beios 
trmulos, desculpou-se: a goma era m, fora j troc-la, etc.
Apenas, porm, Jorge saiu, veio como uma rajada ao quarto, fechou a porta e 
ps-se a gritar - que a senhora sujava um ror de roupa, o senhor um ror de 
camisas, que se no tivesse algum que a ajudasse no podia dar aviamento!... 
Quem queria negras trazia-as do Brasil!
- E no estou para aturar o gnio do seu marido, percebe a senhora? Se quer  
arranjar quem me ajude.
Lusa disse simplesmente:
- Eu a ajudarei.
Tinha agora uma resignao muda, sombria, aceitava tudo!
Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa; e Juliana veio dizer que 
se a senhora passasse, ela engomava. Seno, no!
Estava um dia adorvel; Lusa tencionava sair... Ps um roupo, e, sem uma 
palavra, foi buscar o ferro.
Joana ficou atnita.
- Ento a senhora vai engomar?
- H uma carga, e a Juliana s no pode aviar tudo, coitada!
Instalou-se no quarto dos engomados - e estava laboriosamente passando a roupa 
branca de Jorge, quando Juliana apareceu, de chapu.
- Voc vai sair? - exclamou Lusa.
-  o que eu vinha dizer  senhora. No posso deixar de sair. - E abotoava as 
luvas pretas.
- Mas as camisas, quem as engoma?
- Eu vou sair - disse a outra secamente.
- Mas, com os diabos, quem engoma as camisas?
- Engome-as a senhora! Olha a sarna!
- Infame! gritou Lusa. Atirou o ferro para o cho, saiu impetuosamente.
Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluos.
Ps-se logo a tirar o chapu e as luvas, assustada. Da a um momento ouviu a 
cancela da rua bater com fora. Veio ao quarto, viu o roupo de Lusa 
arremessado, a chapeleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se  polcia? 
Procurar o marido? Com os diabos! Fora estpida, com o gnio! Arrumou depressa o 
quarto; foi-se pr a engomar, com o ouvido  escuta, muito arrependida. Onde 
diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impelisse a fazer algum despropsito, 
quem perdia? Ela, que teria de sair da casa, deixar o seu quarto, os seus 
regalos, a sua posio! Safa!
Lusa sara, como louca. Na Rua da Escola um cup passava, vazio: atirou-se para 
dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do 
Porto; queria v-la, precisava dela, sem saber para qu... Para desabafar! 
Pedir-lhe uma idia, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar 
daquela tirania - era agora menor que o desejo de se vingar daquelas 
humilhaes. Vinham-lhe idias insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que 
sentiria um prazer delicioso em a ver torcer-se com vmitos dilacerantes, 
uivando de agonia, largando a alma!
Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do 
puxo da sua mo febril.
A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:
-  a senhora D. Lusa, minha senhora,  a senhora D. Lusa!
E Leopoldina despenteada, com um roupo escarlate de grande cauda, correu 
estendendo os braos:
- s tu! Que milagre  este? Eu levantei-me agora! Entra c para o quarto. Est 
tudo desarranjado, mas no importa. Mas que  isto, que  isto?
Abriu as janelas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de 
toalete; a Justina tirava  pressa uma bacia de lato, com gua ensaboada; 
toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da vspera os rolos 
de cabelos, o colete, uma chvena com um fundo de ch cheio de pontas de 
cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:
- Ora graas a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...
Mas vendo o rosto perturbado de Lusa, os seus olhos vermelhos de lgrimas:
- Que ? Que tens tu? Que sucedeu?
- Um horror, Leopoldina! - exclamou, apertando as mos. A outra foi fechar a 
porta, rapidamente.
- Ento?
Mas Lusa chorava sem responder. Leopoldina olhava-a petrificada.
- A Juliana apanhou-me umas cartas! - disse enfim por entre soluos. - Quer 
seiscentos mil ris! Estou perdida... Tem-me martirizado... Quero que me digas, 
v se te lembras... Estou como doida. Sou eu que fao tudo em casa... Morro, no 
posso! - E as lgrimas redobravam.
- E as tuas jias?
- Valem duzentos mil ris. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?
Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braos:
- Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, d vinte libras!...
Lusa murmurava, limpando os olhos:
- Que expiao esta, Santo Deus, que expiao!
- Que diz a carta?
- Horrores! Estava doida...  uma minha, duas dele.
- De teu primo?
Lusa disse "sim", com a cabea, lentamente.- E ele?
- No sei! Est em Frana, nunca me respondeu.
- Pulha! Como tas apanhou, a mulher?
Lusa contou rapidamente a histria do sarcfago, e do cofre.
- Mas tu tambm, Lusa, atirar uma carta dessas! Oh, mulher, isso  medonho!
E Leopoldina ps-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupo 
escarlate; os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, 
um expediente... Murmurava:
- A questo  de dinheiro...
Lusa, prostrada no sof, repetia:
- A questo  de dinheiro!
Ento Leopoldina, parando bruscamente diante dela:
- Eu sei quem te dava o dinheiro!...
- Quem?
- Um homem.
Lusa ergueu-se, espantada:
- Quem?
- O Castro.
- O de culos?
- O de culos.
Lusa fez-se muito corada:
- Oh, Leopoldina! - murmurou. E depois de um silncio, rapidamente.
- Quem to disse?
- Sei-o eu. Disse-o ele ao Mendona. Sabes que eram unha e carne. Que te dava 
tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lho mais de uma vez.
- Que horror! - exclamou Lusa subitamente indignada. - E tu propes me 
semelhante coisa? - O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de 
clera. Ir com um homem por dinheiro! - Tirou o chapu, violentamente, com as 
mos trmulas; arremessou-o para a jardineira, e com passos rpidos pelo quarto: 
- Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!
- No te exaltes, criatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse' o 
dinheiro, desinteressadamente...
- Acreditas tu?
Leopoldina no respondeu: com a cabea baixa, fazia girar os anis nos dedos.
- E quando fosse outra coisa? - exclamou de repente. - Era um conto de ris, 
eram dois, estavas salva, estavas feliz!
Lusa sacudiu os ombros, indignada daquelas palavras - dos seus prprios 
pensamentos, talvez!
-  indecente!  horrvel! - dizia.
Ficaram caladas.
- Ah! fosse eu!... - disse Leopoldina.
- Que fazias?
- Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!
- Isso s tu! - exclamou Lusa, arrebatadamente.
Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de p-de-arroz.
Mas Lusa atirou-lhe os braos ao pescoo:
- Perdoa-me, perdoa-me! Estou doida, no sei o que digo!...
Comearam ambas a chorar, muito nervosas.
Tu zangaste-te! - dizia Leopoldina cortada de soluos. - Mas  pra teu bem.  o 
que me parece melhor. Se eu pudesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!
E abrindo os braos, indicando o seu corpo com um impudor sublime:
- Seiscentos mil ris! Se eu valesse tanto dinheiro, tinha-o amanh!
Ns de dedos bateram  porta.
- Quem ?
- Eu - disse uma voz rouca.
-  meu marido. O animal ainda hoje no despegou de casa. No posso abrir. Logo.
Lusa limpava os olhos,  pressa, punha o chapu.
- Quando voltas? - perguntou Leopoldina.
- Quando puder, se no escrevo-te.
- Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...
Lusa agarrou-lhe o brao:
- E disto nem palavra.
- Doida!
Saiu. Foi subindo devagar at ao Largo de So Roque. A porta da Igreja da 
Misericrdia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho de armas 
bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo de entrar. No 
sabia para qu; mas parecia-lhe que depois da excitao apaixonada em que 
vibrara, o fresco silncio da igreja a acalmaria. E depois sentia-se to infeliz 
que se lembrou de Deus! Necessitava alguma coisa de superior, de forte a que se 
amparar. Foi-se ajoelhar ao p de um altar, persignou-se, rezou o padre-nosso, 
depois a salve-rainha. Mas aquelas oraes, que ela recitava em pequena, no a 
consolavam; sentia que eram sons inertes que no iam mais alto no caminho do cu 
que a sua mesma respirao; no as compreendia bem, nem se aplicavam ao seu 
caso; Deus, por elas, nunca poderia saber o que ela pedia, ali, prostrada na 
aflio. Quereria falar a Deus, abrir-se toda a Ele; mas com que linguagem? Com 
as palavras triviais, como se falasse a Leopoldina! Iriam as suas confidncias 
to longe que O alcanassem? Estaria Ele to perto que a ouvisse? E ficou 
ajoelhada, os braos moles, as mos cruzadas no regao, olhando as velas de cera 
tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda de um 
Menino Jesus!
Lentamente perdeu-se num cismar que ela no dirigia, que se formava e se movia 
no seu crebro, com a flutuao de um fumo que se eleva. Pensava no tempo to 
distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, freqentava mais as 
igrejas. Ainda a mam vivia ento; e ela com o corao quebrado - quando o 
outro, Baslio, lhe escrevera, rompendo - procurava dissipar a sua tristeza nas 
consolaes da devoo. Uma amiga sua, a Joana Silveira, fora por esse tempo 
professar  Frana; e ela s vezes lembrava-se de partir tambm, ser irm de 
caridade, levantar os feridos nos campos de batalha ou viver na paz de uma cela 
mstica! Que diferente a sua vida teria sido - desta agora to alvoroada de 
clera e to carregada de pecado!... Onde estaria? Longe, nalgum mosteiro 
antigo, entre arvoredos escuros, num vale solitrio e contemplativo; na Esccia, 
talvez, pas que ela sempre amara desde as suas leituras de Walter Scott. Podia 
ser nas verde-negras terras de Lammermoor ou de Glencoe, nalguma velha abadia 
saxnia. Em redor os montes cobertos de abetos, esbatidos nas nvoas, isolam 
aqueles retiros numa paz funerria; num cu saudoso, as nuvens passam devagar, 
com recolhimento; nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das coisas; 
revoadas de corvos cortam  tarde o ar num vo triangular. Ali viveria entre as 
monjas de alta estatura e olhar cltico, filhas de duques normandos ou de lordes 
de cls convertidos a Roma; leria livros doces e cheios das coisas do cu; 
sentada na estreita janela da sua cela, veria passar nas matas baixas os altos 
paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da bagpipe, 
que vai tristemente tocando o pastor que vem dos vales de Calndar; e todo o ar 
estaria cheio do murmrio choroso e gotejante dos fios de gua, que por entre as 
relvas escuras caem de rocha em rocha!
Ou ento seria outra existncia mais regalada, no convento pacato de uma boa 
provncia portuguesa. Ali os tetos so baixos; as paredes caiadas faiscam ao 
sol, com as suas gradezinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, 
nos campos de oliveiras que do azeite para o convento, raparigas varejam a 
azeitona cantando; no ptio lajeado de uma pedra miudinha as mulas do almocreve, 
sacudindo a mosca, batem com a ferradura; matronas cochicham ao p da roda; um 
carro chia na estrada empoeirada e branca; galos cacarejam, brilhando ao sol; e 
freiras gordinhas, de olho negro chalram nos frescos corredores.
Ali viveria, engordando, com uma quebrazinha de sono  hora do coro, bebendo 
copinhos de licor de rosa no quarto da madre-escriv, copiando receitas de doces 
com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as andorinhas cantar  beira da 
sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada nos seus dedos brancos, 
ouviria sorrindo da boca da madre-abadessa a histria edificante da sua santa 
morte
Um sacristo, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de pssaros que 
se calam a um rudo brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se 
devagar, foi indo para casa, triste.
Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz suplicante e baixa:
- A senhora por quem  perdoe, que depois estava doida! Estava com a cabea 
perdida, no tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais aflita...
Lusa no respondeu, entrou na sala. Sebastio, que vinha jantar, tocava a 
serenata de D. Juan - e apenas ela apareceu:
- De onde vem, to plida?
- Debilidade, Sebastio, venho da igreja...
Jorge entrava do escritrio com uns papis na mo:
- Da igreja! - exclamou. - Que horror!
CAPTULO XI
Foi por esse tempo que, num sbado, o Dirio do Governo publicou a nomeao do 
Conselheiro Accio ao grau de Cavaleiro da Ordem de So Tiago, atendendo aos 
seus grandes merecimentos literrios, s obras publicadas de reconhecida 
utilidade, e mais partes...
Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o 
com alarido; o Conselheiro, depois de os abraar um por um, numa presso nervosa 
e comovida, caiu no sof, exausto, e murmurou:
- No o esperava to cedo da real munificincia! No o esperava to cedo! - e 
acrescentou, pondo a mo espalmada sobre o peito: - Direi como o filsofo: "Esta 
condecorao  o melhor dia da minha vida!"
E convidou logo Jorge, Sebastio e Julio para um jantar na quinta-feira, um 
modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugrio, para festejarem a rgia 
graa.
- s cinco e meia, meus bons amigos!
Na quinta-feira, os trs, que se tinham encontrado na Casa Havanesa, eram 
introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfrego, na sala do 
Conselheiro. Um vasto canap de damasco amarelo ocupava a parede do fundo, tendo 
aos ps um tapete onde um chileno roxo caava ao lao um bfalo cor de 
chocolate; por cima uma pintura tratada a tons cor de carne, e cheia de corpos 
nus cobertos de capacetes, representava o valente Aquiles arrastando Heitor em 
torno dos muros de Tria. Um piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de 
baeta verde, enchia o intervalo das duas janelas. Sobre uma mesa de jogo, entre 
dois castiais de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o 
objeto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de msica de dezoito 
peas!
O Conselheiro recebeu-os, com o hbito de So Tiago sobre a lapela do fraque 
preto. Havia outro sujeito na sala, o Sr. Alves Coutinho. Era picado das 
bexigas, tinha a cabea muito enterrada nos ombros; quando o seu olhar parvo se 
fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode pelado arreganhava-se logo por 
hbito, num sorriso alvar que mostrava uma boca medonha cheia de dentes podres; 
falava pouco, esfregava sempre as mos, concordava em tudo; havia nele o ar de 
um deboche banal e de um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministrio 
do Reino, ilustre pela sua boa letra.
Da a pouco entrou a figura conhecida do Saavedra, redator do Sculo. A sua face 
branca parecia mais balofa; o bigode muito preto reluzia de brilhantina; as 
lunetas de ouro acentuavam o seu tom oficial; trazia ainda no queixo o 
p-de-arroz, que lhe pusera momentos antes o barbeiro; e a mo, que escrevia 
tanta banalidade e tanta mentira, vinha aperreada numa luva nova, cor de gema de 
ovo.
- Estamos todos! - disse com jbilo o Conselheiro. E curvando-se: - Bem-vindos, 
meus amigos! Estamos talvez mais  vontade no meu quarto de estudo! Por aqui. H 
um degrau, cuidado! Eis o meu Sancra Sancrorum!
Numa saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de duas janelas 
de peitoril e o papel claro davam um aspecto alvadio, estava a larga 
escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os lpis muito aparados, as 
rguas bem dispostas. Via-se o sinete de armas do Conselheiro, pousado sobre a 
Carta Constitucional ricamente encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a 
carta rgia que o nomeara Conselheiro; defronte uma litografia de El-rei; e 
sobre uma mesa era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhes, 
tendo no alto da cabea uma coroa de perptuas - que ao mesmo tempo o 
glorificava e o chorava.
Julio pusera-se logo a examinar a livraria.
- Prezo-me de ter os autores mais ilustres, amigo Zuzarte! - disse com orgulho o 
Conselheiro.
Mostrou-lhe a Histria do consulado e do imprio, as obras de Delille, o 
Dicionrio da conversao, a ediozinha bojuda da Enciclopdia Roret, o Parnaso 
lusitano. Falou dos seus trabalhos; e acrescentou que, vendo ali reunidas 
pessoas de to subida ilustrao, desejaria muito ler-lhes algumas das provas 
que estava revendo do seu novo livro - Descrio das principais cidades do reino 
e seus estabelecimentos, para ouvir a opinio deles, desassombrada e severa!
- Se no acham maada...
- Prazer, Conselheiro! Prazer!
Escolheu ento, "como mais prpria para dar idia da importncia do trabalho", a 
pgina relativa a Coimbra. Assoou-se, colocou-se no meio da saleta, de p, com 
as folhas na mo, e, com uma voz cheia, gestos pausados, leu:
- ... Reclinada molemente na sua verdejante colina, como odalisca em seus 
aposentos, est a sbia Coimbra, a Lusa Atenas. Beija-lhe os ps, segredando-lhe 
de amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no bem conhecido salgueiral, o 
rouxinol e outras aves canoras soltam seus melanclicos trilos. Quando vos 
aproximais pela estrada de Lisboa, onde outrora uma bem organizada mala-posta 
fazia o servio que o progresso hoje encarregou  fumegante locomotiva, vede-la 
branquejando, coroada do edifcio imponente da Universidade, asilo da sabedoria. 
L campeia a torre com o sino, que em sua folgaz linguagem a mocidade estudiosa 
chama "a cabra". Para alm logo uma copada rvore vos atrai as vistas:  a 
celebrada rvore dos Drias, que dilata seus seculares ramos no jardim de um dos 
membros desta respeitvel famlia. E avistais logo, sentados nos parapeitos da 
antiga ponte, em seus inocentes recreios, os briosos moos, esperana da ptria, 
ou requebrando galanteios com as ternas camponesas que passam reflorindo de 
mocidade e frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais rduos de 
seus bem elaborados compndios...
- Est a sopa na mesa - veio dizer uma criada, de avental branco, muito nutrida.
- Muito bem, Conselheiro, muito bem! - disse logo o Saavedra do Sculo, 
erguendo-se. - E admirvel!
Declarou para os lados com autoridade que o estilo era digno de um Rebelo ou de 
um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em Portugal de uma obra 
daquele quilate... E pensava baixo: "Grandssima cavalgadura!..." O que era a 
sua apreciao genrica de todas as obras contemporneas - excetuando os seus 
artigos no Sculo.
- Que lhe pareceu, meu bom amigo? - perguntou baixo o Conselheiro a Julio, 
passando-lhe a mo sobre o ombro. - Mas uma opinio desafrontada, meu Zuzarte!
- Sr. Conselheiro - disse Julio com uma voz profunda - tenho-lhe inveja! E as 
suas lunetas escuras fixavam-se com uma preocupao crescente num xale-manta 
pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas salincias, altas 
pilhas de livros. Que seria? - Tenho-lhe inveja! - repetiu. - E outra coisa, 
Conselheiro, no se me dava de lavar as mos.
Accio levou-o logo ao seu quarto e retirou-se discretamente. Julio, sempre 
curioso, observou, surpreendido, duas grandes litografias aos lados da cama - um 
Ecce homo! e a Virgem das Sete Dores. O quarto era esteirado, o leito baixo e 
largo. Abriu ento a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca 
e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados 
fechados; e teve a consolao de verificar que havia sobre o travesseiro duas 
fronhazinhas chegadas de um modo conjugal e terno!
Apenas ele saiu do quarto, limpando as unhas com o leno, o Conselheiro 
conduziu-os  sala de jantar, dizendo jovialmente:
- No esperem o festim de Lculo:  apenas o modesto passadio de um humilde 
filsofo!
Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundncia das travessas de doce; havia 
creme crestado a ferro de engomar, um prato de ovos queimados, aletria com as 
iniciais do Conselheiro desenhadas a canela.
-  um grande dia para Sebastio! - disse Jorge.
O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastio, esfregando as mos, com um riso 
na face amarela:
-  c dos meus, hem? Gosta do belo doce! Tambm me pelo, tambm me pelo!...
Houve ento um silncio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito 
quente, agitavam os longos canudos brancos e moles do macarro.
O Conselheiro disse:
- No sei se gostaro da sopa. Eu adoro o macarro!
- Gosta do macarro? - acudiu o Alves.
- Muito, meu Alves. Lembra-me a Itlia! - E acrescentou: - Pas que sempre 
desejei ver. Dizem-me que as suas runas so de primeira ordem. Pode ir trazendo 
o cozido, Sra. Filomena... - Mas detendo-a, com um gesto grave: - Perdo, com 
franqueza, preferem o cozido ou o peixe?  um pargo.
Houve uma hesitao, Jorge disse:
- O cozido talvez.
E o Conselheiro com afeto:
- O nosso Jorge opina pelo cozido.
- Tambm estou pela sua! - exclamou o Alves Coutinho, voltado para Jorge, com o 
olho afogado em reconhecimento: - O cozidinho!
E o Conselheiro que julgava do seu dever dar  conversao nobreza e interesse, 
disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:
- Dizem-me que  muito liberal a Constituio da Itlia!
Liberal! Segundo Julio, se a Itlia fosse liberal devia ter h muito expulso a 
coronhadas o Papa, o Sacro Colgio, e a Sociedade de Jesus!
O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolncia do amigo Zuzarte para o "chefe 
da Igreja".
- No - explicou - que eu seja um secretrio do Syllabus! No que eu queira ver 
os jesutas entronizados no seio da famlia! Mas - e a sua voz tornou-se 
profunda - o respeitvel prisioneiro do Vaticano  o vigrio de Cristo! Meu 
Sebastio, sirva o arroz!
No havia que estranhar aquelas opinies catlicas do Conselheiro, ia observando 
Julio, porque tinha duas imagens de santos pendentes  cabeceira da cama...
A calva de Accio fez-se rubra. O Saavedra do Sculo exclamou com a boca cheia:
- No o sabia carola, Conselheiro!
Accio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu:
- Eu peo ao meu Saavedra que no tire desse fato ilaes erradas. Os meus 
princpios so bem conhecidos. No sou ultramontano, nem fao votos pelo 
restabelecimento da perseguio religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas 
reconheo que a religio  um freio...
- Para os que o precisam... - interrompeu Julio.
Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdito respondeu, devagar, 
dispondo na travessa as rodelas do paio:
- No o precisamos ns decerto, que somos as classes ilustradas. Mas precisa-o a 
massa do povo, Sr. Zuzarte. Seno veramos aumentar a estatstica dos crimes.
E o Saavedra do Sculo, erguendo as sobrancelhas, com a fisionomia muito sria:
- Pois olhe que diz uma grandssima verdade. - Repetiu a mxima, modificando-a: 
- A religio  um brido! - Fazia com o gesto o esforo de conter uma mula. E 
pediu mais arroz. Devorava.
O Conselheiro continuava, explicando:
- Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas litografias ou gravuras, 
alusivas ao mistrio da Paixo, tm o seu lugar num quarto de cama, e inspiram 
de certo modo sentimentos cristos. No  verdade, meu Jorge?
Mas o Saavedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa numa jovialidade 
libertina:
- Eu, num quarto de dormir, as nicas pinturas que admito so uma bela ninfa 
nua, ou uma bacante desenfreada!
- Isso, isso! - bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-lhe numa admirao 
sensual. - Este Saavedra! Este Saavedra! E baixo para Sebastio: - Tem um 
talento! Tem um talento!
O Conselheiro voltou-se para Julio, e puxando o guardanapo para o estmago:
- Espero que no sejam esses os painis imorais que se vem no seu gabinete de 
estudo...
Julio emendou:
- No meu cubculo. Ah! No, Conselheiro! Tenho apenas duas litografias - uma  
um homem sem pele para representar o sistema arterial, o outro  o mesmo 
indivduo igualmente sem pele para se ver o sistema nervoso.
O Conselheiro teve com a sua mo branca um vago gesto enojado, e exprimiu a 
opinio - que na Medicina, alis uma grande cincia!, havia coisas bastante 
asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos teatros anatmicos, os estudantes de 
idias mais avanadas levavam o seu desprezo pela moral at atirarem uns aos 
outros, brincando, pedaos de membros humanos, ps, coxas, narizes...
- Mas  como quem mexe em terra, Conselheiro! - disse Julio, enchendo o copo. - 
 matria inerte!
- E a alma, Sr. Zuzarte? - exclamou o Conselheiro. Fez um gesto de vaga 
reticncia; e julgando t-lo aniquilado com aquela palavra suprema, abriu para 
Sebastio um sorriso corts e protetor: - E que diz o nosso bondoso Sebastio?
- Estou a ouvir, Sr. Conselheiro.
- No d ouvidos a estas doutrinas! - Com o garfo mostrava a figura biliosa de 
Julio. - Mantenha a sua alma pura. So perniciosas. Que o nosso Jorge (o que  
de lamentar num homem estabelecido e empregado do Estado) tambm vai um pouco 
para estas exageraes materialistas!
Jorge riu; afirmou que sim, que tinha essa honra...
- Ento o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de Matemtica, 
acredite que h almas que vivem no cu, com asinhas brancas, tnicas azuis, e 
tocando instrumentos?
O Conselheiro acudiu:
- No, instrumentos no! - E como apelando para todos: - No creio que tivesse 
falado em instrumentos. Os instrumentos so uma exagerao. So, podemos 
diz-lo, tticas do partido reacionrio...
Ia fulminar a doutrina ultramontana - mas a Sra. Filomena colocou-lhe diante a 
travessa com a perna de vitela assada. Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o 
trinchador com solenidade, foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida 
como na aplicao de uma funo grave. Ento Julio, pousando os cotovelos sobre 
a mesa e escabichando os dentes com a unha, perguntou:
- E o ministrio, cai ou no cai?
Sebastio ouvira dizer no vapor de Almada, de tarde, que a situao estava 
firme.
Mas o Saavedra esvaziou o copo, limpou os beios e declarou que em duas semanas 
estavam em terra. Nem aquele escndalo podia continuar! No tinham a mais 
pequena idia de governo. Nem a mais leve! Assim, por exemplo, ele... - E meteu 
as mos nos bolsos, firmando-se nas costas da cadeira. - Ele tinha-os apoiado, 
no  verdade? E com lealdade. Porque era leal! Sempre o fora em poltica! Pois 
bem, no lhe tinham despachado o primo recebedor de Aljustrel, tendo-lho 
prometido! E nem lhe tinham dado uma satisfao. Assim no era possvel fazer 
poltica! Era uma coleo de idiotas!
Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua comisso 
no ministrio; e ele o que queria era estar quieto ao seu cantinho...
O Alves Coutinho calava-se, com prudncia, engolindo buchas de po.
- Ou que caiam ou que fiquem - disse Julio -, que venham estes ou que venham 
aqueles... Obrigado, Conselheiro - e recebeu o seu prato de vitela - ... -me 
inteiramente indiferente.  tudo a mesma podrido! - O pas inspirava-lhe nojo; 
de cima a baixo era uma choldra; e esperava breve que, pela lgica das coisas, 
uma revoluo varresse a porcaria...
- Uma revoluo! - fez o Alves Coutinho assustado, com olhares inquietos para os 
lados, coando nervosamente o queixo.
O Conselheiro sentara-se e disse, ento:
- Eu no quero entrar em discusses polticas, s servem para dividir as 
famlias mais unidas, mas s lhe lembrarei, Sr. Zuzarte, uma coisa, os excessos 
da Comuna...
Julio recostou-se, e com uma voz muito tranqila:
- Mas onde est o mal, Sr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns banqueiros, alguns 
padres, alguns proprietrios obesos e alguns marqueses caquticos! Era uma 
limpezazinha!... - E fazia o gesto de afiar a faca.
O Conselheiro sorriu, cortesmente; tomava como um gracejo aquela sada 
sanguinria.
O Saavedra, porm, interps-se, com autoridade:
- Eu no fundo sou republicano...
- E eu - disse Jorge.
- E eu - fez o Alves Coutinho, j inquieto. - Contem-me a mim tambm!
- Mas - continuou o Saavedra - sou-o em princpio. Porque o princpio  belo, o 
princpio  ideal! Mas a prtica? Sim, a prtica? - E voltava para todos os 
lados a sua face balofa.
- Sim, na prtica! - exclamava o Alves Coutinho, em eco admirativo.
- A prtica  impossvel! - declarou o Saavedra. E encheu a boca de vitela.
O Conselheiro ento resumiu:
- A verdade  esta: o pais est sinceramente abraado  famlia real... No 
acha, meu bom Sebastio? - Dirigia-se a ele como proprietrio e possuidor de 
inscries.
Sebastio, interpelado, corou, declarou que no entendia nada de poltica; havia 
todavia fatos que o afligiam; parecia-lhe que os operrios eram malpagos; a 
misria crescia; os cigarreiros, por exemplo, tinham apenas de nove a onze 
vintns por dia, e, com famlia, era triste...
-  uma infmia! - disse Julio encolhendo os ombros.
- E h poucas escolas... - observou timidamente Sebastio.
-  uma torpeza! - insistiu Julio.
O Saavedra calava-se, ocupado com o alimento; tinha desabotoado a fivela do 
colete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma cor de enfartao, e sorria 
vagamente, inchado.
- E os idiotas de So Bento?... - exclamou Julio.
Mas o Conselheiro interrompeu-o:
- Meus bons amigos, falemos de outra coisa.  mais digno de portugueses e de 
sditos fiis.
E voltando-se logo para Jorge, quis saber como ficara a interessante D. Lusa.
Estava um pouco adoentada havia dias - disse Jorge. - Mas no era nada, mudana 
de estao, um bocadito de anemia...
O Saavedra, pousando o copo, e cumprimentando:
- Tive o prazer de a ver passar este vero quase todas as manhs por minha casa 
- disse. - Ia para os lados de Arroios. s vezes de trem, s vezes a p...
Jorge pareceu um pouco surpreendido; mas o Conselheiro ia dizendo quanto lhe 
pesava no ter o prazer de a ver partilhar daquele modesto repasto; como 
celibatrio porm... no tendo uma esposa para fazer as honras...
- E  o que eu admiro, Conselheiro - observou Julio -,  que tendo uma casa to 
confortvel, no se tenha casado, no se tenha dado o conchego de uma senhora...
Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.
- So graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades de um 
chefe de famlia - considerou ele.
Mas enfim - disseram,  o estado mais natural. E depois, que diabo, s vezes 
havia de se sentir s! E numa doena! Sem contar a alegria que do os filhos!...
O Conselheiro objetou: "os anos, as neves da fronte..."
Tambm ningum lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze anos! No, 
era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que tivesse atrativos, cuidados 
de interior... Era mesmo moral.
- Porque enfim, Conselheiro, a natureza  a natureza... - disse Julio com 
malcia.
- H muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixes.
Ora qual! Era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! Era impossvel que o 
Conselheiro, apesar dos seus cinqenta e cinco, fosse indiferente a uns belos 
olhos pretos, a umas formazinhas redondas!...
O Conselheiro corava. E o Saavedra declarou, com um circunlquio pudico - que 
nenhuma idade se eximia  influncia de Vnus. Toda a questo  nos gostos - 
disse -, aos quinze anos gosta-se de uma matrona cheia, aos cinqenta de um 
frutozinho tenro... Pois no  verdade, amigo Alves?
O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lngua.
E o Saavedra continuou:
- Eu, a minha primeira paixo foi uma vizinha; mulher de um capito de navios, 
me de seis filhos, e que no cabia por aquela porta. Pois senhores, fiz-lhe 
versos, e a excelente criatura ensinou-me um par de coisas agradveis... Deve-se 
comear cedo, no  verdade? - E voltou-se para Sebastio.
Quiseram ento saber as opinies de Sebastio - que se fez escarlate.
Por fim, muito solicitado, disse com timidez:
- Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estim-la toda a vida...
Aquelas palavras simples produziram um curto silncio. Mas o Saavedra, 
reclinando-se, classificou uma tal opinio de burguesa; o casamento era um 
fardo; no havia nada como a variedade...
E Julio exps dogmaticamente:
- O casamento  uma frmula administrativa, que h de um dia acabar...
- De resto, segundo ele, a fmea era um ente subalterno; o homem deveria 
aproximar-se dela em certas pocas do ano (como fazem os animais, que 
compreendem estas coisas melhor que ns), fecund-la, e afastar-se com tdio.
Aquela opinio escandalizou a todos, sobretudo o Conselheiro, que a achou "de um 
materialismo repugnante".
- Essas fmeas para quem  to severo, Sr. Zuzarte - exclamava ele - essas 
fmeas so nossas mes, nossas carinhosas irms, a esposa do chefe de Estado, as 
damas ilustres da nobreza...
- So o melhor bocadinho deste vale de lgrimas - interrompeu com fatuidade o 
Saavedra, dando palmadinhas sobre o estmago. Dissertou ento sobre as mulheres. 
O que sobretudo lhes exigia era um bonito p; no havia nada como um pezinho 
catita! E a todas preferia a mulher espanhola!
O Alves votava pelas francesas; citava algumas do caf-concerto, criaturas de 
fazer perder a cabea!... - E injetavam-se-lhe os olhos.
O Saavedra disse com um trejeito hostil:
- Sim, para um bocado de canc... Para o canc no h como as francesas... Mas 
muito chupistas!
O Conselheiro afirmou ajeitando as lunetas:
- Viajantes instrudos tm-me afianado que as inglesas so notveis mes de 
famlia...
- Mas frias como esta madeira - disse o Saavedra batendo na mesa. - Mulheres de 
gelo! - E reclamava espanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olhar 
brilhante do vinho; a comida acendia-lhe o sentimento.
- Uma bela gaditana, hem, amigo Alves?
Mas em presena dos doces que a Sra. Filomena disps sobre a mesa, o Alves 
Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastio, discutia gulodices. 
Indicava as especialidades: para os folhados, o Coc! Para as natas, o 
Baltresqui! Para as gelatinas, o Largo de So Domingos! Dava receitas; contava 
proezas de lambarice, revirando os olhos:
- Porque - dizia - o docinho e a mulherzinha  o que me toca c por dentro a 
alma!
Era todo o tempo que no dedicava ao servio do Estado, dividia-o, com 
solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.
Saavedra e Julio discutiam a imprensa. O redator do Sculo gabava a profisso 
de jornalista - quando a gente, j se sabe, tem alguma coisa de seu; mais tarde 
ou mais cedo apanhava-se um nicho, no  verdade? Depois as entradas nos 
teatros, a influncia nas cantoras. Sempre se  um bocado temido... E o 
Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivncia, 
dizia a Jorge:
- Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, de 
reconhecida ilustrao, discutir as questes mais importantes, e ver travada uma 
conversao erudita?... Parecem excelentes os ovos.
A Sra. Filomena, ento, com solenidade, veio colocar-lhe ao p uma garrafa de 
champanhe
O Saavedra pediu logo para abrir, porque o fazia com muito chique. E nas a rolha 
saltou, e, no silncio que criou a cerimnia, se encheram os copos,
O Saavedra, que ficara de p, disse:
- Conselheiro!
Accio curvou-se, plido.
- Conselheiro,  com o maior prazer que bebo, que todos bebemos,  sade de um 
homem, que - e arremessando o brao, deu um puxo ao punho da camisa com 
eloqncia -, pela sua respeitabilidade, a sua posio, os seus vastos 
conhecimentos,  um dos vultos deste pas.  sua sade, Conselheiro!
- Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!
Beberam com rudo. Accio depois de limpar os beios, passou a mo trmula pela 
calva, levantou-se comovido, e comeou:
- Meus bons amigos! Eu no me preparei para esta circunstncia. Se a soubesse de 
antemo, teria tomado algumas notas. No tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos 
Garretts. E sinto que as lgrimas me vo embargar a voz...
Falou ento de si, com modstia: reconhecia, quando via na capital to ilustres 
parlamentares, oradores to sublimes, to consumados estilistas; reconhecia que 
era um zero! - E com a mo erguida formava no ar, pela juno do polegar e do 
indicador, um 0: um zero! Proclamou o seu amor  ptria: que amanh as 
instituies ou a famlia real precisassem dele - e o seu corpo, a sua
pena, o seu modesto peclio, tudo oferecia de bom grado! Queria derramar todo o 
seu sangue pelo trono! - E, prolixo, citou o Euriko, as instituies da Blgica, 
Bocage e passagens dos seus prlogos. Honrou-se de pertencer  Sociedade 
Primeiro de Dezembro... - Nesse dia memorvel - exclamou -, eu mesmo as minhas 
janelas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma 
sincera! 
E terminou dizendo: - No esqueamos, meus amigos, como portugueses, de fazer 
votos pelo ilustrado monarca, que deu s neves da minha fronte, antes de 
descerem ao tmulo, a consolao de se poderem revestir com o honroso hbito de 
So Tiago! Meus amigos,  famlia real! - e ergueu o copo -  famlia modelo, 
que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa 
poltica, dirige... - Procurou o fecho; havia um silncio ansioso - dirige... - 
Atravs das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se,  busca da inspirao, na 
travessa da aletria - dirige... - Coou a calva, aflito; mas um sorriso 
clareou-lhe o aspecto, encontrara a frase; e estendendo o brao - ... dirige a 
barca da governao pblica com inveja das naes vizinhas! A famlia real!
-  famlia real! - disseram com respeito.
O caf foi servido na sala. As velas de estearina punham uma luz triste naquela 
habitao fria; o Conselheiro foi dar corda  caixa de msica; e, ao som do coro 
nupcial da Lucia, ofereceu em redor charutos.
- E a Sra. Adelaide pode trazer os licores - disse  Filomena.
Viram ento aparecer uma bela mulher de trinta anos, muito branca, de olhos 
negros e formas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo numa bandeja de 
prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa de conhaque e o frasco de curaau.
- Boa moa! - rosnou com o rosto aceso o Alves Coutinho.
Julio quase lhe tapou a boca com a mo. E falando-lhe ao ouvido, olhando o 
Conselheiro, recitou:
- No ouses, temerrio, erguer teus olhos 
Para a mulher de Csar!
E enquanto se bebia o curaau, Julio p ante p dirigiu-se ao escritrio, e foi 
erguer a ponta do xale-manta pardo que tanto o preocupava; eram rumas de livros 
brochados, atadas com guitas - as obras do Conselheiro intactas!
Quando Jorge entrou, s onze horas, Lusa j deitada lia, esperando-o.
Quis saber do jantar do Conselheiro.
Excelente, contou Jorge, comeando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha 
havido speechs... E de repente:
-  verdade, onde ias tu a Arroios?
Lusa passou devagar as mos sobre o rosto para lhe cobrir a alterao. Disse, 
bocejando ligeiramente:
- A Arroios?
- Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via 
passar todos os dias para l, de trem e a p.
- Ah! - fez Lusa depois de tossir - ia ver a Guedes, uma rapariga que andou 
comigo no colgio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!
- Slva Guedes!... - disse Jorge refletindo. - Imaginei que estava 
secretrio-geral em Cabo Verde!
- No sei. Estiveram a um ms no vero. Moravam a Arroios. Ela estava doente 
coitada: eu ia l s vezes. Mandava-me pedir para ir l. Pe essa luz fora, 
est-me a fazer impresso.
Queixou-se ento que toda a tarde estivera esquisita. Sentia-se fraca, e com uma 
pontinha de febre...
E nos dias seguintes no se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente de peso na 
cabea, mal-estar... Uma manh mesmo ficou de cama. Jorge no saiu, inquieto, 
querendo j mandar chamar Julio. Mas Lusa insistiu que no era nada, um 
bocadito de fraqueza talvez... Foi tambm a opinio de Juliana, em cima na 
cozinha.
- Que aquela senhora  fraca; ali h coisa do peito - disse com importncia.
Joana que estava debruada sobre o fogo, acudiu logo:
- O que ela ,  uma santa!...
Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:
- A Sra. Joana diz isso como se as outras fossem uma peste.
- Que outras?
- Eu, vossemec, a mais gente...
Joana sempre remexendo nas panelas sem se voltar:
- Olhe, outra no encontra vossemec, Sra. Juliana! Uma senhora que lhe fazer 
tudo o que quer, e faz ela mesma o servio! Noutro dia andava a despejar as 
guas. E uma santa!
Aquele tom hostil de Joana exasperou-a; mas conteve-se; apesar da sua posio na 
casa, dependia dela para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante dela 
a vaga timidez respeitosa das constituies franzinas pelos corpos possantes; 
ps-se a dizer com uma voz tortuosa, ambgua:
- Ora! So gnios! Gosta de arrumar. Ah, l isso deve-se dizer,  senhora de 
muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. s vezes basta-lhe ver um bocadinho 
de p, agarra logo no espanador...  gnio. Tenho visto outras assim... E punha 
a cabea de lado franzindo os beios.
- O que ela ,  uma santa - repetiu Joana.
-  gnio! Est sempre numa labutao. Eu nunca saio sem deixar tudo
brinco. Pois senhores, nunca est satisfeita. At noutro dia, l embaixo a
passar a roupa... Eu ia a sair, pois tirei logo o chapu, e no consenti... 
Olhe, quer diga? Falta de cuidados, no ter filhos... Que ela no lhe falta 
nada...
Calou-se, remirou o p, e com satisfao:
- Nem a mim - disse reclinando-se na cadeira. Joana ps-se a cantarolar. No 
queria questes. Mas ultimamente achava tudo aquilo muito fora dos eixos, a 
Juliana sempre na rua, ou metida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, 
deixando tudo ao deus-dar, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emagrecer! 
No, ali havia coisa! Mas o seu Pedro que ela consultara, disse-lhe com finura, 
retorcendo o buo: - Elas l se entendem! Trata tu de gozar, e no te importes 
com a vida dos outros. A casa  boa, toca a tirar partido!
Mas Joana sentia "l por dentro" a crescer-lhe uma embirrao pela Sra Juliana. 
Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas todo o 
dia, pelos modos de madama; no se recusava a fazer-lhe o servio, porque isso 
lhe rendia presentinhos da senhora; mas qu, tinha-lhe birra! O que a consolava 
era a idia de que um piparote desfazia aquela magricela! E ia tirando partido 
da casa tambm. O Pedro tinha razo...
Juliana com efeito, agora, no se constrangia. Depois da cena da roupa 
assustara-se, porque, enfim, o escndalo podia-lhe fazer perder a posio; 
durante alguns dias no saiu, foi cuidadosa; mas quando viu Lusa resignar-se, 
abandonou-se logo, quase com fervor, s satisfaes da preguia e s 
alegriazinhas da vizinhana. Passeava, costurava fechada no seu quarto, e a 
Piorrinha que se arranjasse! Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas 
apenas ele saa! Que desforra! s vezes estava varrendo ou arrumando - e, mal o 
sentia fechar a cancela, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a panriar. L 
estava a Piorrinha, para acabar!
Lusa, no entanto, passava pior: tinha de repente, sem razo, febres efmeras; 
emagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge.
Ela explicava tudo pelo nervoso.
- Que ser, Sebastio? - era a pergunta incessante de Jorge. E lembrava-se com 
terror que a me de Lusa morrera de uma doena de corao!
Na rua, pela cozinheira, pela tia Joana, sabia-se que a do Engenheiro ia mal. A 
tia Joana jurava que era a solitria. Porque enfim, uma pessoa a quem no 
faltava nada, com um marido que era um anjo, uma boa casa, todos os seus cmodos 
- e a esmorecer, a esmorecer... Era a bicha! No podia ser seno a bicha! E 
todos os dias lembrava a Sebastio que se devia mandar chamar o homem de Vila 
Nova de Famalico, que tinha o remdio para a bicha.
O Paula explicava de outro modo:
- Ali anda coisa de cabea - dizia, franzindo a testa, com o ar profundo.
- Sabe o que ela tem, Sra. Helena?  muita dose de novelas naquela cachimnia. 
Eu vejo-a de pela manh at  noite de livro na mo. Pe-se a ler romances e 
mais romances... A tm o resultado: arrasada!
Um dia Lusa de repente, sem razo, desmaiou; e quando voltou a si ficou muito 
fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo buscar Julio; 
encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o dia seguinte, e sentia 
clicas.
Durante todo o caminho no deixou de falar excitadamente da sua tese, do 
escndalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem injustos - 
arrependido agora de no ter metido mais cunhas!
Depois de ter examinado Lusa veio dizer, furioso, a Jorge:
- No tem nada! E vais-me buscar para isto! Tem anemia, o que todos temos. Que 
passeie, que se distraia. Distraes e ferro, muito ferro... E gua fria, fria 
pra cima daquela espinha!
Como eram cinco horas convidou-se para jantar, deblaterando toda a tarde contra 
o pas, amaldioando a carreira mdica, injuriando o seu concorrente e fumando 
com desespero os charutos de Jorge.
Lusa tomava o ferro, mas recusava as distraes; fatigava-a vestir-se, 
aborrecia-lhe ir ao teatro... Depois, logo que viu Jorge preocupar-se do seu 
estado, quis
afetar fora, alegria, bom humor; e aquele esforo abatia-a, 
extraordinariamente.
- Vamos para o campo, queres tu? - dizia-lhe Jorge desolado vendo-a esmorecida.
Ela, receando complicaes possveis, no aceitava; no se sentia bastante 
forte, dizia: onde estava mais confortvel que em casa? Depois as despesas, os 
incmodos.
Uma manh, que Jorge voltara a casa inesperadamente, encontrou-a em de chambre, 
com um leno amarrado na cabea, varrendo lugubremente. Ficou  porta, atnito:
- Que andas tu a fazer? Andas a varrer? Ela corou muito, atirou logo a vassoura, 
veio abra-lo.
- No tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava aborrecida, ~ disso 
faz-me bem,  um exerccio.
Jorge,  noite, contou a Sebastio aquela "tolice de se andar a esfalfar..."
- Uma pessoa que est to fraca, minha senhora... - observou repreensivamente 
Sebastio.
- Mas no!" dizia ela, achava-se bem melhor! At agora andava muito melhor...
Todavia, quase no falou nessa noite, curvada sobre o seu croch, um pouco 
plida: e os seus olhos s vezes erguiam-se com uma fadiga triste, sorrindo 
silenciosamente, de um modo desconsolado.
Pediu a Sebastio que tocasse alguma coisa do Rquiem de Mozart. Achava to 
lindo! Gostava que lho cantassem na igreja quando ela morresse...
Jorge zangou-se. Que mania de falar em coisas ridculas!
- Mas ento, no  possvel que eu morra?...
Pois bem, morre e deixa-nos em paz! - exclamou ele furioso.
- Que bom marido! - dizia ela sorrindo a Sebastio. Deixou cair o Croch no 
regao, pediu-lhe ento os dezesseis compassos da Africana. Escutava, com a 
cabea apoiada  mo; aqueles sons entravam-lhe na alma com a doura de vozes 
msticas que a chamavam; parecia-lhe que ia levada por elas, se rendia de tudo o 
que era terrestre e agitado, se achava numa praia deserta, junto ao mar triste, 
sob um frio luar - e ali, puro esprito, livre das misrias carnais, rolava nas 
ondulaes do ar, tremia nos raios luminosos, passava sobre os urzes nos sopros 
salgados...
A melanclica atitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge:
-  Sebastio, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba-Azul, o Pirolito, o 
diabo? Seno, se querem melancolia, eu comeo com o cantocho!
E cantou, com um tom fnebre:
- Dies irae, dies illae,
Solvunt saecula in favilia!..
Lusa riu-se:
- Que doido! Nem pode a gente estar triste...
- Pode! - exclamou Jorge. - Mas ento venha a bela tristeza, venha a tristeza 
completa. - E com uma voz medonha entoou o Bendito!
- Os vizinhos ho de dizer que estamos doidos, Jorge... - acudiu ela.
-  justamente o que ns estamos! - E entrou no escritrio, atirando com a 
porta.
Sebastio bateu alguns compassos, e voltando-se para ela, baixo:
- Ento que idias so essas? Que melancolia  essa?
Lusa ergueu os olhos para ele; viu a sua face boa e amiga, cheia de simpatia; 
ia talvez dizer-lhe tudo numa exploso de dor, mas Jorge saa do escritrio. 
Sorriu, encolheu os ombros, retomou devagar o seu croch.
No domingo seguinte,  noite, conversava-se na sala. Julio contara o seu 
concurso. Em resumo, estava contente: tinha falado duas horas bem, com preciso, 
com lucidez.
O Dr. Figueiredo dissera-lhe que devia ter amenizado um bocado mais...
- Literatos! - fazia Julio encolhendo os ombros com desprezo. - No podem falar 
cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as "flores da primavera" e 
"o facho da civilizao"!
- O portugus tem a mania da retrica... - disse Jorge.
Neste momento Juliana entrou na sala, com uma carta.
- Oh!  do Conselheiro!
Ficaram inquietos. Mas Accio apenas se desculpava de no poder vir, como 
prometera na vspera, partilhar do excelente ch de D. Lusa. Um trabalho 
urgente retinha-o  banca do dever. Pedia lembranas aos nossos Sebastio e 
Julio, e afetuosos respeitos  interessante D. Felicidade.
Uma onda de sangue abrasou o rosto da excelente senhora. Ficou a arfar, toda 
alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado com um dedo a Prola 
de Ofir; e enfim, no se dominando, pediu baixo a Lusa que fossem para o 
quarto, tinha um segredo... Apenas entraram, fechando a porta da sla:
- Que me dizes  carta dele?
- Os meus parabns - disse Lusa rindo.
-  o milagre! exclamou D. Felicidade - j  o milagre a fazer-se! - E mais 
baixo: - Mandei o homem! O que eu te disse, o galego! 
Lusa no compreendia.
- O homem a Tui,  mulher de virtude! Levou o meu retrato e o dele. Partiu h 
uma semana; a mulher naturalmente j comeou a enterrar-lhe as agulhas no 
corao...
- Que agulhas? - perguntou Lusa atnita.
Estavam de p, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz misteriosa:
- A mulher faz um corao de cera, cola-o ao retrato do Conselheiro, e durante 
uma semana  meia-noite crava-lhe uma agulha benta com o preparo que ela tem, e 
faz as oraes...
- E deste o dinheiro ao homem?
- Oito moedas.
- Oh, D. Felicidade!
- Ai! No me digas! Que j vs! Que mudanas!. Daqui a uns dias, baba-se! Ai! 
Nossa Senhora da Alegria o permita! Nossa Senhora o permita! Que aquele
homem traz-me doida. De noite,  cada sonho! At ando em pecado mortal! E so 
suores! Mudo de camisa trs e quatro vezes!
E ia-se olhando ao espelho; queria convencer-se que as belezas da sua pessoa 
ajudariam as agulhas da bruxa; alisou o cabelo.
- No me achas mais magra?
- No.
- Ai estou, filha, estou! - E mostrou o corpete lasso.
J fazia planos. Iria passar a lua-de-mel a Sintra... Os olhos afogavam-se-lhe 
num fluido lbrico.
- Nossa Senhora da Alegria o permita! Tenho-lhe duas velas acesas, de dia e de 
noite...
Mas de repente a voz aflita de Joana bradou da escada da cozinha:
- Minha senhora! Minha senhora, acuda!
Lusa correu, Jorge tambm, que ouvira na sala o grito. Juliana estava
estendida no soalho da cozinha, desmaiada.
- Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente! - exclamava Joana, muito branca, a 
tremer. - Tombou pro lado de repente...
Julio tranqilizou-os logo; era uma sncope, simples. Transportaram-na para a 
cama. Julio fez-lhe esfregar violentamente com uma flanela quente as 
extremidades - e, mesmo antes que Joana atarantada, em cabelo, corresse  botica 
por um antiespasmdico, Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram , 
sala, Julio disse, enrolando o cigarro:
- No vale nada. So muito freqentes estas sincopes, nas doenas de corao. 
Esta  simples. Mas  o diabo, s vezes tm um carter apopltico e vem a 
paralisia; pouco duradoura, sim, porque a efuso de sangue no crebro  muito 
pequena, mas enfim, sempre desagradvel. - E acendendo o cigarro: - Essa mulher 
um dia morre-lhes em casa.
Jorge, preocupado, passeava pela sala com as mos nos bolsos.
- Sempre o tenho dito - acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.
- Sempre o tenho dito. E desfazerem-se dela.
- Alm disso o tratamento  incompatvel com o servio - disse Julio.
- Enfim, mesmo a engomar roupa se pode tomar digitalis ou quinino; mas  que o 
verdadeiro tratamento  o repouso,  a absoluta excluso da fadiga. Que ela um 
dia se zangue ou que tenha uma manh de canseira, e pode ir-se!
- E vai adiantada a doena? - perguntou Jorge.
- Pelo que ela diz j tem a dificuldade asmtica, opresses, uma dor aguda na 
regio cardaca, flatulncia, umidade nas extremidades - o diabo!
- Olha que espiga! - murmurou Jorge olhando em roda.
-  p-la na rua! - resumiu D. Felicidade.
Quando ficaram ss, s onze horas, Jorge disse logo a Lusa:
- Que te parece esta, hem?  necessrio descartar-mo-nos da criatura. No quero 
que me morra em casa!
Ela, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos comeou a dizer - que 
no se podia mandar tambm a pobre criatura morrer para a rua... Lembrou 
vagamente o que ela tinha feito pela tia Virgnia... Ia colocando devagar as 
suas palavras com a cautela com que se pousa o p num terreno traioeiro. - 
Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ela fosse viver algures...
Jorge, depois de um silncio, respondeu:
- No tenho dvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se v, que se arranje!
"Dez ou doze libras!" - pensou Lusa com um sorriso infeliz. - E  beira do 
toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como 
se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela aflio, e os seus 
olhos fatigados pelas lgrimas...
Porque, enfim, a crise tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a 
criatura, ela no podia, sem provocar um espanto e uma explicao, dizer a 
Jorge: "no quero que ela saia, quero que ela aqui morra!" E Juliana vendo-se 
expulsa, desesperada, doente, percebendo que Lusa no a defendia, no a 
reclamava - vingar-se-ia! Que havia de fazer?
Ergueu-se ao outro dia numa grande agitao. Juliana, muito fatigada, ainda 
estava na cama. E enquanto Joana punha a mesa, Lusa sentada na voltaire.  
janela da sala de jantar, lia maquinalmente o Dirio de Notcias, quase sem 
compreender, quando uma notcia, no alto da pgina, lhe deu um sobressalto:
"Parte alm de amanh para Frana o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da 
firma Castro Miranda & Cia. Sua Excelncia retira-se dos negcios da praa, e 
vai estabelecer-se definitivamente em Frana, perto de Bordus, onde comprou 
ultimamente uma valiosa propriedade."
O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ela quisesse!, dizia Leopoldina. 
Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquele recurso 
infame, vinha-lhe a seu pesar como uma desconsolao de o ver desaparecer! 
Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente uma idia 
atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito plida. - Se na 
vspera da partida dele, Santo Deus! se na vspera ela consentisse!... Oh! Era 
horrvel! Nem pensar em tal!...
Mas pensou - e sentia-se toda fraca contra uma tentao crescente, que se lhe 
enroscava na alma com caricias persuasivas.  que ento estava salva! Dava 
seiscentos mil ris a Juliana! E o demnio iria morrer para longe!
E ele, o homem, tomaria o paquete! No teria de corar diante dele e o seu 
segredo ia para o estrangeiro, to perdido como se fosse para o tmulo! - E, 
alm disso, se o Castro tinha uma paixo por ela, era bem possvel que lhe 
emprestasse, sem condies!...
Bom Deus! No dia seguinte podia ter ali na algibeira do seu roupo as notas, o 
ouro... Por que no? - Por que no? E vinha-lhe um desejo ansioso de se 
libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martrios...
Voltou ao quarto. Ps-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge que se 
vestia... A presena dele deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, 
consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionais!... Que 
horror! - Mas j sutilizava. Era por Jorge, era por ele! Era para lhe poupar o 
desgosto de saber! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, 
sem reservas...
Durante todo o almoo esteve calada. O rosto simptico de Jorge enternetecia-a: 
o outro parecia-lhe medonho, odiava-o j!...
Quando Jorge saiu ficou muito nervosa. Ia  janela; o sol parecia-lhe adorvel, 
a rua atraa-a. - Por que no? Por que no?
A voz de Juliana, muito spera, falou ento nas escadas da cozinha; e aquele 
cantado odioso decidiu-a bruscamente.
Vestiu-se com cuidado: era mulher, quis parecer bonita. - E chegou toda 
esbaforida  casa de Leopoldina, quando dava meio-dia a So Roque. Encontrou-a 
vestida, esperando o almoo. E tirando imediatamente o chapu, instalando-se no 
sof, explicou muito claramente a Leopoldina a sua resoluo. Queria o dinheiro 
do Castro. Emprestado ou dado, queria o dinheiro!... Estava numa aflio, devia 
valer-se de tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo de uma 
vingana dela... Queria dinheiro, ali estava!
- Mas assim de repente, filha! - disse Leopoldina, pasmada do seu olhar 
decidido.
- O Castro vai-se amanh. Vai para Bordus, para o inferno!  necessrio fazer 
alguma coisa, j!
Leopoldina lembrou escrever-lhe.
- O que quiseres... Eu aqui estou!
A outra sentou-se devagar  mesa, escolheu uma folha de papel e, com o dedinho 
no ar, a cabea de lado, comeou a escrivinhar.
Lusa passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resoluo teimosa, que a 
presena de Leopoldina fortificava! Divertia-se aquela, danava, ia ao campo, 
gozava, vivia, sem ter como ela uma tortura a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! 
Ah! No voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o resgate, a 
salvao! Ainda que tivesse de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das 
humilhaes, dos sustos, das noites cortadas de pesadelos!... Queria saborear a 
vida, que diabo! O seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o corao contente!
- V l - disse Leopoldina, lendo:
Meu Caro Amigo.
Desejo absolutamente falar-lhe.  um negcio grave. Venha logo que possa. Talvez 
me agradea. Espero at s trs horas, o mais tardar.
Com toda a estima,
Sua amiga
Leopoldina.
- Que te parece?
- Horrvel! Mas est bem... Est muito bem! Risca-lhe o "talvez me agradea".  
melhor.
Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, num trem.
- E agora vou almoar, que me no tenho nas pernas.
A sala de jantar dava para um saguo estreito. As paredes estavam cobertas de 
uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam colinas, e linhas 
azul-ferretes representavam lagos. Um armrio, no ngulo da parede, servia de 
guarda-loua. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e 
na toalha havia ndoas do caf da vspera.
- De uma coisa podes tu ter a certeza - dizia Leopoldina, bebendo grandes goles 
de ch -,  que o Castro  um homem para um segredo!... Se te emprestar o 
dinheiro, que empresta, daquela boca no sai uma palavra. L nisso  perfeito... 
Olha que foi o amante da Videira anos! E nem ao Mendona, que  o seu ntimo, 
disse uma palavra. Nem uma aluso! E um poo.
- Que Videira? - perguntou Lusa.
- Uma alta, de nariz grande, que tem um land.
- Mas passa por uma mulher to sria...
- J tu vs! - E com um risinho: - Ai elas passam, passam. L passar. passam. A 
questo  conhecer-lhes os podres, minha fidalga!
E barrando de manteiga grandes fatias de po, ps-se a falar complacentemente 
dos escndalos de Lisboa, a desdobrar o sudrio: citava nomes, especialidades, 
as que depois de terem feito o diabo gastam, numa devoo tardia, o resto de uma 
velha sensibilidade; que  por onde elas acabam, algumas  pelas sacristias! As 
que, cansadas decerto de uma virtude montona, preparam habilmente o seu 
"fracasso" numa estao em Sintra ou em Cascais. E as meninas solteiras! Muito 
pequerrucho, por essas amas dos arredores, tem o direito de lhes chamar "mam"! 
Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas 
precaues da libertinagem... Sem contar as senhoras que, em vista dos pequenos 
ordenados, completam o marido com um sujeito suplementar! - Exagerava muito; mas 
odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a 
exterioridade decente que ela perdera, e manobravam com habilidade onde ela, a 
tola, tivera s a sinceridade! E enquanto elas conservavam as suas relaes, 
convites para soires, a estima da corte - ela perdera tudo, era apenas a 
Quebrais!...
Aquela conversao enervava Lusa; numa tal generalidade do vcio parecia-lhe 
que o seu caso, como um edifcio num nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se 
esbatia; e sentindo-o to pouco visvel quase o julgava j justificado.
Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquele sentimento de uma forte 
imoralidade geral, onde as resistncias, os orgulhos se amolecem, se 
eslanguescem - como os msculos numa estufa fortemente saturada de exalaes 
mornas.
- Este mundo  uma histria - disse Leopoldina erguendo-se e espreguiando-se.
- E teu marido onde est? - perguntou Lusa no corredor.
- Fora para o Porto. Estavam  vontade, podiam cometer crimes!
E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canap, com o cigarrinho La Ferme na 
boca, comeou tambm a queixar-se.
Andava aborrecida h tempos; enfastiava-se, achava tudo secante; queria alguma 
coisa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo...
- E o Fernando, ento? - disse distraidamente Lusa, que a cada momento se 
aproximava da janela.
- Um idiota! - respondeu Leopoldina com um movimento de ombros, cheio de 
saciedade e de desprezo.
No, realmente tinha vontade de outra coisa, no sabia bem de qu! As vezes 
lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braos com um tdio mole.) Eram to 
sensabores todos os homens que conhecia! To corriqueiros todos os prazeres que 
encontrara! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse 
palpitar - ser mulher de um salteador, andar no mar; num navio pirata... 
Enquanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe nuseas! E outro que viesse 
seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!
E, depois de escancarar a boca, num bocejo de fera engaiolada:
- Aborreo-me! Aborreo-me!... Oh, cus! Ficaram um momento caladas.
- Mas, que se lhe h de dizer, a esse homem? - perguntou de repente Lusa.
Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiosa:
- Diz-se-lhe que se precisa um conto de ris, ou seiscentos mil ris... Que se 
lhe h de ento dizer? Que se lhe paga.
- Como? 
Leopoldina disse, deitada, com os olhos no teto:
- Em afeto.
- Oh! s horrvel! - exclamou Lusa, exasperada. - Vs-me aqui desgraada, meia 
doida, dizes que s minha amiga, e ests a rir, a escarnecer... - A sua voz 
tremia, quase chorava.
- Mas tambm que pergunta to tola! Como se lhe h de pagar?... Tu no sabes?
Olharam-se um momento.
- No, eu vou-me embora, Leopoldina! - exclamou Lusa.
- No sejas criana!
Um trem parou na rua. A Justina apareceu. No encontrara o Sr. Castro em casa, 
estava no escritrio. Fora l, disse que vinha imediatamente.
Mas Lusa, muito plida, tinha o chapu na mo.
- No - disse Leopoldina quase escandalizada -, tu agora no me deixas aqui com 
o homem! Que lhe hei de eu dizer?
-  horrvel! - murmurou Lusa com uma lgrima nas plpebras, deixando cair os 
braos, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz!
-  como quem toma leo de rcino! - disse a outra com um gesto cnico. E 
acrescentou, vendo o horror de Lusa: - Que diabo! Onde  que est a desonra, em 
pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...
Naquele momento outra carruagem, a largo trote, parou.
- Entra tu primeiro! Fala-lhe tu primeiro! - suplicou Lusa, erguendo as mos 
para ela.
A campainha retiniu. Lusa, muito trmula, muito branca, olhava para todos os 
lados com um olhar muito aberto, de susto, de nsia, como procurando uma idia, 
uma resoluo ou um recanto para se esconder. Botas de homem rangeram na esteira 
da sala ao lado. Leopoldina ento disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar 
as palavras na alma, uma a uma.
- Lembra-te que daqui a uma hora podes estar salva, com as tuas cartas na 
algibeira, feliz, livre!
Lusa ps-se de p com uma deciso brusca. Foi pr p-de-arroz, alisou o cabelo 
- e entraram na sala.
Ao ver Lusa, o Castro teve um movimento surpreendido. Curvou-se, com os ps 
pequeninos muito juntos, inclinando a cabea grossa, onde os cabelos muito finos 
alourados j rareavam.
Sobre o seu ventrezinho redondo, que a perna curta fazia parecer quase panudo, 
o medalho do relgio pousava com opulncia. Trazia na mo um chicote, cujo cabo 
de prata representava uma Vnus retorcendo os braos. A pele tinha um rubor 
prspero; o bigode farto terminava em pontas agudas, empastadas em cera 
mostacha, de um aspecto napolenico. E os seus culos de ouro tinham um ar 
autoritrio, bancrio, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal 
muito farto.
Com qu! Era necessrio mand-lo chamar para que se pusesse a vista em cima - 
comeou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a Lusa, "sua intima, sua 
amiga de colgio":
- Que tem feito, por que no tem aparecido?
O Castro repoltreou-se numa cadeira de braos, e batendo com o chicote nas 
botas, desculpou-se com os preparativos da partida...
- Sempre  verdade? Deixa-nos?
O Castro curvou-se:
- Alm de amanh. No Orenoque.
- Ento desta vez os jornais no mentiram. E com demora?
- Per omnia saecula saeculorum.
Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem to estimado, que se podia divertir 
tanto! - Pois no  verdade? - disse voltando-se para Lusa, para a tirar do seu 
silncio embaraado.
- Com certeza - murmurou ela.
Estava sentada  beira da cadeira, como assustada, pronta a fugir. E os olhares 
do Castro, insistentes por trs do reflexo dos culos, incomodavam-na.
Leopoldina reclinara-se no sof, e ameaando-o com o dedo erguido:
- Ah! A nessa ida para Frana anda histria de saias!
Ele negou frouxamente, com um sorriso ftuo.
Mas Leopoldina no achava as francesas bonitas - o que era  que tinham muito 
chique, muita animao...
O Castro declarou-as adorveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! Conhecia-as 
bem! Enfim, l como mes de famlia no dizia. Mas para uma ceia, para um bocado 
de canc no havia outras... - Afirmava-o com convico, pois, como os burgueses 
"da sua roda", avaliava doze milhes de francesas por seis prostitutas do 
caf-concerto - que tinha pago caro e enfastiado imenso!
Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe estrina!
Ele sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:
- Calnias, calnias... - murmurava.
E Leopoldina voltando-se para Lusa:
- Comprou uma quinta magnfica em Bordus, um palcio!...
- Uma choupana, uma choupana...
- E naturalmente vai dar festas magnficas!...
- Modestos chs, modestos chs... - dizia, repoltreando-se.
E riam ambos de um modo muito afetado.
O Castro curvou-se ento para Lusa:
- Tive o gosto de ver Vossa Excelncia h tempos, na Rua do Ouro...
- Creio que tambm me lembro... - respondeu ela.
E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais  beira do sof e depois de 
sorrir:
- Pois eu mandei-o chamar porque temos uma coisa a dizer-lhe.
- Castro inclinou-se. O seu olhar no deixava Lusa, percorria-a com 
atrevimento, palpava-a.
- Aqui est o que . Eu vou direita s coisas, sem prembulos. - E teve outro 
risinho. - Aqui a minha amiga est num grande apuro, e precisa um conto de ris.
Lusa acudiu, com a voz quase sumida:
- Seiscentos mil ris...
- Isso no importa - disse Leopoldina com uma indiferena opulenta estamos a 
falar com um milionrio! A questo  esta: quer o meu amigo fazer o favor?
O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, ambgua:
- Certamente, certamente...
Leopoldina ergueu-se logo:
- Bem. Eu tenho ali no quarto a costureira  espera. Deixo-os falar do negcio.
E  porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaando-o com o dedo, a voz 
muito alegre:
- Que o juro seja pequeno, hem?
E saiu, rindo.
O Castro disse logo a Lusa, curvando-se:
- Pois minha senhora, eu...
- A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou numa grande aflio de dinheiro. E 
dirijo-me a si... So seiscentos mil ris... Procurarei pagar, o mais 
depressa...
- Oh, minha senhora! - fez o Castro com um gesto generoso. Comeou ento a dizer 
que compreendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus embaraos... Lamentava 
que a no tivesse conhecido h mais tempo... Sempre tivera uma grande simpatia 
por ela... Uma grande simpatia!...
Lusa calava-se, com os olhos baixos. Ele foi pousar o chicote na jardineira, 
veio sentar-se no sof junto dela. Vendo o seu ar embaraado, pediu-lhe que no 
se afligisse. Valia l a pena por questes de dinheiro! Tinha o maior prazer em 
servir uma senhora nova, to interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir 
a ele. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, 
eram indiscretos... - E falando tinha-lhe tomado a mo; o contato daquela pele 
apetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o respirar alto. Lusa, 
toda constrangida, nem retirara a mo; e Castro abrasado - como uma verbosidade 
um pouco rouca prometia tudo, tudo o que ela quisesse!... Os seus olhinhos 
arregalados devoravam-lhe o pescoo muito branco.
- Seiscentos mil ris..., o que quiser!...
- E quando? - disse Lusa muito perturbada.
Ele via-lhe o seio arfar - e sob a irrupo de um desejo brutal:
- J!
Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quase lhe mordeu a face.
Lusa ergueu-se com o salto de uma mola de ao.
Mas o Castro escorregara sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe 
sofregamente os vestidos:
- Dou-lhe o que quiser, mas sente-se! H anos que tenho uma paixo por si. 
Escute! - Os seus braos trmulos subiam; envolviam-na, e o que sentia das 
formas inflamava-o. 
Lusa, sem rudo, repelia-lhe as mos, recusava-se.
- O que quiser! Mas oua! - balbuciava ele puxando-a violentamente para si. A 
concupiscncia brutal dava-lhe uma respirao de touro. 
Ento, com um puxo desesperado s saias, ela soltou-se, recuando aflita:
- Deixe-me! Deixe-me!
O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braos abertos, rompeu 
para ela.
Diante daquela luxria bestial, Lusa, indignada, agarrou instintivamente de
sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte chicotada na mo.
A dor, a raiva, o desejo enfureceram-no.
- Seu diabo! - rosnou, rangendo os dentes. 
Ia-se arremessar. Mas Lusa ento, erguendo o brao, revolvida por uma clera 
frentica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos braos, pelos ombros - muito 
plida, muito sria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma 
alegria de desforra em fustigar aquela carne gorda.
O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braos diante da cara, 
recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candeeiro de porcelana 
oscilou, desequilibrou-se, rolou no cho com estilhaos de loua, e uma ndoa 
escura de azeite alastrou-se na esteira.
- Ai est! V? - disse Lusa toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o 
chicote.
Leopoldina ao barulho correu, do quarto. 
- Que foi? Que foi? 
- Nada, estvamos a brincar - disse Lusa.
Atirou o chicote para o cho, saiu da sala.
O Castro, lvido de raiva, tinha agarrado o chapu; e fixando terrivelmente 
Leopoldina:
- Agradecido! Conte comigo quando quiser! 
- Mas que foi? Que foi?
- At  vista! - rugiu o Castro. - E indo apanhar o chicote, sacudindo-o 
ameaadoramente para o quarto, onde Lusa entrara:
- Grande bbeda! - murmurou com rancor. E saiu, atirando com as portas.
Leopoldina, atnita, veio encontrar Lusa no quarto a pr o chapu, com as ainda 
trmulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.
- Chegou-me c uma coisa, e enchi-lhe a cara de chicotadas - disse ela.
Leopoldina esteve um momento a olh-la petrificada.
- Bateste-lhe?... - E de repente dasatou a rir, convulsivamente. - O Castro de 
culos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar uma coa! - Atirou-se 
para cima da chaise longue, rolou-se; sufocava. - At j tinha uma pontada, 
Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil ris e 
ser corrido a chicote!... Com o seu prprio chicote!... Oh! Era para 
estourar!...
- O pior foi o candeeiro - disse Lusa.
Leopoldina ergueu-se, de salto.
E o azeite! Ai que agouro! - Correu  sala. Lusa veio encontr-la diante da 
ndoa escura, com os braos cruzados, como se visse, toda plida, catstrofes 
avizinharem-se. - Que agouro, Santo Deus!
- Deita-lhe sal depressa.
- Faz bem?
- Quebra o agouro.
Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a ndoa;
- Ai! Nossa Senhora permita que no haja nada mau! Mas que caso este, que caso 
este! E agora, filha?
Lusa encolheu os ombros.
- Eu sei c! Sofrer!...
CAPTULO XII
Nessa semana, uma manh, Jorge, que se no recordava que era dia de gala, 
encontrou a secretaria fechada e voltou para casa ao meio-dia. Joana  porta 
conversava com a velha que comprava os ossos; a cancela em cima estava aberta; e 
Jorge, chegando despercebido ao quarto, surpreendeu Juliana comodamente deitada 
na chaise longue, lendo tranqilamente o jornal.
Ergueu-se, muito vermelha, mal o viu, balbuciou:
- Peo desculpa, tinha-me dado uma palpitao to forte...
- Que se ps a ler o jornal, hem?... - disse Jorge, apertando instintivamente o 
casto da bengala. - Onde est a senhora?
- Deve estar para a sala de jantar - disse Juliana, que se ps logo a varrer, 
muito apressada.
Jorge no encontrou Lusa na sala de jantar; foi dar com ela no quarto dos 
engomados, despenteada, em roupo de manh, passando roupa, muito aplicada e 
muito desconsolada.
- Tu ests a engomar? - exclamou.
Lusa corou um pouco, pousou o ferro. - A Juliana estava adoentada, juntara-se 
uma carga de roupa...
- Dize-me c, quem  aqui a criada e quem  aqui a senhora?
A sua voz era to spera, que Lusa fez-se plida, murmurou:
- Que queres tu dizer?
- Quero dizer que te venho encontrar a ti a engomar, e que a encontrei a ela l 
embaixo muito repimpada na tua cadeira, a ler o jornal!
Lusa, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, comeou a remexer, 
a desdobrar, a sacudir com a mo trmula...
- Tu no podes fazer idia do que aqui vai por fazer - ia dizendo. -  a 
limpeza, so os engomados,  um servio. A pobre de Cristo tem estado doente...
- Pois se est doente que v para o hospital!
- No, tambm no tens razo!
Aquela insistncia em defender a outra, que se repoltreava embaixo na sua chaise 
longue, exasperou-o:
- Dize c, tu dependes dela? Havia de dizer que tens medo dela!
- Ah! Se ests com esse gnio! - fez Lusa com os beios trmulos, uma lgrima 
j nas plpebras.
Mas Jorge continuava muito zangado:
- No, essas condescendncias ho de acabar por uma vez! Ver aquele estafermo, 
com os ps para a cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas 
cadeiras, a passear, e tu a defend-la, a fazer-lhe o servio, ah! No!  
necessrio acabar com isso. Sempre desculpas! Sempre desculpas! Se no pode que 
arreie. Que v para o hospital, que v para o inferno.
Lusa lavada em lgrimas assoava-se, soluando.
- Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? Ela no respondia, num grande 
pranto.
- Por que choras, filha? - perguntou ele com uma impacincia comovida, 
chegando-se a ela.
- Para que me falas tu assim? - dizia, toda soluante, limpando os olhos. Sabes 
que estou doente, nervosa, e tens mau gnio para mim! O que me sabes dizer so 
coisas desagradveis.
- Coisas desagradveis! Minha filha, eu disse-te l nada desagradvel! - E 
abraou-a, ternamente.
Mas ela desprendeu-se, e com a voz cortada de soluos:
- Ento  algum crime estar a engomar? Porque trabalho, porque trato das minhas 
coisas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado 
doente! Enquanto se no arranja outra  necessrio fazer as coisas... Mas tu 
falas, falas! Para me afligir!...
- Ests a dizer tolices, filha. No ests em ti. Eu o que no quero  que te 
canses!
- Para que dizes ento que tenho medo dela? - E as lgrimas recomeavam. - Medo 
de qu? Por que hei de eu ter medo dela? Que despropsito! 
- Pois bem, no digo. No se fala mais na criatura. Mas no chores... V, 
acabou-se - Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a docemente: - V, o ferro 
agora. Vem! Que criana que tu s!
Por bondade, por considerao com os nervos de Lusa, Jorge durante alguns dias 
no falou na criatura. Mas pensava nela; e aquele estafermo, com os ps para a 
cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os 
confortos do quarto que vira na noite em que ela desmaiara, aquela bondade 
ridcula de Lusa!... Achava aquilo estranho, irritante!... Como estava fora de 
casa todo o dia, e diante dele Juliana s tinha sorrisos para Lusa, muitas 
atitudes de afeto, imaginava que ela se soubera insinuar e, pelas pequenas 
intimidades de ama a criada, se tomara necessria e estimada. Isso aumentava a 
sua antipatia. E no a disfarava.
Lusa vendo-o s vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que 
a torturava era a maneira que Jorge adotara de falar dela com uma venerao 
irnica; chamava-lhe "a ilustre D. Juliana, a minha ama e senhora!" Se faltava 
um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: "Como! a D. Juliana esqueceu-se! 
Uma pessoa to perfeita!" Tinha gracejos que gelavam Lusa.
- A que sabia o filtro que ela te deu? Era bom?
Lusa agora, diante dele, j nem se atrevia a falar a Juliana com um modo 
natural; temia os sorrisos malignos, os apartes: "Anda, atira-lhe um beijo, 
conhece-se na cara que ests com vontade de lho atirar!" E, receando as 
suspeitas dele, querendo mostrar-se independente, comeou na sua presena, a 
falar a Juliana com uma dureza brusca, muito afetada. A pedir-lhe gua, uma 
faca, dava  voz inflexes de um rancor postio.
Juliana, muito fina, tinha percebido tudo, e suportava calada. Queria evitar 
toda a questo que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e 
nas noites em que no podia dormir com aflies asmticas, punha-se a pensar com 
terror - se fosse expulsa daquela casa, para onde iria? Para o hospital!
Tinha por isso medo de Jorge.
- Ele est morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim - dizia 
ela  tia Vitria -, mas no lhe hei de dar esse gosto, ao boi manso! 
E Lusa, pasmada, vira-a pouco a pouco recomear a fazer todo o servio, com 
zelo, aparentemente; e todavia s vezes no podia, vencida pela doena; tinha 
flatos que a faziam cair numa cadeira, arquejando, com as mos no corao. Mas 
reagia. Uma ocasio mesmo vendo Lusa a passar um espanejador pelas consolas da 
sala, zangou-se:
- A senhora faz favor de se no meter no meu servio? Eu ainda posso! Ainda no 
estou na cova!
Consolava-se ento com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava 
sopinhas, croquetes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do 
Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de galinha  noite.
- Com o meu corpo o pago - dizia ela a Joana -, que trabalho como uma negra! 
Arraso-me!
Um dia, porm, que Jorge se irritara mais com a figura amarelada de Juliana, e 
que estava nervoso, ao achar  noite o jarro vazio e o lavatrio sem toalha, 
enfureceu-se desproporcionadamente.
- No estou para aturar estes desleixos! Irra! - gritou.
Lusa veio logo, inquieta, desculpar Juliana.
Jorge mordeu o beio, curvou-se profundamente e com a voz um pouco trmula:
- Perdo! Esquecia-me que a pessoa de Juliana  sagrada! Eu mesmo vou buscar 
gua!
Lusa ento zangou-se: se havia de estar sempre com aqueles remoques, era mandar 
a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ela amava de paixo Juliana? 
Se a conservava  porque era uma boa criada. Mas se ela se tornava a causa de 
maus humores, de questes, se ele lhe ganhara tamanho dio, bem, ento que se 
fosse! Era uma seca aquela ironia constante... Jorge no respondeu.
E durante a noite Lusa, sem dormir, pensava que aquilo no podia durar! Estava 
farta! Aturar a mulher, a sua tirania, e ouvir a todo o momento ditinhos, 
aluses, ah, no! Era demais! Bastava! Ele comeava a desconfiar, a bomba ia 
estalar! Pois bem, ela mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana 
embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se ele a metesse num convento, se 
separasse dela, bem! Sofreria, morreria! Tudo, menos aquele martrio reles, s 
picadinhas, medonho e grotesco!
- Que tens tu? - perguntou Jorge meio a dormir, sentindo-a inquieta.
- Espertina.
- Coitada! Conta cento e cinqenta para trs! - E voltou-se, enrolando-se 
comodamente na roupa.
Ao outro dia Jorge levantara-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o 
espanhol das minas, e jantar com ele no Gibraltar. Depois de vestido foi  sala 
de jantar - eram dez horas - e voltou dizer a Lusa, com uma cortesia profunda, 
espaando as palavras: - que no estava a mesa posta! Que as chvenas do ch  
da vspera estavam ainda por lavar! E que a senhora D. Juliana, a ilustre 
senhora D. Juliana tinha sado, a seu passeio!
Eu disse-lhe ontem  noite que me fosse-me ao sapateiro... - comeou Lusa, que 
vestia o seu roupo.
- Ah, perdo! - interrompeu Jorge muito cerimoniosamente.
- Esqueci-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdo!
Lusa acudiu logo:
- No. Tens razo. Tu vers!  preciso pr um cobro... 
Subiu logo  cozinha, desesperada:
- Voc por que no ps a mesa, Joana, se a outra saiu?
Mas a rapariga no ouvira sair a Sra. Juliana! Imaginara que estava para baixo, 
para sala! Como ela agora  que queria fazer tudo!...
Quando Joana trouxe o almoo da a pouco Jorge veio sentar-se  mesa, torcendo 
muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir 
buscar uma colher, o aucareiro. Lusa via-lhe os msculos da face contrados: 
mal podia comer, atarantada; a chvena, quando a erguia, tremia-lhe mo; com os 
olhos baixos espreitava Jorge s furtadelas, e o seu silncio torturava-a.
- Tu falaste ontem que ias jantar fora hoje...
- Vou - disse secamente. E acrescentou: - Graas a Deus!
- Ests de bom humor!... - murmurou ela.
- Como vs!
Lusa fez-se plida, pousou o talher; tomou o jornal para disfarar uma 
lagrimazinha que lhe tremia na plpebra; mas as letras confundiam-se, sentia 
pular o corao. De repente a campainha tocou. Era a outra, decerto!
Jorge, que se ia erguer, disse logo:
- H de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...
E ficou de p, junto  mesa, aguando devagar um palito.
Lusa, a tremer, levantou-se tambm:
- Eu vou-lhe falar...
Jorge reteve-a pelo brao, e tranqilamente:
- No, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...
Lusa recaiu na cadeira, muito plida.
Os taces de Juliana soaram no corredor. Jorge aguava tranqilamente o seu 
palito.
Lusa ento voltou-se para ele, e batendo as mos, aflita:
- No lhe digas nada!...
Ele fixou-a, assombrado:
- Por qu?
Juliana neste momento abriu o reposteiro.
- Ento que desaforo  este, sair e deixar tudo por arrumar? - disse-lhe Lusa 
logo, erguendo-se.
Juliana, que vinha sorrindo, estacou  porta, petrificada: apesar de sua 
amarelido, uma vaga cor de sangue espalhou-se nas feies.
- No lhe torne acontecer semelhante coisa, ouviu? A sua obrigao  estar em 
casa pela manh... - Mas o olhar de Juliana, que se cravava nela terrivelmente, 
emudeceu-a. Agarrou no bule com as mos trmulas. - Deite gua neste bule, v!
Juliana no se mexeu.
- Voc no ouviu? - berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada  mesa, que 
fez saltar a loua.
- Jorge! - gritou Lusa, agarrando-lhe no brao.
Mas Juliana fugira da sala, correndo.
- E logo na rua! - exclamou Jorge. - Faze-lhe as contas e que se v. Ah! Estou 
farto! Nem mais um dia! Se a tomo a ver, desfao-a! At que enfim! Chegou-me a 
minha vez!
Foi buscar o palet, muito excitado, e antes de sair, voltando  sala:
- E que se v hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora a mais! H quinze dias que a 
trago aqui atravessada. Para a rua!
Lusa veio para o quarto quase sem se poder suster. Estava perdida! Estava 
perdida! Uma multido de idias, todas extremas e insensatas, redemoinhava no 
seu crebro como um monto de folhas secas numa ventania: queria fugir, 
atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de no ter cedido ao Castro... De 
repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: "Meu 
adorado Baslio!" Ento uma cobardia imensa, amoleceu-lhe a alma. Correu ao 
quarto de Juliana, ia suplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a 
martirizasse!... E depois? Diria que a Juliana chorara, se atirara de joelhos! 
Mentiria, cobri-lo-ia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente - 
convenc-lo-ia!
Juliana no estava no quarto. Subiu  cozinha; estava l, sentada, com os olhos 
chamejantes, os braos nervosamente cruzados, numa raiva muda. Apenas viu Lusa, 
deu um salto sobre os calhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:
- Olhe que a primeira vez que voc me torne a falar como hoje, vai aqui tudo 
raso nesta casa!
- Cale-se, sua infame! - gritou Lusa.
- Voc manda-me calar, sua p...! - E Juliana disse a palavra.
Mas a Joana correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cair, com um 
gemido, sobre os joelhos.
- Mulher! - bradou Lusa arremessando-se sobre a Joana, agarrando-a pelos 
braos.
Juliana, assombrada, fugiu.
-  Joana!  mulher! Que desgraa, que escndalo! - exclamava Lusa as mos 
apertadas na cabea.
- Racho-a! - dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brasas - 
Racho-a!
Lusa andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, plida como 
repetindo, toda a tremer:
- O que voc foi fazer, mulher! O que voc foi fazer!
A Joana, ainda toda revolvida de sua clera, com o rosto manchado de vermelho, 
remexia furiosamente as panelas.
- E se ela me diz uma palavra, acabo-a, aquela bbeda! Acabo-a!
Lusa desceu ao quarto. No corredor saiu-lhe Juliana, com a cuia  banda, as 
dedadas escarlates na face, medonha.
- Ou aquela desavergonhada vai j para a rua - gritou ela - ou eu vou-me pr l 
embaixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...
- Pois mostre, faa o que quiser! - disse Lusa, passando, sem a olhar.
Fora uma desesperao, um dio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma 
vez!...
Sentia ento como um alvio doloroso, em ver o fim do seu longo martrio! Havia 
meses que ele durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha sofrido, 
as infmias em que chafurdara e as humilhaes a que descera, vinha-lhe um tdio 
de si mesma, um nojo imenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e 
espezinhado; que nela nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo 
em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi 
pisado por uma multido, sobre a lama. No valia a pena lutar por uma vida to 
vil. O convento seria j uma purificao, a morte uma purificao maior... - E 
onde estava ele, o homem que a desgraara? Em Paris, retorcendo a guia dos 
bigodes, chalaceando, governando os seus cavalos, dormindo com outras! E ela 
morreria ali, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, 
nem uma palavra de resposta; nem a julgara digna do meio tosto da estampilha! O 
que ele lhe dizia pelas terras da Plvora acima, naquela cup: - Dar-lhe-ia toda 
a sua vida, viveria  sombra das suas saias! O infame! J tinha talvez no bolso 
o bilhete da passagem! Enquanto ela fora a mulher alegre, que vem, despe o 
corpete, mostra um lindo colo - ento bem, pronto! Mas teve uma dificuldade, 
chorou, sofreu - ah! no, isso no! "s um belo animal que me ds um grande 
prazer - perfeitamente, tudo o que quiseres; mas tornas-te uma criatura dolorida 
que precisa consolaes, talvez uns poucos de centos de mil ris - ento boas 
noites, c vou no paquete!" Oh, que estpida que  a vida! Ainda bem que a 
deixava!
Foi-se encostar  janela. Estava um dia muito azul, muito doce. O sol punha 
grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a 
calada. E havia no ar uma suavidade aveludada. O Paula, em chinelas de tapete, 
aquecia-se  porta do estanque. Ento, diante do lindo ar de inverno, 
enterneceu-se. Todos eram felizes naquela manh de rosas, s ela sofria, pobre 
dela! E ficou a olhar, como esquecida numa vaga saudade, com uma lgrima na 
plpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina - e da a 
pouco voltar com um galego, velho e pesado, que trazia o seu saco ao ombro.
Ia-se embora! - pensou Lusa. - Mandava por fora os bas! E depois? Remetia as 
cartas a Jorge, ou entregava-lhas ela mesma, no portal! Santo Deus! - E 
parecia-lhe ver Jorge aparecer no quarto, lvido, com as cartas na mo!...
Veio-lhe um terror alucinado: no queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu 
amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se dela a revolta da fmea contra a 
viuvez; aos vinte e cinco anos ir murchar para um convento! No, com os diabos!
Foi direita ao quarto de Juliana.
- Vem ver se lhe levo alguma coisa? - gritou logo a outra, furiosa.
Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo cho botinas embrulhadas em 
jornais velhos.
- E ainda c me ficam quatro camisas, dois pares de calcinhas, trs pares de 
meias, seis punhos na lavadeira. Fica a o rol. E quero as minhas contas!...
- Escute, Juliana, no se v. - Mas a voz desapareceu-lhe, as lgrimas 
saltaram-lhe dos olhos.
Juliana ps-se a olhar para ela do alto, triunfando, com uma botina de duraque 
em cada mo.
-  mandar aquela desavergonhada embora, e est tudo acabado! - E com uma voz 
aguda, batendo as solas das botinas: - Fica tudo como dantes, na paz do Senhor!
Uma alegria extraordinria acendia-lhe o olhar. Vingava-se!
Fazia-a chorar! Expulsava a outra! E no perdia os seus cmodos!
-  pr a bbeda na rua!  p-la na rua!
Lusa curvou os ombros, foi  cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe 
imensos, infindveis. Deixou-se cair num banco, e limpando os olhos:
- Joana, venha c, escute, voc no pode continuar na casa... 
A rapariga ficou a olhar para ela, espantada.
- O que a Juliana disse foi num repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. 
 a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...
- Ento a senhora manda-me embora? Ento a senhora manda-me embora?
Lusa insistiu, baixo, envergonhada:
- Foi um repente, tem estado a pedir perdo...
- Eu foi para defender a senhora! - exclamou a rapariga abrindo os braos 
aflita.
Lusa sentiu-se indignada; e impaciente, para acabar:
- Bem, Joana, no estejamos com mais. Eu  que sou a dona da casa...
- Vou-lhe fazer as contas.
- Olha que pago este! - gritou Joana, ento, desesperada. E com uma soluo, 
batendo o p: - Pois o senhor  que h de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! 
Hei de lhe contar tudo o que se passou! A senhora no tem razo!...
Lusa olhava-a, estpida. Agora era aquela! Era daquela rapariga, teimosa na sua 
justia, que vinha o desastre! Era demais! Veio-lhe um terror, sobrenatural, 
como um espanto da conscincia, e apertando as fontes nas mos abertas:
- Que expiao! Que expiao, Santo Deus!
De repente, como desvairada, agarrou Joana pelos braos, e falando-lhe junto do 
rosto:
Joana, v-se pelo amor de Deus, v-se! No diga nada! Despea-se voc! - E 
perdendo inteiramente todo o respeito prprio, caiu de joelhos, diante da 
cozinheira, soluando: - Pelas cinco chagas de Cristo, v, Joana, minha rica v! 
Peo-lhe eu, Joana! Pelo amor de Deus!
A rapariga, assombrada, rompeu num choro estridente:
- Vou, sim, minha senhora!...Vou, sim, minha rica senhora!...
- Sim, Joana, sim. Eu dou-lhe alguma coisa. Voc bem v... No chore... 
Espere...
Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, 
voltou, galgando os degraus, meteu-lhas na mo, dizendo-lhe baixo:
- Faa uma trouxa, eu amanh lhe mandarei o ba.
- Sim, minha senhora, - soluava a rapariga, babada de dor - sim, minha rica 
senhora!
Lusa veio deixar-se cair de bruos sobre a sua chaise longue, num choro 
convulsivo tambm, desejando a morte, pedindo, num terror, piedade a Deus!
Mas a voz spera de Juliana disse bruscamente  porta:
- Ento em que ficamos?
A Joana vai-se. Que quer mais?
- Que saia j! disse a outra imperiosamente. - Que o jantar o fao eu. Por hoje, 
j se v!
As lgrimas de Lusa secavam-se, de raiva.
- E a senhora agora oua!
O tom de Juliana era to insultante, que Lusa ergueu-se como ferida.
E Juliana, ameaando-a, do alto, com o dedo erguido:
- E a senhora agora  andar-me direita, seno eu lhas cantarei!...
E voltou as costas, batendo os taces.
Lusa olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo 
estava imvel e correto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dois 
pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretensiosamente.
Ento tirou o roupo violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, 
vestiu por cima um casaco largo de inverno, atirou o chapu para a cabea 
despenteada, saiu, desceu a rua tropeando nas saias, quase a correr.
O Paula saltou para o meio da rua para a seguir; viu-a parar  porta de 
Sebastio, e veio dizer  estanqueira:
- Em casa do Engenheiro h novidade!
E ficou plantado  porta com os olhos cravados para as janelas abertas, onde as 
bambinelas de repes verdes caiam com as suas pregas imveis.
- O Sr. Sebastio? - perguntava Lusa  rapariguita sardenta, que correra a 
abrir a porta.
E ia entrando pelo corredor.
- Na sala - disse a pequena.
Lusa subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta e correndo para 
ele, apertando as mos contra o peito, numa voz angustiosa e sumida:
- Sebastio, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-ma. Estou perdida!
Ele ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o 
chapu malposto, a aflio do olhar.
- Que ? Que ?
- Escrevi a meu primo - repetiu, com os olhos cravados nele, ansiosamente - a 
mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!
Fez-se muito plida, os olhos cerraram-se-lhe.
Sebastio amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sof de damasco amarelo. E 
ficou de p, mais descorado que ela, com as mos nos bolsos do seu jaqueto 
azul, imvel, estpido.
De repente correu fora, trouxe um copo de gua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. 
Ela abriu os olhos, as suas mos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, 
e deixando-se cair sobre o brao do canap, com o rosto escondido nas mos, 
rompeu num choro histrico.
O seu chapu cara. Sebastio apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flores, 
p-lo sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos ps debruar-se 
junto dela:
- Ento! Ento! - murmurava. E as suas mos, tocando-lhe de leve o brao, 
tremiam como folhas.
Quis dar-lhe gua para a sossegar: ela recusou com a mo, endireitou-se devagar 
no sof, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluos.
- Desculpe, Sebastio, desculpe - dizia. Bebeu ento um gole de gua, ficou com 
as mos no regao, quebrada; e, uma a uma, as suas lgrimas silenciosas caam 
sem cessar.
Sebastio foi fechar a porta - e vindo ao p dela com muita doura:
- Mas ento? Que foi?
Ela ergueu para ele a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente, 
olhou-o um momento, e deixando pender a cabea, toda humilhada:
- Uma desgraa, Sebastio, uma vergonha! - murmurou.
- No se aflija! No se aflija!
Sentou-se ao p dela, e baixo, com solenidade:
- Tudo o que eu puder, tudo o que for necessrio, aqui me tem!
- Oh, Sebastio!... - exclamou num impulso de reconhecimento humilde; e 
acrescentou: - Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho sofrido, 
Sebastio!
Esteve um momento com os olhos cravados no cho; e agarrando-lhe o brao de 
repente, com fora, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os 
borbulhes de uma gua comprimida que rebenta.
- Apanhou-me a carta, no sei como, por um descuido meu! Ao princpio pediu-me 
seiscentos mil ris. Depois comeou a martirizar-me... Tive de lhe dar vestidos, 
roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lenis, dos finos. Era a dona 
da casa. O servio quem o faz sou eu!... Ameaa-me todos os dias;  um monstro. 
Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? 
Pois no  verdade? Ela bem via... O que eu tenho sofrido! Dizem que estou mais 
magra, at o Sebastio reparou. A minha vida  um inferno. Se Jorge soubesse!... 
Aquela infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo 
pela manh a limpar e varrer. s vezes tenho de lavar as xcaras do almoo. 
Tenha piedade de mim, Sebastio, por quem , Sebastio! Coitada de mim, no 
tenho ningum neste mundo!
E chorava, com as mos sobre o rosto.
Sebastio, calado, mordia o beio; duas lgrimas rolavam-lhe tambm pela
face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:
- Mas Santo nome de Deus, minha senhora! Por que no me disse h mais tempo?
-  Sebastio, podia l! Uma vez estive pra lho dizer... Mas no pude, no pude!
- Fez mal...
- Esta manh o Jorge quis p-la fora. Embirra com ela, percebe os desmazelos. 
Mas no desconfia de nada, Sebastio!... - E desviou os olhos, muito escarlate. 
- Escarnecia-me s vezes por eu parecer to apaixonada por ela... Mas esta manh 
zangou-se, mandou-a embora. Apenas ele saiu, veio como uma fria, insultou-me...
- Santo Deus! - murmurava Sebastio assombrado, com a mo sobre a testa.
- Talvez no acredite, Sebastio, sou eu que fao os despejos!...
- Mas merece a morte, esta infame! - exclamou batendo com o p no cho.
Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mos nos bolsos, os seus largos 
ombros curvados. Voltou a sentar-se ao p dela, e tocando-lhe timidamente no 
brao, muito baixo:
-  necessrio tirar-lhe as cartas...
- Mas como?
Sebastio coava a barba, a testa.
- H de se arranjar - disse, por fim.
Ela agarrou-lhe a mo:
- Oh, Sebastio, se fizesse isso!
- H de se arranjar.
Esteve um momento calculando - e com o seu tom grave:
- Eu vou-me entender com ela...  necessrio que ela esteja s em casa... Podiam 
ir ao teatro, esta noite.
Levantou-se lentamente, foi buscar o Jornal do Comrcio sobre a mesa, olhou os 
anncios:
- Podiam ir a So Carlos, que acaba mais tarde...  o Fausto... Podiam ir ver o 
Fausto...
- Podamos ir ver o Fausto... - repetiu Lusa, suspirando.
E ento, muito chegados, ao canto do sof, Sebastio foi-lhe dizendo um plano, 
em palavras baixas, que ela devorava, ansiosa.
Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao teatro... Mandar um recado 
a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao Hotel Gibraltar... E a Joana? A 
Joana deixara a casa. Bem. s nove horas, ento. Juliana estaria s.
- V como tudo se arranja? - disse ele, sorrindo.
Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?
Sebastio tornou a coar a barba, a testa:
- H de dar - disse.
Lusa olhava-o quase com ternura: parecia-lhe ver, na sua face honesta, uma alta 
beleza moral. E de p diante dele, com uma melancolia na voz:
- E vai fazer isso por mim, Sebastio, por mim, que fui to m mulher...
Sebastio corou, respondeu encolhendo os ombros:
- No h ms mulheres, minha rica senhora, h maus homens,  o que h!
E acrescentou logo:
- Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hem?... Uma frisazinha ao p do 
palco...
Sorria para a tranqilizar. Ela punha o chapu, descia o vu com pequeninos 
soluos tristes, que voltavam a espaos.
No corredor encontraram a tia Joana com os braos abertos: beijou muito Lusa; 
aquela visita era um milagre! E que bonita que estava! Era a flor do bairro!
- Est bom, tia Joana, est bom - disse Sebastio, afastando-a brandamente.
Ora que no fosse metedio! J l a tinha tido mais de meia hora, tambm ela 
agora a queria um bocadinho! Assim  que ele devia ter uma mulherzinha! Uma 
rapariga de bem! Uma aucena!
Lusa corava, embaraada.
E o Sr. Jorge? Que era feito dele? Ningum o via. E a D. Felicidade?
- Est bom, basta, tia Joana! - fez Sebastio impaciente.
- Olha o sfrego!... Ningum lhe come a menina!... Cruzes!... 
Lusa sorriu; lembrou-se ento de repente que no tinha por quem mandar os 
bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. Sebastio f-la entrar logo 
embaixo no escritrio: que escrevesse, ele os mandaria; escolheu-lhe o papel, 
molhando-lhe a pena - mais pronto, mais dedicado desde que a sabia infeliz. 
Lusa fez o bilhete para Jorge; e como apesar das suas aflies, se lembrou com 
terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou num P.S., 
no bilhete para ela: "o melhor  vires de preto, e no fazeres grande toalete. 
Nada de decotes nem de cores claras".
Quando entrou em casa, viu um galego saindo com a trouxazita de Joana. E logo no 
corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para 
cima, ameaadoramente:
- Torne eu a apanh-la, que no me sai viva das mos, sua bbeda!
- Bufa! Bufa! - gritou de cima Juliana. - Mas vai-te indo para o olho da rua!
Lusa escutava mordendo os beios. Em que se convertera a sua casa! Uma praa! 
Uma taberna!
- Se eu te apanho! - rosnava a Joana descendo.
- Rua! Rua, sua porca! - gania a Juliana. 
Lusa ento chamou a rapariga:
- Joana, no procure casa, venha por aqui alm de amanh - disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a Carta Adorada, com um jbilo estridente.
E da a pouco desceu, veio dizer, muito secamente, que estava o jantar na mesa.
Lusa no respondeu. Esperou que ela subisse  cozinha, correu  sala de jantar, 
trouxe po, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto; - e ali 
jantou, a um canto da jardineira.
s seis horas um trem parou  porta. Devia ser Sebastio! Foi ela mesma abrir, 
em bicos de ps. Era ele, animado, vermelho, com o chapu na mo: trazia-lhe a 
chave da frisa nmero dezoito...
- E isto...
Era um ramo de camlias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
- Oh, Sebastio! - murmurou ela, com um reconhecimento comovido.
- E carruagem, tem?
- No.
- Eu c mando. As oito, hem?
E desceu, todo feliz de a servir. Ela seguiu-o com o olhar que se umedecia. Foi 
 janela do quarto v-lo sair. - Que homem!" - pensava. E cheirava as violetas, 
voltava o ramo na mo, sentia tambm um prazer doce na proteo dele, nos seus 
cuidados.
Ns de dedos bateram  porta do quarto:
- Ento a senhora no quer jantar? - disse a voz impaciente de Juliana, de fora.
- No.
- Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Lusa ficou tranqila, vendo-a com 
vestido preto afogado, e o seu adereo de esmeraldas.
- Ento que  isto? Que estroinice  esta, vamos a saber? - disse logo, muito 
alegre, a excelente senhora.
Um capricho! - O Jorge tinha jantado fora, ela sentira-se to s!... Dera-lhe o 
apetite de ir ao teatro. No pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel 
Gibraltar.
- Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive 
para no vir - disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas 
do vestido. - Apertar-me depois de jantar! Felizmente no tinha comido quase 
nada!
Quis ento saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? 
Dezoito. Perdiam a vista da famlia real, era pena!... Pois estava mais longe 
daquela noitada de teatro!... - E erguendo-se passeava diante do toucador com 
olhares de lado, alisando os bands, ajeitando as pulseiras, entalada nos 
espartilhos, a pupila luzidia.
Uma carruagem parou  porta.
- O trem! - disse, toda risonha.
Lusa calando as luvas, j com a capa, olhava em redor: o corao batia-lhe 
alto; nos seus olhos havia uma febre. No lhe faltava nada? - perguntou D. 
Felicidade. A chave da frisa? O leno?
- Ai! O meu ramo! - exclamou Lusa.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida para teatro. Foi alumiar, calada; e 
atirando a cancela com uma pancada insolente:
- No tem mesmo vergonha naquela cara! - rosnou.
O trem j rodava quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
- Ai? - Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! No posso ir sem leque!
- Pare, cocheiro!
- Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma! - fez Lusa impaciente.
Aquelas agitaes abalavam a digesto comprimida de D. Felicidade; felizmente, 
como ela dizia, arrotava! Graas a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia 
arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, 
destacavam s portas vivamente alumiadas da Casa Havanesa; os trens passavam 
para o lado do Picadeiro, com um rpido reluzir de lanternas ricas, que 
alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade, com a sua 
face jubilosa  portinhola, gozava a claridade do gs nas vitrinas, o ar de 
inverno; e foi com uma satisfao que viu o guarda-porto do Gibraltar, de 
cales vermelhos, vir com o bon na mo,  portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam 
uma luz doce. D. Felicidade, muito curiosa da "vida de hotel", reparou na 
engomadeira que entrou com um cesto de roupa; depois numa senhora que lhe 
pareceu estabanada, e que descia, vestida de soire, mostrando o p calado num 
sapato redondo de cetim branco; e sorria de ver sujeitos roarem-se pelo trem, 
lanando para dentro olhares gulosos.
- Esto a arder por saber quem somos.
Lusa calada apertava nas mos o seu ramo. Enfim Jorge apareceu no alto da 
escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrssimo, de chapu 
ao lado, as mos nos bolsos de umas calas muito estreitas, e um enorme charuto 
enristado ao canto da boca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o 
sujeito apertou a mo de Jorge, falou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, 
bateu-lhe no ombro, obrigou-o muito seriamente a aceitar outro charuto - e pondo 
o chapu mais ao lado foi conversar com o guarda-porto.
Jorge correu  portinhola do trem, rindo:
- Ento que extravagncia  esta? Teatro, tipias!... Eu reclamo o divrcio! 
Parecia muito jovial. Somente tinha pena de no estar vestido... Ficaria atrs 
no camarote. E para as no amarrotar subiu para a almofada.
CAPTULO XIII
Passava das oito horas quando o trem parou em So Carlos. Um gaiato, que tossia 
muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, precipitou-se a abrir 
a portinhola; e D. Felicidade sorria de contentamento, sentindo a cauda do 
vestido de seda arrastar sobre o tapete esfiado do corredor das frisas.
O pano j estava levantado. Era  luz diminuda da rampa, a decorao clssica 
de uma cela de alquimista; embrulhado num roupo monstico, com uma abundncia 
hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto cantava, desiludido das 
cincias, pousando sobre o corao a mo onde reluzia um brilhante. Um cheiro 
vago de gs extravasado errava sutilmente. Aqui e alm tosses expectoravam. 
Havia ainda pouca gente. Entrava-se.
Na frisa, para se colocarem, D. Felicidade e Lusa cochichavam, com gestozinhos 
de recusa, olhares suplicantes:
- Oh, D. Felicidade, por quem !
- Se estou aqui muito bem...
- No consinto...
Enfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Lusa ficara 
atrs calando as luvas; enquanto Jorge arrumava os agasalhos, furioso com o 
chapu que j duas vezes rolara.
- Tem banquinho, D. Felicidade?
- Obrigada, c o sinto. - E remexeu os ps. - Que pena no se ver a famlia 
real!
Nos camarotes de assinantes iam aparecendo os altos penteados medonhos, 
enchumaados de postios; peitilhos de camisas branquejavam. Sujeitos entravam 
para as cadeiras devagar, com um ar gasto e ntimo, compondo o cabelo. 
Conversava-se baixo. Ao fundo da platia havia um rumor desinquieto entre moos 
de jaqueto; e  entrada, sob a tribuna, viam-se, num aparato militar, correames 
polidos de municipais, bons carregados de polcias; e reluzindo  luz, punhos 
de sabres.
Mas na orquestra correram fortes estremecimentos metlicos, dando um pavor 
sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um rudo de folhas de 
lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mefistfeles ergueu-se ao fundo, 
escarlate, lanando a perna com um ar charlato, as duas sobrancelhas 
arrebitadas, uma barbilha insolente, un bel cavalier; e enquanto a sua voz 
poderosa saudava o doutor, as duas plumas vermelhas do gorro oscilavam sem 
cessar de um modo fanfarro.
Lusa chegara-se para a frente; ao rudo da cadeira, cabeas na platia 
voltaram-se, languidamente; pareceu decerto bonita, examinaram-na; ela, 
embaraada, ps-se a olhar para o palco muito sria: - por trs de vus 
sobrepostos que se levantavam, numa afetao de viso, Margarida apareceu fiando 
o linho, toda vestida de branco; a luz eltrica, envolvendo-a num tom cru, 
fazia-a parecer de gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a to linda que a 
comparou a uma santa!
A viso desapareceu num trmulo de rebecas. E depois de uma ria, Fausto, que 
ficara imvel ao fundo do palco, debateu-se um momento dentro da tnica e das 
barbas, e emergiu jovem, gordinho, vestido de cor de lils, coberto de 
ps-de-arroz, compondo o frisado do cabelo. As luzes da rampa subiram; uma 
instrumentao alegre e expansiva ressoou; Mefistfeles, apossando-se dele, 
arrastou-o sfrego atravs da decorao. E o pano desceu rapidamente.
As platias ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um afrontada 
abanava-se. Examinaram ento as famlias, algumas toaletes; e sorrindo 
concordaram que estava do mais fino.
Nos camarotes conversava-se sobriamente; s vezes uma jia brilhava, ou a luz 
punha tons lustrosos de asa de corvo nos cabelos pretos onde alvejavam camlias 
ou reluzia o aro de metal de um pente; os vidros redondos dos binculos 
moviam-se devagar, picados de pontos luminosos.
Na platia, nas bancadas clareadas, sujeitos quase deitados namoravam com 
languidez; ou de p, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos diletantes, de 
leno de seda, tomavam rap, caturravam; e D. Felicidade interessava-se por duas 
espanholas de verde, que na superior imobilizavam, numa afetao casta, os seus 
corpos de lupanar.
Um colega de Jorge, magrinho e janota, entrou ento no camarote: parecia animado 
e perguntou logo se no sabiam o grande escndalo!... No. E o engenheiro, com 
gestos vivos das suas mozinhas caladas numas luvas esverdeadas, contou que a 
mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha fugido!... 
- Para o estrangeiro?
- Qual! - E a voz do engenheiro tinha agudos triunfantes. - Ai  que estava o 
bonito. Para casa de um espanhol que morava defronte!... Era divino! De resto - 
e a sua voz tornou-se grave e estava entusiasmado com o baixo!
E depois de ter sorrido, olhado pelo binculo, ficou calado, extenuado do que 
dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com um "Sim, 
Senhor!" familiar, ou um "Ento que  feito?" amigvel.
Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro saiu, em bicos de ps. E o pano 
ergueu-se devagar na alegria da quermesse, cheia de uma luz branca e dura. Casas 
acasteladas branquejavam no pano de fundo, nalguma colina do Reno amiga das 
vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo e folgazo Rei Cambrinus ria 
enormemente, erguendo, na sua atitude de tabuleta gtica, a vasta caneca 
emblemtica da cerveja germnica. E estudantes, judeus, reitres e donzelas, nas 
suas cores vivas de paninho, moviam-se de um modo automtico e sonmbulo, aos 
compassos largos da instrumentao festiva.
A valsa ento desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, em espirais 
suaves que ondeavam e fugiam: Lusa seguia os pezinhos das danarinas, as pernas 
musculosas volteando no tablado; e as saias tufadas e curtas faziam como o girar 
multiplicado e reproduzido de vagos discos de cambraia.
- Que bonito! - murmurava ela com uma felicidade no rosto.
- De apetite - afirmava D. Felicidade revirando os olhos.
Certas agudezas delicadas de flautins enterneciam Lusa; e a casa, Juliana, as 
suas misrias, tudo lhe parecia recuado, no fundo de uma noite esquecida.
Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos aduncos 
e rapaces, cantou o Dio del oro. A sua voz arremessada afirmava, num tom brutal, 
o poder do dinheiro; nas massas da instrumentao passavam sonoridades claras e 
tilintantes de um remexer sfrego de tesouros; e as notas altas finais caam, de 
um modo curto e seco, como marteladas triunfantes cunhando o divino ouro!
Lusa ento viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar negro, 
subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do Conselheiro Accio que 
cumprimentava, prometendo generosamente, com a mo espalmada, a sua visita 
prxima.
Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as imediatamente por terem escolhido 
aquela noite: a pera era das melhores e estava gente muito fina. Lamentou ter 
perdido o primeiro ato; ainda que no gostasse extremamente da msica, 
apreciava-o por ser muito filosfico. E, tomando da mo de Lusa o binculo, 
explicou os camarotes, disse os ttulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os 
deputados, apontou os literatos. - Ah! Conhecia bem So Carlos! Havia dezoito 
anos!
D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que no pudessem ver o 
camarote real: a rainha, como sempre, estava adorvel.
Sim? Como estava?
De veludo. No sabia se roxo, se azul-escuro. Afirmar-se-ia, e viria dizer...
Mas quando o pano subiu, ficou sentado por trs de Lusa comeando logo a 
explicar - que aquela (Siebel, colhendo flores no jardim de Margarida), posto 
que segunda dama, ganhava quinhentos mil ris por ms...
- Mas apesar destes ordenades morrem quase sempre na misria - disse com 
reprovao. - Vcios, ceias, orgias, cavalgadas...
A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, desfolhando o 
malmequer da legenda, caracterizada de virgem, com as duas longas tranas 
louras. Cismava, falava s, amava: a doce criatura sente em volta de si o ar 
pesado, e quereria bem que sua me voltasse!
Os olhos de Lusa encheram-se ento de melancolia, com a saudosa balada do rei 
de Tule; aquela melodia dava-lhe a vaga sensao de um plido pas de amores 
espirituais, banhado de luares frios, longe, no Norte, junto a um mar gemente - 
ou de tristezas aristocrticas, cismadas num terrao, sob a sombra de um 
parque...
Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:
- Agora  que ! Reparem. Agora  o ponto capital.
De joelhos, diante do cofre das jias, a dama requebrava-se, garganteando; 
apertava nas mos o colar, extasiada; punha os brincos com denguices delirantes; 
e da sua boca muito aberta saa um canto trinado, de uma cristalinidade aguda - 
entre o vago sussurro da admirao burguesa.
O Conselheiro disse discretamente:
- Bravo! Bravo!
E, excitado, dissertou: aquilo era o melhor da pera! Era ali que se via a fora 
das cantoras...
D. Felicidade quase tinha medo que lhe estalasse alguma coisa na garganta. 
Preocupava-se tambm com as jias. Seriam falsas? Seriam dela?
-  para a tentar, no  verdade?
-  um drama alemo - disse-lhe baixo o Conselheiro.
Mas Mefistfeles ia arrastando a boa Marta; Fausto e Margarida perdiam-se nas 
sombras cmplices do jardim afrodisaco - e o Conselheiro observou que todo 
aquele ato era um pouco fresco.
D. Felicidade murmurou-lhe - entre repreensiva e exttica:
- Quantas cenas no ter tido assim, magano!
O Conselheiro fitou-a, indignado:
- O qu, minha senhora? Levar a desonra ao seio de uma famlia!
Lusa fez-lhe chuta, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; uma faixa 
de luz eltrica enchia o jardim de um vago luar azulado, onde os macios 
arredondados se recortavam a pastas escuras; e Fausto e Margarida enlaados, 
quase desfalecidos soltavam de um modo expirante o seu dueto: uma sensualidade 
delicada e moderna, com relances de um requinte devoto, arrastava-se na 
orquestra gemente; o tenor esforava-se, agarrando o peito, com um jeito mrbido 
dos quadris, o olhar anuviado; e desprendendo-se da lnguida arcada dos 
violoncelos, o canto subia para as estrelas...
Al pallido chiarore 
dei astri d'oro.
Mas o corao de Lusa batia precipitadamente; vira-se de repente sentada no 
div, na sua sala, ainda tomada dos soluos do adultrio, e Baslio, com o 
charuto ao canto da boca, batia distrado no piano aquela ria - "Al pallido 
chiarore dei astri d'oro". Dessa noite tinha vindo toda a sua misria! - e 
subitamente, como longos vus fnebres que descem e abafam, as recordaes de 
Juliana, da casa, de Sebastio, vieram escurecer-lhe a alma.
Olhou o relgio. Eram dez horas. Que se passaria?
- Ests incomodada? - perguntou-lhe Jorge.
- Um pouco.
Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua janelinha. 
Fausto corre. Enlaam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o roncar dos 
rabeces - o pano desceu, pondo uma reticncia pudica...
D. Felicidade, abrasada, quis gua. Jorge apressou-se: queria bolos? Neve? A 
excelente senhora hesitou; o chique da neve atraa-a, mas coibiu-se com terror 
da clica. Veio sentar-se ao fundo ao p de Lusa, e ficou a olhar, vagamente 
cansada; havia um sussurro lento; bocejava-se discretamente; e o fumo dos 
cigarros, entrando de fora, fazia uma nvoa apenas perceptvel que enchia a 
sala, ia prender-se ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge 
saiu o Conselheiro acompanhou-o; ia acima tomar o seu copo de gelatina...
-  a minha ceia em dia de So Carlos - disse.
Voltou da a pouco, limpando os beios ao leno de seda, ter com Jorge que 
fumava no pequeno patamar junto  entrada das cadeiras:
- Veja isto, Conselheiro! - disse-lhe logo Jorge indignado, mostrando a parede. 
- Que escndalo!
Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes figuras 
obscenas; e algum, prudente e amigo da clareza, ajuntara por baixo as 
designaes sexuais com uma boa letra cursiva.
E Jorge, revoltado:
- E passam por aqui senhoras! Vem, lem! Isto s em Portugal!...
O Conselheiro disse:
- A autoridade devia intervir, decerto... - Acrescentou com bonomia: - So 
rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta distrao... - E sorrindo, 
recordando-se: - Uma ocasio mesmo, o Conde de Vila Rica, que tem graa, muita 
graa, insistiu comigo, dando-me o charuto, para que eu fizesse um desenho... - 
E mais baixo: - Eu dei-lhe uma lio severa. Tomei o charuto...
- E fumou-o?
- Escrevi.
- Uma obscenidade?
O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:
- Jorge, conhece o meu carter! Pois supe...? - E acalmando-se: - No, tomei o 
charuto e escrevi com mo firme: HONRA AO MRITO!
Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Lusa incomodada no quis 
sentar-se  frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu lugar - defronte de D. 
Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento feliz, de um gozo requintado. 
Estavam ambos, ali, como noivos! O seu peito abundante arfava; via-se a sarem; 
mais tarde de brao dado, entrarem num cup estreito, pararem  porta da casa 
conjugal, pisarem o tapete da alcova. Tinha um suor  raiz dos cabelos - e vendo 
o Conselheiro sorrir-lhe, amvel, com a sua calva toda luzidia ao gs, sentia um 
reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que quela hora, no fundo da 
Galiza, estava cravando agulhas num corao de cera!...
Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o chapu, saiu 
impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade empalideceu; seria alguma 
dor? Santo Deus! J murmurava baixo uma reza.
Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triunfante:
- De azul-escuro!
Abriram grandes olhos, sem compreender.
- Sua Majestade a rainha! Tinha prometido verific-lo, cumpri-o!
E sentou-se com solenidade, dizendo a Lusa:
- Lamento que se esconda nesse recanto, D. Lusa! Na sua idade! Na flor dos 
anos! Quando tudo na vida  cor-de-rosa!
Ela sorriu. Estava agora muito sobressaltada. A cada momento olhava o relgio. 
Sentia-se doente; os ps arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a cabea 
pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, em Sebastio, cortado de 
palpites, de esperanas, de terrores... E via, sem compreender, a multido de 
soldados vestidos de cores bipartidas, com armas obsoletas, que marchavam, 
paravam numa cadncia afetada, erguendo uma poeira sutil no tablado malregado. 
Um coro vigoroso ressoava: era a marcha arrogante e festiva dos reires alemes 
celebrando a alegria das excurses vitoriosas pelos pases do vinho, e a posse 
das bolsas mercenrias cheias de sonoros risdales! E os seus olhos seguiam um 
barbaas corpulento, que, por cima dos gorros quadrados dos besteiros, balanava 
monotonamente um largo quadrado de paninho - a bandeira do Santo Imprio, negra, 
vermelha e de ouro!
Mas ento ergueu-se um rumor no fundo da platia. Vozes duras altercavam. 
"Ordem! ordem!" dizia-se. Localistas na superior puseram-se rapidamente em bicos 
de ps na palhinha das cadeiras. Quatro policias e dois municipais apareceram  
porta do fundo; e depois de uma troa, de risadas, foram levando um moo lvido, 
que cambaleava - e o lado esquerdo do seu jaqueto de pelcia estava todo 
vomitado!
Mas fez-se logo silncio: o pano de fundo oscilava um pouco acotovelado pela 
sada festiva dos reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo  direita 
um prtico oscilante de catedral e  esquerda a portinha triste de uma casa 
burguesa, Valentim, com uma longa pra,  beira da rampa, beijava sofregamente 
uma medalha; mas Lusa no o escutava. Pensava com o corao confrangido: que 
far a esta hora Sebastio?
Sebastio, s nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do gs 
dentro dos candeeiros, dirigia-se devagar  casa de um comissrio de policia, 
seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, engelhada como uma 
ma raineta, levou-o ao quarto escolstico, onde o senhor comissrio estava a 
cozer uma grande constipao; encontrou-o com um gabo pelos ombros, os ps 
embrulhados num cobertor, tomando grogues quentes, e lendo o Homem dos trs 
cales. Apenas Sebastio entrou, tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e 
erguendo para ele os olhos pequeninos, chorosos de defluxo, exclamou:
- Estou com um diabo de uma constipao h trs dias, que me no quer largar... 
- E rosnou algumas pragas, passando a mo magra e nodosa sobre uma face 
trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho dava ferocidade.
Sebastio lamentou-o muito; no admirava, com a estao que ia!... 
Aconselhou-lhe gua sulfrica com leite fervido.
- Eu, se isto no despega - disse o comissrio rancorosamente -, atiro-lhe 
amanh para dentro com meia garrafa de genebra; e se no for por bem, h de ir  
fora... E que h de novo?
Sebastio tossiu, queixou-se de andar tambm adoentado, e chegando a cadeira 
para ao p do primo Vicente, pondo-lhe a mo sobre o joelho:
-  Vicente, tu, se eu te pedisse um polcia pra me acompanhar c para uma 
coisa, s para meter medo, s para fazer que uma pessoa restitua o que tirou, tu 
davas ordem, bem?
- Ordem para qu? - perguntou lentamente o Vicente, com a cabea baixa, os 
olhinhos avermelhados em Sebastio.
- Ordem para me acompanhar, para se mostrar.  s para se mostrar.  um caso 
esquisito... Para meter medo... Tu sabes que eu no sou capaz... E para que uma 
pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escndalo...
- Roupas? Dinheiro?
E o comissrio cofiava refletidamente o bigode com os seus longos dedos magros, 
muito queimados de cigarro.
Sebastio hesitou:
- Sim. Roupas, coisas... E para no haver escndalo... Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
- Um policia para se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
- No  coisa de poltica?
- No! - fez Sebastio.
O comissrio embrulhou mais os ps no cobertor, rolou em redor os olhos, 
ferozmente:
- Nem toca com gente grada?
- Qual!
- Um policia para se mostrar... - ruminava o Vicente. - Tu s um homem de bem... 
D c aquela pasta de cima da cmoda.
Tirou um papel pautado, examinou, acavalando a luneta no nariz, meditou com a 
mo em garra sobre a testa:
- O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastio, que no conhecia o Mendes, acudiu logo:
- Sim, quem quiseres.  s para se mostrar...
- O Mendes. E um homenzarro.  srio, foi da Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas vezes; 
cortou os tt, secou-a  chamin do candeeiro; e dobrando-a com solenidade:
-  segunda diviso!
- Obrigado, Vicente.  um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, homem. E no 
te esqueas: gua sulfrica da Farmcia Azevedo na Rua de So Roque; meia 
chvena de leite fervido... E obrigado. No queres nada, hem? ar 
- No. D uma placa ao Mendes.  srio, foi da Guarda!
- E acavalando as lunetas retomou o Homem dos trs cales.
Sebastio da a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava militarmente, 
com os braos um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de Jorge. No tinha 
ainda um plano definido. Calculava naturalmente que Juliana vendo quela hora da 
noite, o polcia com o seu terado, se aterraria, imaginaria Boa Hora, o 
Limoeiro, a costa da frica, entregaria as cartas, pediria misericrdia! E 
depois? Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brasil, ou dar-lhe 
quinhentos mil ris para ela se estabelecer longe, na provncia... O essencial 
era aterr-la!
Juliana com efeito, depois de abrir a porta, apenas viu subir, atrs de 
Sebastio o policia, fez-se muito amarela, exclamou:
- Credo! Que temos ns?
Estava embrulhada num xale preto, e o candeeiro de petrleo, que ela erguia, 
prolongava na parede a sombra disforme da cuia.
-  Sra. Juliana, faa o favor de acender luz na sala - disse Sebastio 
tranqilamente.
Ela fixava no polcia um olhar faiscante e inquieto.
-  senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores no esto em casa. Eu se soubesse 
nem tinha aberto... H alguma novidade? Olha o propsito!
- No  nada... - disse Sebastio, abrindo a porta da sala. - Tudo em paz.
... Ele mesmo acendeu com um fsforo uma vela na serpentina - que fez sair 
vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a plida face do 
retrato da me de Jorge, um reflexo de espelho.
-  Sr. Mendes, sente-se, sente-se!
O Mendes colocou-se  beira da cadeira com a mo na cinta, o terado entre os 
joelhos, muito soturno.
- Esta  que  a pessoa - disse Sebastio indicando Juliana, que ficara  porta 
da sala atnita.
A mulher recuou, lvida:
-  senhor Sebastio, que brincadeira  esta?
- No  nada, no  nada...
Tomou-lhe o candeeiro da mo, e tocando-lhe no brao:
- Vamos l dentro  sala de jantar.
- Mas que ?  alguma coisa comigo? Credo! E esta! Olha que desconchavo!
Sebastio fechou a porta da sala de jantar, pousou o candeeiro sobre a mesa, 
onde havia ainda um prato com cdeas de queijo e um fundo de vinho num copo, deu 
alguns passos fazendo estalar nervosamente os dedos, e parando bruscamente 
diante de Juliana:
- D c umas cartas que roubou  senhora...
Juliana teve um movimento para correr  janela, gritar.
Sebastio agarrou-lhe o brao, e fazendo-a sentar com fora sobre a cadeira:
- Escusa de ir  janela gritar, a policia j est dentro de casa. D c as 
cartas, ou para a enxovia!
Juliana entreviu num relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo do rancho, 
a enxerga nas lajes frias...
- Mas que fiz eu? - balbuciava. - Que fiz eu?
- Roubou as cartas. D-as para c, avie-se.
Juliana, sentada  beira da cadeira, apertando desesperadamente as mos, rosnava 
por entre os dentes cerrados:
- A bbeda! A bbeda!
Sebastio, impaciente, ps a mo no fecho da porta.
- Espere, seu diabo! - gritou ela erguendo-se com um salto. Fixou-o 
rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mo no peito, tirou uma 
carteirinha. Mas de repente batendo com o p, num frenesi:
- No! No! No!
- Diabos me levem se voc no for dormir  enxovia! - Entreabriu a porta. -  
Sr. Mendes!
- A tem! - gritou ela atirando-lhe a carteira. E brandindo para ele os punhos: 
- Raios te partam, malvado!
Sebastio apanhou a carteira. Havia trs cartas: uma muito dobrada era de Lusa; 
leu a primeira linha: "Meu adorado Baslio"; e muito plido guardou logo tudo na 
algibeira interior do casaco. Abriu ento a porta: a possante figura do Mendes 
estava na sombra.
- Est tudo arranjado, Sr. Mendes - a voz tremia-lhe um pouco -, no lhe quero 
tomar mais tempo.
O homem fez uma continncia, calado; quando Sebastio, no patamar, lhe resvalou 
na mo uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, com uma voz 
pegajosa:
- E para o que quiser, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da Guarda. No se 
incomode Vossa Senhoria. s ordens de Vossa Senhoria minha mulher e filhos 
agradecem. No se incomode Vossa Senhoria. O sessenta e quatro, O Mendes, que 
foi da Guarda!
Sebastio fechou a cancela, voltou  sala de jantar. Juliana ficara numa 
cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:
- A bbeda foi-lhe contar tudo! Foi voc que arranjou a armadilha! Tambm voc 
dormiu com ela!...
Sebastio, muito branco, dominava-se.
- V pr o chapu, mulher. O Sr. Jorge despediu-a. Amanh mandar buscar os 
bas...
- Mas o homem h de saber tudo! - berrou ela. - Este teto me rache se eu no lhe 
disser tudo tintim por tintim. Tudo! As cartas que recebia, onde ia ver o homem. 
Deitava-se com ela na sala, at os pentes lhe caam na balbrdia. At a 
cozinheira lhes sentia o alarido!
- Cale-se! - bradou Sebastio com uma punhada na mesa, que fez tremer toda a 
loua do aparador e esvoaar os canrios. E com a voz toda trmula, os beios 
brancos: - A polcia tem o seu nome, sua ladra! A menor palavra que voc diga 
vai para o Limoeiro, e pela barra fora. Voc no roubou s as cartas; roubou 
roupas, camisas, lenis, vestidos... - Juliana ia falar, gritar. - Bem sei
- continuou ele violentamente -, - deu-lhos ela, mas  fora, porque voc a 
ameaava. Voc arrancou-lhe tudo.  roubo.  de frica! -  o que  dizer ao 
Jorge, pode ir dizer. V. Veja se ele a acredita. Diga! So algumas bengaladas 
que leva por esses ombros, sua ladra!
Ela rangia os dentes; Estava apanhada! Eles tinham tudo por si, a polcia, a Boa 
Hora, a cadeia, a frica!... E ela - nada!
Todo o seu dio contra a Piorrinha fez exploso. Chamou-lhe os nomes mais 
obscenos. Inventou infmias.
-  que nem as do Bairro Alto! E eu - gritava - sou uma mulher de bem, nunca um 
homem se pode gabar de tocar neste corpo. Nunca houve raio nenhum que me visse a 
cor da pele. E a bbeda!... - Tinha arremessado o xale, alargou ansiosamente o 
colar do vestido. - Era um desaforo por essa casa! E o que eu passei com a bruxa 
da tia!  o pago que me do! Os diabos me levem se eu no for para os jornais. 
Vi-a eu abraada ao janota, como uma cabra!
Sebastio a seu pesar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por aqueles 
pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe as 
palavras. Quando ela se calou arquejante:
- V, ponha o chapu, e para a rua!
Juliana ento alucinada de raiva, com os olhos sados das rbitas, veio para ele 
e cuspiu lhe na cara!
Mas de repente a boca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para trs, levou 
com nsia as mos ambas ao corao, e caiu para o lado, com um som mole, como um 
fardo de roupa.
Sebastio abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma roxa aparecia-lhe aos 
cantos da boca.
Agarrou no chapu, desceu as escadas, correu at a Patriarcal. Um cup passava; 
atirou-se para dentro, mandou a "todo o que der", para a casa de Julio; e 
obrigou-o a vir imediatamente, mesmo em chinelas, sem colarinho.
-  caso de morte,  a Juliana - balbuciava muito plido.
E pelo caminho, entre o rudo das rodas e o tilintar dos caixilhos, contava ente 
que entrara em casa de Lusa, que achara Juliana muito despeitada por ter sido 
despedida, e que a falar, a esbracejar, de repente, tombara para o lado!
- Foi o corao. Estava para dias - disse Julio, chupando a ponta do cigarro.
Pararam. Mas Sebastio desorientado, ao sair, fechara a porta! E dentro s a 
morta! O cocheiro ofereceu a sua gazua, que serviu.
- Ento nem se vai a uma passeatinha ao Dafundo, meus fidalgos? - disse o homem, 
metendo a gorjeta na algibeira.
Mas vendo-os atirar com a porta:
- Tambm no  gente disso - rosnou com desprezo, batendo a parelha.
Entraram.
No pequeno ptio o silncio da casa pareceu a Sebastio pavoroso. Subia, 
aterrado, os degraus, que se lhe afiguravam infindveis; e, com fortes pancadas 
do corao, esperava ainda que ela estivesse apenas adormecida num desmaio 
simples, ou j de p, plida e respirando!
No. L estava como a deixara, estendida na esteira, com os braos abertos, os 
dedos retorcidos como garras. A convulso das pernas arregaara-lhe as saias, 
viam-se as suas canelas magras com meias de riscadinho cor-de-rosa e as chinelas 
de tapete; o candeeiro de petrleo, que Sebastio esquecera ao p sobre uma 
cadeira, punha tons lvidos na testa, nas faces rgidas; a boca torcida fazia 
uma sombra; e os olhos medonhamente abertos, imobilizados na agonia repentina, 
tinham uma vaga nvoa, como cobertos de uma teia de aranha difana. Em redor 
tudo parecia mais imvel, de um hirto morto. Vagos reflexos de prata reluziam no 
aparador; e o tique-taque do cuco palpitava sem descontinuar.
Julio apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mos, disse:
- Est morta com todas as regras. E necessrio tir-la daqui. Onde  o quarto?
Sebastio, plido, fez sinal com o dedo que era por cima.
- Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candeeiro. - E como Sebastio no se movia: - 
Tens medo? - perguntou rindo.
Escarneceu-o: que diabo, era matria inerte, era como quem agarrava uma boneca! 
Sebastio, com um suor  raiz dos cabelos, levantou o cadver por debaixo dos 
braos, comeou a arrast-lo, devagar. Julio adiante erguia o candeeiro; e por 
fanfarronada cantou os primeiros compassos da marcha do Foosto. Mas Sebastio 
escandalizou-se, e com uma voz que tremia:
- Largo tudo, e vou-me...
- Respeitarei os nervos da menina! - disse Julio curvando-se.
Continuaram calados. Aquele corpo magro parecia a Sebastio de um peso de 
chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinelas do cadver soltou-se, rolou. E 
Sebastio sentia aterrado alguma coisa que lhe batia contra os joelhos; era a 
cuia cada, suspensa por um atilho.
Estenderam-na na cama; Julio, dizendo que se deviam seguir as tradies- 
ps-lhe os braos em cruz e fechou-lhe os olhos.
Esteve um momento a olh-la:
- Feia besta! - murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha enxovalhada.
Ao sair examinou, admirado, o quarto:
- Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!
Fechou a porta, deu a volta  chave:
- Requiescat in pace - disse.
E desceram, calados.
Ao entrar na sala, Sebastio, muito plido, ps a mo no ombro de Julio:
- Ento achas que foi o aneurisma?
- Foi. Enfureceu-se, estourou.  dos livros...
- Se no se tivesse zangado hoje...
- Estourava amanh. Estava nas ltimas... Deixa em paz a criatura. Est 
comeando a esta hora a apodrecer, no a perturbemos.
Declarou ento, esfregando as mos com frio, que comia alguma coisa. Achou no 
armrio um pedao de vitela fria, uma garrafa meia de Colares. Instalou-se e, 
com a boca cheia, deitando o vinho do alto:
- Ento sabes a novidade, Sebastio?
- No.
- O meu concorrente foi despachado!
Sebastio murmurou:
- Que ferro!
- Era previsto - disse Julio com um grande gesto. - Eu ia fazer um escndalo, 
mas... - e teve um risinho - amansaram-me! Estou num posto mdico, deram-me um 
posto mdico! Atiraram-me um osso!
- Sim? - fez Sebastio. - Homem, ainda bem, parabns. E agora?
- Agora, ro-lo.
De resto, tinham-lhe prometido a primeira vagatura. O posto mdico no mau... Em 
definitivo, a situao melhorara...
- Mas mesquinha, mesquinha! No saio do atoleiro...
Estava farto de Medicina, disse depois de um silncio. Era um beco sem sada. 
Devia-se ter feito advogado, poltico, intrigante. Tinha nascido para isso!
Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mo, a voz cortante, 
exps um plano de ambio: - O pas est a preceito para um intrigante com 
vontade! Esta gente toda est velha, cheia de doenas, de catarros de bexiga, de 
antigas sfilis! Tudo isto est podre por dentro e por fora! O velho mundo 
constitucional vai a cair aos pedaos... Necessitam-se homens!
E plantando-se diante de Sebastio:
- Este pais, meu caro amigo, tem-se governado at aqui com expedientes. Quando 
vier a revoluo contra os expedientes, o pas h de procurar quem tenha os 
princpios. Mas quem tem a princpios? Quem tem a quatro princpios? Ningum; 
tm dvidas, vcios secretos, dentes postios; mas princpios, nem meio! Por 
conseqncia se houver trs patuscos que se dem ao trabalho de estabelecer meia 
dzia de princpios srios, racionais, modernos, positivos, o pas tem de se 
atirar de joelhos e suplicar-lhes: "Senhores, fazei-me a honra insigne de me pr 
o freio nos dentes!" Ora, eu devia ser um destes. Nasci para isso! E seca-me a 
idia de que enquanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes, ho de 
estar no poleiro a reluzir ao sol, al hermoso sol portugus, como se diz nas 
zarzuelas, eu hei de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar 
as rupturas de algum desembargador caduco.
Sebastio calado pensava na outra, morta em cima.
- Estpido pas, estpida vida! - rosnou Julio.
Mas uma carruagem entrou na rua, parou  porta.
- Chegam os prncipes! - disse Julio. Desceram logo.
Jorge ajudava a Lusa a sair do trem, quando Sebastio, abrindo a porta 
bruscamente:
- Houve c grande novidade!
- Fogo? - gritou Jorge voltando-se aterrado.
- A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma - disse a voz de Julio da sombra da 
porta.
- Oh, com os diabos! - E Jorge atarantado procurava  pressa na algibeira troco 
para o cocheiro.
- Ai, eu j no entro! - exclamou logo D. Felicidade, mostrando  portinhola a 
sua larga face envolvida numa manta branca. - Eu j no entro!
- Nem eu! - fez Lusa toda trmula.
- Mas para onde queres que vamos, filha? - exclamou Jorge.
Sebastio lembrou que podiam ir para casa dele. Tinha o quarto da mam, era s 
pr lenis na cama.
- Vamos, sim! Vamos, Jorge!  o melhor! - suplicou Lusa.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao ver aquele grupo 
junto  lanterna do trem, parou. E Jorge enfim, instado, muito contrariado, 
consentiu.
- Diabo de mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, D. 
Felicidade...
- E a mim, que estou em chinelas! - acudiu Julio.
D. Felicidade lembrou ento, como crist, que era necessrio algum, para velar 
a morta...
- Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade! - exclamou Julio entrando logo para a 
carruagem, batendo com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religio! Ao menos pr duas velas, 
mandar chamar um padre!...
- Largue, cocheiro! - berrou Julio impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade  portinhola, apesar de Julio que a 
puxava pelos vestidos, gritava:
-  um pecado mortal!  uma irreverncia! Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote:
Lusa agora tinha escrpulos: realmente podia-se mandar chamar algum...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, quela hora? Que beatice! Estava morta, 
acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez cmara ardente. 
Queria ela ir vel-la?...
- Ento, Jorge, ento!... - murmurava Sebastio.
- No,  demais!  vontade de criar embaraos, que diabo!
Lusa baixava a cabea; e, enquanto Jorge, praguejando, ficou atrs a fechar a 
porta da casa, ela foi descendo a rua pelo brao de Sebastio.
- Estourou de raiva - disse-lhe ele baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idia, irem dormir agora fora de casa! Realmente 
era levar muito longe as mariquices!...
At que Lusa lhe disse, quase chorando:
- V se me queres torturar mais e fazer-me mais doente, Jorge!
Ele calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastio, para a sossegar, props 
que viesse a tia Vicncia, a preta, velar a Juliana.
- Era talvez melhor - murmurou Lusa.
Chegaram  porta de Sebastio. O frufru do vestido de seda de Lusa, quela 
hora, na sua casa, dava uma comoo a Sebastio: a mo tremia-lhe ao acender as 
velas da sala. Foi acordar a tia Vicncia para fazer ch; tirou ele mesmo os 
lenis dos bas, apressado, feliz daquela hospitalidade. Quando voltou  sala, 
Lusa estava s, muito plida, ao canto do sof.
- Jorge? - perguntou ele.
- Foi ao seu escritrio, Sebastio, escrever ao proco para o enterro... E com 
os olhos brilhantes, numa voz sumida e assustada: - Ento?
Sebastio tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ela agarrou-a 
sofregamente - e com um movimento brusco tomou-lhe a mo e beijou-lha.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
- Ento agora est mais descansada, a menina?
- Inteiramente - disse ela com um suspiro de alvio.
Foram tomar ch. Sebastio contou a Jorge, corando um pouco, a maneira como 
entrara em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fora despedida, e falando, 
exaltando-se, zs, de repente, cara para o lado morta...
E acrescentou:
- Coitada!
Lusa via-o mentir, olhando-o com adorao.
- E a Joana? - perguntou Jorge de repente. Lusa, sem se perturbar, respondeu:
- Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licena para ir ver uma tia que est 
muito mal, para os lados de Belas... Diz que volta amanh... Mais uma gota de, 
ch, Sebastio...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicncia - e ningum velou a morta.
 
CAPTULO XIV
Lusa passou a noite s voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou assustado da 
freqncia do seu pulso e do calor seco da pele.
Ele mesmo muito nervoso, no pudera dormir.
O quarto, onde se no acendera luz havia muito, tinha uma frialdade desabitada 
na parede, junto ao teto, havia manchas de umidade; e a cama antiga de colunas 
torneadas sem cortinados, o velho tren do sculo passado com o seu espelho 
embaciado davam,  luz bruxuleante da lamparina, um sentimento triste de 
convivncias extintas. O achar-se ali com a sua mulher, numa cama alheia, 
trazia-lhe, sem saber por qu, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua 
vida uma alterao brusca - e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a 
sua existncia, desde essa noite, comearia a correr entre aspectos diferentes. 
O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraa, e uivava encanado na rua.
Pela manh, Lusa no se pde levantar.
Julio, chamado  pressa, tranqilizou-os:
-  uma febrezita nervosa. Quer sossego, no vale nada. Foi o medozinho de 
ontem, hem?
- Sonhei toda a noite com ela - disse Lusa. - Que tinha ressuscitado... Que 
horror!
- Ah! Pode estar sossegada... E j a aviaram, a mulher?
- O Sebastio l anda com a maada - disse Jorge. - E eu vou dar uma vista de 
olhos.
Na rua j se sabia a morte da Tripa Velha.
A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas com os 
olhos avermelhados da paixo da aguardente, era conhecida da Sra. Helena. 
Estiveram um momento a palrar ao sol,  porta do estanque:
- Muito que fazer agora, Sra. Margarida, hem?
- Bastante, bastante, Sra. Helena - disse a amortalhadeira com a voz um pouco 
rouca. - No inverno sempre h mais obra. Mas tudo gente velha, com os frios. Nem 
um corpinho bonito para vestir...
A Sra. Margarida tinha predilees artsticas. Gostava de um bonito corpo de 
dezoito anos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava  
m cara a gente velha. Mas com as raparigas novas esmerava-se: acatitava as 
pregas da mortalha; calculava o chique de uma flor, de um lao; trabalhava com 
os requintes ajanotados de uma modista do sepulcro.
A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, os favores dos 
patres, as tafularias dela, os luxos do quarto tapetado... A Sra. Margarida 
dizia-se "banzada". E para quem agora iria tudo aquilo? - perguntavam. - A Tripa 
Velha no tinha parentes...
- Era uma riqueza para a minha Antoninha! - disse a amortalhadeira traando o 
xale com tristeza.
- Como vai ela, a pequena?...
- Aquilo vai mal, Sra. Helena. Aquela cabea doida! - E exalando a sua dor com 
loquacidade: - Deixar o brasileiro que a trazia nas palminhas... E por quem? Por 
aquele desalmado, que lhe come tudo, que j lhe arranjou um filho e que a 
derreia com pau... Mas ento, as raparigas so assim... Vo atrs do palmo de 
cara... Que ele  bonito rapaz! Mas um bbedo!... Coitada!... Pois vou vestir a 
boneca, Sra. Helena. - E entrou na casa compungidamente.
O padre j chegara tambm. Estava na sala com Sebastio, que conhecia de Almada, 
e falava de lavoura, de enxertos, das regas, numa voz grossa - passando, com um 
gesto lento da sua mo cabeluda, o leno enrolado por debaixo do nariz. As 
janelas em toda a casa estavam abertas ao sol muito doce. Os canrios 
chilreavam.
- E estava h muito tempo na casa, a defunta? - perguntou o padre a Jorge, que 
passeava pela sala, fumando.
- H quase um ano.
O padre desdobrou lentamente o leno, e sacudindo-o, antes de se assoar:
- A sua senhora h de sentir muito...  um tributo universal!...
E assoou-se com estrondo.
A Joana, ento, de xale e leno, apareceu, em bicos de ps. Soubera pelos 
vizinhos que a Juliana "arrebentara", que os senhores estavam em casa do Sr. 
Sebastio. Vinha de l. Lusa mandara-a entrar no quarto. Quando a viu doente, a 
sua rica senhora, lacrimejou muito. Lusa disse-lhe - que agora estava tudo como 
dantes, podia voltar...
- E oua. Joana, se o Sr. Jorge lhe perguntar... que esteve em Belas com  
tia...
A rapariga fora logo buscar a trouxa e vinha instalar-se - um pouco assustada da 
morte em casa.
Da a pouco o Paula bateu discretamente  porta.
Ali vinha oferecer-se para o que fosse necessrio naquele transe! E tirando e 
pondo rapidamente o bon, raspando o p, dizia com a sua voz catarrosa:
- Lamento a desgraa, lamento a desgraa! Todos somos mortais...
- Bem, bem, Sr. Paula, no  necessrio nada - disse Jorge. - Obrigado!
E fechou bruscamente a cancela.
Estava impaciente por se desembaraar "daquela estopada"; e mesmo como o 
enfastiavam as marteladas espaadas dos homens pregando o caixo, em cima, 
chamou a Joana:
- Diga a essa gente que se avie. No vamos ficar aqui toda a vida!
A Joana foi logo dizer que o senhor estava um frenesi! Tinha-se feito j ntima 
da Sra. Margarida. A amortalhadeira fora mesmo com ela  cozinha para tomar uma 
"sustanciazinha". Como o lume estava apagado, contentou-se com sopas de po em 
vinho.
- Sopinha de burro - dizia, fazendo estalar a lngua.
Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo de 
sardinha seca! E pondo um olhar complacente nas belas formas de Joana: - A 
menina, no. A menina tem-me o ar de ter muito bom corpo... - E parecia calcular 
como talharia a mortalha para aquelas linhas robustas.
Joana disse escandalizada:
- Longe v o agouro, cruzes!
A outra sorriu; faltavam-lhe dois dentes; e aflautando a voz:
- Tem-me passado pela mo muita gente fina, minha menina. Mais uma gotinha de 
vinho, faz favor?  do Cartaxo, no?  muito aveludado! Rica gota!
Enfim, com grande satisfao de Jorge, s quatro horas os homens desceram o 
caixo. A vizinhana estava pelas portas. O Paula, mesmo por fanfarronada, disse 
com dois dedos adeus ao esquife, murmurando:
- Boa viagem!
Jorge em cima, ao sair, perguntou a Joana:
- E voc no tem medo de ficar aqui s?
- Eu no, meu senhor. Quem vai no volta!
Tinha medo, com efeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, e 
batia-lhe o corao de alegria de "terem a casa por sua" at de manh, e de se 
poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do div da sala.
Jorge voltou com Sebastio para casa, e apenas entrou no quarto, onde Lusa 
estava deitada:
- Tudo pronto - disse, esfregando as mos. - L vai para o Alto de So Joo, 
devidamente acondicionada. Per omnia saecula soeculorum!
A tia Joana, que estava  cabeceira de Lusa, acudiu:
- Ai, quem l vai, l vai... Mas boa mulher no era ela!
- Era um bom estafermo - disse Jorge. - Esperemos que a esta hora esteja a 
ferver na caldeira de Pero Botelho. No  verdade, tia Joana?
- Jorge! - fez Lusa repreensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo dois 
padre-nossos por alma.
Foi tudo o que a terra deu na sua morte quela que ia rolando a essa hora, ao 
trote de duas velhas guas, para a vala dos pobres, e que fora na vida Juliana 
Couceiro Tavira!
No dia seguinte Lusa estava melhor; falaram mesmo, com grande desconsolao da 
tia Joana, em voltar para casa. Sebastio no dizia nada, mas quase desejava 
secretamente que uma convalescena a retivesse ali semanas indefinidas. Ela 
parecia to agradecida! Tinha olhares to reconhecidos, que s ele compreendia! 
E era to feliz tendo-a ali e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia 
Vicncia sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala com respeito, quase 
em bicos de ps, como se a presena dela santificasse a casa; enchia os vasos de 
camlias e violetas; sorria beatamente ao ver Jorge,  sobremesa, saborear e 
gabar o seu velho conhaque; sentia alguma coisa de bom acalent-lo como um manto 
acolchoado e macio; e j pensava que, quando ela partisse, tudo lhe pareceria 
mais frio, e com uma tristeza de runa!
Mas da a dois dias voltaram para casa.
Lusa ficou muito agradada com a criada nova. Fora Sebastio que a arranjara. 
Era uma rapariguita asseadinha e branca, com grandes olhos bonitos e pasmados, 
um ar amorvel; chamava-se Mariana; e foi logo correndo dizer a Joana que morria 
pela senhora! Tinha uma carinha de anjo! Que linda que era!
Jorge logo nessa manh mandou os dois bas de Juliana  tia Vitria.
Lusa, quando ele saiu  tardinha, fechou-se no quarto, com a carteirinha de 
Juliana, correu os transparentes por precauo, acendeu uma vela, e queimou as 
cartas. As mos tremiam-lhe; e via, com os olhos marejados de lgrimas, a sua 
vergonha, a sua escravido irem-se, dissiparem-se num fumo alvadio! Respirou 
completamente! Enfim! E fora Sebastio, aquele querido Sebastio!
Foi ento  sala,  cozinha, ver a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua vida cheia 
de doura; abriu todas as janelas; experimentou o piano; rasgou mesmo em 
pedaos, por superstio, a msica da Medj, que lhe dera Baslio; conversou 
muito com a Mariana; e saboreando o seu caldo de galinha de convalescente, com a 
face alumiada de felicidade:
- "Que bem que vou passar agora!" - pensava.
Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, deitou-lhe os 
braos ao pescoo, e com a cabea no ombro dele:
- Estou to contente hoje! E se tu soubesses,  to boa rapariga a Mariana!
Mas nessa noite a febre voltou. Julio, de manh achou-a pior. Crescimentos... - 
disse descontente.
Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou toda 
surpreendida de ver Lusa doente; e debruando-se sobre ela, disse-lhe logo ao 
ouvido:
- Tenho que te contar!
Apenas Jorge e Julio saram, desabafou, sentada aos ps da cama - com uma voz 
ora baixa pela gravidade da confidncia, ora aguda pelo mpeto da indignao:
Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandara a Tui, o grande 
ladro, tinha escrito  Gertrudes,  criada, que no estava resolvido a voltar a 
Lisboa; que a mulher de virtude mudara de povoao; que ele no queria saber 
mais desse negcio e que at o achava esquisito; que oferecia o seu prstimo em 
Tui - tudo isto numa boa letra de escrevente pblico, num portugus horrvel - e 
do dinheiro nem palavra!
- Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu, se no fosse pela vergonha, ia 
direita  policia... Ai! Os galegos pra mim acabaram! Por isso o Conselheiro no 
se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lanou a sorte!... - Porque se j no 
acreditava na honestidade dos galegos, no perdera a f no poder das bruxas.
Que ela no era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe onde 
estaria agora a mulher! Ai, era de endoidecer!... Que te parece, hem?
Lusa encolheu os ombros, muito abafada na roupa, as faces escarlates, 
cerravam-lhe os olhos numa sonolncia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe 
vagamente um suadouro, suspirando; e, como Lusa no lhe podia dar consolaes, 
saiu para ir  Encarnao desabafar com a Silveira.
Nessa madrugada Lusa piorou. A febre recrudescera. Jorge inquieto, vestiu-se  
pressa, s nove horas da manh, foi buscar Julio. Descia a escada rapidamente, 
abotoando ainda o palet, quando o carteiro subia, tossindo o seu catarro.
- Cartas? - perguntou Jorge.
- Uma para a senhora - disse o homem. - Fl de ser para a senhora...
Jorge olhou o envelope; tinha o nome de Lusa, vinha da Frana.
- De quem diabo  isto? - pensou. Meteu-a no bolso do palet, e saiu.
Da a meia hora voltava com Julio, num trem.
Lusa dormitava, amodorrada.
-  preciso cautela... Vamos a ver... - murmurou Julio coando devagar a 
cabea, enquanto do outro lado do leito Jorge o olhava ansiosamente.
Receitou e ficou para almoar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. A Mariana, 
abafada num casabeque, servia com os dedos vermelhos, inchados de frieiras. E 
Jorge sentia-se entristecer, como se toda a nvoa do ar se lhe fosse lentamente 
depositando e condensando na alma.
A que se podia atribuir semelhante febre? - dizia, muito desconsolado. To 
extraordinrio! Havia seis dias, ora melhor, ora pior...
- Estas febres vm por tudo - replicou Julio, partindo tranqilamente uma 
torrada - s vezes por uma corrente de ar, s vezes por um desgosto. Tenho eu, 
por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que esteve para falir, e que 
viveu, coitado, durante dois meses em torturas. H duas semanas, por um golpe de 
fortuna - a velhaca s vezes tem destes caprichos - arranjou todos os seus 
negcios, viu-se livre. Pois senhor, desde ento tem uma febre assim, tortuosa, 
complexa, com sintomas disparatados... O que ?  que a excitao nervosa 
abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma revoluo no sangue. Pode muito bem dar  
casca. Faz ento a falncia geral, a grande, aquela em que o credor  
implacvel, saca  vista, e... per omnia saecula!
Ergueu-se, e acendendo o cigarro:
- Em todo o caso um repouso absoluto. E necessrio ter-lhe o esprito em algodo 
em rama. Nada de palestra, nada de frases, e se tiver sede, limonada. At logo!
E saiu, calando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia ao posto 
mdico.
Jorge voltou  alcova: Lusa ainda dormitava. Mariana, sentada ao p numa 
cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, no tirava de Lusa os seus 
grandes olhos vagamente espantados.
- Tem estado muito inquieta - murmurou.
Jorge apalpou a mo de Lusa que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a 
devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janela, defronte da alcova. - E 
passeando no escritrio, voltavam-lhe as palavras de Julio: "So febres que vm 
por um desgosto!" Pensava na histria do negociante, recordava aquele estado de 
abatimento e de fraqueza de Lusa que o preocupava tanto, ultimamente, to 
inexplicvel! Ora, tolices! Desgosto de qu? Em casa de Sebastio estivera to 
animada! Nem a morte da outra lhe fizera abalo! - De resto acreditava pouco nas 
febres de desgosto! Julio tinha uma Medicina literria. Pensou mesmo que seria 
mais prudente chamar o velho Dr. Caminha...
Ao meter a mo no bolso, ento, os seus dedos encontraram uma carta: era a que o 
carteiro lhe dera, de manh, para Lusa. Tornou a examin-la com curiosidade; o 
sobrescrito era banal, como os que h nos cafs ou nos restaurantes; no 
conhecia a letra; era de homem, vinha da Frana... Atravessou-o um desejo rpido 
de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um 
cigarro.
Voltou  alcova. Lusa permanecia na sua modorra: a manga do chambre arregaada 
descobria o brao mimoso, com a sua penugem loura; a face escarlate fazia as 
pestanas longas pousavam pesadamente, no adormecimento das plpebras finas; um 
anel do cabelo cara-lhe sobre a testa, e pareceu a Jorge adorvel e tocante com 
aquela cor, a expresso da febre. Pensou, sem saber por que, que outros a 
deveriam achar linda, desej-la, dizer-lho, se pudessem... Para que lhe 
escreviam da Frana? Quem?
Voltou ao escritrio, mas aquela carta sobre a mesa irritava-o: quis ler um 
livro, atirou-o logo impaciente; e ps-se a passear, torcendo muito nervoso o 
forro das algibeiras.
Agarrou ento a carta, quis ver, atravs do papel delgado do envelope; os dedos, 
mesmo irresistivelmente, comearam a rasgar um ngulo do sobrescrito. Ah! No 
era delicado aquilo!... Mas a curiosidade, que governava o seu crebro, 
sugeriu-lhe toda a sorte de raciocnios, com uma tentao persuasiva: - estava 
doente, e podia ter alguma coisa urgente; se fosse uma herana? Depois ela no 
tinha segredos, e ento em Frana! Os seus escrpulos eram pueris! Dir-lhe-ia 
que a abrira por engano. E se a carta contivesse o segredo daquele desgosto, do 
desgosto das teorias de Julio!... Devia abri-la ento para a curar melhor!
Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mo. Num relance vido devorou-a. 
Mas no compreendeu bem; as letras embrulhavam-se; chegou-se  janela, releu 
devagar:
Minha querida Lusa.
Seria longo explicar-te, como s antes de ontem em Nice - de onde cheguei esta 
madrugada a Paris - recebi a tua carta que pelos carimbos vejo que percorreu 
toda a Europa atrs de mim. Como j l vo dois meses e meio que a escreveste, 
imagino que te arranjaste com a mulher, e que no precisas do dinheiro. De resto 
se por acaso o queres, manda o telegrama e tem-lo a em dois dias. Veio pela tua 
carta que no acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negcios. 
Es bem injusta. A minha partida no te devia ter tirado, como tu dizes, 'todas 
as iluses sobre o amor', porque foi realmente quando sa de Lisboa que percebi 
quanto te amava, e no h dias, acredita, em que me no lembre do Paraso. Que 
boas manhs! Passaste por l por acaso alguma outra vez? Lembra-te do nosso 
lanche? No tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero 
ver-te, porque sem ti Lisboa  para mim um desterro.
Um longo beijo do
Teu do C.
Baslio.
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o para cima 
da mesa, disse alto:
- Sim, senhor! Bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco maquinalmente, com os olhos vagos, os beios a 
tremer: deu alguns passos incertos pelo escritrio: - de repente arremessou o 
cachimbo que despedaou um vidro da janela, bateu com as mos desvairado, e 
atirando-se de bruos para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando a cabea entre 
os braos, mordendo as mangas, batendo com os ps, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ela  alcova de Lusa. Mas a 
lembrana das palavras de Julio imobilizou-o: "Que esteja sossegada, nada de 
frases, nenhuma excitao!" Fechou a carta numa gaveta, meteu a chave na 
algibeira. E de p, a tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idias 
insensatas alumiarem-lhe bruscamente o crebro, como relmpagos numa tormenta - 
mat-la, sair de casa, abandon-la, fazer saltar os miolos...
Mariana bateu ligeiramente  porta, disse-lhe que a senhora o chamava. Uma onda 
de sangue subiu-lhe  cabea; fitava a Mariana, estpido, batendo as plpebras:
- J vou - disse com a voz rouca.
Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado, 
envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabelo; e ao 
entrar na alcova, ao v-la, com os seus grandes olhos dilatados onde a febre 
reluzia, teve de se agarrar  barra do leito, porque sentiu, em redor, as 
paredes oscilarem como lonas do vento.
Mas sorriu-lhe:
- Como ests?
- Mal - murmurou ela debilmente.
Chamou-o para o p de si com um gesto muito fatigado.
Ele veio, sentou-se sem a olhar.
- Que tens? - disse ela chegando o rosto para ele. - No te aflijas. - E tomou a 
mo que ele pousara  beira do leito.
Jorge, com um repelo seco, sacudiu a mo dela, ergueu-se bruscamente com os 
dentes cerrados; sentia uma clera brutal; ia-se, com medo de si, de um crime, 
quando ouviu a voz de Lusa, arrastando-se, numa lamentao:
- Por que, Jorge? Que tens?...
Voltou-se; viu-a meio erguida com os olhos abertos para ele, uma angstia no 
rosto; e duas lgrimas caam-lhe, silenciosamente.
Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mos, aos soluos.
- Que  isto? - exclamou a voz de Julio  porta da alcova.
Jorge, muito plido, ergueu-se devagar.
Julio levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braos diante dele:
- Tu ests doido? Pois tu sabes que ela est num estado daqueles, e vais-te pr 
a fazer-lhe cenas de lgrimas?
- No me pude conter...
- Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lha por outro? 
Ests doido!
Estava realmente indignado. Interessava-se por Lusa como doente. Desejava muito 
cur-la; e sentia uma satisfao em exercer o domnio de pessoa necessria 
naquela casa, onde as suas visitas tinham tido sempre uma atitude dependente; 
mesmo agora, ao sair, no se esquecia de oferecer negligentemente um charuto a 
Jorge.
Jorge foi herico durante toda essa tarde. No podia estar muito tempo na alcova 
de Lusa, a desesperao trazia-o num movimento contraditrio; mas ia l a cada 
momento, sorria-lhe, conchegava-lhe a roupa com as mos trmulas; e ela 
dormitava, ficava imvel a olh-la feio por feio, com uma curiosidade 
dolorosa e imoral, como para lhe surpreender no rosto vestgios de beijos 
alheios, esperando ouvir-lhe nalgum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; 
e amava-a mais desde que a supunha infiel, mas de um outro amor, carnal e 
perverso. Depois ia-se fechar no escritrio, e movia-se ali entre as paredes 
estreitas, como um animal numa jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma 
curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar: Como tinha sido? Onde 
era o Paraso? Havia uma cama? Que vestido levava ela? O que lhe dizia? Que 
beijos dava?
Foi reler todas as cartas que ela lhe escrevera para o Alentejo, procurando 
descobrir nas palavras sintomas de frieza, a data da traio! Tinha-lhe dio 
ento, voltavam-lhe ao crebro idias homicidas - esgan-la, dar-lhe 
clorofrmio, fazer-lhe beber ludano! E depois imvel, encostado  janela, 
ficava esquecido num cismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, 
certos passeios que dera com ela, palavras que ela dissera...
s vezes pensava - seria a carta uma mistificao? Algum inimigo dele podia 
t-la escrito, remetido para a Frana. Ou talvez Baslio tivesse outra Lusa em 
Lisboa, e por engano ao sobrescritar o envelope tivesse escrito o nome da prima; 
e a alegria momentnea que lhe davam aquelas fantasias fazia-lhe parecer a 
realidade mais cruel. Mas como fora? Como fora? Se pudesse saber a verdade! 
Tinha a certeza que sossegaria, ento! Arrancaria decerto do seu peito aquele 
amor como um parasita imundo; apenas ela melhorasse, lev-la-ia a um convento, e 
ele iria morrer longe, na frica, ou algures... Mas quem saberia?... JULIANA!
Era ela que sabia! Decerto! E todas as condescendncias dela por Juliana, os 
mveis, o quarto, as roupas, compreendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade! Era a 
sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na vala, morta, sem poder 
falar, a maldita! 
Sebastio, como costumava, veio  noitinha. No havia ainda luzes, e, apenas ele 
entrou, Jorge chamou-o ao escritrio, calado, acendeu uma vela, tirou a carta da 
gaveta.
- L isto.
Sebastio ficara assombrado ao ver o rosto de Jorge. Olhava a carta fechada, e 
tremia. Apenas viu a assinatura, uma palidez de agonia cobriu-lhe o rosto. 
Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibrao onde ele se firmava mal. Mas 
dominou-se leu devagar, pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra.
Jorge disse ento:
- Sebastio, isto pra mim  a morte. Sebastio, tu sabes alguma coisa. Tu vinhas 
aqui tu sabes. Dize-me a verdade!
Sebastio abriu devagar os braos e respondeu:
- Que te hei de eu dizer? No sei nada!
Jorge agarrou-lhe as mos, sacudiu-lhas, e procurando o seu olhar ansiosamente:
- Sebastio, pela nossa amizade, pela alma de tua me, por tantos anos que temos 
passado juntos, Sebastio, dize-me a verdade!...
- No sei nada. Que hei de eu saber?
- Mentes!
Sebastio disse apenas:
- Podem-te ouvir, homem!
Houve um silncio: Jorge apertava as fontes nas mos, com passadas pelo 
escritrio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante de 
Sebastio quase suplicante:
- Mas dize-me ao menos o que fazia ela! Saa? Vinha aqui algum?
Sebastio respondeu devagar, os olhos fixos na luz:
- Vinha o primo s vezes, ao princpio. Quando a D. Felicidade esteve doente, 
ela ia v-la... O primo depois partiu... No sei mais nada.
Jorge esteve um momento a olhar Sebastio, com uma fixidez abstrata.
- Mas que lhe fiz eu, Sebastio? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz eu para 
isto? Eu, que a adorava, quela mulher!
Rompeu a chorar.
Sebastio ficara de p junto  mesa, estpido, aniquilado.
- Foi talvez uma brincadeira, apenas... - murmurou.
- E o que diz a carta? - gritou Jorge, voltando-se numa clera, sacudindo o 
papel. - Este "Paraso!", "As boas manhs" l passadas! E uma infame!...
- Est doente, Jorge - disse apenas Sebastio.
Jorge no respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastio, imvel, fatigava a 
vista contra a chama da luz. Jorge ento fechou a carta na gaveta, e tomando o 
castial com um tom de lassido lgubre e resignado:
- Queres vir tomar ch, Sebastio?
E no tornaram mais a falar na carta.
Nessa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto estava 
impassvel, de uma serenidade lvida.
Foi da por diante o enfermeiro de Lusa.
A doena, depois de uma marcha incerta durante trs dias, definiu-se: eram 
crescimentos; enfraquecia muito, mas Julio estava tranqilo.
Jorge passava os seus dias ao p dela. D. Felicidade vinha ordinariamente pelas 
manhs; sentava-se aos ps da cama, e ficava calada, com uma face envelhecida; 
aquela esperana na mulher de Tui to subitamente destruda, abalara-a como um 
velho edifcio a que se tira subitamente um pilar; ia-se tornando runa; e s se 
animava quando o Conselheiro aparecia pelas trs horas a saber da "nossa formosa 
enferma". Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom profundo, 
conservando o chapu na mo, sem querer entrar alcova, por pudor:
- A sade  um bem que s apreciamos quando nos foge!
Ou:
- A doena serve para aquilatarmos os amigos.
E terminava sempre:
- Meu Jorge, as rosas da sade bem cedo refloriro nas faces de sua virtuosa 
esposa!...
De noite Jorge dormia vestido, num enxergo sobre o cho; mas apenas cerrava os 
olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava ler: comeava um romance mas 
nunca ia alm das primeiras linhas; esquecia o livro, e com a cabea entre as 
mos punha-se a pensar: era sempre a mesma idia - como tinha sido? Conseguira 
reconstituir aproximadamente, com lgica, certos fatos; via bem Baslio 
chegando, vindo visit-la, desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a indo-a 
ver aqui e alm, escrevendo-lhe; mas depois? Viera j a compreender que o 
dinheiro era para Juliana. A criatura tivera alguma exigncia: tinha-os 
surpreendido? Possua cartas?... E encontrava, naquela reconstruo dolorosa, 
falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava 
sofregamente. Ento comeava a recordar os ltimos meses desde a sua volta do 
Alentejo, e como ela se mostrara amante, e que ardor punha nas suas carcias... 
Para que o enganara ento?
Uma noite, com precaues de ladro, rebuscou todas as gavetas dela, 
esquadrinhou os vestidos, at as dobras da roupa branca, as caixas de colares, 
de rendas; viu bem o cofre de sndalo; estava vazio, nem o p de uma flor seca! 
s vezes punha-se a fitar os mveis no quarto, na sala, a sond-los como se 
quisesse descobrir neles os vestgios do adultrio. Ter-se-iam sentado ali? Ele 
teria ajoelhado aos ps dela, acol sobre o tapete? Sobretudo o div to largo, 
to cmodo, desesperava-o; tomou-lhe dio. Veio a detestar mesmo a casa, como se 
os tetos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham sustentado tivessem uma 
cumplicidade consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram aquelas palavras - 
o "Paraso, as boas manhs..." 
Lusa ento j dormia tranqilamente. Ao fim de uma semana os crescimentos 
desapareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez se 
levantou, desmaiou duas vezes; era necessrio vesti-la, traz4a amparada para a 
chaise longue; e no dispensava Jorge, queria-o ali, ao p, com exigncias de 
criana! Parecia receber a vida dos seus olhos, a sade do contato das suas 
mos. Fazia-lhe ler o jornal pela manh, e vir escrever para ao p dela. Ele 
obedecia, e mesmo aquelas instncias eram para a sua dor como carcias 
consoladoras.  porque o amava decerto!
Sentia ento, maquinalmente, abertas de felicidade. Surpreendia-se dizer-lhe 
ternuras, a rir com ela, esquecido, como dantes! E, estendida na chaise longue, 
Lusa, contente, percorria antigos volumes da Ilustrao Francesa, que lhe 
mandara O Conselheiro - "onde", segundo ele lhe dissera, podia, ao mesmo tempo 
que se divertia com os desenhos, adquirir noes teis sobre importantes 
acontecimentos histricos; ou, com a cabea reclinada, saboreava a felicidade de 
melhorar, de estar livre das tiranias da outra, das amarguras do passado.
Uma das suas alegrias era ver entrar a Mariana com o seu jantarzinho disposto 
num guardanapo sobre o tabuleiro; tinha apetite, saboreava muito o clice de 
vinho do Porto, que Julio recomendara; quando Jorge no estava, fazia longas 
conversaes com Mariana, palrando baixo, consolada, e lambendo colherinhas de 
gelatina.
s vezes, calada, com os olhos no teto, fazia planos. Dizia-os depois a Jorge: 
iria estar duas semanas no campo, para ganhar foras;  volta comearia a bordar 
tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; porque queria ocupar-se muito 
da casa, viver recolhida; ele no voltaria ao Alentejo, no sairia de Lisboa, 
no  verdade? E a sua vida seria dai por diante de uma doura contnua e fcil.
Mas Lusa s vezes achava-se macambzio. Que tinha? Ele explicava pela fadiga, 
pelas noites maldormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ela, que fosse quando 
ela estivesse forte para o tratar, para o velar!... Mas no adoeceria, no? E 
fazia-o sentar ao p de si, passava-lhe a mo pelos cabelos, com o olhar 
quebrado, porque com as foras que renasciam vinham os impulsos do seu 
temperamento amoroso. Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraado!
Lusa, s consigo, tinha outras resolues. No tornaria a ver Leopoldina, e 
freqentaria as igrejas. Saa da doena com uma vaga sentimentalidade devota. 
Durante a febre, em certos pesadelos de que lhe ficara uma indistinta idia 
aterrada, vira-se s vezes num lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo 
os braos, do meio de chamas escarlates; formas negras giravam com espetos em 
brasa, um rugido de agonia subia para a mudez do cu; e j lhe tocavam o peito 
lnguas de fogueiras, quando alguma coisa de doce e de inefvel de repente a 
refrescava; eram as asas de um anjo luminoso e sereno, que a tomava nos braos; 
e ela sentia-se elevar, apoiando a cabea contra o seio divino, que a penetrava 
de uma felicidade sobrenatural; via as estrelas de perto, ouvia frmitos de 
asas. Aquela sensao deixara-lhe como uma recordao saudosa do cu. E aspirava 
a ela, nas debilidades da convalescena, esperando ganh-la pela pontualidade  
missa, e pela repetio de coroas  Virgem.
Enfim uma manh veio  sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge,  janela, 
olhava para a rua - quando ela o chamou, e sorrindo:
- Estou a detestar, h tempos, aquele div - disse. - Podia-se tirar, no te 
parece?
Jorge sentiu uma pancada no corao: no pde responder logo; disse, enfim, com 
esforo:
- Sim, parece...
- Estou com vontade de o tirar - disse ela saindo da sala, arrastando 
tranqilamente a longa cauda do seu roupo.
Jorge no pde destacar os olhos do div. Veio mesmo sentar-se nele; passava a 
mo sobre o estofo s listras; e sentia um prazer doloroso em verificar que fora 
ali.
Principiara a vir-lhe agora uma espcie de resignao sombria; quando a ouvia 
gozar tanto as melhoras, falar com felicidade de futuros tranqilos, decidia-se 
a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ela tinha-se arrependido decerto, amava-o: 
para que havia de criar a sangue-frio uma infelicidade perptua? Mas quando a 
via com os seus movimentos lnguidos estender-se na chaise longue, ou ao 
despir-se mostrar a brancura do seu colo - e pensava que aqueles braos tinham 
enlaado outro homem, aquela boca gemido de amor numa cama alheia - vinha-lhe 
uma onda de clera bruta, precisava sair para a no esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silncios, comeou a queixar-se, a 
dizer-se doente. E as solicitudes dela, ento, as interrogaes mudas do seu 
olhar inquieto faziam-no mais infeliz - por se sentir amado, agora que se sabia 
trado!
Um domingo enfim Julio deu licena a Lusa para se deitar mais tarde, e fazer  
noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos v-la na sala, ainda um 
pouco plida e fraca - mas, como disse o Conselheiro, restituda aos deveres 
domsticos e aos prazeres da sociedade!
Julio que veio s nove horas achou-a como nova. E abrindo os braos, no meio da 
sala:
- E que me dizem  novidade? - exclamou. - A pea do Ernesto teve um triunfo!...
Assim tinham lido nos jornais. O Dirio de Notcias dizia mesmo que o "autor 
chamado ao proscnio, no meio do mais vivo entusiasmo, recebera uma formosa 
coroa de louros". Lusa declarou logo que queria ir ver!
- Mais tarde, D. Lusa, mais tarde - acudiu com prudncia o Conselheiro. - Por 
ora  conveniente evitar toda a comoo forte. As lgrimas que no deixaria de 
derramar, conheo o seu bom corao, podiam produzir uma recada. No  verdade, 
amigo Julio?
- Decerto, Conselheiro, decerto. Eu tambm quero ir. Quero convencer-me por meus 
olhos...
Mas o rudo de uma carruagem, lanada a trote largo, que parou  porta, 
interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
- Aposto que  o autor! - exclamou ele.
E quase imediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se 
na sala; ergueram-se com rudo, abraaram-no: mil parabns! Mil parabns! E a 
voz do Conselheiro, dominando as outras:
- Bem-vindo o festejado autor! Bem-vindo!
Ernesto sufocava de jbilo. Tinha um sorriso imobilizado; as asas do nariz 
dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, enfunado 
de orgulho; e movia a cabea, sem cessar, como num agradecimento instintivo a 
multides aplaudidoras.
- Aqui estou! Aqui estou! - disse.
Sentou-se ofegante; e, com um modo amvel de Deus, bom rapaz, declarou que os 
ltimos ensaios de apuro no lhe tinham deixado um momento para vir ver a prima 
Lusa. Tinha tido naquela noite um instante de seu, mas devia voltar s dez 
horas para o teatro: at nem mandara a tipia embora...
Contou ento largamente o triunfo. Ao principio tivera "grandes clicas". Todos 
as tinham, os mais acostumados, os mais ilustres! Mas apenas o Campos disse o 
monologo do primeiro ato - "e como o disse!" haviam de ver, uma coisa sublime - 
os aplausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo 
autor, salvas de palmas... Ele viera ao palco, arrastado; no queria, mas 
obrigaram-no, a Jesuna por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delrio! O 
Saavedra do Sculo tinha-lhe dito: "o amigo  o nosso Shakespeare!" O Bastos da 
Verdade tinha afirmado: "s o nosso Scribe!" Houve uma ceia. E tinham-lhe dado 
uma coroa.
- E serve-lhe? - acudiu Julio.
- Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com autoridade:
- Os grandes autores, o famigerado Tasso, o nosso Cames so sempre 
representados com as suas respectivas coroas.
-  o que eu lhe aconselho, Sr. Ledesma - acudiu Julio, erguendo-se e 
batendo-lhe no ombro -,  que se faa retratar de coroa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu leno perfumado:
- O Sr. Zuzarte no dispensa o seu epigramazinho...
-  a prova da glria, meu amigo. Nos triunfos dos generais vitoriosos, em Roma, 
havia um bobo no prstito!
- Eu no sei! - disse Lusa muito risonha. -  uma honra para a famlia!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a coroa, 
como se tivesse direito a us-la...
E Ernestinho voltando-se logo para ele:
- Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei  esposa...
- Como Cristo...
- Como Cristo - confirmou o Ernestinho, com satisfao.
D. Felicidade aprovou logo:
- Fez muito bem! At  mais moral!
- O Jorge  que queria que eu desse cabo dela - disse Ernestinho, rindo 
tolamente. - No se lembra, naquela noite...
- Sim, sim - fez Jorge, rindo tambm, nervosamente.
- O nosso Jorge - disse com solenidade o Conselheiro - no podia conservar 
idias to extremas. E decerto a reflexo, a experincia da vida...
- Mudei, Conselheiro, mudei - interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escritrio.
Sebastio, inquieto, foi devagar ter com ele. Estava s escuras.
- Aqueles idiotas no se calaro? No se iro? - disse ele abafadamente, 
agarrando o brao de Sebastio.
- Sossega!
- Oh, Sebastio! Sebastio! - E a sua voz tremia, com lgrimas.
Mas Lusa, da sala, gritou:
- Que conspirao  essa a dentro s escuras?
Sebastio apareceu logo, dizendo:
- Nada, nada. Estvamos l dentro... - E acrescentou baixo: - O Jorge est 
fatigado. Est adoentado, coitado!
Notaram, quando ele voltou - que tinha com efeito o ar esquisito.
- No, realmente no me sinto bom, estou incomodado!
- E a dbil D. Lusa precisa o repouso do seu leito - disse o Conselheiro 
erguendo-se.
Ernestinho que no se podia demorar, ofereceu logo ao Conselheiro e a Julio - a 
sua carruagem, que era uma caleche, se iam para a Baixa...
- Que honra - exclamou Julio olhando Accio - irmos na tipia do grande homem!
E enquanto D. Felicidade se agasalhava, os trs desceram.
No meio da escada Julio parou, e cruzando os braos:
- Ora aqui vou eu entre os representantes dos dois grandes movimentos de 
Portugal desde 1820. A Literatura - e cumprimentou Ernestinho - e o 
Constitucionalismo! - e curvou-se para o Conselheiro.
Os dois riram, lisonjeados.
- E o amigo Zuzarte?
- Eu? - E baixando a voz: - At h dias um revolucionrio terrvel. Mas agora...
- O qu?
- Um amigo da Ordem! - gritou com jbilo.
E desceram, contentes de si e do seu pas, para se meterem na tipia do grande 
homem!
CAPTULO XV
Ao outro dia Jorge foi ao ministrio, onde no tinha aparecido nos ltimos 
tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presena dos desconhecidos ou dos 
estranhos torturava-o; parecia-lhe que todo o mundo sabia; nos olhares mais 
naturais via uma inteno maligna, e nos apertos de mo mais sinceros uma 
irnica presso de psames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a 
suspeita de a terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a 
fachada infame do Paraso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida 
estragada. E logo no corredor ao entrar ouviu Lusa cantarolando, como outrora, 
a Mandolinata!
Estava-se a vestir.
- Como ests tu? - perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
- Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
- E tu? - perguntou-lhe ela.
- Para aqui ando - disse to desconsoladamente que Lusa pousou o pente, e com 
os cabelos soltos veio pr-lhe as mos nos ombros, muito carinhosa:
- Que tens tu? Tu tens alguma coisa. Estranho-te tanto h dias! No s o mesmo! 
s vezes ests com um cara de ru... Que ? Dize.
E os seus olhos procuravam os dele, que se desviavam perturbados.
Abraou-o. Insistia, queria que dissesse tudo  "sua mulherzinha".
- Dize. Que tens?
Ele olhou-a muito, e de repente, com uma resoluo violenta:
- Pois bem, digo-te. Tu agora ests boa, podes ouvir... Lusa! Vivo num inferno 
h duas semanas. No posso mais... Tu ests boa, no  verdade? Pois bem, que 
quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Baslio.
- O que ? - fez ela muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mo.
Abriu-a devagar, viu a letra de Baslio, num relance adivinhou-a. Fixou Jorge um 
momento de um modo desvairado, estendeu os braos sem poder falar, levou as mos 
 cabea com um gesto ansioso como se se sentisse ferida, e oscilando, com um 
grito rouco, caiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.
Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Ele quis que Joana 
corresse a chamar Sebastio; e ficou, como petrificado, junto ao leito, 
olhando-a, enquanto Mariana toda trmula desatacava os espartilhos da senhora.
Sebastio veio logo. Felizmente havia ter, fizeram-lho respirar; apenas abriu 
lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ela:
- Lusa, ouve, fala! No, no tem dvida. Mas fala. Dize, que tens?
Ao ouvir a voz dele desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o 
corpo. Sebastio correu a buscar Julio.
Lusa parecia adormecida agora, imvel, branca como cera, as mos pousadas sobre 
a colcha; e duas lgrimas corriam-lhe devagar pelas faces.
Um trem parou, Julio apareceu esbaforido.
- Achou-se mal de repente... V, Julio. Est muito mal! - disse Jorge. 
Fizeram-lhe respirar mais ter; despertou outra vez. Julio falou-lhe, 
tomando-lhe o pulso.
- No, no, ningum! - murmurou ela retirando a mo. Repetiu com impacincia: - 
No, vo-se, no quero... - As suas lgrimas redobravam. E como eles saiam da 
alcova para a no excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:
- Jorge!
Ele ajoelhou-se ao p da cama, e falando-lhe junto do rosto:
- Que tens tu? No se fala mais em tal. Acabou-se. No estejas doente. Juro-te, 
amo-te... Fosse o que fosse, no me importa. No quero saber, no.
E como ela ia falar, ele pousou-lhe a mo na boca:
- No, no quero ouvir. Quero que estejas boa, que no sofras! Dize que estas 
boa! Que tens? Vamos amanh para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma coisa que 
passou...
Ela disse apenas com a voz sumida:
- Oh! Jorge! Jorge!
- Bem sei... Mas agora vais ser feliz outra vez... Dize, que sentes?
- Aqui - disse ela, e levava as mos  cabea. - Di-me!
Ele ergueu-se para chamar Julio, mas ela reteve-o, atraiu-o; e devorando-o com 
os olhos onde a febre se acendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os lbios. 
Ele deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdo.
- Oh, minha pobre cabea! - gritou ela.
As fontes latejavam-lhe, e uma cor ardente, seca, esbraseava-lhe o rosto.
Como era habituada a enxaquecas, Julio tranqilizou-os; recomendou um sossego 
imvel e sinapismos de mostarda aos ps - at que ele voltasse.
Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de pressentimentos, de sustos, 
suspirando s vezes.
Eram ento quatro horas; caa uma chuva miudinha, enevoada; a alcova tinha uma 
luz lgubre.
- No h de ser nada... - dizia Sebastio.
Lusa agitava-se no leito, apertando as mos na cabea, torturada pela dor 
crescente, cheia de sede.
Mariana acabava de arrumar em pontas de ps, vagamente assombrada daquela casa, 
onde s vira desgosto e doena; mas s o pousar sutil dos seus passos fazia 
sofrer Lusa, como se fossem marteladas sobre o crnio.
Julio no tardou; logo da porta do quarto, o aspecto dela inquietou-o. Acendeu 
um fsforo, aproximou-lho do rosto; e aquela luz fez-lhe dar um grito como se um 
ferro frio lhe trespassasse a cabea.
Os olhos dilatados tinham um reluzir metlico. Conservava-se muito quieta, 
porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dores penetrantes que a dilaceravam. 
S de vez em quando sorria para Jorge com uma expresso de aflio serena e 
muda.
Julio fez logo pr trs travesseiros, para lhe conservar a cabea alta. Fora 
caa o crepsculo mido. Andavam em bicos de ps, com cuidado; e mesmo tiraram o 
relgio da parede para afastar o tique-taque montono. Ela comeava agora a 
murmurar sons cansados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam 
gritos; ou imvel gemia de um modo contnuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido 
as pernas num longo sinapismo; mas no o sentia. Pelas nove horas comeou a 
delirar; a lngua tornara-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.
Julio fez logo aplicar na cabea compressas de gua fria. Mas o delrio 
exacerbava-se.
Ora tinha um murmrio espesso, um vago rosnar modorrento - onde os nomes de 
Leopoldina, de Jorge, de Baslio voltavam incessantemente; depois debatia-se, 
esgarava a camisa com as mos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como 
largos bugalhos prateados onde a pupila se sumia.
Sossegava mais; dava risadinhas de uma doura idiota; tinha gestos lentos sobre 
o lenol, que aconchegavam e acariciavam, como num gozo tpido; depois comeava 
a respirar ansiosamente, vinham-lhe expresses torturadas de terror, queria 
enterrar-se nos travesseiros e nos colches, fugindo a aspectos pavorosos; 
punha-se ento a apertar a cabea freneticamente, pedia que lha abrissem, que a 
tinha cheia de pedras, que tivessem piedade dela! - e fios de lgrimas 
corriam-lhe pelo rosto. - No sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os ps 
nus ao vapor de gua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia 
o ar do quarto. Jorge falava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e 
suplicantes: pedia-lhe que sossegasse, que o conhecesse; mas de repente ela 
desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana - ou ento dizia palavras 
de amor, enumerava somas de dinheiro... Jorge temia que aquele delrio revelasse 
tudo a Julio, s criadas; tinha um suor  raiz dos cabelos - e quando ela, um 
momento, julgando-se no Paraso - e nas exaltaes do adultrio, chamou Baslio, 
pediu champanhe, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da alcova alucinado, foi. 
para a sala s escuras, atirou-se para o div a soluar, arrepelou-se, 
blasfemou.
- Est em perigo? - perguntou Sebastio.
- Est - disse Julio. - Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas 
febres cerebrais...
Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado.
E Julio tomando-o pelo brao, levando-o para fora:
- Ouve l,  necessrio cortar-lhe o cabelo, e rapar-lhe a cabea.
Jorge olhou-o com um ar estpido:
- O cabelo? - E agarrando-lhe os braos: - No, Julio, no, hem? Pode se fazer 
outra coisa. Tu deves saber. O cabelo no! No! Isso no, pelo amor de Deus! Ela 
no est em perigo. Para qu?
Mas aquela massa de cabelo era o diabo, impedia a ao da gua!
- Amanh, se for necessrio. Amanh! Espera at amanh... Obrigado, Julio, 
obrigado!
Julio consentiu, contrariado. Fazia ento umedecer constantemente as compressas 
da cabea, e como Mariana trmula, desjeitosa, molhava muito o travesseiro, foi 
Sebastio que se colocou  cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem 
cessar uma esponja, de onde a gua gotejava lentamente; tinham jarros fora da 
varanda, na sala, para dar  gua uma frialdade gelada. O delrio alta noite 
acalmara um pouco. Mas o seu olhar injetado tinha uma aspecto selvagem: as 
pupilas pareciam apenas um ponto negro.
Jorge, sentado aos ps da cama, com a cabea entre as mos, olhava para ela: 
lembravam-lhe vagamente outras noites de doena assim, quando ela tivera a 
pneumonia; e melhorara! At ficara mais linda, com tons de palidez que lhe 
adoavam a expresso! Iriam para o campo quando ela convalescesse; alugaria uma 
casinha; voltaria  noite no nibus, e v-la-ia de longe na estrada vindo ao seu 
encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ela gemia, ele erguia os 
olhos sobressaltado; e no lhe parecia a mesma; afigurava-se-lhe que se ia 
dissipando, desaparecendo naquele ar de febre que enchia a alcova, no silncio 
mrbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluo sacudia-o, e recaa na sua 
imobilidade.
Joana, em cima, rezava. As velas, com uma chama alta e direita, extinguiam-se.
Enfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da 
vidraa. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. No chovia; a calada 
secava. O ar tinha uma vaga cor de ao. Tudo dormia; e uma toalha, esquecida  
janela das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente.
Quando entrou na alcova Lusa falava com uma voz extinta; sentia muito vagamente 
os sinapismos, mas a dor de cabea no cessava. Comeou a agitar-se - e o 
delrio dai a pouco voltou. Julio, ento, determinou que se lhe rapasse o 
cabelo.
Sebastio foi acordar um barbeiro na Rua da Escola - que veio logo, com um ar 
transido, a gola de casaco levantada; e batendo o queixo comeou a tirar 
imediatamente de um saco de couro as navalhas, as tesouras, devagar, com as mos 
moles da gordura das pomadas.
Jorge foi refugiar-se na sala; parecia-lhe que grandes pedaos mutilados da sua 
felicidade caam com aquelas lindas tranas, destrudas s tesouradas; e com a 
cabea nas mos recordava certos penteados que ela usava, noites em que os seus 
cabelos se tinham desmanchado nas alegrias da paixo, tons com que brilhavam  
luz... Voltou ao quarto, atrado irresistivelmente; sentiu na alcova o rudo 
seco e metlico das tesouras; sobre a mesa, numa caixa de sabo, estava um velho 
pincel de barba, entre flocos de espuma... Chamou Sebastio baixo:
- Dize-lhe que se avie! Esto-me a matar a fogo lento!  demais. Que ande 
depressa!
Foi  sala de jantar, errou pela casa; a manh fria clareava; erguera-se vento, 
que ia levando, aos pedaos, nuvens de um tom alvadio.
Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma 
lentido mole; e tomando o seu chapu desabado, saiu em bicos de ps murmurando 
num tom funerrio:
- Estimo as melhoras. Deus h de permitir que no seja nada...
O delrio com efeito da a uma hora acalmou; - e Lusa caiu numa sonolncia 
prostrada com gemidos fracos, que saam de seus lbios como a lamentao 
interior da vida vencida.
Jorge tinha ento dito a Sebastio que desejava chamar o Dr. Caminha. Era um 
mdico velho que tratara a sua me, e que curara Lusa da pneumonia, no segundo 
ano de casada. Jorge conservara uma admirao agradecida por aquela reputao 
antiquada; e agora a sua esperana voltava-se sofregamente para ele, ansiando 
pela sua presena como pela apario de um santo.
Julio condescendeu logo. At estimava! E Sebastio desceu correndo, para ir a 
casa do Dr. Caminha.
Lusa, que sara um momento do seu torpor, sentiu-os falar baixo. A sua voz 
extinta chamou Jorge:
- Cortaram-me o cabelo... - murmurou tristemente.
-  para te fazer bem - disse-lhe Jorge, quase to agonizante como ela. - Cresce 
logo. At te vem melhor...
- Ela no respondeu; duas lgrimas silenciosas, correram-lhe pelos cantos dos 
olhos.
Devia ser a ltima sensao; a prostrao comatosa ia-a imobilizando, apenas a 
sua cabea rolava num movimento doce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo 
sempre com um cansao triste; a pele empalidecia como um vidro de janela, por 
trs do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo os rudos da rua que comeavam 
no a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodo.
Ao meio-dia D. Felicidade apareceu. Ficou petrificada quando a viu to mal; e 
ela que a vinha buscar para irem  Encarnao, talvez s lojas! Tirou logo o 
chapu, instalou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos 
sinapismos que arrastavam, compor a cama - porque no havia pior para um doente 
que desarranjo no quarto; e muito corajosamente animava Jorge.
Uma carruagem parou  porta. Era o Dr. Caminha, enfim!... Entrou atabafado no 
seu cachen de quadrados verdes e pretos queixando-se muito do frio; - e tirando 
devagar as grossas luvas de casimira, que ps dentro do chapu metodicamente, 
adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, acamando com a mo as suas 
repas grisalhas j muito coladas ao crnio pela escova.
Julio e ele ficaram ss na alcova.
No quarto os outros esperavam calados, ao p de Jorge, plido como cera, com os 
olhos vermelhos como carves.
- Vai-se-lhe pr um custico na nuca - veio dizer Julio.
Jorge devorava com o olhar ansioso o Dr. Caminha, que se pusera a calar 
tranqilamente as suas luvas de casimira, dizendo:
- Vamos a ver com o custico. No est bem... Mas h ainda pior. E eu volto, meu 
amigo, eu volto.
O custico foi intil. No o sentia, imvel e branca, com as feies crispadas; 
e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como vibraes fugitivas.
- Est perdida - disse Julio baixo a Sebastio.
D. Felicidade ficou muito aterrada, falou logo nos sacramentos.
- Para qu? - resmungou Julio impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrpulos, que era um pecado mortal; e 
chamando Jorge para o vo da janela, toda trmula:
- Jorge, no se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
Ele murmurava como assombrado:
- Os sacramentos!
Julio chegou-se bruscamente, e quase zangado:
- Nada de tolices! Qual sacramentos! Para qu? Ela nem ouve, nem compreende, nem 
sente. E necessrio deitar-lhe outro custico, talvez ventosas, e  o que ! 
Isso  que so os sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalizada, muito abalada, comeou a chorar. Esqueciam 
Deus, e em Deus  que est o remdio! - dizia, assoando-se com estrondo.
- Pelo que Deus faz por mim... - exclamou Jorge, saindo do seu torpor. E batendo 
as mos, como revoltado por uma injustia: - Por que realmente, que fiz eu para 
isto? Que fiz eu?...
Julio ordenara outro custico. Havia agora na casa um movimento alucinado. 
Joana entrava de repente com um caldo intil que ningum pedira, os olhos muito 
vermelhos de chorar. Mariana soluava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo 
quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se 
chamasse o Dr. Barbosa, o Dr. Barral.
E Lusa no entanto estava imvel; uma cor macilenta ia-lhe dando s faces tons 
cavados e rgidos.
Julio extenuado pediu um clice de vinho, uma fatia de po. Lembraram-se ento 
que desde a vspera no tinham comido, e foram  sala de jantar onde Joana, 
sempre lavada em lgrimas, serviu uma sopa, e ovos. Mas no achava as colheres, 
nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; enquanto Jorge, com os 
olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrada, fazia dobras na 
toalha.
Depois de um momento pousou devagarinho a colher, desceu ao quarto. Mariana 
estava sentada aos ps do leito; Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores; e 
apenas ela saiu, deixou-se cair de joelhos, tomou uma das mos de Lusa, 
chamou-a baixo; depois mais forte:
- Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. No estejas assim, faze por melhorar. No 
me deixes neste mundo, no tenho mais ningum! Perdoa-me. Dize que sim. Faze 
sinal que sim ao menos. No me ouve, meu Deus!
E olhava-a ansiosamente. Ela no se movia.
Ergueu ento os braos ao ar numa desesperao alucinada.
- Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a! - E arremessava a sua alma 
para as alturas: - Ouve, meu Deus! Escuta-me! S bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo 
lhe pareceu mais imvel. A face lvida cavava-se; o leno que lhe envolvia a 
cabea desarranjara-se, via-se o crnio rapado, de uma cor ligeiramente 
amarelada. Ps-lhe ento a mo na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que 
estava fria! Abafou um grito, correu para fora do quarto, e deu com o Dr. 
Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas.
- Doutor! Est morta! Veja. No fala, est fria...
- Ento! Ento! - disse ele. - Nada de barulho, nada de barulho!
Tomou o pulso de Lusa, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibrao expirante 
de uma corda.
Julio veio logo. E concordou com o Dr. Caminha que as ventosas eram inteis.
- J as no sente - disse o doutor sacudindo o tabaco dos dedos.
- Se se lhe desse um copo de conhaque?... - lembrou de repente Julio. E vendo o 
olhar espantado do doutor: - s vezes estes sintomas de coma no querem dizer 
que o crebro esteja desorganizado; podem ser apenas a inao da fora nervosa 
exausta. Se a morte  irremedivel no se perde nada; se  apenas uma depresso 
do sistema nervoso, pode-se salvar...
O Dr. Caminha, com o beio descado, oscilava incredulamente a cabea:
- Teorias! - murmurou.
- Nos hospitais ingleses... - comeou Julio.
O Dr. Caminha encolheu os ombros com desprezo.
- Mas se o doutor lesse... - insistiu Julio.
- No leio nada! - disse o Dr. Caminha com fora - tenho lido demais! Os livros 
so os doentes... - E curvando-se, com ironia: - Mas se o meu talentoso colega 
quer fazer a experincia...
- Um copo de conhaque ou de aguardente! - pediu Julio  porta.
E o Dr. Caminha sentou-se comodamente "para gozar o fracasso do talentoso 
colega".
Levantaram Lusa; Julio fez-lhe engolir o conhaque; quando a deitaram ficou na 
mesma imobilidade comatosa; o Dr. Caminha tirou o relgio, viu as horas, 
esperou; havia um silncio ansioso; enfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, 
apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar silenciosamente o 
chapu comeou a calar as luvas.
Jorge foi com ele at  porta:
- Ento, doutor? - disse, agarrando-lhe com uma fora desvairada o brao.
- Fez-se o que se pde - disse o velho, encolhendo os ombros.
Jorge ficou estpido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas nos 
degraus caam-lhe com uma percusso medonha no corao. Debruou-se no corrimo, 
chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os olhos; Jorge ps as mos para ele, 
com uma ansiedade humilde:
- Ento no  possvel mais nada?
O doutor fez um gesto vago, indicou o cu.
Jorge voltou para o quarto, encostando-se s paredes. Entrou na alcova, 
atirou-se de joelhos aos ps da cama, e ali ficou com a cabea entre as mos num 
soluar baixo e continuo.
Lusa morria: os seus braos to bonitos, que ela costumava acariciar diante do 
espelho, estavam j paralisados; os seus olhos, a que a paixo dera chamas e a 
voluptuosidade lgrimas, embaciavam-se como sob a camada ligeira de uma 
pulverizao muito fina.
D. Felicidade e Mariana tinham acendido uma lamparina a uma gravura de Nossa 
Senhora das Dores, e de joelhos rezavam.
O crepsculo triste descia; parecia trazer um silncio funerrio.
A campainha, ento, tocou discretamente; e da a momentos apareceu a figura do 
Conselheiro Accio.
D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lgrimas, o Conselheiro disse 
lugubremente:
- Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!
Explicou que encontrara por acaso o bom Dr. Caminha, que lhe contara a fatal 
ocorrncia! Mas muito discretamente no quis entrar na alcova. Sentou-se numa 
cadeira, colocou melancolicamente o cotovelo sobre o joelho, a testa sobre a 
mo, dizendo baixo a D. Felicidade:
- Continue as suas oraes. Deus  imperscrutvel em seus decretos.
Na alcova, Julio estivera tomando o pulso de Lusa; olhou ento Sebastio, 
fez-lhe o gesto de alguma coisa que voa e desaparece... Aproximaram-se de Jorge, 
que no se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito:
- Jorge - disse baixinho Sebastio.
Ele levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabelos nos olhos, as olheiras 
escuras.
- V, vem - disse Julio. E vendo o espanto do seu olhar: - No, no est morta, 
est naquela sonolncia... Mas vem.
Ele ergueu-se, dizendo com mansido:
- Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
Saiu da alcova.
O Conselheiro levantou-se, foi abra-lo com solenidade:
- Aqui estou, meu Jorge!
- Obrigado, Conselheiro, obrigado.
Deu alguns passas pelo quarto; os seus olhos pareciam preocupar-se com um 
embrulho que estava sobre a mesa; foi apalp-lo; desapertou as pontas, e viu os 
cabelos de Lusa. Ficou a olh-los, erguendo-os, passando-os de uma das mos 
para outra, e disse com os beios a tremer:
- Fazia tanto gosto neles, coitadinha!
Tornou a entrar na alcova. Mas Julio tomou-lhe o brao, queria-o afastar do 
leito. Ele debatia-se docemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha ao p da 
cabeceira, disse, mostrando-a:
- Talvez a incomode a luz... 
Julio respondeu comovido:
- J no a v, Jorge!
Ele soltou-se da mo de Julio, foi debruar-se sobre ela; tomou-lhe a cabea 
entre as mos com cuidado para a no magoar, esteve a olh-la um momento; depois 
pousou-lhe sobre os lbios frios um beijo, outro, outro, murmurava:
- Adeus! Adeus!
Endireitou-se, abriu os braos, caiu no cho.
Todos correram. Levaram-no para a chaise longue.
E enquanto D. Felicidade num pranto aflito fechava os olhos de Lusa, o 
Conselheiro, com o chapu sempre na mo, cruzava os braos, e oscilando a sua 
calva respeitvel, dizia a Sebastio:
- Que profundo desgosto de famlia!
CAPTULO XVI
Depois do enterro de Lusa, Jorge despediu as criadas, foi para casa de 
Sebastio.
Nessa noite pelas nove horas o Conselheiro Accio, muito abafado, descia o 
Moinho de Vento, quando encontrou Julio, que vinha de ver um doente na Rua da 
Rosa. Foram andando juntos, conversando de Lusa, do enterro, da aflio de 
Jorge.
- Pobre rapaz! Aquilo  que  sofrer! - disse Julio compadecido.
- Era uma esposa modelo!... - murmurou o Conselheiro.
De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastio, mas no pudera ver o 
seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente. E 
acrescentou:
- Ultimamente lia eu que aos grandes golpes sucedem sempre sonos prolongados. 
Assim, por exemplo, Napoleo depois de Waterloo, depois do grande desastre de 
Waterloo!
E passado um momento, continuou:
-  verdade. Fui ver o nosso Sebastio... Fui mostrar-lhe... - E 
interrompendo-se, parando: - Porque eu entendi que era o meu dever dedicar um 
tributo  memria da infeliz senhora. Era o meu dever, e no me eximia a ele! E 
estimo t-lo encontrado, porque quero saber a sua a opinio conscienciosa e 
desassombrada.
Julio tossiu, e perguntou:
-  um necrolgio?
-  um necrolgio.
E o Conselheiro, apesar de no achar prprio, na sua posio, o entrar em cafs 
pblicos, lembrou a Julio que poderiam descansar um momento no Tavares, se no 
estivesse muita gente, e ele poderia ler-lhe "a produo".
Espreitaram.
Estavam apenas, a uma mesa, dois velhos calados defronte dos seus cafs, com os 
chapus na cabea, apoiados a bengalas de cana-da-ndia. O moo dormitava ao 
fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita.
- H um silncio propicio - disse o Conselheiro.
Ofereceu um caf a Julio; e tirando ento do bolso uma folha de papel pautado, 
murmurou: - Infeliz senhora! - Inclinou-se para Julio, e leu:
NECROLGIO
 MEMRIA DA SENHORA D. LUSA MENDONA DE BRITO CARVALHO
Rosa de amor, rosa purprea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou na campa?
-  do imortal Garrett! - E continuou com uma voz lenta e lgubre:
- "... Mais um anjo que subiu ao cu! Mais uma flor pendida na tenra haste que o 
vendaval da morte, em sua inclemente fria, arremessou maldesabrochada para as 
trevas do tmulo..."- Olhou Julio para solicitar a sua admirao, e vendo-o 
curvado a remexer o seu caf, prosseguiu com entonaes mais funerrias:
- "Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa to cedo arrancada 
s carcias do seu talentoso cnjuge. Ali soobrou, como baixei no escarcu da 
costa, a virtuosa senhora, que em sua folgaz natureza era o encanto de quantos 
tinham a honra de se aproximar do seu lar! Por que soluais?"
- Um caf,  Antnio! - bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de jaqueto, 
que se sentou ao p, pondo com rudo a bengala sobre a mesa e deitando o chapu 
para o cachao.
O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:
- "... No soluceis! Que o anjo se no pertence  terra pertence ao cu!..."
- O S Guedes esteve j por a? - perguntou a voz rouca.
O criado disse detrs do balco, limpando com uma rodinha as travessas de metal:
- Ainda no, senhor D. Jos!
- "... Ali" - continuou o Conselheiro - "seu esprito, librando-se nas cndidas 
asas, entoa louvores ao Eterno! E no cessa de pedir ao Onipotente mercs e 
favores para derramar sobre a cabea do dileto esposo, que um dia, no duvideis, 
a encontrar nas regies celestes, ptria das almas de to subido quilate..." - 
E a voz do Conselheiro aflautava-se para indicar aquela ascenso paradisaca.
- E ontem  noite esteve c, o S Guedes? - insistiu o sujeito de jaqueto com 
os cotovelos sobre a mesa, fumando como uma chamin.
- Esteve tarde. L pelas duas horas.
O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo; por trs dos vidros da 
luneta escura fuzilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas de autor 
interrompido. Mas prosseguiu:
- "...E vs,  almas sensveis, vertei as lgrimas, mas vertendo-as, no percais 
de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da Providncia..."
E interrompendo-se:
- Isto  para dar coragem ao nosso pobre Jorge! - Continuou: - "... da 
Providncia. Deus conta com mais um anjo, e a sua alma brilha pura..."
- Esteve com a pequena, o S Guedes? - fez o sujeito, quebrando no mrmore da 
mesa a cinza do charuto.
O Conselheiro suspendeu-se, plido de raiva.
- Deve ser pessoa da mais baixa extrao! - rosnou com dio.
E o criado erguendo a vozinha fina detrs do balco:
- No, no; tem vindo agora com uma espanhola da de cima da rua. Uma magrinha, 
com o cabelo eriado, uma capa vermelha.
- A Lola! - acudiu o outro com satisfao. E espreguiou-se com voluptuosidade  
recordao da Lola.
O Conselheiro agora apressava-se:
- "... E de resto, o que  a vida? Uma rpida passagem sobre o orbe, e vo sonho 
de que acordamos no seio do Deus dos Exrcitos, de que todos nos indignos 
vassalos."
E com esta frase monrquica o Conselheiro terminou.
- Que lhe parece, com franqueza?
Julio sorveu o fundo da chvena, e colocando-a devagar no pires, lambendo os 
beios:
-  para imprimir?
- Na Voz Popular com tarjeta preta.
Julio coou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:
- Est muito bom. Muito bom, Conselheiro!
E Accio procurando o troco para o moo:
- Creio que est digno dela, e de mim!
E saram calados.
A noite estava muito escura; erguera-se um nordeste frio; gotas de chuva tinham 
cado. Ao Loreto, Julio parou subitamente; e exclamou:
- Ai, esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se  
Encarnao.
- Ah!
- Disse-mo agora. Eu fui justamente v-la antes de ir ver um doente  Rua da 
Rosa. Estava com uma febrezita. Coisa de nada... A comoo, o susto! E deu-me 
parte: recolhe-se amanh  Encarnao.
O Conselheiro disse:
- Sempre conheci naquela senhora idias retrgradas.  o resultado das manobras 
jesuticas, meu amigo! - E ajuntou com a melancolia do liberal descontente: - A 
reao levanta a cabea!
Julio tomou familiarmente o brao do Conselheiro, e sorrindo:
- Qual reao!  por sua causa, ingrato...
O Conselheiro estacou:
- Que quer o meu nobre amigo insinuar?
- Sim, homem! No sei como diabo descobriu uma coisa grave...
- O qu? Acredite...
- O que eu tambm descobri, seu magano! Que o Conselheiro tem duas 
travesseirinhas na cama, tendo s uma cabea... Disse-mo ela! - E rindo muito, 
dizendo-lhe "adeus! adeus!" desceu rapidamente a Rua do Alecrim. O Conselheiro 
ficou imvel, no largo, de braos cruzados, como petrificado. - Que infeliz 
senhora! Que funesta paixo! - murmurou enfim. E acariciou o bigode, com 
satisfao.
Como tinha de passar a limpo o necrolgio apressou-se a entrar em casa. Abancou 
com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as responsabilidades de prosador 
distraram-no das preocupaes de homem; e at s onze horas a sua bela letra 
cursiva e burocrtica desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel 
ingls, no silncio do seu Sanctum Sanctotum. Terminava quando a porta rangeu, e 
a Adelaide, com um xale forte pelos ombros, veio dizer, numa voz constipada:
- Ento hoje no se faz nen?
- No tardo, minha Adelaide, no tardo!
E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe ento que o final no era comovente: queria 
terminar por uma exclamao dolorosa, prolongada como um "ai"! Meditou, com os 
cotovelos sobre a mesa, a cabea entre os dedos muito abertos; Adelaide ento, 
chegando-se devagar, passou-lhe a mo pela calva; aquele doce amoroso fez 
decerto saltar a idia como uma fasca, porque tomou rapidamente a pena, e 
acrescentou:
- "Chorai! Chorai! Enquanto a mim, a dor sufoca-me!"
Esfregou as mos com orgulho. Repetiu alto num tom plangente:
- "Chorai, chorai; enquanto a mim, a dor sufoca-me!" - E passando o brao 
concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:
- Est de fazer sensao, minha Adelaide!
Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fora bem preenchido e digno; de manh 
certificara-se com regozijo no Dirio do Governo, que a famlia real "passava 
sem novidade"; cumprira o dever de amigo, acompanhando Lusa aos Prazeres numa 
carruagem da Companhia; a alta das inscries assegurava-lhe a paz da sua 
ptria; compusera uma prosa notvel; a sua Adelaide amava-o! E decerto se 
deliciou na certeza destas felicidades, que contrastavam tanto com as imagens 
sepulcrais que a sua pena revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar:
- A vida  um bem inestimvel! - E acrescentar como bom cidado: Sobretudo nesta 
era de grande prosperidade pblica!
E entrou no quarto com a cabea ereta, o peito cheio, os passos firmes, erguendo 
alto o castial.
A sua Adelaide seguia-o bocejando; estava cansada da constipao e - de uma hora 
de ternuras, que tivera  tardinha, com o louro e meigo Arnaldo, caixeiro da 
Loja da Amrica.
quela hora dois homens desciam de uma carruagem  porta do Hotel Central; um 
trazia uma ulster de xadrez, o outro uma longa pelia. Um nibus quase ao mesmo 
tempo parou, carregado de bagagens.
Um criado alemo, que conversava embaixo com o porteiro, reconheceu-os logo, e 
tirando o coco:
- Oh, senhor D. Baslio! Oh, senhor visconde!
O Visconde Reinaldo, que batia os ps nas lajes, rosnou de dentro da sua pelia:
-  verdade, aqui estamos outra vez na pocilga! 
Mas quela hora?
- A que horas queria voc que chegssemos? s horas da tabela, talvez! Doze 
horas de atraso, essa bagatela! Em Portugal  quase nada...
- Houve algum transtorno? - perguntava o criado com solicitude, seguindo-os pela 
escada.
E Reinaldo, pisando com um p nervoso o esparto do corredor:
- O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjeto 
pas!... - E desabafava a sua clera com o criado: t-la-ia desabafado com as 
pedras da rua, tanto era o excesso da blis: - H um ano que a minha orao  
esta: "Meu Deus, manda-lhe outra vez o terramoto!" Pois todos os dias leio os 
telegramas a ver se o terramoto chegou... e nada! Algum ministro que cai, ou 
algum baro que surge. E de terramoto nada! O Onipotente faz ouvidos de mercador 
s minhas preces... Protege o pas! To bom  um como outro! - E sorria, 
vagamente reconhecido a uma nao, cujos defeitos lhe forneciam tantas 
pilhrias.
Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou - que no havia seno um 
salo e uma alcova com duas camas, no terceiro andar - a clera de Reinaldo no 
conheceu restries:
- Ento havemos de dormir no mesmo quarto? Voc pensa que o senhor D. Baslio  
meu amante, seu devasso? Est tudo cheio? Mas quem diabo se lembra de vir a 
Portugal? Estrangeiros?  justamente o que me espanta! - E encolhendo os ombros 
com rancor: -  o clima,  o clima que os atrai! O clima, este prodigioso engodo 
nacional! Um clima pestfero. No h nada mais reles de que um bom clima!...
E no cessou de invectivar o seu pas, enquanto o criado  pressa, sorrindo 
servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um frango frio e 
borgonha.
Reinaldo vinha vender a ltima propriedade, e acompanhara Baslio que voltava a 
terminar "o secante negcio da borracha". E no cessava de rosnar soturnamente 
de dentro da pelia:
- Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!
Baslio no respondia. Desde que chegara a Santa Apolnia, recordaes do 
Paraso, da casa de Lusa, de todo aquele romance do vero passado, comeavam a 
voltar, a atrai-lo, com um encanto picante. Fora encostar-se  vidraa. Uma lua 
fria, lvida, corria agora entre grossas nuvens cor de chumbo; s vezes uma 
grande malha luminosa caa sobre a gua, faiscava; depois tudo escurecia; vagas 
mastreaes desenhavam-se na obscuridade difusa; e algum fanal de navio 
tremeluzia friamente.
"Que far ela a esta hora!" - pensava Baslio. - naturalmente, deitava-se... Mal 
sabia que ele estava ali, num quarto do Hotel Central...
Cearam.
Baslio levou a garrafinha de conhaque para a cabeceira da cama; e com a cara 
coberta de p-de-arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos sobre o peito, 
muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma lassido confortvel.
- E amanh estou-te daqui a ver - disse Reinaldo. - Vai-te logo meter com a 
prima!
Baslio sorriu; o seu olhar errou um pouco pelo teto; certas recordaes das 
belezas dela, do seu temperamento amoroso, trouxeram-lhe uma vaga 
voluptuosidade; espreguiou-se. - Que diabo! - disse -  uma linda rapariga! 
Vale imenso a pena! - Bebeu mais um clice de conhaque, e da a pouco dormia 
profundamente. Era meia-noite.
quela hora Jorge acordava, e sentado numa cadeira, imvel, com soluos cansados 
que ainda o sacudiam, pensava nela. Sebastio, no seu quarto, chorava baixo. 
Julio, no posto mdico, estendido num sof, lia a Revista dos Dois Mundos. 
Leopoldina danava numa soire da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que 
varria as nuvens e agitava o gs dos candeeiros ia fazer ramalhar tristemente 
uma rvore sobre a sepultura de Lusa.
Da a dois dias pela manh Baslio, no Rossio, procurava, com o olhar em redor, 
um cup decente. Mas o Pintus, avistando-o de longe, lanou logo a parelha.
- C est o Pintus, meu amo! - Parecia encantado de tornar a ver o senhor D. 
Basilinho, e apenas ele lhe disse:
- L acima,  Patriarcal,  Pintus!
-  casa da senhora? Pronto, meu amo. - E endireitando-se na almofada, bateu.
Quando a tipia parou  porta de Jorge - o Paula saiu para a rua, a estanqueira 
correu de dentro do balco, a criada do doutor debruou-se logo na janela. E 
imveis arregalavam os olhos.
Baslio tocara a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o charuto, 
tomou a puxar o cordo com fora.
- As janelas esto trancadas, meu amo - disse o Pintus.
Baslio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a casa tinha 
um aspecto mudo.
Baslio dirigiu-se ao Paula:
- Os senhores que ali moram, esto para fora?
- J no moram - disse o Paula soturnamente, passando a mo sobre o bigode.
Baslio fixou-o, surpreendido daquela entonao fnebre.
- Onde vivem agora ento?
O Paula escarrou, e cravou em Baslio um olhar desolado:
- Vossa Senhoria  o parente?
Baslio disse sorrindo.
- Sou o parente, sou.
- Ento no sabe?
- O qu, homem de Deus?
O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabea:
- Pois sinto dizer-lho. A senhora morreu.
- Que senhora? - perguntou Baslio. E fez-se muito branco.
- A senhora! A senhora D. Lusa, a mulher do Sr. Carvalho, o Engenheiro... E o 
Sr. Jorge est em casa do Sr. Sebastio. Ali ao fim da rua. Se Vossa Senhoria l 
quer ir...
- No! - fez Baslio com um gesto rpido da mo. Os beios tremiam-lhe um pouco. 
- Mas que foi?
- Uma febre! Rapou-a em dois dias!
Baslio dirigiu-se ao cup devagar, com a cabea baixa. Olhou mais uma vez para 
a casa; fechou com fora a portinhola. O Pintus bateu para a Baixa.
O Paula ento aproximou-se do estanque:
- No lhe fez muita mossa! Fidalgos! Canalha! - murmurou.
A estanqueira disse lamentosamente:
- Pois eu no sou parenta, e todas as noites lhe rezo dois padre-nossos por 
alma...
- E eu! - suspirou a carvoeira.
- H de lhe isso servir de muito! - rosnou o Paula, afastando-se.
Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquelas mortes na rua traziam-no 
desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! E todas as noites lia a 
Nao que lhe emprestava o Azevedo, repastando-se com rancor de artigos devotos 
que o exasperavam, o impeliam para o atesmo; e o descontentamento das coisas 
pblicas inclinava-o para a comuna. Como ele dizia, achava tudo uma porcaria.
Foi decerto sob este sentimento que, voltando-se  porta do estanque, disse s 
vizinhas com um ar lgubre:
- Sabem o que isto ? Sabem o que tudo isto ? - Fazia um gesto que abrangia o 
Universo. Fitou-as de um modo irado, e rosnou esta palavra suprema:
- Um monte de estrume!
Ao descer a Rua do Alecrim, Baslio viu o Visconde Reinaldo  porta do Hotel 
Street. Mandou parar o Pintus, e saltando do cup:
- Sabes?
- O qu?
- Minha prima morreu.
O Visconde Reinaldo murmurou polidamente:
- Coitada!...
E foram descendo a rua, de brao dado, at ao Aterro. O dia estava glorioso; um 
friozinho sutil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os 
galhos das rvores, os mastros das faluas, as mastreaes dos navios tinham uma 
nitidez muito desenhada; os sons sobressaam com uma tonalidade cantada e 
alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos 
de fumo que tomavam a cor do leite; e ao fundo as colinas faziam na pulverizao 
da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
E os dois, passeando devagar, iam falando de Lusa.
O Visconde Reinaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que se tinha 
deixado morrer por um tempo to lindo! - Mas em resumo, sempre achara aquela 
ligao absurda...
Porque enfim fossem francos: que tinha ela? No queria dizer mal da pobre 
senhora que estava naquele horror dos Prazeres, mas a verdade  que no era uma 
amante chique; andava em tipias de praa; usava meias de tear; casara com um 
reles indivduo de secretaria; vivia numa casinhola, no possua relaes 
decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; 
no tinha esprito, no tinha toalete... que diabo! Era um trambolho!
- Para um ou dois meses que eu estivesse em Lisboa... - resmungou Baslio com a 
cabea baixa.
- Sim, para isso talvez. Como higiene! - disse Reinaldo com desdm.
E continuaram calados, devagar. Riram-se muito de um sujeito que passava 
governando atarantadamente dois cavalos pretos: - Que faton! Que arreios! Que 
estilo! S em Lisboa!...
Ao fundo do Aterro voltaram; e o Visconde Reinaldo passando os dedos pelas 
suas:
- De modo que ests sem mulher...
Baslio teve um sorriso resignado. E, depois de um silncio, dando um forte 
raspo no cho com a bengala:
- Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! E foram tomar xerez  Taverna 
Inglesa.
Setembro de 1876 - Setembro de 1877.
 
"O PRIMO BASLIO"
(CARTA A TEFILO BRAGA)
 
Newcastle, 12 de maro de 1878.
Meu caro Tefllo Braga.
E de voc que tenho recebido, depois das minhas duas tentativas de arte, as 
cartas mais animadoras e mais recompensadoras. E voc, como o nosso belo e 
grande Ramalho, que mais me tem empurrado pra diante. Eu nunca respondi  sua 
excelente carta sobre o Padre Amaro; contava ento ir a Lisboa, e l conversar 
largamente consigo; o homem prope, a ocasio dispe - e as poucas semanas, que 
a estive passaram, sem nos encontrarmos. Talvez voc imaginasse que a sua carta 
de ento me tinha passado sobre o esprito como gua sobre guta-percha. Est bem 
enganado: embebi-me dela. Ela deu-me valor e arranque para me atirar ao Primo 
Baslio - com a consolao de que vale a pena escrever um livro quando se tem um 
leitor como voc.
A sua ltima foi para mim um grande alvio. Eu estava-lhe com receio: como todos 
os artistas, creia, eu trabalho para trs ou quatro pessoas, tendo sempre 
presente a sua crtica pessoal. E muitas vezes, depois de ver a Primo Baslio 
impresso, pensei: - "o Tefilo no vai gostar!" Com o seu nobre e belo fanatismo 
da Revoluo, no admitindo que se desvie do seu servio nem uma parcela do 
movimento intelectual - era bem possvel que voc vendo a Primo Baslio 
separar-se, pelo assunto e pelo processo, da arte de combate a que pertencia a 
Padre Amaro, a desaprovasse. Por isso a sua aprovao foi para mim uma agradvel 
surpresa, e todavia a sua aprovao  mais ao processo que ao assunto, e voc 
vendo-me tomar a famlia como assunto, pensa que eu no devia atacar esta 
instituio eterna, e devia voltar o meu instrumento de experimentao social 
contra as produtos transitrios, que se perpetuam alm do momento que os 
justificou, e que de foras sociais passaram a ser empecilhos pblicos. 
Perfeitamente: mas eu no ataco a famlia - ataco a famlia lisboeta - a famlia 
lisboeta produto do namoro, reunio desagradvel de egosmos que se contradizem, 
e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata. No Primo Baslio que apresenta, 
sobretudo, um pequeno quadro domstico, extremamente familiar a quem conhece bem 
a burguesia de Lisboa; - a senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual 
(porque cristianismo j a no tem; sano moral da justia, no sabe a que isso 
), arrasada de romance, lrica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e 
pelo mesmo fim do casamento peninsular que  ordinariamente a luxria, nervosa 
pela falta de exerccio e disciplina moral, etc., etc. - enfim a burguesinha da 
Baixa; por outro lado o amante - um maroto, sem paixo nem a justificao da sua 
tirania, que a que pretende  a vaidadezinha de uma aventura, e a amor grtis; 
do outro lado a criada, em revolta secreta contra a sua condio, vida de 
desforra; por outro lado a sociedade que cerca estes personagens - a formalismo 
oficial (Accio), a beatice parva de temperamento irritado (D. Felicidade), a 
literaturinha acfala (Ernestinho), o descontentamento azedo, e o tdio de 
profisso (Julio) e s vezes quando calha, um pobre bom rapaz (Sebastio). Um 
grupo social, em Lisboa, compe-se, com pequenas modificaes, destes elementos 
dominantes. Eu conheo vinte grupos assim formados. Uma sociedade sobre estas 
falsas bases, no est na verdade: atac-las  um dever. E neste ponto o Primo 
Baslio no est inteiramente fora da arte revolucionria, creio. Amaro  um 
empecilho, mas os Accios, os Emestos, os Saavedras, os Baslios so formidveis 
empecilhos; so uma bem bonita causa de anarquia na meia da transformao 
moderna; merecem partilhar com a Padre Amaro da bengalada da homem de bem.
A minha ambio seria pintar a sociedade portuguesa, tal qual a fez a 
Constitucionalismo desde 1830 e mostrar-lhe como num espelho, que triste pas 
eles formam - eles e elas.  o meu fim nas Cenas da vida portuguesa.  
necessrio acutilar o mundo oficial, a mundo sentimental, o mundo literria, o 
mundo agrcola, o mundo supersticioso - e com todo o respeito pelas instituies 
que so de origem eterna, destruir as falsas interpretaes e falsas 
realizaes, que lhe d uma saciedade podre. No lhe parece voc que um tal 
trabalho  justo?
Enquanto ao processo - estimo que voc o aprove. Eu acho no Primo Baslio uma 
superabundncia de detalhes, que obtive, e abafo um pouca a ao; o meu processo 
precisa simplificar-se, condensar-se - e estuda isso; o essencial  dar a nota 
justa; um trao justo e sbrio, cria mais que a acumulao de tons e de valores 
- como se diz em pintura. Mas isto  querer muito. Pobre de mim - nunca poderei 
dar a sublime nota da realidade eterna, como a divina Balzac - au a nata justa 
da realidade transitria cama a grande Flaubert! Estes deuses e estes semideuses 
da arte esto nas alturas - e eu, desgraadinho, rabeio nas ervas intimas. E 
todavia se j houve sociedade que reclamasse um artista vingador  esta! E 
sobretudo, vista de longe no seu conjunto, e contemplada de um meio farte como 
este aqui (sejam quais forem os seus grandes males, forte decerto) que 
contrista, ach-la to mesquinha, to estpida, to convencionalmente pateta, 
to grotesca e to pulha!
Alegra-me que voc queira escrever alguma coisa sobre o Baslio; a sua opinio, 
publicada, daria ao meu pobre romance uma autoridade imprevista. Dar-lhe-ia um 
direito de existncia; e de todos os defeitos, faltas, ou erros que voc notar - 
tomarei cautelosamente nota. Eu tenho a paixo de ser lecionado; e basta 
darem-me a entender o bom caminho para eu me atirar para ele. Mas a crtica, ou 
a que em Portugal se chama a crtica, conserva sobre mim um silncio desdenhoso.
Como voc viu bem o carter do Baslio! Est claro que a fortuna nunca o poderia 
ter moralizado; a sua fortuna, como voc diz, foi um bambrrio; era pulha antes, 
um pulha pobre - depois tornou-se apenas um pulha rico. Pessoas amigas 
escrevem-me dizendo, que parece incrvel que um homem que trabalhou na Brasil 
com valor; seja no fundo um canalha! Estranha opinio! A Bahia considerada - 
como a Fonte Santa da Purificao...
Basta de cavaqueira. Se voc publica algum livro por esta ocasio - mande-mo; e 
se tiver par a alguns volumes da sua Histria da literatura a de mais, e que 
lhe no faam falta, d-os ao Ramalho que ele nos manda. Eu, os que tinha, 
perdi-os estupidamente, com as obras de Shakespeare, de V. Hugo, num caixote, 
caminho da Havre, e outras abras mais. Escrevi para o Porto a um amigo a 
mand-los pedir; e nunca me respondeu sequer: e eu preciso deles para um pequeno 
trabalho. Se no se esquecer - lembre-se. Um abrao do
Seu grande admirador, e dedicado amigo velho,
Ea de Queirs.
